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«UMA SEMANA DE CINEMA»
De 5 a 13 de Junho
TELEVISÃO
- Lisboa e o Rio Tejo
foram cenário de eleição para muitos realizadores
estrangeiros, como atestam alguns filmes que cá se rodaram,
alguns em plena II Guerra Mundial, quando Lisboa era ponto de
passagem de refugiados e espiões nazis e aliados, e como
poderemos ver esta semana na rubrica Cinco Noites, Cinco Filmes,
na RTP2. Um deles tem Amália Rodrigues como protagonista,
que actua e canta com a sua voz inconfundível, ao lado
do casal francês Daniel Gélin e Françoise
Arnoul, em «Os Amantes do Tejo», de Henri Verneuil
(1954). O argumento foi baseado no livro "Les Amants du
Tage", de Joseph Kessell, e relata a história
de amor entre um homem e uma mulher que se encontram em Lisboa,
paixão impossível e destinada a conhecer um final
trágico. O actor inglês Trevor Howard também
entra neste drama, fazendo o papel do detective que persegue o
táxista (para ver na quinta-feira, dia 12). Outros filmes
deste ciclo: «Uma Noite em Lisboa», comédia,
de Edward H. Griffith (1941), com Madeleine Carrol e Fred MacMurray:
uma história de espiões, onde um aviador é
disputado por duas mulheres (dia 9); «Os Amantes do Tejo»,
drama, de David Delrieux, outra versão (dia 10); «Os
Conspiradores», drama, de Jean Negulesco (1944), com
Hedy Lamarr e Paul Henreid: uma história de espionagem,
com nazis à mistura, nas ruas de Lisboa (dia 11); e, «A
Cidade Branca», drama, de Alain Tanner (1982), com Teresa
Madruga e Bruno Ganz: os amores de um marinheiro suíço
por uma beldade portuguesa (dia 13).
Mas esta semana ainda pode ver: «Sirga,
o Rapaz Leão», aventura, de Patrick Grandperret
(1993), com Mathurin Sinze e Sophie-Veronique Tagbe (RTP1,
dia 6); «A Missão», drama histórico,
de Roland Joffé (1986), com Jeremy Irons, Robert De Niro
e Aidan Quinn (RTP2, dia 7, em O Filme da Minha Vida);
«Os Americanos», drama, de Robert Altman (1993),
com Andie MacDowell e Julianne Moore (TVI, dia 8); e, «O
Beijo», comédia, de Lawrence Kasdan (1995), com
Meg Ryan e Kevin Kline (TVI, dia 11).
VÍDEO
- Do último catálogo
que recebi da Prisvídeo, entre muitos títulos
inéditos, destacam-se dois em especial. «Fargo-Um
Crime Imperfeito», thriller, de Joel Coen, garantiu
à protagonista, Frances McDormand, o Oscar de Melhor
Actriz 1996, além do de Melhor Argumento para os irmãos
Ethan e Joel Coen, embora estivesse nomeado para outras cinco
categorias, incluíndo Melhor Filme. Como a atarefadíssima
chefe de polícia, Marge, Frances McDormand dá
uma vigorosa lição de interpretação,
o que não colocou dúvidas aos votantes dos últimos
Oscars. O argumento, baseado num facto verídico,
gira em torno de um crime ocorrido durante o rígido inverno
de 1987. Um vendedor de automóveis, Jerry (William
H. Macy), contrata dois malandros (Steve Buscemi e Peter Stomare)
para raptarem a sua própria mulher, para assim conseguir
dinheiro fácil, com o resgate que o sogro se compromete
em pagar. Mas nem tudo corre bem no plano de Jerry. Prémio
da Melhor Realização no Festival de Cannes 1996,
eis um filme a não perder, pelo ritmo trepidante e a fotografia
de neve e surpresa, que se convertem num antídoto eficaz
contra o aborrecimento.
O outro vídeo vem do Brasil e
tem no seu elenco duas actrizes fortes, que fizeram parte do elenco
da telenovela «O Rei do Gado»: Glória
Pires e Patrícia Pilar. O filme em destaque é «O
Quatrilho», drama, de Fábio Barreto (1995), que
esteve nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro,
acabando por ser ultrapassado pelo «Carteiro de Pablo
Neruda». A vida e desventuras amorosas de dois jovens
casais, no sul do Brasil. Um jogo de amor, traição
e sedução. Ainda com Alexandre Paternost e Bruno
Campos.
