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LER EM VOZ ALTA

Para exercer bem o ministério litúrgico de Leitor

Muito antes de ser uma função que teremos de desempenhar com alguma frequência, ler em voz alta deverá ser um exercício permanente e deverá mesmo tornar-se um prazer. Não se trata, pois, de mera questão de alfabetização, saber ler, mas de uma verdadeira actividade artística. Requer dom e exercício bem orientado e persistente.

A leitura em voz alta leva-nos ao domínio das palavras, na sua articulação e musicalidade; à fruição dos seus sentimentos e ideias; ao domínio da frase, no seu ritmo, entoação e estilo; à posse plena, exterior e interior, de um texto. O nosso ouvido tem uma capacidade perceptiva superior à simples leitura visual. Quantas vezes, a leitura em voz alta corrige o texto escrito, dissipa dúvidas, purifica o estilo! Ler em voz alta é um exercício pedagógico bastante importante para não ser abandonado.

O texto escrito, prosa ou poesia, exige uma extraordinária capacidade criativa, frequentemente, superior ao canto. As palavras esperam que o leitor desenterre a sua musicalidade e as una numa justa e expressiva harmonia. Comparando o leitor com o cantor, Ernesto Lagouré dizia que o primeiro é o solista, ao passo que o segundo compendia toda a Orquestra. A maioria das pessoas pensa, erradamente, que é mais difícil cantar do que proferir um texto. A explicação pode vir do facto de se ser mais exigente com o canto do que com a leitura em público ou mesmo a declamação

Não deixa, pois, de ser curioso que haja quem pense que, pelo facto de saber juntar letras e palavras ou de, todos os dias, ler o jornal, saiba ler em voz alta. O Dr. Júlio Couto, no seu livro, A Arte de Dizer (edição do SDL), cita uma história curiosa, bem a propósito. O deputado Ribot teve uma importante intervenção na Assembleia Nacional Francesa. Apresentou um documento da máxima gravidade para ser discutido e aprovado. Mas como era mau leitor, a Assembleia, ao ouvi-lo, bocejava e, no fim, nem sequer reagiu. Briand que estava a seu lado, perante a generalizada apatia, não se conteve. Tomou o texto, subiu à tribuna e começou por declarar: «Este documento que acabamos de ouvir não pode ser ignorado, devemos ouvi-lo atentamente». Recomeçou, então, a lê-lo, com os dotes da sua consumada arte de dizer. Despertou a Assembleia da sua sonolência, arrancando um aplauso e, o que era mais importante, uma aprovação por aclamação.

Pior seria concerteza a presunção daqueles que entendem que a leitura em público não merece qualquer preparação, mesmo próxima (pois que o ler para eles não tem segredos) e sujeitam-se a transmitir um texto desconhecido que lhes foi entregue cinco minutos antes. O resultado é bem conhecido. É que de facto há uma importante distinção entre o saber ler (isto é, ser alfabetizado) e o ler em público ou em voz alta. E é a ignorância deste facto que leva muita gente a descuidar a leitura em público, bem como uma adequada preparação e ao infeliz atrevimento, por vezes mascarado até de virtude, de aceitar tal tarefa em qualquer circunstância.

É certo que qualquer formação verdadeiramente humanista é incompleta sem esta educação na leitura em voz alta. Com alguma frequência, assiste-se à triste realidade de ouvir pessoas muito inteligentes que transmitem deficientemente as suas ideias de forma oral. Georg Berr constatava que "um ignorante que sabe expressar-se bem, é mais ladino do que um inteligente, cuja expressão oral é defeituosa". Também não faltam pessoas abonadas em diplomas e extensos curricula que são uma verdadeira negação na arte de dizer ou de ler em público, porque hoje a Escola, sobrecarregada de matérias, não aborda assunto tão essencial para a vida, convivência e relações humanas.

Os textos bíblicos da Liturgia deverão tornar-se Palavra viva, Palavra Incarnada. Esta é uma responsabilidade inexcusável e inadiável para a Igreja. E nenhum pastor ou fiel deverá descansar enquanto tal não acontecer na sua comunidade. Não deverá acontecer com os textos sagrados o mesmo que aconteceu com o texto do citado Ribot. Mas, na realidade, o que acontece? Uma gravação da liturgia da Palavra pode ser bem elucidativa: tosses e outros barulhos que, à primeira vista, podem parecer desinteresse pela Palavra de Deus, quando, na realidade, não passa senão de desinteresse pela leitura.

Não haverá nada a fazer para alterar significativamente esta situação? O SDL oferece um Curso para leitores com a duração de três anos porque está convencido que o aspecto mais deplorável das nossas celebrações litúrgicas são os maus leitores.
S.D.L.
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