Cultura:

As obtusas comunicações

1. Dizem os jornais, e disseram-no antes as comunicações da galáxia de Marconi, que o pugilista americano Mark Tysen, aspirante ao título mundial de pugilismo, no decorrer do encontro com o actual detentor, de sua graça E. Holyfield, tomou a decisão que vai ficar para a história, de em vez de lhe pespegar os tradicionais socos, que não constituem qualquer espécie de agressão tipificada nos códigos judiciários (se for uma bofetada, ainda que pedagógica, sim, constitui uma agressão), lhe aferrou uma dentada na orelha, de tal teor e por tal guisa que lhe arrancou o respectivo lóbulo. Com este gesto grotesco e canino, o pugilista provocou uma reacção em cadeia: a) roubou a orelha (não se sabe se a engoliu); b) fez suspender o combate; c) foi desqualificado; d) ficou privado dos 30 milhões de dólares (uma ninharia comparável a uns quatro milhões de contos) do cachet, cachê ou caché, conforme se queira escrever, em vez de palavras tão torpes como remuneração, paga, pagamento, retribuição ou até estipêndio (já viram o que seria se se falasse do cachet da missa?); e) sobretudo, transformou-se de imediato em tema obrigatório e de abertura de noticiários e primeiras páginas pelo orbe inteiro.

O homem deve ter entendido que aquela peregrina norma dos códigos jornalísticos que diz: se um cão morder um homem, isso não é notícia; mas se um homem morder um cão, isso é notícia, e transformou-a adequadamente na seguinte formulação: se um pugilista der uma caterva de socos no adversário, até conseguir atirá-lo ao chão insconsciente ou lhe ganhar aos pontos, isso não é notícia; mas se caninamente, ou felinamente, ou tigrescamente, lhe arrancar uma fracção da orelha, que depois há-de ser rigorosamente tipificada em 1/5, 2/5, ou 7/10, então isso será a grande notícia para a ganância do raro, do insólito, do arrasante que vai embrenhar-se como se fora neoplasia fulminante, no cérebro insubmisso dos grandes meios informativos (e até dos pequenos, que são mais difíceis de atingir, mas não escapam: aqui está um bom exemplo), catapultando a acção e o nome do seu autor para as pantalhas do universo inteiro.


2. É neste mundo que nos movemos, não vale a pena ser derrotista. É o mundo das insignificâncias reais (o acontecimento não tem qualquer valor, se comparado com as quotidianas tragédias das guerras, das doenças ou das desavenças, do desemprego, ou mesmo do banal acidente doméstico em que alguém ficou sem um dedo que lhe vai impedir o trabalho de sobrevivência) transformadas em espectáculos virtuais, em acontecimentos universais, superiores aos progressos da luta contra a Sida ou à descoberta de novas gravuras ou pegadas de dinossauros em todos os sítios onde se queira fazer uma barragem.

É o mundo do consumismo inútil e balofo, porque as notícias, ou principalmente elas, também são um fruto sazonado e um instrumento irrecusável do consumismo. Este tipo de notícias constituem a pastilha elástica da informação, a coca-cola do jornalismo, o macdonalds da comunicação. É um mundo fantasmagórico e distorcido, de espelhos sofisticados, ou de cinematográficos efeitos especiais, que transformam pulgas em monstros, com que se encobrem os grandes dramas, os grandes ideais e os grandes feitos da humanidade.

Aliás, em comunicação, os grandes feitos e os grandes ideais, os grandes benfeitores da humanidade, os grandes artistas e os grandes criadores não são notícia. E se os grandes, que são poucos, o não são, muito menos os pequenos, que são muitos e nem por isso menos valiosos. São notícia os monstros, sejam eles os dinossáurios ou os pugilistas; notícia são os agressores e os transgressores, e tanto mais quanto mais minoria constituam; notícia são as guerras e os seus espectros, quando as guerras não existam.

Este mundo fantasmagórico, por muito verdadeiros que sejam os fantasmas, não existe, não é o nosso, não é o que vivemos, não é o nosso quotidiano. Não tem nada com o nosso trabalho, as nossas generosidades e as nossas fraquezas, as nossas alegrias sanjoaninas ou os lamentos pela chuva que não vem ou que vem em demasia, ou pela falta de sol que nos estraga as praias, ainda que nos garanta as frutas.


