Cultura:

«UMA SEMANA DE CINEMA»

De 24 a 30 de Maio


TELEVISÃO - A RTP2 continua a ser o melhor canal para se ver cinema integral, sem intervalos e sem o incómodo cheiro a pipocas. A rubrica Cinco Noites Cinco Filmes é, de muito longe, a melhor selecção cinéfila em todos os canais portugueses. Assim, continuando a divulgar os grandes mestres da 7ª Arte, vamos poder ver cinco obras de espionagem e suspense de excepcional qualidade. A abrir, «Os Quatro Espiões», filme do período inglês do mestre Alfred Hitchcock (1936), com John Gielgud e Lilli Palmer (dia 26). Seguem-se duas histõrias do escritor Graham Greene, magistralmente adaptadas pelo britânico Carol Reed: «Night Train to Munich», de 1940, com Rex Harrison e Margaret Lockwood (dia 27); e «O Terceiro Homem», de 1949, com Orson Welles e Joseph Cotten (dia 28). O ciclo termina com duas histórias de crime e mistério assinadas por Agatha Christie: «Crime no Expresso do Oriente», de Sidney Lumet (1974), com Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Vanessa Redgrave e Sean Connery (dia 29); e, «Morte no Nilo», de John Guillermin (1978), com Peter Ustinov e Bette Davis (dia 30). Destes, permitam-me destacar «O Terceiro Homem», encantador filme de espionagem, que passou para a posteridade devido a uma música lancinante. A acção decorre em Viena, Áustria, logo após a Segunda Guerra Mundial, início da chamada Guerra Fria. Nessa cidade, controlada pelos Aliados, tramam-se sórdidos planos. Aí chega o escritor americano Holly Martin, à procura do seu amigo Harry Lime, mas informam-no de que ele morreu num acidente.

Graham Greene escreveu esta história directamente para o cinema, carregando-a de implicações metafísicas, como acontece na maioria dos seus romances. Foi a um cineasta inglês de talento reconhecido, Carol Reed (1906-1976), que o produtor Alexander Korda confiou a realização deste drama sombrio. Ele soube recriar com verossimilhança o clima de "guerra fria", o desconcerto de um país devastado, a poesia crapulosa do submundo cosmopolita. Daí resulta uma espécie de pesadelo barroco, ritmado pelos obsedantes acordes da cítara de Anton Karas (o célebre "Harry Lime Theme") e culminando na sequência final da perseguição no esgoto. Para realçar essas trevas, há a fisionomia enigmática e fascinante de Orson Welles, que imprime ao filme a sua aura definitiva. Graças a ele, a personagem Harry Lime adquire uma dimensão mítica, e é com certo estupor que o ouvimos proferir suas cínicas asserções: "Na Itália, na época dos Borgia, houve guerra, terror, carnificinas, mas também Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. E que produziram os suíços em quinhentos anos de paz e democracia? O cuco!". «O Terceiro Homem» recebeu a primeira Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1949, e Robert Krasher foi galardoado com o Oscar para a Melhor Fotografia.

Outros filmes para ver: «O Sétimo Selo», drama, de Ingmar Bergman (1957), com Max von Sydow e Bibi Andersson (RTP2, sábado, 24); «Quando o Rio se Enfurece», drama, de Elia Kazan (1960), com Montgomery Clift e Lee Remick (SIC, 24); «Adeus África», drama, de Michael Radford (1988), com Sarah Miles e John Hurt (TVI, 24); e, «Pesadelo em São Francisco», drama, de Lou Antonio (1992), com Jaclyn Smith e Christopher Reeve (TVI, dia 27).


CINEMA - Peter Hyams, realizador de «Atmosfera Zero» e «Morte Súbita», aposta em «A Relíquia» por um thriller carregado de superstição, lendas e mitos. Baseado no conto de terror, com o mesmo título («The Relic»), de Douglas Preston e Lincoln Child, o argumento gira em torno da especulação e da ciência como possíveis vias de explicação para factos terríficos que têm acontecido no Museu Field, na cidade de Chicago. Neste caso, uma criatura oriunda da mitologia latinoamericana e conhecida como Kothoga - criada pelo ganhador de um Oscar, Stan Winston -, apresenta-se como um híbrido de mamífero e de réptil que semeia crime e terror no Museu de História Natural.

