Cultura:


Camões, o prémio
e um novo sentido da pátria

1. As cerimónias comemorativas do dia 10 de Junho, tradicionalmente tido como da morte de Camões, "poeta infortunado e tutelar", como lhe chamou Torga, celebraram-se em Lagos, cidade algarvia aberta sobre o Atlântico, ao calor estival de um sol meridional que constitui uma espécie de íman de atracção para calcinar as peles de executivos e funcionários que pululam pela capital e que se apinham em automóveis, ao fim dos dias, nas portagens da ponte. Três discursos se afirmaram nessa comemoração, com alguns pólos comuns: a referência ao poeta, a tónica na nossa identidade nacional, a projecção para os países e povos de língua portuguesa e aquele indefinível sentimento comum a que Jorge Sampaio chamou "um novo patriotismo".

Discursos pronunciados, pois, com tonalidades entre as letras e a política. Bem vistas a coisas, são realidades muito próximas e interdependentes. O homem do Renascimento, de que Camões é ao mesmo tempo produto e paradigma, uniam as armas e as letras numa espécie de simbiose complementar. As letras, por sua vez, passavam pela prática da mais sábia das artes, a retórica. A cada passo Os Lusíadas nos oferecem exemplos eloquentes desta preocupação de dizer as razões e as convicções por formas literárias belas e expressivas, que não só as exprimiam como as engrandeciam.

No nosso tempo também a arte da política recorre muitas vezes à arte da palavra na procura de uma transfiguração do seu rosto: com palavras se exprimem os ideais e se escondem as ambições. "Com palavras se faz a paz, se faz a guerra", escreveu Manuel Alegre.

Esta união das letras e da intervenção política reflectia-se também nas personalidades que usaram da palavra: um escritor dos mais lidos em Portugal nos últimos tempos, inesperada mas merecidamente, Alçada Baptista; um dos mais notáveis analistas da alma nacional, da nossa identidade colectiva, a quem foi atribuído este ano o Prémio Camões, Eduardo Lourenço; e o Presidente da República, certamente o cargo político que tem como forma mais específica de agir politicamente o recurso à palavra, para "unir os portugueses", criar novos dinamismos e nova cultura patriótica.

A figura tutelar do épico, referenciada como modelo da alma nacional, como homem que viveu os tempos de crise, mas sobretudo como aquele que, pelo seu poema, deu o sentido pleno tanto ao alcance universalizador das Descobertas como à meditação sobre o homem, "bicho da terra tão pequeno", apesar de todas as exaltações e feitos gloriosos. Eduardo Lourenço fez mesmo notar que o fulcro das transformações que ligamos à epopeia dos descobrimentos não esteve nos factos em si mesmos, mas no poema que foi capaz de os cantar. Não há tanto o antes e o depois da Índia, mas o antes e o depois de Os Lusíadas.

2. Lamentavelmente, porém, conhecemos mal o poema camoniano. O que dele registamos são alguns versos memorizados nos bancos da Escola, que quase sempre escondem a incapacidade atávica de uma leitura profunda de uma das obras mais notáveis da literatura universal. Apesar dos notáveis escritos interpretativos de autores como Jorge de Sena, A. J. Saraiva, e tantos outros, antigos e modernos.

A forma como Os Lusíadas são propostos actualmente nos programas de ensino acaba, embora não seja certamente essa a sua intenção, por não favorecer uma leitura integral e integrada do poema: o seu estudo é proposto em episódios, uma espécie de pastilhas seleccionadas, ao longo dos vários anos, sem que nenhum deles se proponha um estudo global e integral da obra. Perde-se assim, por muito que se procure dizer isso aos estudantes, "a poderosa arquitectura significativa" da obra, como lhe chamou Jorge de Sena. Para além do estudo introdutório a realizar no ensino básico, dever-se-ia, no ensino secundário, fazendo apelo à maior capacidade de compreensão dos estudantes, efectivar um estudo mais aprofundado e globalizador desta obra cimeira da nossa cultura, da nossa língua e do conhecimento universal do homem.

3. As referências feitas ao poema camoniano, no dia em que o poeta morreu com cerca de 56 anos, e foi sepultado "junto ao cemitério de Sant'Ana, da banda de fora, chãmente", como revela Diogo do Couto, esquecem a maior parte das vezes a relação de afastamento e de incompreensão com que o poder político trata os grandes génios. Também nisso o poeta é paradigmático: no seu tempo poucos o entenderam, a começar pelo Rei, que lhe deu uma tença, espécie de reforma mínima, que ainda por cima não lhe era paga regularmente. Entretanto outros, os favorecidos políticos da época, eram pagos generosamente. O próprio poeta se queixava, quando escreve: "Venho cantar a gente surda e endurecida". E logo a seguir: "O favor com que mais se acende o engenho / não no dá a Pátria, não, que está metida / no gosto da cobiça e na rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza".

