Cultura:

Diana e Teresa

1. Duas das mulheres mais conhecidas do mundo de hoje. Uma pertencia à aristocracia social, a outra identificava-se com os mais pobres. Ambas mereceram a chamada consagração mediática, tida nos conceitos modernos como a suprema felicidade humana sobre a terra. Enquanto de uma se preparava o funeral mais espectacular dos tempos modernos, sabia-se da morte não de todo inesperada da outra. O mundo é assim: junta no mesmo cesto valores tão divergentes como os vestidos superavaliados em milhares de dólares e o humilde sari branco, debruado a azul, costurado por mãos tão dedicadas e generosas, como ignoradas e esquecidas nas grandes parangonas mundanas. Junta a princesa deslumbradora de beleza nos seus trinta e seis anos vividos entre as rendas da corte e os dias difíceis dos afectos incompreendidos, com a velha mulher que optou pelo espírito divino, pela pobreza e pela dedicação aos mais humildes dos seres humanos e cujo sentido inefável do amor nunca deixou de ser incompletamente compreendido. Juntou a avidez dos escândalos com a acção repentinamente paralisadora da virtude. Juntou a generosidade e as inquietações sociais dos poderosos com a entrega desconhecida dos humildes.

Uma e outra mereceram primeira páginas, figuraram nos grandes cartazes, abriram noticiários. Por razões diferentes: uma pelo mérito da doação incompreendida, outra pelo deslumbramento dos gestos e pela inevitável curiosidade dos que os observam e traduzem.

Uniu-as na morte o destino, ou a Providência, que assim se chama o destino dos que têm fé. O destino é o nome comum, a fuga à explicação profunda do que acontece e não se sabe explicar; a Providência é a busca de sentido, a pesquisa do significado mais distante dos factos que nos surpreendem e que nos superam.

2. Morrer num túnel não é apenas morrer num túnel. Morrer aos trinta e seis anos é mais do que morrer. Com tais incompreendidas mortes se enchem as crónicas e se fabricam os mitos. Por elas sobrevivem os simples mortais, transformando o seu desconcerto em muitos consertos económicos e buscadores de famas e celebridades. Responsabilizar fotógrafos ou jornalistas por uma inesperada e fatídica morte parece uma boa razão para quem não reflecte nas razões pelas quais fotógrafos e jornalistas vasculham avidamente a vida dos príncipes ou dos detentores de riqueza. Há que conceder alguma razão à sentenciosa presidente do Sindicato dos Jornalistas (cujas opiniões, das que tenho ouvido, oscilam frequentemente entre uma lucidez tensa e uma esticada visão meramente unidereccional dos problemas), quando fez notar que a profunda razão da existência de caçadores de fotos comprometedoras da vida privada dos célebres se situa na ânsia consumista de tal tipo de produto "informativo", por parte de um público para quem são o pasto preferido e ansiado da curiosidade malsã. Esqueceu no entanto que esse gosto e essa incontida e incontrolada fome do insólito ou do escandaloso é precisamente fabricada por tal tipo de jornalismo baratucho, que endeusa o superficial e o balofo, e escamoteia o profundo humanismo, desvirtua a cultura e encafua no fundo do poço das futilidades e dos esquecimentos os valores essenciais do espírito.

3. Está claro que as televisões, as rádios, os jornais, tudo se encheu de fotos, comentários, opiniões, títulos bombásticos, imagens sorridentes, sugestões sentimentais, e tudo o resto que fez a delícia dos consumidores passivos das grandes criações de pretensos génios jornalísticos, cuja essência é aproveitar os ventos favoráveis a uma hipotética boa aceitação daquilo que já toda a gente está farta de saber: é assim na política, no futebol, nas músicas, nos espectáculos de moda, até no congresso de Vilar de Perdizes. A transmissão do funeral da princesa encantada tornou-se então no maior espectáculo do século. Mobilizaram-se todos os meios, repetiram-se até à exaustão as mesmas imagens, inventaram-se novos mexericos sobre a família real britânica, exibiu-se o funeral como se fosse um espectáculo desportivo: quantas vezes me lembrei daquela criação brasileira que imaginava a substituição do comentador social pelo comentador desportivo: falava-se do funeral como de um animado espectáculo de distracção do povo, que outra coisa não era o que se pretendia: distrair, prender, amarrar gente ao televisor, à nossa emissão igual às outras mas mais original, mais dinâmica, mais subtil, mais estranha, mais completa do que elas.

