Cultura:


As memórias incontáveis

"Morrem cedo os que os deuses amam": esta frase de Fernando Pessoa, imbuída de um paganismo assumido e reinterpretado, com a qual o autor se refere ao suicídio de Mário Sá-Carneiro, poderia também aplicar-se, com propriedade, se não cronológica pelo menos de permanência espiritual, ao desaparecimento do número dos vivos de dois nomes importantes da literatura portuguesa contemporânea: Romeu Correia (falecido em 12 de Junho, aos 78 anos) e David Mourão-Ferreira (falecido no domingo, dia 16 de Junho, aos 69 anos).

Enquanto o primeiro se afirmou como um dos nossos mais salientes dramaturgos deste século (com Régio, Santareno, Sttau Monteiro), o segundo espalhou a sua criatividade pela poesia, pelo ensaio, pela crítica literária, pelo romance e também pelo jornalismo e pelo teatro, além da sua actividade "profissional" como professor catedrático de Literatura, em que marcou várias gerações de letrados e literatos e de professores da portuguesa língua. É conhecida a sua passagem pela governação do país, como Secretário de Estado da Cultura, e a sua acção de divulgação do livro, através da direcção do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, que desempenhou nos últimos anos. É igualmente conhecida a sua faceta de autor de poemas cantados por vários artistas, os mais conhecidos dos quais serão o célebre "Bairro Negro" e a "Maria Lisboa" ("seu nome Maria, seu apelido Lisboa"), ou a "Madrugada de Alfama", que a carismática fadista Amália Rodrigues tanto aprecia. Permaneceram na memória de muitos, mesmo não literatos, os seus programas na RTP "Hospital das Letras" e "Imagens da Poesia Europeia" (isto quando a televisão se interessava pela literatura e pela criação, pelos universos culturais mais profundos, em vez dos actuais "talk-shows" bacocos, em que mentes vazias proferem banalidades com ar doutoral, ou dos agressivos debates políticos, em que as pessoas se degladiam sobre coisas em que até estão de acordo).

A poesia de David Mourão-Ferreira, considerada como "a mais importante da literatura portuguesa na expressão do erotismo", no dizer de Urbano Tavares Rodrigues (mesmo descontando o natural exagero que nasce da amizade e do gosto pessoal), constitui sem dúvida a porção mais significativa da sua obra de criação. Mas o grande fenómeno que se gerou em torno deste autor foi a publicação do romance "Um Amor Feliz" (1986), a que foram atribuídos todos os prémios nacionais que distinguem a narrativa: grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, Prémio Município de Lisboa, Prémio D. Dinis e Pen Club). Sucessivas edições (até à actual 6ª) testemunharam o êxito da obra, cujo valor intrínseco não deixa, no entanto, de ser empolado pelos prémios atribuídos.

É, pois, a obra poética que constitui o lado mais luminoso da sua criação literária. Reunida em antologia, com a título "Obra Poética (1948-1988)", publicada pela editora Presença, encontra-se dispersa também em várias outras antologias (por exemplo, "800 Anos de Poesia Portuguesa", publicado pelo Círculo de Leitores (1973).

Uma análise desta poesia mostra-nos um mundo muito mais complexo do que a decantada dimensão do erotismo. É o homem todo e o seu mistério que se afirma, entre o corpo e a dimensão psíquica, entre a realidade palpável e o mistério insondável. É o timbre mais lídimo da poesia o de perscrutar, pela magia da palavra, os sentidos mais profundos da existência e do ser: a beleza, a dor, o sonho, o sofrimento, a transfiguração: no seu próprio dizer, o verbo (a palavra) deve ser "um espelho e ao mesmo tempo um véu".

Na estética poética de David mistura-se o verso livre com as incontáveis sonoridades e rimas internas, com o gosto pela rima toante (que, dizem, trabalha com pessoal mestria) e com correspondências e sugestões sonoras nascidas de criadoras e de inesperadas semelhanças, mesmo a invenção de novas palavras compósitas. Alguns exemplos: "efémeras Anfitrites", "estátuas de sal e de sol", "da lascívia da cabra à lascívia da cobra", "vagas turbilhonantes", "barcos / brados", "um remo, uma rena", etc.

No jogo das oposições e dos contrastes, na sua força dialéctica, na sua expressão das contradições vitais, encontra David um campo de cultura para o seu trabalho poético:

a prisão e a liberdade, a unidade e a diversidade, o passageiro e o que permanece, a mudança e a persistência, o passado e o futuro, o silêncio e o grito, a luz e as trevas, tudo são oposições geradoras de saltos qualitativos de ponderosas significações.

