Cultura:

Os arco-íris sociais

1. Bem verdade é que vivemos num mundo colorido, ou em que as imagens das cores determinam o sentido das nossas vidas. Dantes, nos tempos em que toda a política mundial era vista através dos dois blocos, destacava-se nas misteriosas e tensas relações entre ambos, o telefone vermelho, cuja utilidade nunca se soube bem qual terá sido. Também não se sabe porque ao telefone lhe chamavam vermelho, e quais as conotações míticas e misteriosas de semelhante coloração. Agora, neste jardim, em que os grandes acontecimentos são o espectro (cá está outra imagem colorida) das eleições antecipadas, cenário virtual que põe nervosas as oposições e o governo, para gáudio da comunicação social, neste jardim (que por natureza e definição é um arranjo de cores sobre um fundo verde) mandam-nos um folheto para nos garantirem as vantagens de um número de telefone verde e de um número de telefone azul. Vê-se logo que são só vantagens para o consumidor, porque um é gratuito e o outro paga menos. Quando nos mandam "pagar menos" e "poupar tanto", tolos somos se não desconfiamos. Quando surgem do céu semelhantes bênçãos, a gente, como pobres que somos, ficamos logo desconfiados: alto, que nos querem levar. Porque, como se sabe, o cidadão não existe para receber benefícios mas para os pagar. Se nos oferecem tantos números azuis, verdes e às riscas, é porque alguém há-de beneficiar com eles. São, portanto, uma forma de publicidade ou de propaganda, que não é operacionalizada pelas empresas, nem por profissionais, mas pelo próprio consumidor, que faz a si próprio a publicidade daquilo que há-de consumir e com que há-de ajudar a enriquecer os bancos, os seguros, as multinacionais de produtos inúteis ou de objectos de consumo compulsivo. Assim, com o telefone destes, a empresa que o paga, evita pagar a trabalhadores e a outras empresas que lhe prestariam esse serviço. O consumidor serve-se a si próprio da publicidade que interessa mais ao anunciante que ao benefício da sua vida. Chama-se a isto o "faça você mesmo" publicitário: é a "bricolage" da propaganda, é o "self-service" da publicidade. Assim, torna-se a ilusão mais convincente, porque é feita pelo próprio que se ilude; torna-se a miragem mais apetecida, porque foi fabricada pelos nossos próprios olhos. Espreitando sorridentes por trás da cortina, esfregando as mãos de interesseira satisfação, perfilam-se os que criaram a ilusão colorida, transformando em prisão dourada o apetite que fomentaram.

Já nos tinham impingido uma fraude institucional, a que chamaram correio azul, que consiste em fazer-nos pagar o dobro do preço pelo mesmo serviço que devia custar metade, e que mesmo assim já é caro; agora com telefones verdes e azuis, se um extraterrestre viesse e olhasse bem para nós, haveria de verificar que devemos andar todos de "caras pálidas" e sorrisos amarelos.

2. Uma das situações que mais nos deveria espantar, a nós portugueses feiticeiros aprendizes de política, e que nos deveria servir, se não de exemplo, ao menos de espanto, aconteceu tanto nas recentes eleições em Inglaterra, como em França. Ambas significaram viragens importantes no espírito da governação dos respectivos países; ambas foram convocadas e realizadas com notável rapidez, apesar do estonteante modelo francês que necessita de duas voltas para descobrir na segunda aquilo que já se sabia na primeira. Ambas utilizam métodos de representação em que os pequenos partidos são puramente eliminados, na ânsia de se conseguirem maiorias absolutas, eufemismo que geralmente significa "muitos deputados com poucos votos". Razão tinha o senhor Le Pen, representante de uma facção com cujos ideais (e é triste que os princípios que defende se possam chamar ideais) estou em completo desacordo, porque são a fonte de todos os ódios e de todos os racismos e de todas as guerras destruidoras com que a humanidade se tem vindo a destruir. Mas o homem tinha razão ao afirmar que a Europa precisa de saber que um partido que conseguira quatro milhões de votos (em cerca de quarenta milhões, isto é, dez por cento) apenas elegera um deputado (em cerca de seiscentos)! Isto não é um sistema representativo; é essencialmente falsificador e por isso iníquo. (Por certo que quando o homem dizia isto, as legendas da TV traduziam "votos" por "vozes": mas isso não é grave, é apenas ignorância). Aviso à navegação: há quem queira cá, na revisão constitucional, seguir o exemplo de lá, certamente porque é um mau exemplo.

