| Cultura: | ||
| "O artista é bom artista, não havia necessidade..." |
1. Entre as qualidades mais reconhecíveis de um "bom artista" deve estar a do sentido da auto-crítica. Não tenho tido oportunidade de ver sempre esse programa de "humor", de diversão e de crítica social chamado Herman Enciclopédia. Algo no entanto tem caído sob meus olhos, para redigir estas breves observações. Escrevo "humor", porque o humor verdadeiro é coisa rara e anda muitas vezes arredio desse e doutros programas que querem aproveitar o bom acolhimento que tal perpectiva de análise social (o humor, o cómico) encontra nos espectadores, segundo os testemunhos dos audímetros. Só que para fazer humor sério (porque o humor, e a capacidade de sentido do humor é uma das coisas mais sérias que há) é preciso muito talento e uma forte dose dessa sensibilidade que consiste em captar os fracos da sociedade e filtrá-los através de situações cénicas, ora caricatas, ora subtis, ora caricaturais, ora realistas, ora simbólicas.
Foi esse o segredo dos grandes autores de comédia, como é o caso do nosso Gil Vicente, que zurziu os vícios do tempo, tanto pelas situações, como pelas intrigas, como pela caricatura, como pela própria linguagem. Com o desplante de o fazer geralmente diante do rei e de ambundância de gradas figuras eclesiásticas. O no entanto, coisa que poucas vezes é dita, Gil Vicente era homem de fundas e fundamentadas convicções religiosas e morais, e é autor de alguns dos mais belos e inspirados hinos e poemas religiosos da nossa literatura.
2. O sentido da autocrítica é coisa que pouco se observa e menos se sente nos nossos próceres televisivos. Geralmente saem sempre impantes e prosápicos da selva dos seus mais redondos disparates,das suas observações inoportunas, e muito mais dos seus silêncios e olvidos. Razão pela qual a figura criada nesta última série do atrás referido programa, possuindo a dimensão da autocrítica, possui também a dimensão de uma sadia capacidade de distanciamento em relação aos próprios disparates. Está claro que e figura não tem apenas a dimensão da autocrítica. Quem vê nela apenas uma das suas facetas será mesmo facilmente levado a considerar a exclusividade, ou ao menos a preponderância, da vertente crítica anticlerical e antimoralista, simbolizada na figura do diácono Remédios, "provedor" do programa. A sua pronúncia ao estilo viseense (estilo sem dúvida respeitável, não se veja aqui qualquer desmerecimento pela forma de falar da região beirã) com aqueles sss forçados no final das frases, os tiques típicos de bater com os dedos na mesa, o tom de voz marcadamente melífluo e censório, associado a um texto caricatural que propositadamente excede as medidas do bom senso e do equilíbrio, numa sirtuação em que um e outro seriam supostos, tudo isto constitui um quadro em que é fácil exagerar a componente anticlerical, ridicularizadora de censuras morais ou das próprias éticas deontológicas.
3. Mas essa é apenas uma face da moeda. A outra é a autocrítica de dupla vertente: à pessoa-actor, protagonista dos quadros censurados, e à própria imaginação, estruturação e construção dos mesmos. Parece vislumbrar-se ali (ao contrário do que se verifica noutros programas) a consciência de que existe uma espécie de censura social em relação a quadros ou realizações televisivas que desprestigiam instituições, valores religiosos, convicções profundas. Perfilam-se três formas de diluir esse sentimento: uma é eliminar tais referências; outra taxar, com todo o ar sério e dogmático de uma certa mentalidade mediática triunfante, de retrógadas e obscurantistas tais profissões morais; a terceira é a que os autores do programa assumiram: diluir o impacto das reservas e das censuras plausíveis e necessárias (há necessidade de denunciar a superficialidade, a banalidade e a falta de compreensão muitas vezes inculta com que se abordam tais assuntos) no líquido amniótico de um quadro que é ao mesmo tempo crítico para fora e crítico para dentro.
4. Não se pode negar a criatividade (ou a criativa vaidade) de um tal quadro, por muito que ele se inscreva na nossa mais retinta e abundante tradição satírica de cariz anticlerical e laico. O seu carácter ambivalente e ambíguo dá-lhe sempre margem de manobra. Ele constitui uma imagem de atitudes correntes do próprio cidadão comum, que acorre à moral quando lhe convém e a transgride e satiriza quando convém lançá-la na cara dos outros. Nessa altura usa-se a palavra hipócrita, nunca referida às atitudes próprias.