3. A maior tarefa que importaria instaurar na sociedade de hoje, para além dos novos horizontes para a educação, de que também se falou, em alguma (pouca) imprensa, na passada semana, e que não são os técnicos, nem os tecnológicos, mas sim os humanos e os axiológicos, será a de construir também novos horizontes para a informação. E também aqui os novos horizontes da informação não são os da técnica, mas os da ética e da moral. Educação e informação são os dois pilares, ora convergentes, ora de forças opostas e contraditórias, em que assenta a construção do mundo futuro, enquanto universo de pessoas livres. A técnica adapta-se facilmente ao homem, sempre que este se assume como pessoa; porém, se o homem perde os valores, ou se substitui os valores essenciais pelas escamas acessórias, se troca as aparências pelo universo interior, as materialidades pela força do espírito, então a humanidade não tem futuro. Ou tem o futuro da destruição.


4. Produzida que foi esta oportuna moralidade, que não estava nos meus iniciais propósitos escrituralistas, vamos a outro ponto, que foi o de partida. Um informador de uma das nossas prestimosas estações, proferindo aos ventos a notícia essencial da orelha mordida, deu-se à inovação de produzir um comentário nestes aproximados termos: agora o pugilista deverá dar entrada num hospital psiquiátrico, provavelmente com um açaimo (sic) na boca.

Assim o jornalista assemelhou-se ao pugilista: em vez de lhe morder fisicamente a orelha, mordeu-o todo eticamente com uma palavra e uma comparação inoportuna; a agressão física foi transformada em agressão moral; a orelha foi substituída pela personalidade.

Não há nada pior do que um informador armado em moralista!
C. F.
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CINEMA

"A Dama e o Vagabundo"

Situada cronológicamente entre «Peter Pan» e «A Bela Adormecida», e estreada no mesmo ano da inauguração da Disneylandia, «A Dama e o Vagabundo» constituiu em 1955 um importante desafio técnico. Pela primeira vez, os Estúdios Disney empreendiam a difícil tarefa de rodar uma longa-metragem de desenhos animados em formato Cinemascope, utilizando a câmara multiplana horizontal que o próprio Walt Disney havia idealizado em 1937 para introduzir a tridimensionalidade nos seus filmes. O resultado marcaria a definitiva dedicação do popular criador à sucessiva fabricação industrial, após a experiência arriscada de «Alice no País das Fadas».

Pertencente a uma época todavia clássica do desenho disneyano, e dirigida pelo triunvirato habitual da casa - Hamilton Luske, Clyde Geronimi, Wilfred Jackson -, «A Dama e o Vagabundo» apresenta todos os ingredientes que conferem crédito à fábrica de Walt Disney: animais, canções, sentimentalismo que ronda às vezes o ridículo, mais algum toque de sinistro suspense que surpreende encontrar num filme destinado em princípio às crianças. Mas, por outro lado, é um filme insólito no panorama da produção do famoso estúdio de animação. Insólito por quanto está baseado num relato contemporâneo, situado num ambiente inédito aos que o precederam: o meio urbano. Magnífico em todos os seus cenários e em todas as suas personagens, o filme marcou um ponto culminante na evolução da técnica da animação de desenhos, cujo enorme êxito obtido foi decisivo para que "o mago de Burbank" se decidisse a abordar a difícil empresa da «Bela Adormecida», cujo rendimento comercial se revelou decepcionante.

Um longo processo de gestação. Numa tarde de 1925, depois de passar uma longa jornada inclinado sobre o seu estirador, Walt Disney esqueceu-se da hora de jantar, e assim que chegou a casa levava um presente de paz para sua mulher: uma cadelinha metida numa caixa de chapéus. Essa imagem ficou-lhe gravada na memória, e em 1937 começou a preparar uma curta-metragem de animação sobre as aventuras duma cocker spaniel de agradáveis costumes. Os storyboards começaram a tomar forma em Junho de 1943. Narravam a história de Lady e Tramp com um elenco de secundários que incluia um par de gatos siameses e uma ratazana. O momento crucial da fabricação do filme chegou quando Disney leu um artigo de Ward Greene publicado na revista Cosmopolitan intitulado «Happy Dan, the Whistling Dog» (o cão que assobia). Em seu entender, o desenvolto e boémio canino parecia o companheiro ideal para Lady. De imediato contactou o autor, trocando histórias sobre cachorros e experiências familiares com os seus animais. Ward entusiasmou-se de tal modo com o vagabundo da idéia de Disney, que escreveu um livro sobre as suas aventuras, tornando-se o eixo de todo o projecto. A decisão de transformar o curto em longa-metragem estava tomada. Greene modificou o seu artigo e intitulou-o «Happy Dan, the Whistling Dog, and Miss Patsy, the Beautiful Spaniel», o qual, devidamente adaptado, se converteu em «Lady and the Tramp». Mas teve que se esperar até 1953 para que a história tomásse forma.

«A Dama e o Vagabundo» ofereceu a toda a equipa de animação uma oportunidade única para criar a sua própria história com personagens originais. Pela primeira vez não estavam condicionados ao típico conto de fadas nem a uma encantadora fábula. Os desenhadores estavam mais livres para criar e moldar personagens novas.

