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"O Século"

"O humano cai no satânico se a fé em
Deus não o mantém"

Igino Giordani

Férias são ocasião de revisitar leituras e oportunidade de volver os olhos para polémicas do passado, raízes afinal da cultura do presente. Volta-se a ler Eça e lá se vê, no Crime do Padre Amaro, a referência crítica ao Sylabus com que em 1864 Pio IX enumerava os principais erros da época, do racionalismo agnóstico ao amoralismo liberal, desvirtuando-se a própria Razão e a própria Liberdade. Foi um clamor imenso que se ergueu, entre nós também, contra o Papa, acusado de liberticida, de condenar o progresso, de negar a Ciência, etc. etc.

Relê-se Antero de Quental, outra leitura revisitada neste Setembro que é aniversário da sua trágica morte. Na "Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX contra a chamada Opinião Liberal", ao contrário do que ironicamente o título insinua, o Deus do Céu é substituido pelo "Deus da terra, da natureza e do coração".

Águas passadas? Não tanto. Esta aparentemente nobre e generosa ideia tem como efeito perverso o exacerbado individualismo do salve-se quem puder. Ainda nos dias de hoje podemos ver em letra de forma render-se loas ao individualismo como característica da moderna sociedade de oportunidades em que tudo tem um custo: o egocentrismo é uma virtude, a solidariedade uma desgraça. E é a partir desta premissa que se organiza todo o discurso, assim: nos países de grande pujança económica as pessoas andam na rua apressadas, determinadas, hirtas; nos países pobres, as pessoas vagueiam moles, caminham devagar e têm um olhar vago e contemplativo. Segue-se daí que nas sociedades de abundância cada um trata da sua vida e isso basta; e é suposto igualmente que os outros não precisam da ajuda de ninguém e sabem também tratar de si. No ambiente dum país pobre, as pessoas não acreditam poder realizar os seus projectos sem ajuda e procuram-na; supõem que os seus semelhantes do mesmo modo precisam de auxílio. E estaria aí a razão de ser da solidariedade. Esta peregrina conclusão louva-se num citado teólogo americano, Michael Norak. A teoria de que tudo tem um custo, de resto, está em consonância com o pensamento de Calvino, também teólogo, protestante, que se pretende ter fundamentado moralmente a ideologia do capitalismo originário: criar lucro é ser virtuoso e abençoado por Deus, ser solidário nem por isso.

É o corolário lógico do que Antero clamava, na sua fase revolucionária "O Espírito do Século", segundo o qual "O Cristianismo e mundo actual são incompatíveis e inimigos". Se a Igreja transigisse - diz, concordando ironicamente com o Papa - "agora é a tradição que obscurece. Logo o mistério que se explica. Depois a moral que condescende. Breve a fé que se perde". Por isso a Igreja resiste e Antero, que se decidiu pelo progresso e a ciência contra a religião e a Igreja, reza-lhe apenas "respeitosamente um De Profundis".

Alguns anos mais tarde, porém, amadurecido e já na fase de confessada reflexão, reconhece ter desperdiçado "muita actividade e algum talento" iludindo-se com "muitos dogmas da moderna superstição do Progresso". E não deixou sempre de se preocupar, por outro lado, com as questões morais. A sua admirável ética aponta à liberdade, à santidade e ao bem. "As grandes, as belas, as boas coisas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade (...) não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter" (Carta do Bom Senso e do Bom Gosto).

O Século sobrepõe-se à Igreja, pensava Antero. Mas não descortinou que neste seu negativismo estava contido o germe da dissolução da mesma ética que devotadamente defendia.

O Século XIX não foi o fim da religião, mas gerou o equívoco de se converter o egoísmo em virtude. De Antero de Quental diz Eça de Queirós: "um génio que era um santo." Génio talvez não: enganou-se quanto à "religião do futuro" e saiu da vida pela menos criativa das portas. Santo talvez sim, pelo bem que quis realizar. Faz hoje anos que se suicidou.
Ernesto Campos
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A pastoral litúrgica e sacramental (3)

O Matrimónio e a Penitência

A situação cultural e eclesial da França não coincide, certamente, com a de Portugal. Mas nem por isso deixam de ser muitos os pontos de contacto. E os influxos continuam, embora atenuados em confronto com o que se passava em tempos não muito distantes. Por tudo isso ­ e pelo âmbito geral em que o Santo Padre se situou nesta alocução ­ concluímos aqui a tradução da parte principal do discurso de João Paulo II aos Bispos da Provença Mediterrânica, publicada em La Maison-Dieu, n. 210 (1997) 137-144 ("VP" de 23 e 30 de Julho).

