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0. Chegados que somos a nova etapa das nossas passageiras vidas (os acontecimentos encarregam-se, de vez em quando e quando menos esperamos, de nos ensinar tal carácter inelutavelmente passageiro), muitas e múltiplas são as reflexões que o fluir da vida nos impõe.
Vamos a uma breve selecção, deixando outras para novos encontros.
1. Curtir a vida. Dantes, quando ainda não éramos modernos, nem tínhamos vistas longas e largas, nem estávamos marcados pelos ventos agrestes da corporeidade imediatista, os ideais que se procurava inculcar à juventude, ao menos nas mensagens oficiais e nas que vinham vestidas de algum pendor educativo, passavam sempre pela procura de alguma generosidade, pela capacidade de dedicação, pela superação e sublimação dos instintos, pela descoberta e assunção de objectivos nobres, pelo traçar ou abrir de caminhos que possibilitassem ao jovem o encontro, actual ou futuro, com um nível e tipo de vida que assentasse na dignidade e na valorização das aspirações mais aperfeiçoadas da pessoa humana.
Éramos tolos e idealistas. Agora a situação está invertida: o que importa inculcar à juventude é apenas a sublime e original proposta de "curtir a vida". De ideias, nada. De ideais, muito menos, porque sem ideias, não se podem construir ideais. De projectos, nada. De objectivos para a vivência dos dias, nada. Muito menos de sentidos ocultos de solidariedade, de esperança, de ilusão, de novos horizontes. Tudo se reduz à simples e imediata fruição. "Curte a vida", diz dogmaticamente um cartaz amplamente divulgado, que pretende ser forma de alertar os jovens contra as drogas e a sida. O efeito é exactamente o inverso: "curtir a vida" é justamente a "filosofia" daqueles que se deixam arrastar pelo caminho da droga e da marginalidade: os que não conseguem encontrar projectos, ideais, sentido do bem comum. "Curtir a vida" é a propaganda, eivada na sua concepção da mais pura inconsciência, do mais feroz individualismo primitivo. O mesmo se diga de outra frase do mesmo cartaz: "faz sexo seguro". Referências à afectividade, ao amor, à relação pessoal, que importa isso? O puro e animal prazer do sexo: eis o ideal.
Pior que tudo: esta campanha de inominável inteligência é subsidiada pelo Estado, traz a chancela do ministério da saúde. Ministério da saúde ou mistério ou da insconsciência? Da saúde, ou da desumanidade?
2. TV verdade/imagens reais. O nosso universo mental da comunicação social (se é que o tem) é verdadeiramente desconcertante. Nós que, por opção ou por casualidade, laboramos neste sector, sempre pensámos e pensamos que a verdade, ou ao menos a sua procura, era a grande meta de nossos tão meritórios e ciclópicos trabalhos. Andávamos todos enganados. Toda a imprensa, toda a rádio, toda a televisão, toda a internet, todas as sofisticadas telecomunicações do nosso mundo são falsidades. Todas as imagens são falsas. Eis que agora, porém, nos constroem um universo novo: as imagns reais, a TV verdade. Até aqui era tudo mentira. Agora o senhor Cruz e o senhor Albarran dão-nos a única, a perfeita realidade. Sem truques, sem censura, sem nada. Até sem senso. Até sem sentido de qualquer oportunidade. Até cortadas a meio para se inserir "a verdade" do apresentador, emitindo os seus incontroláveis juízos, onde se mistura um moralismo de pacotilha com um humor de sorriso amarelo. Quem vê e quem ouve fica a lançar maldições sobre toda a outra televisão, que nunca nos dá imagens reais de nada nem transmite a verdade: nem nas reportagens da Assembleia, nem nas passagens de modelos, nem nos concursos tão inteligentes que nos exibem, nem nas notícias tão sérias da dona Judite, nem nas reportagens em directo do local do acidente onde está o nosso correspondente, nem nas transmissões tão subtis do senhor Lourinho, nem naquelas conspícuas imagens que nos mostram o fora de jogo que o árbitro assinalou mal. Pronto: tudo isso é mentira, tudo isso são imagens virtuais. Viva agora a "verdade" e as "imagens reais". Eis as habilidades nunca sonhadas com que se o povo néscio engana. O pior de tudo é que todos acabamos um pouco néscios, mesmo contra a nossa vontade mais sensata.