É também um pouco a imagem da doença infantil dos famosos, ou tidos por famosos, que se permitem o luxo de recorrer ao ridículo e à caricatura para deslustrarem os valores que não são capazes de assumir, ou para destruírem as pessoas que por fidelidade e consciência os continuam a proclamar. São estes os sintomas ou as características de uma sociedade, de uma comunicação social dita pluralista, mas em que o conceito de plural raramente chega ao plural dos gregos. (Que me perdoe a paráfrase o padre Vieira, que também zurziu forte tanto nos poderosos como nos vívios sociais). Geralmente o pluralismo para muita comunicação social, resume-se à opinião própria e às opiniões dos amigos do mesmo feitio ou da mesma quadratura.
5. Mas já que começámos pelo bom artista, proclame-se que o dito (ou auto-dito) é dos poucos satíricos televisivos em que, para além das suas qualidades histriónicas, vocais, inventivas e cénicas, se vislumbram laivos de uma rara inteligência e sensibilidade para captar o ridículo do nosso quotidiano social e cultural. Se expurgássemos a generalidade dos programas dos quadros em que se exibem atitudes gratuita e grosseiramente exibicionistas, e de outras em que se ronda de forma bronca e rude a coprologia ou coprolalia (a porcaria de expressões, comportamentos ou gestos, em termos menos técnicos), o que tudo parece traduzir alguma tendência obsessiva com algo de doentio, dir-se-ia que estávamos perante um programa de rara qualidade. Assim é como se estivéssemos perante um quadro que um qualquer energúmeno tivesse conspurcado com mixórdias ou rasgado com punhal assassino.
| C. F. |
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Entre 1 e 6 de Julho, a cidade de Vila do Conde voltou a ser cenário para mais uma edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens, já no seu quinto ano de existência, cada vez mais pujante, procurando continuar a ser o único espaço português vocacionado para a difusão de filmes de pequena e média duração (até 80 minutos), nacionais e estrangeiros, oportunidade para conhecer obras inéditas de grandes cineastas famosos e de recém-chegados ao género. O certame surge, e bem, na idéia de um grupo de jovens cineclubistas dessa vila nortenha, incondicionais devoradores dos curtos exemplares que não há muito tempo antecediam as sessões de cinema comercial, lado a lado com os filmes de animação, e que já naquele tempo revelavam talentos desconhecidos. Dario Oliveira, Rui Maia, Mário Micaelo, José Nuno Rodrigues e Miguel Dias continuam a ser a alavanca humana do festival desde o início, apoiados já por um fabuloso staff que tem tanto de simpatia como notória eficiência. Desde o seu primeiro ano, o festival evoluiu, sempre para melhor, mas continua a caracterizar-se por um certo amadorismo, distanciando-se dos outros festivais nacionais e até estrangeiros, pela falta de apoios económicos à altura de uma organização do género, sendo por isso o único festival de cinema que não apoia a Comunicação Social como deveria ser no sentido de nos fornecer as garantias mínimas (continuamos, alguns, a ter de pagar do nosso bolso a alimentação e o alojamento!) para um melhor trabalho e uma melhor colaboração. Talvez por esse facto, o Festival Internacional de Curtas-Metragens, de Vila do Conde, ainda não seja, como alguma imprensa ditou, o mais mediático festival do país. Em todo o caso, continuo a achar este certame uma idéia óptima, com bons propósitos. Ainda assim, o festival conseguiu algo de muito importante: alcançou o reconhecimento internacional, por parte dos produtores e dos profissionais do sector, e o apreço do público e da imprensa acreditada.
Além do incondicional apoio, desde a primeira hora, da edilidade vilacondense, o certame conta ainda com apoios vindos do Ministério da Cultura, através do IPACA-Instituto Português da Arte Cinematográfica e do Audiovisual, da Comissão Europeia, da Secretaria de Estado da Juventude/Instituto Português da Juventude, e de muitos outros organismos, entre públicos a privados, diversas câmaras municipais do norte, centro e sul do país, e alguns particulares.
