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Enquanto o primeiro se afirmou como um dos nossos mais salientes dramaturgos deste século (com Régio, Santareno, Sttau Monteiro), o segundo espalhou a sua criatividade pela poesia, pelo ensaio, pela crítica literária, pelo romance e também pelo jornalismo e pelo teatro, além da sua actividade "profissional" como professor catedrático de Literatura, em que marcou várias gerações de letrados e literatos e de professores da portuguesa língua. É conhecida a sua passagem pela governação do país, como Secretário de Estado da Cultura, e a sua acção de divulgação do livro, através da direcção do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, que desempenhou nos últimos anos. É igualmente conhecida a sua faceta de autor de poemas cantados por vários artistas, os mais conhecidos dos quais serão o célebre "Bairro Negro" e a "Maria Lisboa" ("seu nome Maria, seu apelido Lisboa"), ou a "Madrugada de Alfama", que a carismática fadista Amália Rodrigues tanto aprecia. Permaneceram na memória de muitos, mesmo não literatos, os seus programas na RTP "Hospital das Letras" e "Imagens da Poesia Europeia" (isto quando a televisão se interessava pela literatura e pela criação, pelos universos culturais mais profundos, em vez dos actuais "talk-shows" bacocos, em que mentes vazias proferem banalidades com ar doutoral, ou dos agressivos debates políticos, em que as pessoas se degladiam sobre coisas em que até estão de acordo).
A poesia de David Mourão-Ferreira, considerada como "a mais importante da literatura portuguesa na expressão do erotismo", no dizer de Urbano Tavares Rodrigues (mesmo descontando o natural exagero que nasce da amizade e do gosto pessoal), constitui sem dúvida a porção mais significativa da sua obra de criação. Mas o grande fenómeno que se gerou em torno deste autor foi a publicação do romance "Um Amor Feliz" (1986), a que foram atribuídos todos os prémios nacionais que distinguem a narrativa: grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, Prémio Município de Lisboa, Prémio D. Dinis e Pen Club). Sucessivas edições (até à actual 6ª) testemunharam o êxito da obra, cujo valor intrínseco não deixa, no entanto, de ser empolado pelos prémios atribuídos.
É, pois, a obra poética que constitui o lado mais luminoso da sua criação literária. Reunida em antologia, com a título "Obra Poética (1948-1988)", publicada pela editora Presença, encontra-se dispersa também em várias outras antologias (por exemplo, "800 Anos de Poesia Portuguesa", publicado pelo Círculo de Leitores (1973).
Uma análise desta poesia mostra-nos um mundo muito mais complexo do que a decantada dimensão do erotismo. É o homem todo e o seu mistério que se afirma, entre o corpo e a dimensão psíquica, entre a realidade palpável e o mistério insondável. É o timbre mais lídimo da poesia o de perscrutar, pela magia da palavra, os sentidos mais profundos da existência e do ser: a beleza, a dor, o sonho, o sofrimento, a transfiguração: no seu próprio dizer, o verbo (a palavra) deve ser "um espelho e ao mesmo tempo um véu".
Na estética poética de David mistura-se o verso livre com as incontáveis sonoridades e rimas internas, com o gosto pela rima toante (que, dizem, trabalha com pessoal mestria) e com correspondências e sugestões sonoras nascidas de criadoras e de inesperadas semelhanças, mesmo a invenção de novas palavras compósitas. Alguns exemplos: "efémeras Anfitrites", "estátuas de sal e de sol", "da lascívia da cabra à lascívia da cobra", "vagas turbilhonantes", "barcos / brados", "um remo, uma rena", etc.
No jogo das oposições e dos contrastes, na sua força dialéctica, na sua expressão das contradições vitais, encontra David um campo de cultura para o seu trabalho poético:
a prisão e a liberdade, a unidade e a diversidade, o passageiro e o que permanece, a mudança e a persistência, o passado e o futuro, o silêncio e o grito, a luz e as trevas, tudo são oposições geradoras de saltos qualitativos de ponderosas significações.
Uma dessas oposições é a do sagrado e do profano, campo de trabalho para tantos e tão grandes poetas, e que está patente neste belo poema de denúncia, lido sobre a imagem do seu manuscrito no programa de homenagem ao escritor na RTP2:
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
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Romeu Correia (1917-1996) revelou-se como a figura mais
importante da corrente neo-realista nos domínios do teatro.