CINEMA
- Woody Allen não
é nem um actor, nem um cómico, nem sequer um realizador
ou esse tão démodé que se chamava
um autor. Woody Allen é muito mais: é um
género em si mesmo. E como todos os géneros
passa por fases, evolui, muda, às vezes imperceptívelmente,
para ir criando com o tempo a sua imagem global. O Woody Allen
dos anos 70 (incipiente, espampanante, em plena passagem da comédia
para o drama) tem sérias diferenças com o dos anos
80 (fortemente influênciado por Ingmar Bergman e atirando-se
de cabeça a dramas intimistas e histórias recheadas
de cinismo) e ambos com o dos 90 (senhor de uma maestria inusual
com a câmara, capaz de resolver enredos em aparência
simples a toda a velocidade). Uma vantagem do género: desde
há já uns anos, cada um dos seus filmes conta com
um elenco assombroso, porque ante o nome de Woody Allen até
os mais cotados actores são capazes de pagar para aparecer.
Veja-se o caso presente: em «Toda a Gente Diz Que Te Amo» temos actores de carreira considerável (Goldie Hawn, Alan Alda), estrelas resplandecentes (Julia Roberts), actores de última moda (Tim Roth) e até jovens em ascensão (Drew Barrymore, Lukas Haas, Nathalie Portman).
A história é simples: as idas e vindas amorosa de uma família grande, rica e separada. Allen rompe um pouco as regras do seu género: a acção, além da obrigatória Nova Iorque (mais que habitual na sua filmografia), decorre também em Paris e Veneza. Outra quebra: na verdade, todos cantam "I Love You", até o próprio realizador, porque se trata da sua primeira - e esplêndida - comédia musical, muito bem coreografada. As canções são correntes, não enfastiam e apoiam a graça, como o fazem também as coreografias, sensíveis e bem executadas. Destaque para o último número: um pas à deux entre Allen e Goldie Hawn, é, na sua simplicidade, verdadeiramente surpreendente.
Os maldizentes do género Woody Allen encontrarão aqui razões para o continuar a fazer (por muito que se empenhem os franceses, não é uma obra inapelável, tipo «Annie Hall», «Zelig» ou «Maridos e Mulheres»), e poderão mesmo nem vê-lo. Os fanáticos, por seu lado, que não deixarão escapar este filme, sairão fortalecidos nas suas convicções e nos seus gostos: «Toda a Gente Diz Que Te Amo» espalha com leviandade aparente os habituais - e renovados - retalhos de engenho, inteligência, humor, drama, jogo e ironía. Com enorme elegância, com mimo, com alegria. Como quem dança. Um senão, na minha opinião: quem traduziu «Everyone Says I Love You» desvirtuou o verdadeiro sentido do título: «Todos Dizem "Amo-te!"».
Produzido pela Miramax Films, esta deliciosa comédia musical de Woody Allen é distribuída por Filmes Castello Lopes.
| Vasco Martins |
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Um dos aspectos mais evidentes e mais interessantes, e talvez não dos mais conhecidos, que retirei deste meu contacto com um número significativo de sermões de Vieira (embora ainda minoritário em relação à profusão da sua obra) foi a extraordinária capacidade de inserir estrategicamente e de forma imaginativa e oportuna, na temática bíblica, religiosa, parenética e moral, em que se fundava, por natureza, por convicção e por função a sua oratória, as aplicações tão inesperadas como pertinentes, aos factos sociais seus contemporâneos, e as profundas e destemidas análises da sociedade e dos comportamentos individuais e colectivos, digamos por isso políticos, das personagens e das classes sociais da época.
Esta mistura, talvez heterogénea, mas não heterodoxa
(para glosar as palavras de Garrett sobre a relação
mitologia/cristianismo n'Os Lusíadas), esta brilhantíssima
capacidade de estar criticamente em cima dos acontecimentos e
das realidades vivenciadas, pela palavra e pela sua utilização
oportuna, será um dos aspectos menos expectáveis
e quiçá menos analisados da sua obra oratória.
