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| "Há muitos casamentos que, se forem analisados, sobretudo tendo em conta os critérios colocados pela Igreja, podem ser declarados nulos". | D. António Monteiro, Bispo de Viseu |
Segundo o Serviço Europeu de Estatísticas - Eurostat
- 28% das pessoas com menos de 30 anos vivem maritalmente sem
serem casadas. São as ditas uniões de facto
ou uniões livres como o inquérito do Eurostat lhes
chama. No que respeita a Portugal, de acordo com os dados do Instituto
Nacional de Estatística, em 1995 registaram-se 12.300 divórcios,
pouco menos que um quinto do número de casamentos no mesmo
ano. E aos divórcios seguem-se, em muitos casos, uniões
de facto.
Sinal dos tempos, dir-se-á. Mas dizê-lo nem responde
à pergunta - Porquê? - nem contribui para resolver
o problema. "Sinal dos tempos" pode significar um displicente
encolher de ombros, como quem diz "a vida é assim"...
Mas nem sempre foi assim; nem é assim necessariamente;
nem talvez deva ser assim.
Nem sempre foi assim. Como também nem sempre foi assim
com o casamento; e nem em toda a parte este é assim. Se
compararmos com os povos primitivos e as grandes civilizações
a concepção ocidental moderna do casamento,
vemos que ela se distingue de todas as outras: baseia-se na livre
escolha individual. Noutros tempos e lugares, casar é sobretudo
função de factores colectivos: endogamia,
exogamia, estatuto social, raça, religião, condição
económica - factores que se impõem com proibições
e convenções e reduzem fortemente a margem de escolha
individual. Hoje, entre nós, a situação inverteu-se.
Tais factores cederam perante a importância crescente
da escolha individual e não são obstáculo
nem inibição como o eram ainda no século
XIX, se bem que já com notórios sintomas de recusa:
o amor contrariado resolvia-se frequentes vezes na tragédia
ou no convento, como testemunha a literatura da época.
E, perante isto, uma curiosa tese: para Denis de Rougemont, filósofo
suíço, é o próprio amor que mata
o casamento.
Desde a Idade Média que a poesia trovadoresca cultiva um
tipo de amor que designamos por amor romântico, mais
feito de expectativa do que de experiência, mais sonhado
que real, amor sobretudo de ausência e separação
mais que de presença e união. A "saudade"
de Leal Conselheiro, "filha do amor e da distância"
exprime talvez este sentimento romântico que imbuiu a literatura
ocidental ao longo deste segundo milénio e passou a determinar
uma das grandes decisões da vida: é sobretudo neste
amor romântico - uma espécie de aventura e saudade
do futuro - que se baseia a livre escolha individual dos
cônjuges.
"Infinitamente interessante de se experimentar", diz
Rougemont, este amor de romance é, todavia, por definição,
frágil e precário; "uma febre passageira
(...) incompatível, pela sua própria natureza,
com o matrimónio" e com as razões por que
este foi criado.
É uma das experiências mais doentias e mais perversas
da nossa civilização esta de basearmos num capricho
efémero e instável uma decisão por natureza
duradoura como é a do casamento. O amor romântico
não resiste ao tempo. "O resultado lógico
e normal do casamento baseado apenas no amor romântico
é o divórcio" - citamos ainda o nosso autor.
Daí, como reacção, vem a própria decadência
deste amor romântico: alimentava-se e robustecia-se com
os obstáculos que se lhe opunham; deixou de haver obstáculos
sociais e morais... fenece; generalizou-se e vulgarizou-se até
à comercialização nas revistas sentimentais
e nos filmes de Hollywood; deixou de ser um mito, passou a ser
uma mistificação. E, intuindo isto mesmo mais ou
menos lucidamente, as pessoas não casam, unem-se "de
facto"; aventuram-se mas não se comprometem.
E o Estado reage também, aliás contraditoriamente:
multiplicam-se os divórcios... que a lei facilita; mas
é o mesmo Estado que em relação às
uniões de facto, reconhecendo-as como ainda mais precárias,
as quer eliminar... legalizando-as.
A durabilidade do casamento, todavia, tem raízes sociais
e civilizacionais mais fundas do que as preocupações
do Estado e as despreocupadas decisões das pessoas: no
plano puramente humano, o casamento inventou-se por causa da
educação dos filhos; daí que a estabilidade
é mais importante que a felicidade.