Uma dessas oposições é a do sagrado e do profano, campo de trabalho para tantos e tão grandes poetas, e que está patente neste belo poema de denúncia, lido sobre a imagem do seu manuscrito no programa de homenagem ao escritor na RTP2:

Litania para o Natal de 1967

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo


Romeu Correia (1917-1996) revelou-se como a figura mais importante da corrente neo-realista nos domínios do teatro. As suas duas obras principais são "O vagabundo das mãos de ouro" (1960) e "Bocage, alma sem mundo" (1965). Corporizando a estética neo-realista, a denúncia de situações de exploração, de incompreensão, de infelicidade provocada e sofrida constituem formas de denúncia do poder opressor, da ignorância, da injustiça, da deformação essencial dos mecanismos de poder.

Não se pode negar a oportunidade e a actualidade dessas denúncias. A escolha de Bocage, génio incompreendido e agitador de ideias e de estruturas, como figura central de uma das suas obras afirma igualmente a injustiça da sociedade perante a criação cultural, e o desconhecimento e incompreensão de quem ousa elevar-se acima do comum dos mortais. Natália Correia faria o mesmo num trabalho dramático que toma a figura de Camões como objecto de estudo, no drama "Erros meus, má fortuna, amor ardente".

Interessante também a sua atenção ao poeta satírico (um dos maiores da nossa literatura, injustamente pouco recordado) Nicolau Tolentino, aliás contemporâneo de Bocage, na obra "A palmatória".
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 21 a 27 de Junho

O cinema alemão tem esta semana um destaque especial na RTP, com a exibição de um dos melhores filmes de Wim Wenders, o mesmo realizador de «Lisboa Story» (1994), que nutre pelo nosso país um amor muito especial. Talvez por isso, muitos dos seus filmes sejam parcialmente filmados em Portugal. É o caso de «Até ao Fim do Mundo», drama mesclado com ficção, que realizou em 1991, e onde encontrámos o americano William Hurt, o australiano Sam Neill e a francesa Jeanne Moreau nos principais desempenhos. Não admira ver este realizador produzir um filme de ficção-científica, cujo tema não está tão longe de nós, pois trata-se dos últimos dias deste século e do início do terceiro milénio. A maior parte destes filmes são do género fantástico, mas desta vez trata-se de uma espécie de «2001: Odisséia no Espaço», filmado na natureza fascinante da Austrália profunda, onde os aborígenes (às vezes pré-históricos) continuam a viver. O elemento apocalíptico do filme é dado pela anunciada queda de um satélite nuclear indiano, que circula à volta da Terra sem um objectivo, mas o argumento nunca se torna dramático. Todo o épico fresco está cheio de humor que, de Itália, nos leva a continentes longínquos e que, entretanto, passa por La Lozére, Paris, Lisboa, Berlim, Moscovo, China, Japão e Califórnia! O menu que nos é apresentado é por isso admirável porque Wenders conduz-nos a cidades onde tinha filmado: Paris, Lisboa, Berlim, etc..., o "plot" não é mais do que uma desculpa: um homem é perseguido por uma mulher apaixonada e por um detective. Até parece coisa de Claude Lelouche! Este filme é, na verdade, uma história filosófica e uma profissão de fé no cinema. Na época das imagens por sintetizador (que até podem maçar) e toda a potência telemática, uma explosão a grande altitude vira tudo do avesso e os aborígenes tornam-se os verdadeiros heróis da história, porque vivem num tempo diferente do nosso: "The Dream Time". Que significa isso? Trata-se, em primeiro lugar, de um poema formidável a não perder ( sábado, dia 22, na RTP 2).

Nascido em Dusseldorf em 1945, Wim Wenders trabalhou como crítico antes de se estrear como realizador com «Summer in the City» (1970). O seu trabalho é questionador, vigoroso e ambivalente, com imagens repetitivas e melancólicas. Os seus protagonistas são alienados do mundo em que vivem e meditam silenciosamente à procura da identidade. Em «A Angústia do Guarda-Redes Diante do Penalty» (1971), um guarda-redes abandona um jogo de futebol e parte para tal busca, enquanto em «Alice Nas Cidades» (1974), um fotógrafo inquieto segue o mesmo exemplo, ajudado por uma menina que dá ao filme um charme inesperado. Sua ambivalência com relação aos EUA (ele queixa-se da forma como este país colonizou a Alemanha, mas adora o seu rock'n'roll), exerce um papel fundamental em filmes como «Ao Correr do Tempo» (1976), «O Amigo Americano» (1977), uma ferina homenagem ao cinema noir, e o labirinto desfocado de «Hammett» (1983). «Paris, Texas» (1984), o seu trabalho de maior sucesso até hoje, e «As Asas do Desejo» (1988), um regresso celestial a Berlim, estão repletos de significados ocultos.