Ela denota, no entanto, mais uma vez, o sentido moderno (não
digo modernista) e actual da forma de entender a visão
religiosa-cristã do homem e do mundo. Pode dizer-se que
se encontra em Vieira uma espécie de interpretação
teológica das realidades temporais, o que configura à
distância de três séculos uma das dimensões
características de um ramo importante da teologia actual.
As páginas desta Antologia pretendem também demonstrar a pertinência desta afirmação. Vemos um padre Vieira, fundamentado sempre nas palavras da Escritura (todos os sermões partem de um tema bíblico e geralmente de uma festa litúrgica ou de uma acção devocional) a discorrer sobre os mais diversos e complexos casos e situações da realidade social que o envolve. Não era ele homem de fazer das convicções religiosas um objecto de templos ou de sacristias: o ser religioso para ele era intervir na sociedade, pela denúncia dos males e pela proposta de transformação, geralmente imaginativa e frequentemente carregada de futuro, como a poesia, nas palavras de Miguel Hernández.
Creio que é esta uma boa definição para a
oratória de Vieira: uma oratória, esperada ou inesperadamente,
carregada de futuro.
Esta carga de futuro pode encontrar-se:
- Numa lúcida análise da condição humana;
- Nos apelos constantes de conversão individual, social e cultural (toda a conversão é uma operacionalização cultural);
- No sentido da intervenção social e da denúncia de vícios e de hábitos encardidos;
- Na crítica acutilante aos desmandos comportamentais e aos conceitos assumidos;
- Na denúncia dos processos diversificadas de exploração
social, onde não faltam fenómenos tão diversos
e tão cúmplices, como a moda, os direitos humanos,
as formas de exploração do trabalho, a escravatura,
os abusos na administração da da justiça,
os desvios dos comportamentos eclesiásticos, os desmandos
dos reis, dos vice-reis, dos governadores, dos ministros e burocratas,
o bem "da república", como por sistema gosta
de traduzir o bem social da comunidade.
Outra dimensão do orador, para além do domínio
das Escrituras, da história, da literatura, das artes da
gramática e da retórica, é a actualização
no conhecimento dos aspectos científicos e de observação
da natureza, de que gosta de fazer gala, e que funcionavam como
processo de informar auditórios menos esclarecidos sobre
os fenómenos que a "dura experiência"
e o "honesto estudo" lhe haviam ensinado. Eis aqui uma
importante componente pedagógica da sua actividade oratória.
Contar experiências era uma forma de actualizar conhecimentos.
Falta ainda evidenciar outra capacidade imprevisível e
deslumbrante: a de analisar e exprimir os sentimentos humanos,
as paixões, do amor ao ódio, ou da generosidade
à mesquinhez. Esses estudos antecipados de uma psicologia
dos comportamentos denotam tanto a fina observação
como a simplicidade pessoal de abrir os sentimentos íntimos
à apreciação dos ouvintes.
O mais que tudo é a mestria da língua portuguesa: a selecção vocabular, a disposição frásica, a simetria e o equilíbrio das construções, a aplicação rigorosa dos termos aos conceitos, o sentido lúdico que a prosa contém ou fabrica, a capacidade lírica que se pode comparar aos melhores textos do bucolismo clássico: de tudo encontramos, e das mais inesperadas formas.
A linguagem, porém, ainda que eventualemente rica, seria
vácua sem a profundidade das ideias e o equilíbrio
do edifício mental que as suporta. Claro que o seu é
um "discurso engenhoso", na esteira dos retóricos
do classicismo e do barroco: Vieira é homem e artista do
seu tempo. Mas é muito mais do que isso: é o desenhador
de uma arquitectura mental que assenta no presente mas contém
já os germes do futuro (não é em vão
que a sua obra mais emblemática se chama justamente isso:
a História do futuro, isto é, daquilo que
há-de ser futuro, como muito bem traduz a versão
espanhola desta obra: Historia de lo futuro). Em Vieira
está já, visível ou oculto, o futurismo,
o sensacionismo, uma forte visão romântica da força
criadora do sentimento e da génese individual da criação,
espantosas análises realistas, quer das situações,
quer das sociedades, e até se lhe poderiam detectar textos
de carácter claramente surrealista, como, por exemplo aquele
em que descreve as formas de furtar de governadores e colonos.
