APONTAMENTOS SOBRE CINEMA

Há festa na aldeia,

de JACQUES TATI


Jacques Tati ou Monsieur Hulot tanto faz, que autor e personagem quase se confundem. Agora o que poucos saberão é que Tati é uma abreviatura de Tatischeff, que o nosso Jacques era francês mas de origem russa, nascido em 1908.

Depois de diversos trabalhos no mundo do cinema, em 1948 surpreendeu meio mundo com este Jour de Fête (Há festa na aldeia). E, no entanto, o filme carregava uma certa malapata. Filmado a cores num processo então ainda em experimentação (Thomsoncolor), a coisa saiu mal, isto é,... (praticamente) a preto e branco! Em 1965, entretanto, foi publicada uma segunda versão da película (a primeira que passou em Portugal) que, fundamentalmente a preto e branco, haveria de apresentar já coloridas as bandeiras e os festões. Seria finalmente esta que agora está entre nós a recuperar a cor inicial da filmagem. Não se trata portanto de uma simples adição de cor a uma filmagem feita a preto e branco.

A personagem deste Há uma festa na aldeia ainda não é Mr. Hulot. Essa só nasceria com um outro filme, As Férias de Mr. Hulot, de 1953.

Falecido em 1982, Tati é hoje reconhecido por todos ter sido uma figura ímpar da História do cinema, um dos seus maiores cómicos. Ele não foi, no entanto, mais que um contemplador sereno da vida, seu observador e censor. Cineasta de pura água, a sua arte eraa feita de uma visualidade transparente, um cinema de imagem, de pura imagem em que a palavra quase não entrava. Mr. Hulot não falava praticamente; e François, que neste filme o antecipa, também já falava pouco e, mais do que isso, fazia-o com a boca fechada.

Na vida normal e quotidiana, onde parece que nnca sucede nada, Tati descobre uma série imensa de gags objectivos, feitos de espontaneidade, que dão azo a um riso moderado. É uma afirmação da inteligência diante do absurdo de que inegavelmente os dias estão tecidos.

Não escondo o que devo ao cinema de Jacques Tati. Não apenas a Tati, claro, mas agora é dele que falo. No cinema é como na literatura ou na arte em geral: sem Camões ou Torga, sem Steinbeck ou Doostoiewski, sem Miguel Ângelo ou Dante ficamos privados do melhor que o espírito do Homem criou. Foi também pela câmara de Tati que aprendi a compreender o Homem que sou e a conhecer o Mundo que é o meu. Destas coisas sabem falar os poetas, digam o que disseram. Tati é um deles, e um dos maiores deste século.

A propósito do que escrevi aqui da última vez, Há festa na aldeia passou no Seminário da Sé em 1996.
Arlindo de Magalhães


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