3. A falta de rigor da comunicação social da Igreja. O jornalista António Marujo "denunciou" em Fátima, no decurso da XV Semana Missionária Nacional, que se realizou na passada semana, que os meios de comunicação social da Igreja, "de um modo geral fazem o contrário do que propõem os critérios da deontologia, da ética e do rigor profissional".
É possível que o jornalista tenha a sua razão. De facto os que trabalham nos meios de comunicação social da Igreja raramente são "profissionais", no sentido rigoroso ou suposto do termo. São geralmente pessoas que trabalham mais por dedicação que por remuneração. Compreender-se-á de boa vontade que não se sintam cobertos por esquemas de "deontologia" profissional. Já quanto à ética, haveria que pensar melhor.
Com efeito, a ética profissional dos jornalistas não é propriamente um modelo de isenção, nem política, nem ideológica, nem de afecto puro pela verdade dos factos. Muitas vezes chama-se "profissionalismo" à busca do sensacional, das grandes "cachas" (que palavra mais ordinária!), dos factos que possam chocar a opinião pública. Se há coisa que pouco importa em jornalismo é a verdade essencial: importa a verdade circunstancial e oportuna. Para não dizer oportunista, coisa que não se deve nem dizer nem pensar.
Dou um exemplo, tirado da própria local noticiosa em que lemos esta informação.
Na referida "Semana Missionária" intervieram várias personalidades mais ou menos notórias, com comunicações mais ou menos interessantes. Pois de todas, a única que mereceu ser notociada pelo jornal em que trabalha (aliás meritoriamente) o referido jornalista foi precisamente aquela em que o próprio interveio. Quanto aos mais, nenhuma referência. Dito de outra maneira: mais uma vez se ficou a notícia (que nem sequer é falsa, claro, a sua indesmentível "objectividade" está rigorosamente salvaguardada e acima de qualquer suspeita) pela rama do acontecimento: a Semana Missionária ficou reduzida, para quem leu o jornal, à intervenção de um jornalista, por acaso do mesmo jornal. Eis como a árvore escondeu a floresta.
Não creio que fosse a este tipo de faltas de "deontologia profissional" que se referia o orador. Importava fazer a contraprova: com que deontologia profissional tratam os jornais, as rádios, as televisões, as questões da Igreja e da religião em geral? Veja-se, por exemplo, como foi abordada a Jornada Mundial da Juventude, coisa de somenos importância, porque reuniu em Paris apenas mais de um milhão de jovens (por certo não serão daqueles que "curtem a vida") de todo o mundo. Pequenas crónicas de correspondentes, geralmente em torno de pormenores de mínima importância, que deixaram de parte o essencial do acontecimento e das mensagens que transmitiu.
Não era certamente este tipo de "deontologia, de ética e de rigor profissional" que referenciava o nosso jornalista orador como ausente dos meios de comunicação social da Igreja. Mas certamente poderá ele e poderão outros fazer igualmente um exame de consciência sobre as formas torcidas como se exerce aquilo a que eufemisticamente se chama a "ética" e a "deontologia" profissional. Os meios de comunicação social da Igreja não são mais que o reflexo do universo em que se movem. É certo que não o deveriam ser: mas todos sabem como é difícil ser isento num universo em que impera a falta de isenção. É como ser santo num mundo de pecadores. É este o drama da Igreja ao longo da história. E é igualmente o drama de quantos sempre procuraram a verdade, crentes ou não crentes.
4. Diana. Morreu o grande mito dos nossos dias, a mulher mais fotografada, na madrugada trágica de um domingo parisiense. Mito por razões lamentáveis da condição humana e mito porque soube construir para si mesma uma imagem de bondade e de sentido solidário. Afinal a curiosidade social não se volta apenas para os escândalos familiares das cortes. Todo o mundo a chorou. Encheram-se as televisões com o presente e sobretudo o passado da sua vida. Muitos culpam os fotógrafos oportunistas, ditos "paparazzi". Os jornalistas que se prezam, ou pretendem prezar a sua profissão, dizem que esses não são jornalistas. Eles, porém, dirão que sem o seu trabalho não existiria ao menos um certo tipo de jornalismo sensacionalista e bacoco que vende que se farta. A princesa morta queixou-se amargamente da perseguição que lhe era movida,vasculhando avidamente a sua vida privada. Acabou vítima dos males que denunciou.
Algumas conclusões: que a vida dos humanos é breve e efémera, mesmo quando protegida. Que as figuras-mito se esvaem na própria sensação que as fabricou. Que, mais uma vez, a morte também vende. E do que foi, o que fica?
| C. F. |
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