Cultura:


Este país

"Neste país em diminutivo, respeitinho é que é preciso", escrevia Alexandre O'neill. "Este país te mata lentamente", lamentava Sophia de Melo a propósito do vate nacional, Luís Vaz de seu nome. Entre uma e outra atitude vamos consumindo os nossos dias.

"Este país" dizem também os cidadãos, os políticos, os economistas, os sociólogos, os automobilistas, os funcionários públicos, os funcionários privados, os arrumadores de automóveis quando querem significar a pátria comum. Diz-se sempre "Portugal" em expressões tais como "engrandecer o nome de Portugal" (como faz qualquer presidente), "levar bem longe o nome de Portugal" (como diz qualquer desportista quando ganha), "afirmar os direitos de Portugal" (como diz o senhor Monteiro quando fala das sardinhas), "defender as cores de Portugal" (quando a selecção de futebol espera ser apurada). E assim similarmente por diante.

Mas quando importa teorizar sobre os nossos defeitos, ou sobre as limitações da nossa pequenez territorial ou mental, usa-se sempre "este país". Assim, se alguém quer salientar ou teorizar doutoralmente sobre a debilidade da nossa economia, diz-se "a economia deste país"; quando somos eliminados nas taças europeias, fala-se do "futebol que se pratica neste país"; quando se advertem as deficiências das vias de comunicação teoriza-se sobre "as estradas deste país"; e quando há que criticar a acção dos poderes públicos fala-se do "governo deste país"; e quando as coisas não correm como queremos, fala-se da "falta de educação neste país".

Só que "este país" não é sempre este país. Porque temos vários países: o país dos governantes, o país dos magnates, o país do "jet-set", o país dos marginais, o país dos grandes empreendimentos e o país das pequenas realizações. Temos ainda: o país real, o país profundo, o país periférico, o país rural, o país urbano, o país desportivo, o país sentado, o país culturalmente adormecido, o país desconhecido, e muitos outros frutos sazonados das múltiplas circunstâncias ocasionais.

O mais curioso deste interessante assunto de análise psico-social é que se passa exactamente o mesmo nos outros países. Quem tiver alguma oportunidade de contactar com as mentalidades e as formas de operar e as linguagens de vizinhos e distantes, pode ouvir dizer exactamente o mesmo na Espanha, na França, na Itália, no Brasil ou até nos paradigmáticos Estados Unidos, que constituem, por assim dizer, os modelos e os repetidores do que se passa no universo inteiro, desde os grandes ideais cívicos ou religiosos, até às expressões mais extremas da marginalidade ou da delinquência.

2. Nos últimos dias vivemos a mística do país do futebol. A toda a hora transbordavam dos televisores, dos vídeos, das "telefonias" (como entendidamente diria um qualquer lisboeta deste país), das conversas de café, das conversas dos locais de trabalho, nos autocarros as imagens e as palavras, as teorias e as tácticas, os erros dos árbitros e a felicidade do adversário que ganhou contra a corrente do jogo.

Tudo isto acontecia no estratégico dia de São João. Quem terá sido o estratego que colocou uma tal decisão num tal dia? Não teria havido aí uma evidente intenção de prejudicar o futebol e a dinâmica internacional "deste país"? Porque ou a vitória fazia esquecer a festa do Santo tutelar, ou a estragaria. Ficávamos sempre a perder: se os futebolistas conseguissem ganhar pela sua técnica superior, mesmo sem rematar à baliza, ninguém festejava o santo, porque todos apenas teriam olhos para o futebol. Os alhos porros e os martelinhos e martelões seriam irremediavelmente substituídos pelos barretes e cachecóis (desculpem o estrangeirismo) e pelas buzinadelas dos automóveis, que é a forma mais original que o português desportista de barrete consegue encontrar para celebrar uma vitória: exercendo o seu "direito" de irritar todos os outros pela poluição sonora institucional.