As suas duas obras principais são "O vagabundo das
mãos de ouro" (1960) e "Bocage, alma sem mundo"
(1965). Corporizando a estética neo-realista, a denúncia
de situações de exploração, de incompreensão,
de infelicidade provocada e sofrida constituem formas de denúncia
do poder opressor, da ignorância, da injustiça, da
deformação essencial dos mecanismos de poder.
Não se pode negar a oportunidade e a actualidade dessas denúncias. A escolha de Bocage, génio incompreendido e agitador de ideias e de estruturas, como figura central de uma das suas obras afirma igualmente a injustiça da sociedade perante a criação cultural, e o desconhecimento e incompreensão de quem ousa elevar-se acima do comum dos mortais. Natália Correia faria o mesmo num trabalho dramático que toma a figura de Camões como objecto de estudo, no drama "Erros meus, má fortuna, amor ardente".
Interessante também a sua atenção ao poeta satírico (um dos maiores da nossa literatura, injustamente pouco recordado) Nicolau Tolentino, aliás contemporâneo de Bocage, na obra "A palmatória".
| C.F. |
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De 21 a 27 de Junho
O cinema alemão tem esta semana um destaque especial na RTP, com a exibição de um dos melhores filmes de Wim Wenders, o mesmo realizador de «Lisboa Story» (1994), que nutre pelo nosso país um amor muito especial. Talvez por isso, muitos dos seus filmes sejam parcialmente filmados em Portugal. É o caso de «Até ao Fim do Mundo», drama mesclado com ficção, que realizou em 1991, e onde encontrámos o americano William Hurt, o australiano Sam Neill e a francesa Jeanne Moreau nos principais desempenhos. Não admira ver este realizador produzir um filme de ficção-científica, cujo tema não está tão longe de nós, pois trata-se dos últimos dias deste século e do início do terceiro milénio. A maior parte destes filmes são do género fantástico, mas desta vez trata-se de uma espécie de «2001: Odisséia no Espaço», filmado na natureza fascinante da Austrália profunda, onde os aborígenes (às vezes pré-históricos) continuam a viver. O elemento apocalíptico do filme é dado pela anunciada queda de um satélite nuclear indiano, que circula à volta da Terra sem um objectivo, mas o argumento nunca se torna dramático. Todo o épico fresco está cheio de humor que, de Itália, nos leva a continentes longínquos e que, entretanto, passa por La Lozére, Paris, Lisboa, Berlim, Moscovo, China, Japão e Califórnia! O menu que nos é apresentado é por isso admirável porque Wenders conduz-nos a cidades onde tinha filmado: Paris, Lisboa, Berlim, etc..., o "plot" não é mais do que uma desculpa: um homem é perseguido por uma mulher apaixonada e por um detective. Até parece coisa de Claude Lelouche! Este filme é, na verdade, uma história filosófica e uma profissão de fé no cinema. Na época das imagens por sintetizador (que até podem maçar) e toda a potência telemática, uma explosão a grande altitude vira tudo do avesso e os aborígenes tornam-se os verdadeiros heróis da história, porque vivem num tempo diferente do nosso: "The Dream Time". Que significa isso? Trata-se, em primeiro lugar, de um poema formidável a não perder ( sábado, dia 22, na RTP 2).
Nascido em Dusseldorf em 1945, Wim Wenders trabalhou como crítico antes de se estrear como realizador com «Summer in the City» (1970). O seu trabalho é questionador, vigoroso e ambivalente, com imagens repetitivas e melancólicas. Os seus protagonistas são alienados do mundo em que vivem e meditam silenciosamente à procura da identidade. Em «A Angústia do Guarda-Redes Diante do Penalty» (1971), um guarda-redes abandona um jogo de futebol e parte para tal busca, enquanto em «Alice Nas Cidades» (1974), um fotógrafo inquieto segue o mesmo exemplo, ajudado por uma menina que dá ao filme um charme inesperado. Sua ambivalência com relação aos EUA (ele queixa-se da forma como este país colonizou a Alemanha, mas adora o seu rock'n'roll), exerce um papel fundamental em filmes como «Ao Correr do Tempo» (1976), «O Amigo Americano» (1977), uma ferina homenagem ao cinema noir, e o labirinto desfocado de «Hammett» (1983). «Paris, Texas» (1984), o seu trabalho de maior sucesso até hoje, e «As Asas do Desejo» (1988), um regresso celestial a Berlim, estão repletos de significados ocultos.
Outros filmes para ver: «Dois
Amigos, Dois Destinos», drama, de David Saperston (1989),
com Christian Slater, F. Murray Abraham e Sharon Stone, e «A
Escalada do K-2», drama, de Franc Roddam (1992), com
Michael Biehn e Matt Craven (ambos na RTP 1, sábado,
22); «O Meu Primo Vinny», comédia, de
Jonathan Lynn (1992), com Joe Pesci e Marisa Tomei (TVI,
domingo, 23).
