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Ele nascera em San Cristóbal de la Laguna em 19 de Março de 1534. Descendente, pelo lado do pai, de nobre família biscainha - que emigrara de Guipúzcoa para as ilhas atlânticas por causa das perseguições que no reinado de Carlos V foram vítimas os defensores das franquias populares, os chamados comuneros - pela parte da mãe recebeu algum sangue dos guanches ou guanchos, nome dado aos primeiros habitantes da ilha de Tenerife e depois estendido aos de todo o arquipélago das Canárias.
Porque veio da sua ínsula atlântica para Coimbra, onde durante quatro anos estudou, o quase menino José Anchieta? Vitorino Nemésio tenta uma justificação: «A fama ateniense de Coimbra explicaria por si só que os Anchietas lá mandassem estudar José, se, em matéria de pura sabedoria, Salamanca e Alcalá não fossem grandes luzeiros também. Mas não influiria na escolha a pouca vontade da família para estreitar ainda mais as inevitáveis relações de uns súbditos canários de incomovível cepa basca com os antigos inimigos de hermandades e germanias? Ou era o odor cristão do Colégio coimbrão da Ribela, já redolente ao largo em meados do século XVI, que se insinuava nos palmares e laranjais de Tenerife?»
Aos dezassete anos ingressa na Companhia de Jesus e, dois anos mais trade, em 1553, embarca para a Baía, na frota de uma nau e três caravelas que, entre os seus 260 navegantes, com mais cinco jesuías, leva Duarte da Costa para substituir Tomé de Sousa.
No retrato que de Anchieta faz Nemésio, «medido apenas pelo físico, era fraca figura: de estatura apoucada, com um laivo trigueiro da linha guanche da mãe, ainda que os olhos azulados por baixo da testa escampada e o lume gravemente espiritual da cara e do nariz sobre o comprido pudessem aludir à cepa basca do pai».
Viria a ser apelidado de Apóstolo do Brasil. Adapta-se ao ambiente indígena, vive entre os índios, aprende as línguas dos nativos e escreve uma Gramática da língua mais falada na costa do Brasil (Coimbra, 1559; Rio, 1933). Faz também um dicionário do tupí. Em português redige devocionários, diálogos teatrais e pequenos cantares populares para os catecúmenos dos sertões, como esta «seguidilha» Da vaidade das coisas do mundo, publicada pela primeira vez em 1954 no volume que reúne as suas Poesias: «Não há coisa segura. / Tudo quanto se vê / Se vai passando. / A vida não tem dura. / O bem se vai gastando. / Toda criatura / Passa voando».
Em 1554, a doze de S. Vicente, Anchieta estabelece o terceiro colégio dos jesuítas no Brasil, onde ele é quase o único professor. Tal vem a ser a origem da cidade onde a primeira missa foi celebrada a 25 de Janeiro, festa litúrgica da conversão do Apóstolo e que, por isso, veio a chamar-se São Paulo.
As cartas de Anchieta, em latim, português e castelhano, enviadas aos superiores da Companhia, constituem-no um escritor nas literaturas das três línguas e são documentos etnográficos e científicos.
Numa carta de 1560 descreve a região de São Vicente e relata o que tinha observado acerca dafauna e flora, tendo sido ele dos primeiros a descobrir a função da bolsa dos marsupiais e localizou com rigor a zona do veneno das serpentes. Quanto a estas últimas averiguações, que são também as do jesuía Fernão Cardim (1540-1625), a par das de Gabriel Soares de Sousa (1540-1592), só lhes foi dado crédito em 1781, quando o italiano Felice Fontana, filósofo e anatomista, provou serem erradas as noções até aí prevalecentes.
O latim que Anchieta aprendeu em Coimbra dá-lhe também lugar entre os poetas do seu tempo, pois nessa língua escreveu os apreciados poemas De Beata Virgine Dei Matre (Rio, 1940) e De gestis Mendi de Saa (Ibid., 1958. Por isso, o único português que participa no Congresso de La Laguna é o Professor da Universidade de Coimbra, Doutor Américo da Costa Ramalho, especialista da literatura novi-latina, que vai ocupar-se, na primeira secção, de Coimbra en tiempos de Anchieta, 1548-1553.
Anchieta é o jesuía missionário que se identifica com a cultura e mesmo com a língua daqueles a quem quer revelar o Cristianismo. Alguns que criticam a actividade missionária realizada pelos portugueses, ignoram, esquecem ou silenciam este aspecto do trabalho que fizeram, e até a intervenção de António Vieira na condenação da escravatura dos negros no Brasil.
É também o etnólogo e, mais que isso, o observador do mundo que o rodeia, dando contributos para a história da ciência. É também o linguísta e o poeta, em latim e em português.