Se os futebolistas não conseguissem, como não conseguiram, chegar com a sua técnica superior à baliza do adversário, cairia sobre o universo nacional aquela profunda tristeza que nem nos permite usufruir das delícias de uma noite sanjoanina: mal disfarçadas nos olhos as lágrimas, os cidadãos "deste país" deslustrariam a alegria obrigatória daquela noite, mãe de todas as noites de divertimento em todas as plagas do planeta.

Foi o que aconteceu: perdido que foi o desafio, nem o fogo de artifício era o mesmo, nem os martelos soavam da mesma maneira, nem os bailaricos tinham a dinâmica da incontida alegria. As longas filas de jovens de mãos dadas que percorrem a cidade não tiveram nem o mesmo dinamismo nem o sentido jovial e fraterno que é seu timbre. E nem os carrilhões dos Clérigos tiveram a mesma alegria, nem os cantos dos coros fizeram soar o "repenica" com o mesmo entusiasmo.

É sempre assim: sem futebol, este país não é o mesmo. Agora teremos que ver na televisão os jogos dos outros, adoptar os seus sofrimentos, ouvir os lamentos, os choros e as queixas de injustiça dos que perdem e observar os saltos dos que ganham. Neles projectaremos as nossas esperanças de vitória, com a vantagem de não sofrermos os apertos e os medos de perder. Leremos nos seus rostos, eufóricos ou abatidos, as nossas esperanças de vitória, e aguardaremos pacientemente que a equipa esteja mais preparada para o mundial que aí vem, porque nestas coisas há sempre uma esperança: mudam os actores, mas repete-se sempre a mesma peça: o grande teatro do desporto. Ou o grande teatro do mundo.

Assim, "este país" nunca deixará a tribo do futebol como forma privilegiada de libertar as frustrações ou de projectar as esperanças.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 28 de Junho a 4 de Julho

TELEVISÃO - Agora que o Inverno parece ter chegado mesmo ao fim, a RTP oferece-nos «Dias de Tempestade», um drama ambientado nas corridas de "stock cars", realizado em 1991 por Tony Scott, contando com os desempenhos de Tom Cruise, Nicole Kidman, Robert Duvall e Randy Quaid. «Dias de Tempestade» é uma espécie de cruzamento de «Nascido a 4 de Julho» (de Oliver Stone, 1989) com «Top Gun: Ases Indomáveis» (também de Tony Scott, 1985). Tom Cruise protagoniza um herói trágico (como já é hábito nele), um ambicioso piloto de provas automobilísticas, que um dia tomba, vítima de um acidente que vai pôr à prova as suas capacidades reais. Para ver na RTP 1, sexta, dia 28, em "Lotação Esgotada".

Nascido em Siracusa, estado de Nova Iorque, a 3 de Julho de 1962, não se pode dizer que a infância de Thomas Cruise Mapother IV fosse muito feliz, já que sofreu as consequências do divórcio dos pais, numa altura em que sentia graves problemas derivados de uma disfunção neurológica que lhe provocava dislexia. Uma aplicação desmesurada ao trabalho foi a solução que o jovem Tom encontrou de modo a esquecer os problemas familiares e de vencer a sua deficiência. Essa particularidade do seu carácter é que o tornaram um dos actores de maior sucesso comercial de Hollywood. Mesmo os seus fracassos «Cocktail» (1988) e «Horizonte Longínquo» (1992) foram lucrativos. Cruise começou a representar no liceu, mudou-se para Nova Iorque e fez a sua estreia cinematográfica em 1980, pela mão de Franco Zeffirelli, que lhe deu um pequeno papel em «Um Amor Infinito». Mas foi mais notado em «Taps-O Clarim da Revolta» (1981), protagonizando o mais radical dos cadetes revoltosos da Academia Militar em vias de encerramento. Ultrapassou outros jovens actores da sua geração com seus filmes posteriores, como «A Lenda da Floresta» (1985), «Ases Indomáveis» e «A Cor do Dinheiro» (ambos de 1986), «Rain Man-Encontro de Irmãos» (1988), «Uma Questão de Honra» (1992), «A Firma» (1993) e «Entrevista com o Vampiro» (1994). Até hoje só recebeu uma nomeação para o Oscar pelo seu desempenho de veterano da guerra do Vietname em «Nascido a 4 de Julho» (1989). A sua ascensão de adolescente pobre a multimilionário ídolo dos ecrãs antes de chegar aos 30 anos é uma versão "yuppie" do sonho americano.