Outros filmes para ver: «Dois Amigos, Dois Destinos», drama, de David Saperston (1989), com Christian Slater, F. Murray Abraham e Sharon Stone, e «A Escalada do K-2», drama, de Franc Roddam (1992), com Michael Biehn e Matt Craven (ambos na RTP 1, sábado, 22); «O Meu Primo Vinny», comédia, de Jonathan Lynn (1992), com Joe Pesci e Marisa Tomei (TVI, domingo, 23).


... E FORA DE CASA

A pena de morte converteu-se num dos temas do ano no cinema americano, e Sharon Stone, que de mito erótico se converte em actriz séria, não podia deixar passar a oportunidade de brilhar no papel de uma jovem condenada que enfrenta a pena máxima e pode escutar de um momento para o outro a terrível frase "dead man walking", ou no seu caso, "dead woman walking". Depois de ser nomeada para o Oscar de melhor actriz por «Casino» e enquanto esperamos o seu próximo trabalho juntamente com a francesa Isabelle Adjani na nova versão de «Les Diaboliques», Sharon Stone surpreende-nos com o seu protagonismo noutro filme que aborda o tema das prisões e dos condenados à morte. Em «A Última Dança» ela interpreta o papel de Cindy Liggett, acusada e condenada a morrer por um sistema legal contra o qual se cansou de lutar apresentando recurso após recurso. O seu estado é o da resignação com o seu destino. É o preço que deve pagar por um tresloucado erro de juventude, e não está disposta a continuar a resistir. A seu lado encontrámos Rob Morrow (protagonista da série televisiva «No Fim do Mundo/Northern Exposure», como o médico do Alaska, e que também vimos no filme «Quiz Show»), no papel de Rick Hayes, um jovem advogado da Junta de Amnistia, que decide rever o seu caso e tentar convencer o governador do Estado da necessidade de perdão, conseguindo infundir na condenada uma centelha de esperança. No desenvolvimento do processo de luta, como manda a tradição, têm tempo de viver um complexo romance entre grades.

É inevitável a comparação com «A Última Caminhada», tanto pela similaridade dos seus conteúdos como, sobretudo, pela referência em que se converteu o filme de Tim Robbins. Ambos reflectem o drama humano que vivem os condenados à pena capital, ambos chegam a mostrar o ritual da execução: as injecções letais, o olhar aquoso da vítima, o sofrimento do seu acompanhante nesta última viagem...

O australiano Bruce Beresford (que também realizou «Miss Daisy», pelo qual alcançou o Oscar de melhor realizador) centra o seu sóbrio olhar na denúncia dos mecanismos políticos que fazem de um homem um semideus capaz de decidir, "para bem dos seus eleitores", quem deve morrer e quem deve viver.

Sharon Stone, cada vez mais interessada em interpretar papéis que lhe permitam demonstrar a sua verdadeira dimensão como actriz dramática, tensa os músculos e põe cara de rapariga dura. Só os seus sonhos conhecem a dor do seu arrependimento. E as nossas vozes juntam-se à dela quando, tal como Susan Hayward, grita: "Quero viver!".

Produção da Touchstone Pictures (empresa do Grupo Walt Disney, responsável por filmes para adultos) e distribuído por Lusomundo Cinemas, aí está um drama que não deve deixar passar sem ver.
Vasco Martins
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Educação para os Valores

Escola por escola, estudar por estudar, ou mesmo saber por saber, são coisas que,, só por si mesmas, poderão até pouco interessar. Ou, melhor dito, só poderão interessar a sério, quando se tornarem capazes de fazer crescer humanamente os seus destinatários.

Tanto o ensino da escola, como o estudo ou o saber, só contarão, se contribuírem para a educação e o crescimento da pessoa. Pelo contrário, serão matéria inerte, esforço em vão ou simples aglomerado de conhecimentos, sem grande interesse vital, se não ultrapassarem o relativo da vida, para chegarem ao seu absoluto a que tudo se referência.

Mas, para isso, impõe-se que a escola suscite espaços de reflexão crítica sobre acontecimentos principais da vida e da história, mormente no que respeita às vertiginosas transformações sociais, políticas, culturais e económicas, a que assistimos hoje. De facto, a educação para a solidariedade é elemento imprescindível em toda a educação e formação a sério dos homens de amanhã.

É por isso que a escola tem, no seu espaço, a aula de Educação Moral e Religiosa Católica, que se revela elemento fundamental para assegurar a abordagem das principais questões da existência humana e a interpretação profunda dos acontecimentos da vida e da história. Através de um diálogo franco e aberto, ela é susceptível de criar um ambiente integrador da visão do mundo e garante seguro do enriquecimento e expansão dos conhecimentos académicos.

Aparece assim, em cada tempo de matrículas, este desafio à colaboração e responsabilidade dos pais, à generosidade e criatividade dos professores em geral e ao empenho e testemunho dos encarregados desta aula. Para bem dos jovens e da sua vida feliz e integrada, projectando no futuro uma sociedade melhor.
João Caniço
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