«6. O que acabo de recordar acerca da pastoral litúrgica no seu todo deve ser prolongado por algumas reflexões sobre a pastoral dos sacramentos, que não está reservada apenas a alguns especialistas. Toda a Igreja de Cristo tem a responsabilidade de acolher com amor os irmãos e irmãs, mesmo que afastados da prática regular. Para desempenhar plenamente a sua missão de intendentes dos mistérios de Deus, os padres contam com a colaboração de leigos que aceitam constituir equipas de preparação para o Baptismo ou para o Casamento, bem como assegurar, no quadro da catequese e do catecumenado, a preparação para a Eucaristia e para a Confirmação.

Para os pastores e comunidades, trata-se de, ao receber os pedidos das famílias, dos adolescentes ou dos adultos, discernir o sentido da sua diligência, nas situações reais em que as pessoas se encontram. Se a abordagem parece frequentemente hesitante ou formalista, é bom mostrar-se aberto, confiar na presença do Espírito nas próprias pessoas que pedem os sacramentos; os sacramentos são propostos como dons de graça para todos, como apelos à conversão, e não como a plenitude ou o selo de uma maturidade na fé que teria de ser previamente adquirida.

A pastoral dos sacramentos não é separável do conjunto da missão de evangelização: ela leva a organizar ocasiões de proposta da fé e de iniciação à vida cristã; ela quer favorecer o progresso espiritual daqueles que vêm bater à porta da Igreja, transmitindo-lhes o chamamento do Senhor sem deixar de lhes manifestar claramente as exigências evangélicas. É desejável também que as paróquias e os movimentos se preocupem com manter contactos com as pessoas para as quais a recepção dos sacramentos corre o risco de não passar de actos isolados e alheios à vida quotidiana.

Sem poder alargar-me aqui sobre o modo de abordar os diferentes sacramentos, gostaria de vos convidar a aprofundar especialmente a reflexão sobre o sacramento do Matrimónio, na sua dimensão de sinal da Aliança e do amor fiel de Deus. A crise do matrimónio e da família requer uma renovação do sentido cristão deste sacramento, que deveria levar os casais a testemunhar uma concepção autêntica do matrimónio, à imagem da relação de Deus com a humanidade.

Também referis que o sacramento da Penitência está a passar por uma grande desafeição. Isso tem a ver com muitos motivos, nomeadamente de ordem cultural, como o individualismo actualmente difuso, ou ainda com mal-entendidos acerca das exigências morais, sobre o sentido do pecado e da relação com Deus. É um serviço a prestar não renunciar a fazer reflectir seriamente os nossos irmãos e irmãs, à luz do Evangelho que revela "Deus rico em misericórdia" (Ef 2, 4). A aposta é essencial para homens e mulheres a quem, por vezes, o pecado acabrunha, mesmo que não sejam capazes de o nomear, e que recuam perante a confissão, desconhecendo o dom admirável que o Pai nos concedeu por Cristo Salvador, e negligenciando a necessidade, para uma consciência com o peso duma falta grave, de recorrer ao sacramento do perdão antes de receber a Eucaristia. Que os padres não minimizem o alcance do ministério da reconciliação, sem dúvida exigente, mas fonte de paz e de alegria para aqueles a quem se revela o amor misericordioso de Deus».

Recordando afirmações suas datadas de 1984, João Paulo II concluiu o seu discurso insistindo em que «há que ter presentes, do modo mais equilibrado, a parte de Deus e a parte do homem, a hierarquia e os fiéis, a tradição e o progresso, a lei e a adaptação, o particular e a comunidade, o silêncio e o impulso coral. Deste modo, a liturgia da terra religar-se-á à do céu, onde […] se formará um só coro […] para elevar a uma só voz um canto de louvor ao Pai por Jesus Cristo».
S.D.L.
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