Cultura:

Violência, violências

1. Os presidentes das empresas que operam as emissões televisivas em Portugal, sob o patrocínio da Alta Autoridade para a Comunicação Social, assinaram um acordo em que se comprometem a uma maior atenção aos programas com conteúdos de violência, colocando a sua emissão em horários nocturnos e adoptando um sinal comum (constituído por um círculo vermelho num dos cantos da imagem televisiva), indicador de que o programa em causa possui conteúdo ou cenas de violência. Este sinal será exibido no início do programa e no recomeço de cada parte após ontervalos, durante cinco segundos. Os critérios de selecção dos programas considerados violentos pertencerão aos responsáveis de cada estação, dando assim expressão a uma atitude que foi designada por "auto-regulação", segundo parâmetros sugeridos pela Alta Autoridade. No dizer do actual presidente da TVI, "a auto-regulação é, de facto, o melhor caminho e o único que pode dar resultado, porque cruza a liberdade com a responsabilidade". Com efeito, se os responsáveis não assumirem a responsabilidade que lhes é suposta, é sempre fácil escamotear todas as leis e encontrar as mais hábeis justificações para todas as transgressões. Como é o caso, por exemplo, que todos os dias se verifica na inserção de publicidade, onde facilmente se infringe menos a legislação que o bom senso e o respeito pelo espectador. Esse "cruzamento" da liberdade com a responsabilidade não deveria necessitar de nenhuma assinatura: deveria resultar do sentido ético e deontológico dos responsáveis e agentes. O acordo assinado contempla também uma das mais manhosas e subtis, e portanto maximamente perniciosas e despudoradas exibições da violência, e preferentemente da violência de contornos sexuais: os "spots" de publicidade dos filmes ou outros programas, exibidos a qualquer hora do dia, mesmo no meio dos espaços destinados ao público infantil e juvenil, para seduzir o espectador, adulto ou criança, precisamente para essa espécie de filmes ou programas. Esta forma de proceder generalizou-se em todas as estações, seleccionando justamente as cenas mais chocantes, por vezes de extremo exibicionismo e agressividade, e pior que tudo, desenquadradas dos respectivos contextos, onde poderiam ter algum sentido, e muitas vezes produzindo uma ideia distorcida ou falsa dos conteúdos das obras.
Por estas razões, deveríamos congratular-nos todos com a referida decisão dos responsáveis da televisão, que apenas peca por tardia. Toda a questão estará em saber se não irá pecar também por não cumprida. Em televisão é sempre fácil escapar ao cumprimento das normas e depois justificar com toda a espécie de argumentos, como temos ouvido: os mais confessáveis são o gosto popular, a verificação das audiências, o interesse manifestado pelo público, e similares; os inconfessáveis serão a exploração dos sentimentos e paixões mais primitivos, a desmedida ambição de ter mais espectadores (ou de se supor que têm), uma certa maldadezinha intrínseca e manhosa de transgredir as normas sociais e o senso comum, o gosto do exibicionismo corporal e pessoal, e no fim de tudo, a ilusão da preponderância da força sobre o direito e o equilíbrio social, sobre os valores éticos e morais, sobre o sentido da justiça e do uso da liberdade.