Outros filmes para ver: «Revolução», drama, de Hugh Hudson (1985), com Al Pacino, Donald Sutherland e Nastassja Kinski: o drama vivido por pai e filho na revolução pela independência da América (TVI, sexta, 28); «A Bela Impertinente», drama, de Jacques Rivette (1991), com Emmanuelle Béart e Michel Picoli: o cinema francês em "Cinema do Mundo" (RTP 2, sábado, 29); «O Companheiro», drama, de Peter Yates (1983), com Albert Finney e Tom Courtenay (TVI, sábado, 29); «Adeus, Princesa», policial, de Jorge Paixão da Costa (1993), com Inês de Medeiros e Diogo Infante: o novo cinema português (RTP 2, domingo, 30).

VÍDEO - Uma vez por mês, recebo pelo correio dezenas de envelopes com propaganda das editoras de vídeo, os seus catálogos de aluguer e de venda directa. A Prisvídeo, a única distribuidora nortenha (sediada em São João da Madeira, responsável pelos catálogos "Ecovídeo", "Sev", "América Filmes" e, óbviamente, "Prisvídeo", e que também distribui filmes para cinema, "Ecofilmes"), lança este mês alguns exemplares de bom cinema: «Jack & Sarah», comédia, de Tim Sullivan (1995), com Richard E. Grant e Samantha Mathis: uma história simples e despretenciosa sobre um casal que espera o primeiro filho; «Ponto de Rotura», drama, de Lee H. Katzin (1995), com Martin Sheen, Vincent Van Patten e Rae Dawn Chong: um ex-tenista, forçado a servir como treinador, descobre que há algo mais que o sucesso; «Fuga Arriscada», policial, de Mika Kaurismaki (1995), com James Russo e Cynda Williams: o que pode arriscar um guarda-prisional ao apaixonar-se por uma prisioneira à sua guarda? No que respeita à venda directa, apenas três títulos a ter em conta: «Vidas Simples», drama, de Robert Benton (1994), com Paul Newman, Melanie Griffith e Jessica Tandy; «Corrina, Corrina», comédia dramática, de Jessie Nelson (1994), com Whoopi Goldberg, Ray Liotta e Tina Majorino; e, «O Encanto das Sereias», drama, de John Duigan (1994), com Hugh Grant, Tara Fitzgerald e Sam Neill.


... E FORA DE CASA

O cinema americano insiste no seu interesse por temas prisionais e judiciais e, depois de termos visto «A Jurada» e «A Raíz do Medo», somos convidados a assistir a uma minuciosa, descarnada e muito bem documentada reconstituição de um caso verídico que, a seu tempo, provocou o encerramento definitivo da tétrica prisão de Alcatraz, que fica numa ilha ao largo da baía de San Francisco. Produzido como um telefilme, «O Condenado de Alcatraz», de Marc Rocco, que conta com poucas personagens e reduzidos cenários, é uma dura e crítica intriga prisional de torturas e tribunais passada na década de quarenta. Conta a história de um jovem encarcerado por roubar apenas cinco dólares, para dar de comer à sua irmãzita, durante os anos da Depressão económica, e que se vê transladado para Alcatraz, sem razões jurídicas convincentes, e ali, após uma frustrada tentativa de fuga, acaba por ser alvo das piores torturas, passando três anos e meio numa reduzida cela. O filme, que tem um princípio espectacular e desenvolve com descarnada precisão o processo de destruição física e mental a que o jovem foi submetido, especialmente pelo sub-director da prisão, deriva, após comprometer o sistema prisional americano da década de 40, numa história pessoal dos dois protagonistas, passando pelas tradicionais sequências do julgamento e um final simples e rápido que tenta suavizar a cruel história do preso Henri Young. Sem dúvida, a realização (a camara move-se demasiado para imprimir movimento até em sequências mais estáticas), o elenco (Gary Oldman cada vez mais mau; não como actor, pelo contrário, como um director prisional desprovido de coração, enquanto Kevin Bacon, como preso, e Christian Slater, como advogado, se esforçam para ganhar melhores papéis) e as primeiras sequências sugerem um relato mais duro, crítico e esperançoso. Apesar de tudo, é um filme para ser visto e reflectido. Distribuído por Edifilmes.
Vasco Martins
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APONTAMENTOS SOBRE CINEMA