Mas falta ainda uma dimensão essencial de Vieira: o seu
espantoso sentido do humor, e a habilidade, coragem, ousadia e
intrepidez de o operacionalizar diante de auditórios tão
díspares, como os fiéis pios, em seu ambiente mais
propício, uma Igreja, ao decurso de celebrações
litúrgicas ou devocionais; os reis, governadores e ministros;
a gente sábia, erudita e prudente, e a gente simples e
artesã, por forma a que os que não sabem o entendam,
e os que sabem, ou pensam que sabem, tenham muito que entender
com o que diz. E que este sentido de humor o misture dialecticamente
com análises teológicas, elucubrações
bíblicas, citações de humanistas e moralistas,
preceitos de rigor da mais funda ascese cristã, eis o que
se torna ainda mais admirável.
Mas regressemos à língua portuguesa: esta reunião de textos destina-se modestamente a ser útil ao bom uso da língua portuguesa. Longe, portanto, as pretensões de erudito rigor, ou de profusão citatória.
Baste-nos a complexa simplicidade e a desmedida ousadia do "imperador da língua portuguesa". Ensine-nos a sua mestria e dinamize-nos a sua coragem.
| C. F. |
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PUBLICAÇÕES
Correia Fernandes coligiu
É, por isso, de grande oportunidade e inquestionável mérito este trabalho que M. Correia Fernandes, pela Telos Editora, publica. Para além da divulgação em forma acessível e de fácil consulta do núcleo central do pensamento e da escrita do Padre Vieira, este livro tem a preocupação de ser útil "ao bom uso da língua portuguesa", objectivo que, só por si, justifica a publicação. Hoje, estando a língua nacional invadida por espúrias expressões, nem sempre justificadas pela evolução da fala, nada melhor do que regressar à fonte, à pureza do sentido das palavras para encontrar o "rigor lógico e linguístico", "a riqueza e expressividade" da língua de Camões, redescobrindo, com António Vieira, o "ajustamento" dos morfemas "ao sentido, às ideias e às emoções".
Estamos, pois, em presença de um trabalho de raro valor pedagógico, pensado por M. Correia Fernandes para ser útil a "professores, estudantes, escritores, jornalistas, oradores, e quantos procuram uma mais rica expressão na sua língua".
Embora sendo como que uma síntese dos melhores nacos da oratória escrita do Padre António Vieira, esta obra permite descobrir a essência da maior "originalidade" linguística do Padre Vieira: "a riqueza das ideias", "a argúcia dos sentidos", "o equilíbrio da disposição", "a adequação semântica", a "pertinência das perspectivas apresentadas", a "irrepreensível estruturação sintáctica das frases", a "novidade e vigor das imagens", a "imaginatividade das situações", o "imediatismo e compreensividade das razões", o "inefável casamento entre a identificação profunda do orador com a idiossincrasia das mentalidades do povo e a estruturação lógica do erudito, que conjuga o saber do seu tempo com a longa e dura experiência".
Não se trata, por isto, de um livro que se leia "de soslaio ou em diagonal", mas de uma lauta refeição para o espírito, um retemperador banho na rica fonte antoniana, para ser apreciado sem peias de tempo e sem constrangimentos de comunicação.
Quem acompanha a brilhante prosa de M. Correia Fernandes nas páginas da "Voz Portucalense" por certo, de há muito, conhece a sua paixão por Vieira de quem aprendeu e transmite uma forma "modelar" de manejar a língua portuguesa, numa tradução hodierna e jornalística do conhecido aforismo do célebre pregador: "o estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem."
Esta obra de M. Correia Fernandes será publicamente apresentada pelo Autor amanhã, quinta-feira, dia 5, pelas 18 horas, na Livraria Leitura, Rua de José Falcão, 78, Porto.
(Padre António Vieira - Antologia e Aforismos ordenados tematicamente e anotados por M. Correia Fernandes. Ed. Telos Editora. Porto, Maio, 1997)
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