... E FORA DE CASA
A pena de morte converteu-se num dos temas do ano no cinema americano, e Sharon Stone, que de mito erótico se converte em actriz séria, não podia deixar passar a oportunidade de brilhar no papel de uma jovem condenada que enfrenta a pena máxima e pode escutar de um momento para o outro a terrível frase "dead man walking", ou no seu caso, "dead woman walking". Depois de ser nomeada para o Oscar de melhor actriz por «Casino» e enquanto esperamos o seu próximo trabalho juntamente com a francesa Isabelle Adjani na nova versão de «Les Diaboliques», Sharon Stone surpreende-nos com o seu protagonismo noutro filme que aborda o tema das prisões e dos condenados à morte. Em «A Última Dança» ela interpreta o papel de Cindy Liggett, acusada e condenada a morrer por um sistema legal contra o qual se cansou de lutar apresentando recurso após recurso. O seu estado é o da resignação com o seu destino. É o preço que deve pagar por um tresloucado erro de juventude, e não está disposta a continuar a resistir. A seu lado encontrámos Rob Morrow (protagonista da série televisiva «No Fim do Mundo/Northern Exposure», como o médico do Alaska, e que também vimos no filme «Quiz Show»), no papel de Rick Hayes, um jovem advogado da Junta de Amnistia, que decide rever o seu caso e tentar convencer o governador do Estado da necessidade de perdão, conseguindo infundir na condenada uma centelha de esperança. No desenvolvimento do processo de luta, como manda a tradição, têm tempo de viver um complexo romance entre grades.
É inevitável a comparação com «A Última Caminhada», tanto pela similaridade dos seus conteúdos como, sobretudo, pela referência em que se converteu o filme de Tim Robbins. Ambos reflectem o drama humano que vivem os condenados à pena capital, ambos chegam a mostrar o ritual da execução: as injecções letais, o olhar aquoso da vítima, o sofrimento do seu acompanhante nesta última viagem...
O australiano Bruce Beresford (que também realizou «Miss Daisy», pelo qual alcançou o Oscar de melhor realizador) centra o seu sóbrio olhar na denúncia dos mecanismos políticos que fazem de um homem um semideus capaz de decidir, "para bem dos seus eleitores", quem deve morrer e quem deve viver.
Sharon Stone, cada vez mais interessada em interpretar papéis que lhe permitam demonstrar a sua verdadeira dimensão como actriz dramática, tensa os músculos e põe cara de rapariga dura. Só os seus sonhos conhecem a dor do seu arrependimento. E as nossas vozes juntam-se à dela quando, tal como Susan Hayward, grita: "Quero viver!".
Produção da Touchstone Pictures (empresa do Grupo Walt Disney, responsável por filmes para adultos) e distribuído por Lusomundo Cinemas, aí está um drama que não deve deixar passar sem ver.
| Vasco Martins |
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Tanto o ensino da escola, como o estudo ou o saber, só contarão, se contribuírem para a educação e o crescimento da pessoa. Pelo contrário, serão matéria inerte, esforço em vão ou simples aglomerado de conhecimentos, sem grande interesse vital, se não ultrapassarem o relativo da vida, para chegarem ao seu absoluto a que tudo se referência.
Mas, para isso, impõe-se que a escola suscite espaços de reflexão crítica sobre acontecimentos principais da vida e da história, mormente no que respeita às vertiginosas transformações sociais, políticas, culturais e económicas, a que assistimos hoje. De facto, a educação para a solidariedade é elemento imprescindível em toda a educação e formação a sério dos homens de amanhã.
É por isso que a escola tem, no seu espaço, a aula de Educação Moral e Religiosa Católica, que se revela elemento fundamental para assegurar a abordagem das principais questões da existência humana e a interpretação profunda dos acontecimentos da vida e da história. Através de um diálogo franco e aberto, ela é susceptível de criar um ambiente integrador da visão do mundo e garante seguro do enriquecimento e expansão dos conhecimentos académicos.
Aparece assim, em cada tempo de matrículas,
este desafio à colaboração e responsabilidade
dos pais, à generosidade e criatividade dos professores
em geral e ao empenho e testemunho dos encarregados desta aula.
Para bem dos jovens e da sua vida feliz e integrada, projectando
no futuro uma sociedade melhor.
| João Caniço |
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