Um dos principais desafios que a equipa teve de enfrentar foi a utilização do Cinemascope. Até então nunca se havia experimentado fazer um filme de desenhos animados usando este sistema, dado o longo período de elaboração que era necessário. Mas o êxito alcançado pela Fox com a estreia de «A Túnica» -o primeiro filme a empregar o novo sistema - animou "o mago de Burbank" a aceitar esse novo desafio. Foi então que os animadores fizeram uma importante descoberta: como o ecrã era mais largo que o normal, eram os personagens que se moviam, não os cenários. Por outras palavras, o personagem podia-se mover muito mais sem sair, por assim dizer, dos limites da película. Isso implicava que os fundos deviam ser cuidados ao máximo detalhe. Para o conseguir fabricaram-se cenários em miniatura, de modo que os desenhadores poderam visualizar as cenas de forma mais unificada. Para resolver o problema da perspectiva em ecrã largo, construiram-se modelos à escala de 3,8cm. Os personagens protagonistas foram recortados directamente do celulóide para que o seu tamanho fosse o adequado e correspondesse com os cenários.

Os modelos. Como no caso de «Bambi», para o que se basearam em animais reais, a Disney fez desfilar pelos estúdios de Burbank toda uma série de caninos, que os animadores estudaram e desenharam, preocupados em captar as reacções e os movimentos dos cães. Depois estavam mais à vontade para imprimir-lhes sentimentos e traços humanos de modo a transformar a realidade em fantasia. Para desenhar a Lady, os desenhadores escolheram uma atraente cocker spaniel chamada Blondie que pertencia à actriz Verna Felton. E, segundo se crê, o modelo do Tramp foi um cachorro vira-lata que havia sido resgatado de um canil. Ao todo, mais de 150 animadores trabalharam arduamente durante quatro anos para criar os quase dois milhões de desenhos e 110.000 fotogramas coloridos que formam o filme.

Calcula-se que «A Dama e o Vagabundo» custou quatro milhões de dólares e mais de três anos de produção. A colaboração de Peggy Lee, que compôs as canções juntamente com Sonny Burke, foi decisiva para o sucesso do filme. A cantora chegou a dar voz a alguns personagens: Darling, Peg e os gatos siameses.

Segundo a opinião geral, encontrámo-nos perante uma das longa-metragens mais encantadoras dos estúdios Disney (embora a crítica da altura não tenha sido muito amável com ela) e, do ponto de vista emocional, não há dúvida que é uma das mais contidas. A história tinha momentos de sobra para ser lamechas, mas a produtora quis que o filme fosse comovente somente quando tivesse mesmo que ser, sem renunciar por isso ao conservadorismo próprio dos estúdios e aos toques sentimentais habituais. Até o humor foi bem tratado: há muitos momentos que nos fazem rir ou soltar gargalhadas, claro, mas palhaçadas puras encontramos muito poucas.

Dedicado a "todos os cães do mundo, semdistinção de classes sociais", o filme contêm cenas antológicas que perduram na memória de várias gerações. Recordo com delícia a cena de Lady e o Vagabundo no restaurante italiano, o concerto - realmente memorável - dos cães no canil ou o humor e extraordinário ritmo da apresentação dos gatos siameses Si e Am, numa sequência que se inscreve dentro do estilo do melhor cinema muscal.

Para todas as gerações de amantes da animação Disney (e não só), a Lusomundo Audiovisuais re-estreou uma versão renovada deste delicioso filme com 42 anos de vida.
Vasco Martins
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Aula de Educação Moral

Alguns cartazes de sensibilização para a matrícula em Educação Moral e Religiosa Católica, distribuídos pelo secretariado nacional da Educação Cristã, chamam a atenção dos pais e dos alunos para o interesse nessa matrícula. Situada na área da Formação Pessoal e Social, essa aula pretende responder, de forma escolar, às questões que se levantam aos alunos no estudo de diversas matérias. Além de grande enriquecimento cultural, a aula proporciona uma aprendizagem em grupo e a resposta a questões sobre Deus, a Igreja e as diversas formas de vida cristã.

Ainda que, em muitos lugares, os alunos escolham entre uma aula e um tempo livre, por não haver aula de Desenvolvimento Pessoal e Social, mais de 50 por cento dos alunos das escolas participam nesta aula. Outros, facilmente se dispensam, imaginando que é substituída pela Catequese ou pela participação nalgum grupo de jovens. E ficam sem um esclarecimento intelectual que lhes fará falta ao longo dops tempos. O programa das aulas do ensino secundário, um nível em que apenas 14 por cento dos alunos escolhem a aula, é quase desconhecido da opinião pública.
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