2. Falar de violência é sempre tarefa complexa, porque há várias e especiosas categorias dessa espécie de sequela da condição humana. Podem enumerar-se algumas: a) a violência real, aquela que tem de ser notícia porque aconteceu (por exemplo, o mais recente assassinato da ETA); b) a violência ficticiamente fabricada (como a da maioria dos filmes, em que especialistas em todo o tipo de artes, especialmente treinados, ou adestrados, com a ajuda de truques e efeitos especiais, ficcionam lutas, combates, destruições; c) a violência da exploração física, sexual, de gratuito exibicionismo; d) a violência da exibição sentimental dos afectos, das tristezas, sofrimentos e frustrações das pessoas, por muito coloridas e disfarçadas que venham de reconciliações, perdões ou reencontros; e) a mais subtil de todas: a violência da falta de qualidade artística, estética ou simplesmente humana dos programas apresentados. É a violência dos programas bacocos e tolos, da falta de qualidade humana, da exponenciação das marginalidades mais aberrantes; f) falta ainda a violência da agressão ao espectador, cortando programas e obras fílmicas em momentos essenciais, inserindo, sem qualquer separador, no decorrer de um filme as cenas promocionais de outro (vergonhosa e tosca violência comum a todas as estações, geralmente acompanhada de altissonantes comentários, tão prtensiosos como desmiolados), ou transmitindo espectáculos em que se esconde o essencial para mostrar pormenores acidentais.
É de temer que de todas estas violências, e outras do mesmo jaez que se puderam aduzir (e que o leitor recordará ao reflectir sobre estas), os responsáveis apenas considerem as duas primeiras. É sempre igualmente de temer o batido e risível argumento, corrente entre quem pretende explorar a violência (ou explorar as pessoas através da violência), de que a violência é um facto, um dado social, e por isso a televisão tem que mostrar. Confundem-se aqui situações diversas: uma coisa á a notícia da violência, outra a sua exploração, sempre dependente de quem sabe tratar a informação; uma coisa é a violência real, infelizmente muita e frequentemente extrema, outra é a violência fictícia, fabricada ou inventada, ficcionada em filmes, apresentada como modelo, enaltecida ou simplesmente exibida à tendência mimética das crianças ou mesmo dos adultos (todo o adulto tem dentro de sim algo de criança). Aqui é que bate o ponto: são os mundos fictícios como modelos, inconscientemente interiorizados, do mundo real. Indigna-se a opinião pública com os episódios da pedofilia; levanta-se em clamor a terra inteira com a barbariade do assassinato de um cidadão. Tudo isto cheira a hipocrisia: quantos assasinatos pode observar por dia uma criança? Quantas violações? Quantas agressões sexuais? Quantas seduções ocasionais? Quantas destruições ou esmagamentos nos desenhos animados? Parecem o nosso ambiente quotidiano. A reacção, talvez ainda insuficiente, de indignação perante os crimes é salutar; mas é hipócrita: aceitamos a pedagogia do crime e depois lamentamos a sua presença.

3. Por tudo isto, temos de considerar que os mecanismos da chamada "auto-regulação" por parte das televisões não nos ofereçam a necessária confiança, se ajuizarmos pelo que se tem verificado. Não é de crer que estações que nos habituaram a toda a espécie de requintadas formas de explorar os sentimentos mais primitivos e de exibir agressividades, frustrações, sentimentalismos balofos, toda a espécie de macacadas de cariz selvagem, com o argumento inestimável de que "o público aprecia", e que a televisão é um espectáculo popular, venham agora humildemente, em atitude de suprema e indizível seriedade irrepreensível, assumir, em vistosa teoria, um papel que sempre negaram na prática, ainda por cima brasonando descaradamente de tal atitude. Mais uma vez chegados aqui, ao acordo referido, importa contruir uma nova mentalidade social e cultural. Dizem que noutros países este mecanismo deu resultados. Esperemos que por aqui isso aconteça. Mas importa que devamos exprimir essa ponta de cepticismo que pode ser salutar: uma tal transformação de mentalidade cultural não parece ao alcance dos actuais próceres, marcados pelo fantasma económico e iludidos com os êxitos das modas. Haverá que esperar outros. Este tipo de modificações de mentalidades, e sobretudo de espírito de acção, costuma tardar muito tempo.
E já que quando este jornal vos chegar às mãos se passa o dia centenário da morte do padre António Vieira, fiquem lá com esta: "Os mais felizes reinos não são aqueles que têm as mais entendidas cabeças, senão aqueles que têm as mais bem entendidads mãos. Dos entendimentos das mãos é que se fazem os prudentes conselhos; porque os conselhos prudentes, que não passam do entendimento às mãos, fazem-se de prudentes néscios". Bem me temo que não se engane o mestre.
C. F.
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CINEMA

«UMA SEMANA DE CINEMA»

 

De 17 a 23 de Julho

 

TELEVISÃO - Depois dos dramas chineses e dos clássicos com James Cagney, a rubrica Cinco Noites, Cinco Filmes da RTP2 vai dedicar o seu espaço desta semana ao drama da guerra do Vietname. A intervenção militar dos Estados Unidos no Extremo Oriente teve graves repercussões no plano político, mas pelo menos proporcionou aos cineastas amplo material. Raros são os filmes que glorificaram abertamente a ideologia combatente. O único exemplo destes é «Os Boinas Verdes» (1968), dirigido e interpretado por John Wayne, e que, aliás, foi bastante mal recebido. Talvez por isso a RTP2 não o tenha agendado para este ciclo. De todos os filmes seleccionados, a melhor escolha é, sem dúvida, «O Caçador», de Michael Cimino (1979), com Robert De Niro, Meryl Streep, Christopher Walken, John Cazale, John Savage e George Dzundza. Em Clayton, povoação mineira da Pennsylvania, três metalúrgicos, Michael (De Niro), Nick (Walken) e Steven (Savage), levam uma vida sossegada, entre o trabalho fabril e a caça ao veado. No entanto, os Estados Unidos estão em guerra com o Vietname... Dois anos depois, encontramos os três homens envolvidos no conflito indochinês.