«Terra e Liberdade»

de KEN LOACH

«A Guerra de Espanha é um açougue. É o açougue dos princípios verdadeiros e falsos, das boas e más intenções. Quando elas tiverem macerado juntas no sangue e na lama, vereis no que se terão tornado, vereis que caldo temperastes. Se existe um espectáculo digno de compaixão, é sem dúvida o destes desgraçados acocorados há meses à volta do caldeirão das bruxas a espetar cada um o seu garfo, e a gabar cada qual o seu naco - republicanos, democratas, fascistas e antifascistas, clericais e anticlericais, pobre gente, pobres diabos. À vossa saúde!». Escrevias assim Barnanos, esse católico e monárquico, antigo maurrasiano, autor entre outras obras do célebre Diário de um Pároco de Aldeia. Apanhado em 1937, em Palma de Maiorca, pela Guerra Civil de Espanha, denunciaria de imediato os horrores e pressupostos do sangrento conflito, num livro publicado julgo que naquele mesmo ano, Os grandes cemitérios sob a Lua. A esta voz se juntariam outros católicos como Maritain, Mounier, Mauriac e Duhamel («Não se pode identificar a causa de Deus com a do General Franco», Mauriac) contra a Carta Pastoral assinada por todos os Bispos espanhóis menos um, de 1 de Julho de 1937, que à cruzada franquista chamavam uma «guerra santa».

A este «grande açougue» volta agora Ken Loach, um nome do actual cinema realista e social inglês, preocupado, ainda hoje!, com a sorte e condição das classes trabalhadoras, o que moderna e paradoxalmente tem muito a ver é com a sorte e condição dos desempregados e subempregados. Ainda recentemente vimos de Ken Loach o impressionante Chuva de Pedras.

Terra e Liberdade retoma portanto uma velha questão europeia, a guerra de irmãos uns contra os outros dentro do território de raízes comuns, dramaticamente de ontem e de hoje, da vizinha Espanha à Jugoslávia. Como sempre, entender o ontem para saber ler o presente.

O que é que esteve em causa na Guerra Civil de Espanha? Porque é que a Ideologia mata sempre o Idealismo da juventude?

É uma bela lição de história tomada da perspectiva das classes do trabalho.

Ainda aqui, apetece-me voltar a Bernanos. Porque é que um homem pode «defender a sua casa a tiro, mesmo que tenha várias, enquanto um outro não pode defender pelos mesmos meios o seu salário, mesmo que não possua mais nada?».

O «açougue espanhol» foi o ensaio de uma luta que está por terminar.

O filme vê-se com muito agrado, mesmo sem conter brilhantismos formais de realce. Estribado num processo corrente que é o de entremear a narração do passado com um fio de presente (a neta que abre a caixa de recordações do avô, acabado de falecer, um inglês combatente em Espanha contra os sublevados franquistas), leva-nos às razões de tantos que, um pouco de toda a Europa, se acolheram ao idealismo dos combatentes republicanos pela Terra e Liberdade.

Há uma sequência particularmente feliz: a do plenário destinado a discutir se sim ou não deveriam ou poderiam ser colectivizadas as terras da aldeia. Por ela passam os idealistas e os dogmáticos, os estalinistas e os utópicos, os pobres de tudo e os ricos de nada, todos enfim quantos se defrontaram no malfadado conflito civil que são afinal os mesmos que continuam a pisar o mesmo palco que é a História, nós exactamente.

Afinal, bateram-se todos por certezas. Mas o problema esteve precisamente aí: é que, no fundo, ninguém tinha dúvidas.
Arlindo de Magalhães
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