Muito lucrariam os próceres políticos da actualidade, que se degladiam uns aos outros na procura do poder e das influências, em vez de exercitarem o serviço à comunidade (veja-se o que se passa, actualmente, por exemplo com a regionalização), em ler e interpretar cabalmente as orientações de acção política que escreve Camões, precisamente dirigidas aos detentores do poder: "Todos favorecei em seus ofícios"; "os mais experimentados levantai-os... para vosso conselho"; "de rigorosas leis desaliviai-os..."; "não me falta na vida honesto estudo, com longa experiência misturado".

Ouvi também as censuras que vos dirige o poeta: "Este interpreta mais que subtilmente / os textos; este faz e desfaz leis; / este causa os perjúrios entre a gente, / e mil vezes tiranos torna os Reis". Esta denúncia da tirania é tema que percorre toda a obra. Não apenas a tirania dos poderosos, mas outras tiranias: as da ambição e da cobiça; a das influências e dos enganos; a das ciladas e dos oportunismos: "Nem creiais... nesse / que ao bem comum e do seu rei / antepuser o seu próprio interesse"; "Nenhum ambicioso que quisesse / subir e grandes cargos cantarei / só por poder com torpes exercícios / usar mais largamente de seus vícios".

Um dos aspectos que mais marca o leitor atento do poema camoniano é, evidentemente, a sua cultura do mundo e do universo clássicos, a sua sabedoria filosófica, os seus conhecimentos científicos, geográficos, astronómicos, o seu "saber de experiência feito".

Mas mais que tudo isso, o sentido dos valores morais, da força humanizadora da justiça, a procura de uma intervenção social marcada pela promoção do mérito, dos valores e do sentido do bem comum. Lírico, evidentemente! É sempre assim que os poderosos designam aqueles que lutaram pela justiça.

Mas há dois aspectos complementares nestas inquietações que são, para os nossos inteiros juízos hodiernos, particularmente chocantes: a consciência lamentosa da sua desdita e da incompreensão da sua obra; e a consciência aguda e forte do seu próprio génio. Basta ouvir: "Não bastava / que tamanhas misérias me cercassem / senão que aqueles que eu cantando andava / tal prémio de meus versos me tornassem: / A troco dos descansos que esperava / trabalhos nunca usados me inventaram / com que em tão duro estado me deitaram". Exactamente: incompreensão e génio de mãos dadas.

Eis porque deveriam os detentores do poder usar com moderação as palavras do poeta. Os apelos dramáticos que faz ao Rei para que saiba prezar os valores das letras e da sabedoria não encontraram eco. É esta a desdita dos génios: a incompreensão. Os louros do poder caem frequentemente sobre as cabeças dos eleitos das circunstâncias, não dos cultores dos valores essenciais. Porque os valores essenciais estão ainda longe das capacidades de compreensão das gerações contemporâneas.

Ó Eduardo Lourenço! Perdoe-me esta tirada. Dizer isto no dia em que recebeu o Prémio Camões pode parecer que o incluo, com os seus pares que antes o receberam, e a companhia é de grande valor e mérito (Torga, Melo Neto, Craveirinha, Ferreira, Queiroz, Amado) nos beneficiários das generosidades oportunas ou interesseiras do poder! Não é verdade. Mas o seu mérito, nem o dos outros, nunca advirá dos prémios que lhe dão, mas do valor intrínseco da vossa obra. Essa só o futuro a consolidará.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 14 a 20 de Junho


TELEVISÃO - O dedo de Carlos Cruz já mexeu (e muito!) na TVI. O novo director de programas daquela estação (que já havia dado provas da sua competência quando esteve à frente do mesmo departamento na RTP, numa altura em que ainda não havia concorrência!), apresentou as bases da sua programação Primavera-Verão (em 10 de Junho passado): mais espaços para o bom cinema, mas também séries, onde não falta uma certa "Nostalgia TV" com os regressos de «Get Smart-Olho Vivo» (com Don Adams e Barbara Feldon, os agentes 86 e 99) e «A Balada de Hill Street», séries bem aceites pelo público por predisporem bem e onde não há violência, mas puro entretenimento. As viagens científicas do Comandante Cousteau, também marcam presença na nova TVI (digo "nova" porque já se nota a nova gerência Carlos Monjardino-Carlos Cruz). Espera-se que os abusivos cortes de genéricos finais dos filmes deixem de se verificar e que a nossa luta não tenha sido em vão. Sabemos que a TVI não é (já!) a televisão da nossa Igreja, mas queremos que seja a nossa televisão. Esta semana, a TVI tem uma feliz selecção cinéfila: «Robin dos Bosques, o Príncipe dos Ladrões», aventura, de Kevin Reynolds (1991), com Kevin Costner, Morgan Freeman e Mary Elizabeth Mastrantonio (sexta, 14); «O Poder de um Jovem», drama, de John G. Avildsen, com Morgan Freeman e Stephen Dorff: a educação de um jovem orfão, na África do Sul dos anos 30 (sábado, 15); «Sozinho em Casa», comédia, de Chris Columbus, com Macaulay Culkin, Joe Pesci e Daniel Stern: um miúdo fica em casa, esquecido pelos pais, quando estes partem para Paris nas férias de Natal, e tem de defender o património familiar da ganância de dois ladrões (domingo, 16); «Henrique V», histórico, de Kenneth Branagh, com Kenneth Branagh e Emma Thompson (dia 16, em "Lauro António Apresenta...", agora aos domingos à noite).

