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O Anonimato e a Incomunicação

A nossa civilização tem-se tornado progressivamente urbana. É um facto a desertificação das zonas rurais, o afluxo às cidades e a consequente formação de grandes metrópoles ou de zonas metropolitanas. Pouco importa que se dêem nomes diferentes a áreas geográficas contíguas e que a administração seja confiada a vários municípios. A verdade é que a cidade principal e as cidades satélites, que se foram formando à sua volta, constituem um grande núcleo populacional sem solução de continuidade.

Nestes grandes centros urbanos, as pessoas desconhecem-se mutuamente, vivem em completo anonimato. As relações criam-se apenas a determinados níveis: o trabalho, a igreja que se frequenta, as sociedades desportivas ou recreativas em que se filiam. Em muitos casos, conhecendo-se apenas superficialmente, por uma determinada faceta da vida, acontece desconhecer-se tudo o mais, que pode até ser o mais importante. Nas grandes cidades, o que pode haver, quando muito, é colectividades ou associações, organizadas para perseguir determinados objectivos. Em muitos casos, trata-se de estruturas secundárias, anónimas e impessoais.

Escreveu-se, e muito bem, nas conclusões do forum que recentemente se realizou no auditório da Universidade Católica, nesta cidade, que os cristãos realizam-se e revêem-se nas pequenas comunidades. É nelas que se faz a vivência e experiência da fé, em comunhão com os que partilham dessa mesma fé. Fora dessas comunidades, testemunha-se a fé, vive-se a caridade e afirma-se a esperança, num mundo que experimenta a dificuldade de encontrar sentido para a vida. Ora as paróquias urbanas não podem identificar-se com essas comunidades. É preciso então inventar outros espaços onde as pessoas encontrem as comunidades de que precisam.

Na vida das cidades desaparece uma condicionante do comportamento individual, que existe nos pequenos meios rurais, o controle ou pressão social. E se isto tem as suas vantagens, na medida em que ajuda a preservar a intimidade, a afirmar mais plena e conscientemente a liberdade individual, a escolher livremente os grupos de relações de amizade ou de interesses afins, possibilitando a multiplicação dos meios de distração ou de cultura, tem igualmente os seus inconvenientes, pelo menos para algumas pessoas, que se sentem inseguras no anonimato das grandes massas. Daqui nasce também o isolamento, a incomunicação, a soledade e a despersonalização, como fruto da massificação e da marginalização. Se não houver um esforço de integração em grupos primários, pode acontecer que a vida se torne desumana, quando as relações se fazem não com pessoas mas com funções, e, por isso, carregada de angústias. Este anonimato facilita a delinquência e a criminalidade.

A paróquia pode ter aqui um grande papel, integrando as pessoas, confiando-lhes tarefas, relacionando-as mutuamente ao nível do humano e não apenas das funções que exercem.

O grupo primário mais importante para o desenvolvimento da personalidade é a família. Mas em face da crise da família, da sua desagregação frequente e da incomunicação que com muita frequência existe entre os seus membros, cabe perguntar, como se faz nas conclusões do forum já aqui referido, quais são hoje os lugares de sentido para as pessoas e afirma-se: Mais do que pela família, é pela Escola, pelo emprego e pelo grupo de amigos que passa hoje a socialização e estruturação da personalidade das novas gerações. A Igreja não só deve estar nesses grupos como deve sobretudo criar grupos onde se possa afirmar a personalidade e viver a fé, contrariando os efeitos do ambiente massificador que é uma grande cidade.

É certo que o cristão celebra a sua fé semanalmente, nas missas dominicais. Mas aqui não se dá a conjunção de elementos suficientes para que se sinta a inter-acção das pessoas, o apoio mútuo, que só as pequenas comunidades podem dar.

É verdade que a vida de fé é individual, que cada um deve relacionar-se pessoalmente com Deus. Mas é também e na mesma medida, comunitária. O amor de Deus exprime-se no amor ao próximo. O cristão, unido a Cristo, forma a grande família dos filhos de Deus, ou do corpo místico de Cristo. E esta realidade deve ser vivida e experimentada nas pequenas comunidades. A dimensão pessoal e a dimensão comunitária da fé são complementares.

A Igreja é comunidade e comunhão e não uma sociedade de baptizados, que se reunem aos domingos, nas igrejas, para a celebração da Eucaristia, que é comunhão, e que, apesar disso, se ignoram mutuamente, como tantas vezes acontece nas igrejas das grandes cidades.

