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| É indiscutível que o Antigo Testamento nos revela um Deus que não recua diante da violência quando se trata de proteger o Seu povo, em face dos povos que o hostilizam, ou para castigar as infidelidades desse mesmo povo. |
Deus condena a violência humana, mas ao mesmo tempo é Ele próprio violento contra os que praticam a violência. Isto, claro, se entendermos como violência todas as formas de castigo das maldades praticadas pelo homem.
Assim, a libertação dos israelitas da escravidão do Egipto faz-se à custa da violência exercida contra o Faraó e o seu povo. Deus cumpre a promessa de dar uma terra ao povo da Aliança, mas para isso tem de expulsar os cananeus da terra que habitavam até aí. Quando o povo israelita é infiel à aliança, serve-se das violências exercidas pelos povos vizinhos para o castigar, por vezes duramente, como foi o caso dos longos anos de cativeiro na Babilónia. No Deuteronómio (28, 58 e seg.) afirma-se expressamente: Se não cuidardes de praticar todas as palavras desta lei, escritas neste livro... o Senhor causará flagelos extraordinários em ti e na tua descendência... E assim como o Senhor se comprazia em abençoar-vos, assim se há-de comprazer em arruinar-vos e destruir-vos. E mais adiante: Vedes, afinal, que Eu, Eu sou, e não há deus ao meu lado; Eu mato e ressuscito; firo e, ao mesmo tempo, curo, e nada pode subtrair-se ao Meu poder.
Esta ideia da retribuição do bem e do castigo do mal está enraizada em nós. Ouvimos frequentemente dizer: é castigo de Deus, ou Deus castiga-te, por vezes dirigido mesmo às crianças, ou ainda, quando alguma desgraça bate à nossa porta, que mal fiz eu a Deus para que isto me aconteça?.
Já foi afirmado por pessoas responsáveis na Igreja que a SIDA era castigo de Deus! Trata-se de uma forma menos correcta de ver as várias situações. O homem está sujeito a leis físicas, como todos os demais seres deste universo a que pertence, leis que não dependem do seu arbítrio. Mas, como ser livre que é, está igualmente sujeito a leis morais, adequadas à sua natureza de ser inteligente e livre, leis que deve cumprir, para seu próprio bem, por imperativo da sua consciência bem esclarecida. A não observância das leis físicas conduziria à destruição da natureza. O desrespeito pelas leis morais traz-lhe igualmente consequências gravosas, ainda que isso não seja imediatamente evidente. Os males que poderão decorrer desses comportamentos incorrectos não deverão imputar-se a um castigo de Deus; deverão antes considerar-se consequência do mau uso da liberdade. Não é isso afinal o que está a acontecer presentemente com o desrespeito pelas leis ecológicas? E não se diz mesmo que a natureza se vinga desse mau comportamento humano?
É neste sentido que podemos interpretar muitas das afirmações do Antigo Testamento, como aquelas que aqui foram citadas, ou como estas tiradas do livro do Êxodo, que revelam a face misericordiosa de Deus: Iavé, Iavé. Deus compassivo e misericordioso, lento para a ira e rico em misericórdia e fidelidade, que perdoa a iniquidade, o delito e o pecado, mas que também nada deixa sem castigo. Ou, como se diz no Salmo 86: Vós, Senhor, sois bom e indulgente, cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam... Vós, Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo, paciente e cheio de misericórdia e de fidelidade.
Segundo alguns comentadores, há dois aspectos na revelação de Deus: o aspecto tremendum, que constitui um momento provisório, destinado a desaparecer, a quando da plena manifestação do aspecto fascinans; e este durará para sempre.
O aspecto tremendo aparece com frequência no Antigo Testamento e compreende-se, tendo em conta os condicionalismos culturais do povo israelita e dos povos vizinhos. E ainda hoje, para muitos de nós, é bom ter presente esse aspecto tremendo de Deus, segundo a palavra do livro dos Provérbios: o temor de Deus é o princípio da sabedoria.
Mas a perfeição não está no temor, está no amor. E este é consequência do aspecto fascinante de Deus, já revelado no Antigo Testamento, mas que só na pessoa de Jesus Cristo atinge a sua forma mais compreensível e convincente.