Penelope Ann Miller (como a bióloga Margo Green) e Tom Sizemore (no papel do tenente de polícia Vincent D'Agosta), aventuram-se a investigar as estranhas mortes que têm vindo a acontecer no museu onde Margo trabalha como bióloga da evolução. Através duma técnica especial utilizada pela bióloga, ambos entram num labirinto de terror com a desesperada intenção de caçar um tenebroso assassino.

O terror cinematográfico adquire um novo rosto em Kothoga, uma criatura que o próprio Peter Hyams define como "um ser tão repugnante que não pudemos suportar o seu tacto, tão terrífico e asqueroso que desejamos que acabe logo connosco". Além do mais, o filme atrai pelo facto de ser produzido pela produtora de «Aliens», Gale Anne Hurd, e os efeitos especiais serem da responsabilidade do criador dos efeitos de «Parque Jurássico».

«A Relíquia» foi a chave de ouro que abriu a edição deste ano do Fantasporto, este feliz exemplo de cinema de terror foi produzido pela Polygram Filmed Entertainment e é distribuído em Portugal pela Vitória Filme, sendo um exclusivo Ecofilmes Audiovisuais.
Vasco Martins
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Vícios sociais e torções mentais

Desculpem-se os leitores que depois de considerações tão sérias e tão profundas que aqui produzi em crónicas anteriores, venha agora armar-me em crítico de maleitas sociais ou vergastador de mentes arrumadas. Como diziam os latinos ne bis in idem, também importará afirmar ne semper per eundem modum. Misturar algum sentido de humor picante pode ser forma de dar sal à seriedade.


1. A mendicidade estudantil.

À entrada do aeroporto (e não foi a primeira vez) vi-me inopinadamente assediado por duas jovens vestidas de negro académico (porque há outras espécies de negros emblemáticos, como o clerical ou o judiciário) que pediam para qualquer coisa, imagino que para uma viagem de curso. Fui ríspido, reconheço, mas neste caso havia necessidade. Disse-lhes que deviam ter vergonha de se dedicarem à mendicidade à entrada do aeroporto, onde passam cidadãos de muitos países, que por força irão congeminar interiormente a nossa condição de terceiro-mundistas, mesmo que igual ou similar fenómeno aconteça nos países deles. Eu sei que nestas coisas do pedir há que aproveitar as ocasiões, e sempre é melhor receber um dólar que cem escudos. Eu sei que o mesmóssimo poeta se declara mendigo e pedinte, e por sua culpa. Mas est modus in rebus, para tudo há uma medida e um equilíbrio, há um tempo e um espaço propício.

Já não nos bastava ser assediados pelos encartados e exigentes arrumadores de automóveis, pelos temerosos e ameaçadores pedintes dos semáforos, pelos comiseradores mendigantes de porta de igreja, pelos vendedores de pensos rápidos ou lavadores de pára-brisas, pelos peditórios públicos para todas as maleitas sociais, pelos tocadores das estações do metro ou dos comboios suburbanos, que têm todos sete filhos e os pais enfermos e não podem trabalhar. Têm que perfilar-se agora negramente os estudantes, sob o pretexto de inofensivos actos académicos (designação com que se alegremente se encobrem desde os desmandos de praxes e queimas até outras irreverências menos ou mais extremas), estrategicamente colocados à entrada da principal porta de acesso a este jardim à beira mar plantado, reclamando o direito a uma contribuição para irem passear!

Conjugue-se agora uma tal atitude com a resistência ao pagamento das propinas académicas, em que os estudantes recusam, impantes de razão, participar na sua própria formação, obrigando arbitrariamente os outros cidadãos a fazê-lo, conjugue-se com os excessos e o desperdício, que ronda a mais soez falta de civismo, de que se faz gala nos cortejos e nas festas de princípio, de meio e de fim de ano, conjugue-se com o exibicionismo novo-rico (ou velho-rico, que vai dar ao mesmo) dos chamados bailes de gala em circunstâncias que tais, ou outras, e tirem-se conclusões. Não está em causa a legitimidade dos hábitos académicos, ou pretensamente académicos: todos temos direito ao lazer e à diversão. Está em causa outra atitude social e culturalmente reprovável: que se recorra à pedinchice pública e ostentatória para obter subsídios a fundo perdido. Até na diversão é preciso algum senso, de contrário transformam-se as boas aspirações em maligno desprestígio social de todos nós e do pequeno, mas honrado, país que devemos ser.