Mas não era este o exemplo que eu queria salientar. Era outro, e bem mais digno de registo, pelo que revela e reflecte da importância que se dá à acção governativa de um país. Qual era então tal exemplo? Elementar, caro leitor: num e noutro caso, em dois dos maiores países da Europa e dos mais importantes em todo o mundo, no dia seguinte às eleições é anunciado o governo, e dois dias depois é-lhe conferida posse pelo respectivo chefe de Estado. Isto sim, que é trabalhar. Se fosse em Portugal, ainda o presidente andava a fazer consultas para saber aquilo que já se sabe: que o primeiro-ministro é o líder do partido mais votado. Depois o primeiro ministro anda assim "indigitado" (que quer dizer apontado com o dedo, coisa que toda a gente sabe que é feia) durante longos dias, na dura e dolorosa tarefa de formar governo; depois, com a aproximação das calendas gregas, lá vai outra vez ao presidente para ser nomeado, apresentar o governo e tomar posse, fenómeno que também se faz geralmente em mais do que uma vez. Feitas as contas, ao fim de um mês lá começa e novo chefe a chefiar. Até lá o país ficou em autogestão, o que, diga-se, nem sequer é mau, porque não são decretados aumentos. Mas os males que advêm de um tal espectro burocrático institucional não têm conta nem medida, como a ternura do outro. E são a clara demonstração de um pequeno país assolado num mega-império da burocracia, para a qual se institui burocraticamente um dia por ano de desburocratização. Primeiro burocratizamos, o que é mau; depois desburocratizamos, o que é pior, porque é outra forma mais sofisticada da burocracia.

Eis como, entre bons e maus exemplos, pouco e mal aprendemos; porque, sendo especialistas na imitação, imitamos o mal feito e desprezamos as virtudes. Até porque, para as mentalidades políticas, a virtude é coisa ultrapassada.
C. F.
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«Uma nova ética nas relações sociais»

Na Fundação Calouste Gulbenkian, Auditório 2, em Lisboa, decorre no dia 16 um encontro promovido pela Comissão Nacional Justiça e Paz, sob o tema «Uma nova ética nas relações sociais».

Depois da sessão de abertura, às 9,15 horas, pelo presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, António Bagão Félix, decorre um painel seguido de debate sobre «As virtudes públicas numa sociedade plural» em que intervêm José Manuel Pureza, e João Carlos Espada, tendo por moderador Mário Pinto; às 11,30 haverá novo painel e debate sobre «Mercado, distribuição e ética», em que intervêm J. César das Neves e M. Braga da Cruz, tendo por moderador F. Sarsfield Cabral.

De tarde,às 14,30 horas, um terceiro painel terá por tema «A responsabilidade social da empresa», terá por moderadora Graça Franco e por intervenientes Nogiueira de Brito e Maldonado Gonelha; às 16 horas, Acácio Catarino será moderador de um último painel em que intervêm Roberto Carneiro e Ana Vicente. Às 17,30 horas será o encerramento com uma mensagem de D. António Francisco Marques, bispo de Santarém.

A Comissão Nacional Justiça e Paz foi criada em 1982 pela Conferência Episcopal Portuguesa no âmbito da Comissão Episcopal de Acção Social e Caritativa para ser «uma voz atenta dos leigos cristãos, empenhados e comprometidos na nossa sociedade e nos seus problemas, que procuram viver a sua vocação e compromisso temporal segundo as exigências da Fé e a sua condição, livremente assumida, de membros da Igreja». Ela actua «sob a sua própria responsabilidade» e o seu trabalho «assenta no voluntariado dos seus membros e colaboradores».

A Comissão Justiça e Paz estuda e incentiva a prática da Doutrina Social da Igreja, defende os ideais da Justiça e da Paz, estimula o compromisso dos cristãos ao serviço da sociedade, busca o desenvolvimento integral da pessoa e anima os organismos para que actuem em favor da Justiça, da Paz e do Desenvolvimento.

A Comissão é constituída por um máximo de 25 pessoas representantes dos diversos sectores sociais e profissionais, e o seu secretariado permanente reúne-se pelo menos uma vez por mês. Tem um assistente eclesiástico designado pela Conferência Episcopal e trabalha em ligação com o Conselho Pontifício Justiça e Paz, criado em 1967 pelo Papa Paulo VI.
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