4. Ora aqui desembocamos nós no cais de uma série de constatações verdadeiramente inefáveis. As nossas televisões têm pouco dinheiro, mas para isto de solenes exéquias princepescas ele nunca falta. Contem só a quantidade de enviados especiais que se deslocaram até Londres, a ver se completavam os seis milhões de pessoas que diziam encontrar-se por lá, mas que nunca se viram por nenhuma parte, a não ser possivelmente dentro de suas casas. Tenho pena de não ter gravado alguns momentos dessas históricas transmissões funeralísticas, em que o vigor acrílico dos comentários sobrepujava longamente o matraquear dos cascos dos cavalos. Registo aqui de memória alguns momentos mais significativos das dissertações enternecedoras de tão solícitos como concentrados enviados especiais, que comentavam familiarmente uns com os outros, sem o menor interesse pelo ouvinte, as passagens mais comovedoras dos acontecimentos, repetindo exaustivamente as estafadas frases "como disseste", "como acabas de referir" e similares.

Eis alguns virtuosos exemplos. Um, habituado certamente aos desconcertos das contradições da vida, dizia: "Conseguiste captar algumas palavras no silêncio da multidão?", outro falava de consternação enquanto as imagens exibiam a descontracção de quem presencia um espectáculo. "Milhares de pessoas estáticas movimentam-se de lado para lado", sentenciava a buscadora da "originalidade" adequada ao momento.

Outro, em plausível previsão futurista, ou por algum resquício que lhe ficou da guerra do Golfo, perguntava: "Achas que há possibilidade de haver algum atentado?" Um quarto, habituado às lides desportivas, ou por influência recente de algum campeonato, proclamava que "foi batido o 'record' absoluto das audiência televisivas com esta transmissão". Exausto e deslocado, garantia outro: "Neste momento é já o desmanchar da festa", pensando por certo que estava por aí na quinta da Atalaia. Imaginativo e mistificador é o juízo crítico definitivo: "O momento mais importante da cerimónia foi quando Elton John cantou "Candle in the wind". E mandava repeti pela enésima vez a cantiga do rapaz. O que um tal comentário revela de desconhecimento e incompreensão do sentido profundo, interior, espiritual de toda a cerimónia é verdadeiramente pasmoso e revela que sempre o informador, e mais o comentador, vê a realidade pelo manto mistificador da sua própria fantasia, ou pela tabela entontecida dos desvirtuados valores da moda.

Um "pormenor" não salientado: Foi o primeiro-ministro do Reino Unido quem leu solenemente aquele texto sublime sobre o amor da carta aos Coríntios. Em Portugal seria imaginável situação semelhante?

5. A princesa defunta e agora celebrada por tão alargados meios, queixava-se da perseguição que lhe movia a imprensa inglesa e como explorava a sua intimidade, bem como dos julgamentos erróneos de que era vítima. Pois se durante a vida foi evidente essa exploração, que juízo havemos de fazer do que agora aconteceu com a sua morte? Sobre o seu cadáver caíram com avidez televisões, revistas, jornais, comentadores, príncipes e magnates, quase o universo inteiro. Se lhe fosse dado pronunciar-se sobre o espectáculo montado em torno da sua morte, que houvera de dizer a princesa? Que lamentos proferiria?

6. Voltemos ao princípio. Duas das mais mediatizadas mulheres dos nossos dias. Uma, a mais fotografada na sua beleza; outra, a mais humilde na sua pequenez física e na decadência dos oitenta e sete anos. Um dia encontraram-se e as imagens correram mundo. Teresa foi das primeiras pessoas a manifestar ao mundo o seu sentimento de dor pela morte de Diana. Alguns dias depois encontrava-se com ela num mundo novo.

Que ficará de ambas para a posteridade? Como as lembrará, ou esquecerá, um mundo envolto na voragem do sensacional, do mediático, dos grandes espectáculos, dos deslumbramentos fantasmagóricos do insólito? Como guardará as lições da vida que se perde quando se julga ganhá-la, e da vida que todos ganham quando alguém teve a coragem de perdê-la, ou de doá-la? Oh os mistérios da vida, que cada vez são mais insondáveis!
C. F.
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«CINEMA»

De 11 a 17 de Setembro


De novo no vosso convívio, após um retemperante período de férias, que serviu para pôr em ordem uma série de projectos futuros, entre os quais a elaboração de um livro sobre a história do cinema mundial.


TELEVISÃO - De todos os filmes que esta semana serão exibidos pelos quatro canais disponíveis, destaco apenas um que merece uma visão especial. Trata-se de uma parábola sobre uma melodia de realejo: «A Ópera dos Três Vinténs», comédia musical clássica de Georg Wilhelm Pabst (1931), com Rudolph Forster e Lotte Lenya. Mistura de vaudeville, de melodrama policial, de sátira social e de poesia popular, «A Ópera dos Três Vinténs» (ou «A Ópera do Malandro», tal como o luso-brasileiro Ruy Guerra adaptou ao cinema em 1986) é uma "festa negra", perfeitamente adaptada às crises que então abalavam a Europa. O argumento conta as façanhas de um facínora chamado Mack, e ambienta-se no bas-fonds londrino, de vielas estreitas e sombrias, onde reina o crime e a corrupção. Essas histórias são-nos relatadas por um cantor de ruas, que aciona um velho realejo.