Inúmeros filmes americanos tentam analisar os conflitos bélicos sob os mais variados aspectos, desde os violentos confrontos no campo de batalha até o choque psicológico da desmobilização. No início dos anos 80, assistimos a um ressurgimento do filme de guerra, concebido como uma espécie de exorcismo da má consciência americana. É o caso de «Apocalipse Now», de Francis Coppola, de «Platoon-Os Bravos do Pelotão», de Oliver Stone, ou de «Nascido para Matar», de Stanley Kubrick. Nessas produções, o melhor convive com o pior, e a verdade humana muitas vezes é sacrificada em favor do espectáculo.

Michael Cimino (nascido em 1943) parece ter encontrado um equilíbrio justo entre a emoção e a crueldade, no grandioso afresco deste «The Deer Hunter». Longe de comprazer-se com a descrição dos horrores da guerra, ele limita-se a evocá-los, indirectamente, no decorrer de breves sequências, aliás duríssimas, precedidas por explêndidas escapadelas bucólicas ( o casamento, a caça ao veado) e encerradas por um hino de esperança perturbador ("God bless America"). Disso resulta uma sensação de grandeza épica raramente experimentada desde Griffith. Para ver na terça-feira, 22.

Outros filmes para ver: «North: O Puto-Maravilha», juvenil, de Rob Reiner (1994), com Elijah Wood e Bruce Willis: um miúdo de 11 anos viaja pelo mundo em busca da família perfeita (RTP1, sexta, 18); «Disposta a Tudo», comédia negra, de Gus van Sant (1995), com Nicole Kidman e Matt Dillon: até onde pode ir uma mulher que ambiciona este mundo e o outro? (TVI, sábado, 19); «Batman», aventuras, de Tim Burton (1989), com Michael Keaton, Jack Nicholson e Kim Basinger: as aventuras do homem-morcego (SIC, domingo, 20); «Bom Dia, Vietname», comédia, de Barry Levinson (1987), com Robin Williams no papel de um locutor radiofónico na zona de guerra (RTP2, quarta, 23).

 

CINEMA - Intercâmbiar a residência com um desconhecido pode abalar a vida para sempre. Este é o ponto de partida de uma relação transoceânica entre William Hurt e a francesa Juliette Binoche (Oscar de Melhor Actriz Secundária 1996 em «O Paciente Inglês»). Binoche é Beatrice, uma bailarina parisiense, desorganizada e extrovertida, que cede o seu apartamento em Belleville a Henry (Hurt), um reputado psicanalista que vive num luxuoso apartamento na 5ª Avenida. Beatrice começa a ocupar com êxito o lugar de Henry nas consultas, o que o leva a sentir grande necessidade em conhecê-la. Assim, apresenta-se perante ela sob a falsa identidade de um paciente (o paciente americano). E, como era de esperar, apaixonam-se. Assim se resume o último filme da francesa Chantal Ackerman, «Um Divã em Nova Iorque», uma comédia romântica onde um psicanalista americano e uma bailarina francesa estabelecem um intercâmbio com os seus apartamentos de Nova Iorque e Paris, iniciando uma relação sentimental derivada da peculiar personalidade que se adivinha nas suas casas.

Chantal Ackerman define o seu filme como "a história de duas personagens vivendo fora do seu ambiente, o que provoca situações divertidas mas também dramáticas. Fala de uma rapariga desorganizada, espontânea e aberta que ocupa o apartamento de um indivíduo obsessivo que oculta grandes segredos".

Apesar de ter pretensões de fazer uma comédia irónica sobre a psicanálise ao estilo Lubitsch, o filme é uma nova experiência da francesa Chantal Ackerman, que não consegue aproveitar devidamente as potencialidades dos protagonistas, cuja relação freudiana não é um algum momento convincente. Uma comédia com certa estrutura e um humor muito peculiar, onde a forma de decorar e organizar um apartamento também pode ser motivo de atracção. A psicanálise e um jogo de identidades usurpadas farão as delícias de quem visionar este filme, distribuído por Atalanta Filmes.

 

VASCO MARTINS

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