Se a grande massa anula e abafa a personalidade, o pequeno grupo, ao contrário, contribui para a afirmação da pessoa. Aí a pessoa pode dialogar, pode afirmar a sua opinião e pode ser chamada a exercer tarefas, respeita o outro e é respeitada. Pode ser ela própria ao mesmo nível que os outros. É livre e responsável e, na medida em que pode exercer essa liberdade e responsabilidade, afirma a sua personalidade.
Gonçalves Moreira
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A FRACÇÃO DO PÃO (2)

As significações do Rito

A Fracção do Pão aparece já no Novo Testamento como gesto simbólico, pelo menos em duas perspectivas: significando a unidade dos comungantes e da própria Igreja: como gesto profético do corpo do Senhor «rompido», «partido» pela morte na cruz.

1. «O gesto da fracção, praticado por Cristo na última Ceia, serviu para designar, nos tempos apostólicos, toda a acção eucarística. A finalidade deste rito não é meramente prática; ele significa que todos nós, apesar de muitos, nos tornamos, pela Comunhão do mesmo pão da vida que é Cristo, um só Corpo (1 Co. 10, 17)» (IGMR 56 c).

E, ainda: « o gesto da fracção do pão manifesta de modo mais expressivo a força e o valor de sinal de unidade de todos em um só pão e de sinal de caridade, pelo facto de um só pão ser repartido entre os irmãos» (IGMR 283).

Eis a autorizada interpretação ritual da Fracção. O sacramento de unidade e de caridade que é a Eucaristia é expresso, particularmente, pela Fracção. Apesar das orientações rituais concretas, necessárias à visibilidade e expressividade do gesto (que deixaremos para outra oportunidade) - um só pão repartido - é a sua significação que é apontada: a unidade dos comungantes com o seu Senhor. Isso mesmo o sentiu profundamente a Igreja apostólica: «O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão» (1 Co, 10, 16 b -17). Pela comunhão, os cristãos unem-se a Cristo - pão partido e repartido - e entre si, em Cristo: a Eucaristia realiza a unidade da Igreja, em Cristo. Também, como sublinha a IGMR, na mesma perspectiva da primeira carta aos Coríntios (cap. 11), o partir o pão é um forte apelo à partilha de si mesmo e dos seus bens. Releia-se o que diz o Catecismo da Igreja Católica, nos números 1396 e 1397.

O gesto não consiste, como poderão alguns pensar, em comer sincronicamente, como, por vezes, fazem os concelebrantes (advirta-se que esta não é a única, nem a mais significativa e mais estética forma dos concelebrantes comungarem - Cf. IGMR 205), mas de um mesmo pão partido e repartido, na própria celebração.

2. A Fracção do Pão é, além disso, gesto profético da morte do Senhor: o partir o pão evoca a imolação do Corpo do Senhor na cruz. A IGMR refere esta significação indirectamente.

Não deixa de ser interessante verificar que esta significação é proposta de modo explícito em muitos dos antigos manuscritos de Lc. 22, 20 e 1 Co. 11, 24: partido para vós (ekiunnmenon), em vez de entregue por vós (didomenon). Em não poucas anáforas antigas, o mesmo sentido é, também, explícito, usando a mesma expressão. A variante, no contexto, embora não traga um sentido novo, reforça o sentido latente e testemunha uma antiga interpretação do rito: consagração-fracção como símbolo da morte violenta e sacrificial de Cristo. Neste mesmo sentido, vão muitos dos cânticos que acompanham a Fracção, em muitas liturgias, pela sua alusão inequívoca ao sentido sacrificial da Eucaristia e, particularmente, da Fracção do Pão: imolação do Senhor como Cordeiro da Páscoa cristã. Na liturgia romana, desde os tempos do Papa Sérgio I (fins do séc. VII), canta-se o «Cordeiro de Deus» durante a Fracção: gesto e canto, deste modo, são complementares nesta convergência de sentido. As liturgias hispânica e ambrosiana usam peças variáveis que dão pelo nome, respectivamente, de «Cantus ad confractionem» e «Confractorium». A actual liturgia romana reformada conservou o canto do «Agnus Dei» - recolhendo esta significação da Fracção - como canto da fracção e restaurou a sua antiga funcionalidade. Como canto que acompanha um rito, deve durar o tempo que dura o rito, podendo, por isso, repetir-se a invocação as vezes necessárias (Cf. IGMR 56 e). Interessante é, com certeza, sublinhando esta significação sacrificial, a praxe das liturgias hispânica e galicana de mandar dispor os fragmentos partidos em forma de cruz.

Outras significações secundárias, e não nos referimos às alegorias medievais, foram suplantadas e caíram com os tempos.
S.D.L.
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