O Festival Internacional de Curtas-Metragens caracteriza-se como um certame de descoberta, onde o público toma contacto com novos cineastas e novas formas de leitura da linguagem cinematográfica, mas também um festival de retrospectiva, por vezes satisfazendo desejos nostálgicos, onde se mostram obras, às vezes inéditas, de realizadores mais ou menos conhecidos do grande público (como foi o caso de Sergeï Eisenstein, Sally Potter, Istvan Szabo, Jacques Demy, Karel Reisz, Buster Keaton e Busby Berkeley, entre outros). Também a produção nacional teve o seu espaço privilegiado em três sessões competitivas, destacando-se «O Prego», de João Maia, «Morte Macaca», de Jeanne Waltz, «-9», de Rita Nunes, «O Despertador», de Júlio Alves, e «O Massacre dos Inocentes», de Victor Serra Lopes. As filmografias dos americanos Kenneth Anger (especializado no cinema underground) e John Lurie (que passou a vida a pescar com famosos actores e cineastas contemporâneos) foram as principais retrospectivas, tendo os próprios estado presentes em Vila do Conde. Como a tónica dominante deste certame era a Música, foram apresentados alguns exemplos clássicos (como os desenhos animados da Warner Bros., que, entre 1936 e 1958, eram sublinhados pelas composições de Carl Stalling, acompanhando as trapaças do Daffy Duck) e modernos (com temas de Jazz e Pop Rock). O cinema de animação também foi muito apreciado, com duas sessões bastante concorridas, podendo-se recordar com certa nostalgia glórias do passado, criações de Lotte Reiniger, Dave Fleischer, Norman McLaren, Georges Pal, Peter Lord, entre outros.
Ao Júri Internacional deste ano, constituído por João Mário Grilo (reputado realizador português, autor de «Os Olhos da Ásia»), John Lurie (compositor, saxofonista, actor e realizador americano), Jayne Pilling (jornalista britânica), Robby Müller (director de fotografia holandês) e Dominique Marchais (crítico de cinema francês), foram apresentadas 57 curtas-metragens oriundas de 26 países dos cinco continentes, pelo que após deliberação unânime, atribuiu os três seguintes prémios:
Prémio Ficção - «One Sunday Morning», de Manu Kurewa (Grã-Bretanha);
Prémio Animação - «Many Happy Returns», de Marjut Rimminen (Grã-Bretanha);
Prémio Documentário - «Where Did Forever Go?», de Michael Dwass (EUA).
O Júri Nacional, formado por Joaquim Sapinho (realizador português, autor de «Corte de Cabelo»), Leonor Silveira (actriz de eleição de Manoel de Oliveira) e Christian Thomas (Director do Festival Internacional de Cinema de Bruxelas), visionou 14 filmes portugueses, e atribuiu os seguintes prémios:
Prémio Cottinelli Telmo - «O Homem do Combóio», de Ricardo Rezende/Elsa Bruxelas;
Prémio Jovem Cineasta Português (primeira obra) - «-9», de Rita Nunes.
A RTP, como tem vindo a fazer noutros festivais, também apoia o 5º FICMVC atribuindo o Prémio RTP-Onda Curta a duas películas: «Le Signaleur», de Benoît Mariage (Bélgica), e «-9», da jovem lisboeta Rita Nunes. Estas serão adquiridas pela televisão estatal, que se prontifica em exibí-las precisamente no programa "Onda Curta", da RTP2, espaço dedicado à divulgação de curtas-metragens. Este prémio foi seleccionado por João Garção Borges (da RTP), Catarina Portas (jornalista) e José Miguel Gaspar (jornalista).
A decisão do Público caiu sob o filme: «The Bloody Olive», de Vincent Bal (Bélgica); note-se que este prémio é atribuído por todos os espectadores (público, jornalistas, convidados), através de fichas fornecidas no início de cada sessão competitiva.
O 5º FICMVC chegou ao fim com uma grande festa cubana, após a sessão de encerramento e entrega dos prémios, e a exibição dos filmes premiados. Para o ano há mais, espera-se que muito melhor, não só a nível de filmes, mas que a organização esteja mais "profissionalizada".
| Vasco Martins |
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Alguns cartazes de sensibilização para a matrícula em Educação Moral e Religiosa Católica, distribuídos pelo secretariado nacional da Educação Cristã, chamam a atenção dos pais e dos alunos para o interesse nessa matrícula. Situada na área da Formação Pessoal e Social, essa aula pretende responder, de forma escolar, às questões que se levantam aos alunos no estudo de diversas matérias. Além de grande enriquecimento cultural, a aula proporciona uma aprendizagem em grupo e a resposta a questões sobre Deus, a Igreja e as diversas formas de vida cristã.
Ainda que, em muitos lugares, os alunos escolham entre uma aula e um tempo livre, por não haver aula de Desenvolvimento Pessoal e Social, mais de 50 por cento dos alunos das escolas participam nesta aula. Outros, facilmente se dispensam, imaginando que é substituída pela Catequese ou pela participação nalgum grupo de jovens. E ficam sem um esclarecimento intelectual que lhes fará falta ao longo dops tempos. O programa das aulas do ensino secundário, um nível em que apenas 14 por cento dos alunos escolhem a aula, é quase desconhecido da opinião pública.
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