Nos outros canais, os destaques vão para «Crocodilo Dundee», comédia, de Peter Faiman (1986), com Paul Hogan e Linda Kozlowski (sexta, 14, na RTP 1); «O Navio», drama, de Federico Fellini (domingo, 16, na RTP 2); e, «Coronel Redl», drama, de Istvan Szabo (1985), com Klaus Maria Brandauer e Gudrun Landgrebe (RTP 2, terça, 18).


VÍDEO - Um inesquecível casal de dálmatas protagonizam um dos mais deliciosos filmes de animação dos estúdios Disney, juntamente com uma das vilãs mais extravagantes criadas pelo génio criativo de Walt Disney, a perversa Cruella de Vil "com a sua característica e áspera voz, o fumo amarelado do seu cigarro, os seus gestos exagerados e um casaco de pelo punky branco e negro, com uma personalidade egoísta e diabólica". Desde 1961, a longa-metragem número 16 de Disney só foi projectada cinco vezes no grande ecrã, e esta é a primeira vez que chega ao vídeo em Portugal. Narra uma história de aventuras, amor e amizade entre uma camada de cachorrinhos e um simpático casal, donos de um par de dálmatas e suas 15 crias. Para a sua realização foram necessários mais de 150 animadores, alguns deles com mais de 25 anos de experiência, como Frank Thomas, Marc Davis, Eric Larson e Ollie Johnston, que há muito trabalhavam com Disney. Gastaram-se 1.218.750 lápis para produzir 6.469.952 desenhos.

«Os 101 Dálmatas», baseado no conto homónimo de Dodie Smith, cuja acção se situa numa realidade e não num universo de magia e fantasia, está a ser distribuído em regime de Venda Directa pela Lusomundo Audiovisuais.


... E FORA DE CASA

A guerra em que se centra a acção de «Terra e Liberdade», a 11ª película do sempre fiel a si mesmo e sempre variável Ken Loach, sem espaço para dúvidas o mais "comprometido", para usar um termo em desuso, dos cineastas contemporâneos, é a de Espanha, em 1936. A que, iniciada há quase sessenta anos e dolorosamente terminada três anos depois, colocou em luta fratricida um país, que ainda não estancou totalmente as suas feridas. E que, possivelmente, foi a última, e acaso também a primeira das que puderam classificar-se de românticas. Sendo, também, romântico, em boa medida - o que não exclui que seja, ao mesmo tempo, rigoroso - o tratamento que o autor leva a cabo, numa perspectiva, forçosamente, exterior, mas nem por isso menos visceral. Que, fazendo das tripas coração, nos conta através de todos os sentidos de David Carr, um jovem inglês de Liverpool, membro do partido comunista local, que, desempregado no seu país, e juntamente com outros idealistas estrangeiros, parte para Espanha para combater nas brigadas do POUM, um partido do povo para o povo (?), de que ele nunca ouvira falar, contra o fascismo do General Franco, e que acaba por enfrentar, não só os facciosos locais, mas também, não tardando muito, os membros do partido a que pertencia, manipulados pelo oportunismo stalinista. Delineado e desenvolvido em chave epistolar - o que enfatiza o seu carácter subjectivo, que alguns lhe reprovaram tão injusta como equivocadamente - com base nas cartas que o protagonista escrevia à sua namorada que deixou em Inglaterra, embrulhadas num amarfanhado lenço vermelho, e uma bolsa de terra aragonesa, que a sua neta encontra, após a sua morte, numa mala, o filme, por esta ordem, com o coração, as tripas e a inteligência, é, sem dúvida, e referênciado por outros filmes mais animados na sua altura - «Por quem os sinos dobram», «Morrer em Madrid», para só citar dois exemplos contrapostos - o melhor que já foi feito sobre a guerra civil de Espanha (e não foram tantos assim!). Porque, definitivamente, salvando todas as imensas distâncias, bem podia, baseando-se no mesmo argumento, ter tomado como ponto de partida outra guerra. Já que nos fala da guerra como contrasenso e contrário da revolução, da traição e a morte, e, em suma, como o seu título indica, de dois conceitos tão fundamentais como são os de Terra e Liberdade. Tão nobre como desassossegado, tão poético como políticamente impecável, tão trágico como, por paradoxal que possa desejar-se, optimista, o filme tem todos os ingredientes capazes de sensibilizar qualquer um, especialmente aqueles que se identificarão com a época retratada e a história em geral. Imprescindível ver este filme, distribuído em Portugal pela Atalanta Filmes e disponível na Casa das Artes (precisamente aquela sala tão privilegiada pelo Sr. Padre Arlindo).
Vasco Martins
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