Ezequiel anuncia isto mesmo quando põe na boca de Deus: Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e dar-vos-ei um coração de carne. Ou, segundo Jeremias: Porei a minha lei nos seus corações e a imprimirei nas suas mentes; eles me terão por seu Deus e eu os terei por meu povo. No livro de Isaías: Pode uma mulher esquecer o fruto das suas entranhas? Pois ainda que a mãe o esqueça, Eu nunca te esquecerei, diz o Senhor. E no Salmo 45: O Senhor põe termo às guerras até aos confins do mundo, despedaça os arcos, quebra as lanças, queima no fogo os escudos.
| Gonçalves Moreira |
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Quando falamos de evangelização somos levados, inadvertidamente, a pensar exclusivamente em palavras, esquecendo que o mesmo mistério traduzido na palavra escrita e oral (embora esta continue a ter a primazia) é transmitido por muitas outras formas que, para muitos, poderão ser, em certas circunstâncias, as mais eloquentes. Aproximam-se as férias. A procura de outros lugares é uma oportunidade para visitar, ao menos por curiosidade, um monumento, para participar numa festa, enfim, para ir à procura do desconhecido O turismo oferece, pois, uma oportunidade única para uma evangelização através do património da Igreja. Seremos capazes de tirar partido disso? «Herdamos um património excepcional que pode, ainda hoje, testemunhar e instruir».
Para nossa reflexão, transcrevemos um extracto da comunicação do bispo de Amiens ao Comité episcopal do turismo e dos tempos livres de França (tradução de La Documentation Catholique, nº 2162, 15 Junho 1997, pp. 588-589).
«O turismo vem-se tornando cada vez mais cultural. O que atrai o turista é frequentemente a natureza (o sol, o mar, a montanha), mas, uma vez chegado ao local, dá início a uma pesquisa cultural. Para não bronzear o idiota, há a leitura. Mas há sobretudo a visita aos locais históricos, monumentos notáveis, museus diversos É surpreendente observar como a curiosidade do veraneante é imediatamente excitada pelos traços do passado. Mesmo quando os conhecimentos do passado são pouco exactos acerca dos séculos e se misturam as personagens, a visita de um castelo ou de uma estação arqueológica faz parte da estadia. Os serviços de turismo sabem apoiar-se neste gosto pela história, insinuando-o mediante um espectáculo de luz e som ou através de um museu pedagógico. Os próprios ofícios do começo do século, cujas imagens permanecem na memória dos avós, dão largas ao interesse turístico.
Pode dizer-se que o turista está habitado por uma nostalgia ou em todo o caso por um desejo de compreender o hoje através do passado. A viagem é quase sempre para ele uma peregrinação às fontes. Talvez porque na outra face da sua vida, a face do trabalho, é o amanhã que domina: a invenção, os projectos, os desafios. Então, no tempo livre, por contraste, concentra todo o seu interesse no ontem
Os comerciantes de viagens sabem vender quilómetros e estadias justificando-os com alguns minutos num mosteiro ou numa igreja românica. Que sede misteriosa, que curiosidade mística, que procura espiritual se esconde por detrás disso? Pode falar-se de moda pode prosaicamente sublinhar-se que os edifícios religiosos têm, frequentemente, entrada livre Pode dizer-se que muitos dos visitantes não compreendem nada do sentido religioso das esculturas góticas ou dos espaços da arquitectura românica. E contudo
Muito humildemente, a pequenina igreja da aldeia de que se não fala mesmo no Guia Verde [Michelin], se por sorte está aberta, recebe a visita do turista que aí para. Senta-se por um instante, ouve o silêncio, goza a frescura, olha à esquerda e à direita, dá uma volta, talvez acenda uma vela, ou leia um ex-voto Não, não se trata de uma visita ao Santíssimo Sacramento! Mas talvez de uma oração. Pensa no primo doente, no filho sem trabalho, nos amigos que se divorciaram Não diz nada a ninguém. Nem diz que tem fé Talvez, algures, um outro lugar teria produzido o mesmo movimento interior. Mas se aí o monumento na sua humildade fez sinal, se uma presença, um texto, uma imagem, uma tradição, um livro aberto propôs uma reflexão, uma chamada, uma interrogação, então a visita poderá ser uma etapa decisiva. Neste caso, foi um encontro consigo mesmo e, talvez, sem o saber, com o próprio Deus.
Por vezes, há o encontro com alguém, o sacristão que limpa as cadeiras, um desconhecido que reza, um padre que, por sorte, não se encontra muito apressado, e a aventura espiritual pode aprofundar-se. O convite para uma liturgia excepcional ou para um tempo de oração: eis o contacto retomado e um caminho que começa e que ninguém, à partida, pode adivinhar as etapas que se seguem.
Este «turismo religioso» revela sem dúvida um dos segredos profundos de toda a viagem. Aquele que se movimenta anda em busca de alguma coisa: não lhe basta acumular sempre postais ilustrados ou boas refeições. Procura alguém no fundo de si mesmo. Não lhe digais demasiado depressa quem ou o quê, teria medo disso! Procura quem possa dar sentido a esta viagem, a esta aventura, a esta vida que se esvai. Esperemos que se familiarize um pouco com este desconhecido para lhe revelar o seu nome»
| S.D.L. |
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