Certo é, porém, que em matéria de costumes não se volta atrás facilmente; não será o apregoar das virtudes paternas - "no meu tempo" - que saneará este estado de coisas. O organismo social regenera-se pelos seus próprios mecanismos de defesa. Salvar-se-à o amor fazendo-o resistir ao tempo, reaprendendo-se a fundar o matrimónio num pacto de fidelidade de duas personalidades iguais, que substituem o narcisismo egocêntrico do amor-paixão (eros) pelo amor-acção (agape). E reintroduzindo no nosso código ético os normativos primordiais - "isto faz-se", "isto não se faz".
| Ernesto Campos |
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«São precisos rituais» - dizia a raposa ao «Princepezinho», no genial diálogo de A. de Saint-Exupéry. E, avançando no diálogo, a simpática zorra explicava ao seu interlocutor que «o ritual - uma coisa de que toda a gente se esqueceu - é o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas».
De facto, muita gente se esqueceu do que são os rituais e de como são preciosos. Até na relação entre duas pessoas que se procuram «cativar», eles são indispensáveis. Muito mais o são para exprimir e realizar a comunhão entre as várias pessoas (e não meros indivíduos) que constituem uma comunidade. Sem eles, toda a sociedade se tornará «anónima» e desumana. E por isso eles comparecem sempre em toda a autêntica celebração humana, incluindo a humaníssima e humanizadora celebração litúrgica cristã.
Impressiona, por isso a ligeireza e verdadeiro angelismo (por ignorância antropológica) daqueles que, imaginando, porventura, tornar a celebração mais próxima, informal e cordial («incarnada»!?), prescindem do «ritual» da Igreja com a sua riqueza de palavras, gestos, atitudes, movimentos, vestes, cores, objectos, espaços e tempos... Depois, como o ser humano não pode viver sem símbolos e ritos, põem-se a inventar a «pólvora» há muito inventada e a disparar tiros de pólvora seca em canhões de carregar pela boca... Resultado? Fumaça, muita fumaça... Nestes casos, a emenda é sempre pior do que o soneto.
Na verdade, estes esqueceram (ou ainda não aprenderam) a lição da raposa. Na celebração, pelo contrário, interrompe-se a lógica que nos comanda no quotidiano: do funcional, do prático, do económico, da poupança e do lucro, dos compromissos e das servidões; e triunfa a lógica do gratuito, da liberdade, do lúdico, do belo, da generosidade. Para poder marcar esta diferença, esta ruptura que toda a celebração comporta, o ser humano serve-se das artes e dos ritos... É a beleza e a ritualidade que nos permitem arrancar as coisas, os espaços, os comportamentos, as palavras e os gestos à sua vulgaridade e insignificância para os transfigurar em algo de infinitamente mais rico, de transcendente.
Um subsídio teológico-pastoral para a formação litúrgica, publicado pela Associação de Professores de Liturgia de Itália e intitulado «Celebrare in Spirito e Verità» sublinha esta verdade de modo feliz. Fazemos nossa esta tão oportuna reflexão:
«Embora se alimente do «dia-a-dia», uma celebração situa-se sempre no plano de uma "alteridade" em relação ao quotidiano. A linguagem celebrativa repropõe esta diversidade e terá necessariamente traços e características mesmo muito diversas das da linguagem e da vida de todos os dias. Liturgia e quotidiano colocam-se em dois planos diversos. Aliás, a liturgia contém em si um apelo vigoroso e profético aos tempos futuros, quando o homem será libertado das angústias do quotidiano. É a afirmação do gratuito como dimensão inalienável do espírito, imploração dos tempos novos, profissão de fé no cumprimento das promessas.
E a reflexão prossegue: «Gratuitidade é aceitar "perder" o seu tempo para o reencontrar enriquecido e mais cheio: antecipação, invocação e nostalgia de um tempo finalmente liberto da servidão da necessidade. Os gestos da liturgia participam desta dimensão profética: gestos pobres, "inúteis", mas portadores de uma densidade explosiva. Gestos que só para quem foi iniciado podem ter um sentido, porque capazes de projectar para além da história, do racional, do lógico. Capazes de imergir na salvação que se actua na pobreza dum sinal».
Trata-se, simplesmente, de ser coerente com o mistério da Incarnação. De facto, sendo a Liturgia do Verbo Incarnado, o Culto cristão não pode deixar de dar largo espaço ao rito e ao símbolo. Transcrevemos, ainda, do citado subsídio: «Pois que o Verbo se fez carne (Jo 1, 14ss). E falou como fala a carne, pensou como pensa a carne, comunicou como a carne pode e costuma comunicar. [...] A Palavra fez-se palavras. [...] A Imagem perfeita do Pai traduziu-se em imagens. Tornou-se sinal. Escondeu-se no símbolo. Escondeu-se nele e iluminou-o. Fez-se símbolo porque se fez carne. Fez-se homem. E o símbolo é linguagem propriamente humana, a mais rica, a mais profunda das linguagens humanas. [...] Por isso a Palavra incarnada teve predilecção pelo símbolo. E nele se escondeu com alegria. E com plena confiança. E confiou-o à sua Igreja: a revestir-lhe o anúncio, a significar-lhe o dom, a sustentar-lhe a oração».
| S.D.L. |
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