Quatro séculos se completam sobre a sua morte em Reritiba, onde ainda pôde redigir a biografia dos seus companheiros, Brasilica, Societatis et vita clarorum patrum qui in Brasilia vixerunt. Em 1934 foi comemorado por todo o Brasil o IV Centenário do seu nascimento. Em 1954, no quarto centenário da Fundação de São Paulo, foi ali levantada uma majestosa estátua a Anchieta, espanhol, português e brasileiro.
| J. M. da Cruz Pontes |
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Pela segundo ano consecutivo, os fiéis que adoravam o Santíssimo Sacramento, solenemente exposto numa igreja do nosso país, foram maravilhados pela visão na hóstia de uma imagem que parecia de Cristo. Desta vez o fenómeno, filmado e fotografado, pôde ser visto por crentes e descrentes. Trata-se de um facto natural, cientificamente explicável, ou de uma manifestação sobrenatural, a interpelar a fé e a interpretar a partir dela? A Igreja, com a reserva e prudência que o caso requer, antes de tomar uma posição oficial, confiou a pessoas idóneas o exame do fenómeno. Aguardemos tranquilos o esclarecimento de quem de direito. Entretanto, importa não perder de vista alguns pontos firmes da doutrina católica sobre a Eucaristia.
É verdadeiramente único o modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas. Sem negar o «realismo» da presença do Senhor noutras modalidades litúrgicas e extra-litúrgicas, Paulo VI recordava na encíclica Mysterium Fidei que esta presença se torna real nas espécies eucarísticas de um modo próprio e exclusivo. Retomando a doutrina do Concílio de Trento, Paulo VI explicava que a «excelência» desta presença de Cristo lhe vem do facto de ser «substancial»: «por ela está presente Cristo completo, Deus e homem». É em virtude da conversão da «substância» do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo que Ele se torna presente neste Sacramento. É por isso que esta presença não é apenas um acontecimento que passa, uma transignificação ou transfinalização, mas é um facto que permanece e que dura todo o tempo em que as espécies eucarísticas subsistirem.
Trata-se, pois, duma presença a ser entendida em termos «metafísicos» e não «físicos», materiais, «carnais», localizados. Não lhe corresponde qualquer imagem, qualquer quantidade, qualquer distribuição espacial. O Corpo de Cristo não está na espécie do pão consagrado à maneira de uma imagem pintada numa tela. Quem comunga não o desmembra nem trucida. Aliás, Cristo ressuscitado o único que actualmente existe e na Eucaristia se torna presente já não pode sofrer nem morrer. Porque esta presença incruenta da Pessoa e do Sacrifício do Senhor Jesus não está ligada à quantidade, mas é uma realidade que transcende a experiência empírica. Por isso aprende-se na catequese que em cada espécie ou parte dela está sempre presente o Cristo todo: «Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tão real e perfeitamente como está no céu».
Sendo assim, não é pelos sentidos que apreendemos a presença do verdadeiro Corpo e do verdadeiro Sangue de Cristo na Eucaristia, mas pela fé que se apoia na autoridade da Palavra de Deus. Isso mesmo é expresso no célebre hino de S. Tomás de Aquino, I de que nos atrevemos a transcrever alguns versos numa tradução forçosamente imperfeita: «Adoro-te com devoção, ó Deus oculto, | Que nas espécies Te escondes de verdade [...] || Vista, tacto e gosto em ti falham |Mas basta o ouvido para crer seguro. |Creio em quanto disse o Filho de Deus: | Nada mais veraz que a palavra da Verdade! || Na Cruz estava oculta só a Divindade | Mas aqui também o está a humanidade [...] || Tomé viu as tuas chagas, eu não posso, | Confesso-te, porém, como meu Deus! [...] || Jesus, a quem agora contemplo sob véus, | ... Possa ver-te de rosto descoberto | e ser feliz na visão da tua glória».
A Eucaristia é por excelência o «Sacramento da fé» «Mysterium fidei» Uma fé austera e severa, que não segue antes confunde os sentidos: «Vista, tacto e gosto em ti falham». Uma fé que se apoia e se alimenta da Palavra. Uma fé que, de algum modo, «toca» em Cristo e o reconhece na sua verdade plena, o invoca e o adora: «Meu Senhor e Meu Deus». Uma fé que se alimenta na celebração do «Memorial da morte do Senhor», acolhendo o Pão vivo que desceu do céu para dar a vida ao mundo. Uma fé que é princípio e penhor da glória prometida. A Eucaristia é viático: alimento de peregrinos que caminham na fé. Só no termo da viagem a fé dará lugar à visão.
| S.D.L. |
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