Este filme, que foi realizado em duas versões, alemã e francesa (com a mesma equipa técnica, mas com actores diferentes) integra com brio o humor inglês ao expressionismo alemão. Na sua origem, está uma peça de Bertolt Brecht, ela própria tirada de uma comédia inglesa do século XVIII, «The Beggar's Opera», em que se sente a influência de Jonathan Swift (autor de «As Viagens de Gulliver»). Mas Brecht não gostou da adaptação que Pabst realizou, sentindo-se traído. É verdade que o filme previligia o lado feérico da história, mas isso não faz mal nenhum! Quem conhece a obra muda de Pabst (1885-1967), alimentada por empréstimos tomados do naturalismo e da psicanálise: «A Rua sem Sol» (de 1925, protagonizado por Greta Garbo), «O Amor de Joana Ney» (1927) e «Lulu» (de 1929, com Louise Brooks), percebe que ele se manteve fiel a si mesmo. Muito desta arlequinada dissonante deve-se à sua equipa: cenários e fotografia compondo uma "atmosfera de aquário" enfeitiçante, com a música de Kurt Weil comentando maliciosamente a acção. Nenhum dos seus filmes posteriores, em todo o caso, alcançará essa poesia. Para ver na RTP 2, segunda, 15, em "Cinco Noites Cinco Filmes".

Mas ainda pode ver: «Jean de Florette», drama, de Claude Berri (1986), com Yves Montand e Gérard Depardieu: adaptação cinematográfica do romance "L'Eau des Collines", de Marcel Pagnol, onde um homem causa a ruína e a morte de outro quando desvia o curso de um rio (RTP 2, quinta, 11); «Manon das Nascentes», drama, de Claude Berri (1986), com Yves Montand e Emmanuelle Béart: segunda parte do filme anterior, onde a herdeira de Jean de Florette executa a sua vingança (RTP 2, sexta, 12); «Azul», drama, de Krzystof Kieslowski (1993), com Juliette Binoche: primeiro filme de uma trilogia sobre as cores e o significado da bandeira francesa, sendo o Azul símbolo da Liberdade (TVI, domindo, 14).


VÍDEO - Dizem que só a sua paixão pelas mulheres podia igualar a sua paixão pela Pintura. James Ivory (que nos ofereceu autênticas obras-primas como «Quarto com Vista sobre a Cidade» e «Despojos do Dia») dirige o oscarizado Anthony Hopkins em «Sobreviver a Picasso», uma década da tumultuosa vida privada de um dos artistas mais influentes e dotados do mundo, vista através dos olhos da sua jovem e independente amante Françoise, quarenta anos mais nova e que é mãe dos seus filhos Claude e Paloma. A polémica está servida. As biografias de personagens-chave do século XX sempre levantam questões. Paloma Picasso negou-se rotundamente a ver este filme, preferindo continuar com os seus perfumes. Mas você não precisa ser tão radical como ela, e poderá apreciar este lançamento videográfico da Warner Home Video, disponível no nosso mercado por iniciativa da Lusomundo Audiovisuais.

Para todas as idades, a Lusomundo Audiovisuais acabou de editar uma divertida história sobre uma miudita com poderes pouco naturais: «Matilda, a Espalha Brasas». O filme explora com lúdica ironia terrenos pouco percorridos pelo moderno cinema infantil, ilustrando com caracterizações simbólicas toda a crueldade inerente ao mundo dos adultos.

Com uma breve carreira como realizador, em que se destacam dois trabalhos como «A Guerra das Rosas» e «Hoffa», Danny De Vito serviu-se de uma história do britânico Roald Dahl, escritor especializado na literatura infantil, para dirigir (e produzir) «Matilda, A Espalha Brasas», a primeira de suas experiências num tipo de cinema que, sob o correcto invólucro da comédia infantil, esconde uma extraordinária história sobre a difícil adaptação ao meio e a capacidade das crianças de se sobreporem às adversidades. "Há muitas crianças que vivem em ambientes familiares difíceis, como Matilda", explica DeVito. "Este filme transmite-lhes uma mensagem de ilusão e esperança, mostra-lhes como uma menina é capaz de enfrentar os seus problemas e superá-los".

Mara Wilson é a criança encarregada de vestir a pele de uma menina asfixiada pela sua cretina família; a pequena é um autêntico prodígio, como já podemos comprovar em «Papá para Sempre». Danny DeVito e Rhea Perlman (marido e mulher na vida real) vestem os pais da Matilda, enquanto que Embeth Davidtz (de «A Lista de Schindler») interpreta a professora e tutora da miúda.

E posso assegurar que, desta vez, as gargalhadas dos adultos ressoarão tão alto ou mais que as dos seus rebentos. O filme foi produzido pela TriStar Pictures, integrado no catálogo Columbia Tristar Home Video.
Vasco Martins
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