2. As ofertas das empresas petrolíferas.

Por imperativo categórico do exercício do trabalho e da cidadania nas actuais condições de vida, visito com alguma frequência esses sorvedouros de dinheiro e dispensários de poluição que se dão pelo nome de bombas de gasolina. A sua generosidade tem vindo a tornar-se proverbial. Não há nenhuma que não ofereça pontos, cartões, cupões, fichas para preencher e enviar ou meter em caixotes. Dizem que depois isso dá o que tem que dar: telemóveis, automóveis, miniaturas, camisetas, blusões.

Nas circunstâncias presentes do desenvolvimento económico do país, não pode haver promoção de livros, de revistas, de enciclopédias, de concursos de televisão, e agora até de gasolina, que não ofereça um telemóvel ou sorteie um automóvel, que como se sabe toca sempre aos outros. A culpa não é deles, é nossa, porque embarcamos todos nesses iscos, ou logros, ou fraudes, com que se o povo néscio engana, como já disse quem sabia muito.

O mais divertido da situação é que, em certos casos, essas ofertas servem para se venderem outros produtos: dão-nos pontos para a gente pagar o brinde, oferecem-nos para que compremos. Ganham assim de duas maneiras: vendem o combustível e vendem a oferta por termos comprado o combustível. Eis como o combustível, pela falsa via da generosidade, se converte em embuste.

Há outros ofertadores mais sérios: dão-nos pontos e depois oferecem, ao cabo de muito esforço e muito gasto, uns apreciáveis brindes, onde evidentemente não pode faltar o telemóvel ou a bola de futebol. Do mal o menos.

Vem tudo isto para dizer que este tipo de propaganda, em que todos os operadores do ramo parece que se conluiaram para criarem ilusões ao cidadão, poderia ser transformado em proveito do próprio consumidor, sem prejuízo do operador. Como? Mui facilmente: fazendo repercutir os gastos dessa insana e nefasta propaganda (toda a propaganda é nefasta, mesmo quando o não parece) num abaixamento do preço dos combustíveis. Isso faz-se em outros países, em que funcionam as leis da concorrência, tidas por sagradas em muito discurso tecnocrático. Isso começaram já a fazer algumas empresas mais modestas, porque os mais modestos são também os mais honrados. Isto deveria ser especialmente válido para a empresa ainda pública que lidera tal actividade, e que gasta milhões a oferecer enganosas inutilidades, quando poderia dar o exemplo de atender ao interesse dos cidadãos, que até ajudam a sustentá-la, porque tem vindo a ser estranhamente deficitária. Esse bom exemplo poderia até contribuir para as benesses macro-económicas, porque a baixa dos combustíveis, por pequena que seja, repercute-se rapidamente nos outros preços (bem, sobretudo para justificar aumentos...).

Está claro que a ideia tem tão pouco de original como de probabilidade de ser posta em prática. Todos sabemos que é preciso ajudar a sustentar os publicitários, as televisões, as rádios, os jornais, que são sempre muito mais agradecidos do que o cidadão comum, que se lhe fazem um benefício é absurdamente ingrato em reconhecê-lo. Aliás, o cidadão comum não foi feito para receber benefícios, mas para os pagar.


3. O homem e o computador.

Um dos casos mais emblemáticos da imprensa da passada semana conta-se em poucas palavras: o campeão mundial de xadrez, Gari Kasparov aceitou o desafio de defrontar numa série de partidas um computador, e à segunda não é que o raio do computador lhe ganhou? Ó supremo espanto! Ó inaudito sucesso! A máquina, por fim, venceu o homem!

O que mais espanta na forma como são noticiadas estas coisas é a inépcia com que se envolvem e o logro em que caem os mediadores das notícias. Falam daquilo como se fosse uma agressão entre treinadores de futebol ou o erro de um árbitro num jogo decisivo. Até arriscam o cúmulo da capacidade jornalística (coisa que se deve tentar poucas vezes, para ver se em alguma resulta) que é enrascar um ministro com uma pergunta oscilante entre o bem informado e o provocador: que pensa do facto de a máquina ter vencido o homem? O ministro, com ministerial sabedoria (que, como todos sabemos por experiência, é a máxima entre todas as humanas sabedorias) lá explicou que o computador e o programa são o fruto sazonado de um amplo, cuidadoso e profundo trabalho de equipa, e que por isso é menos provável uma falha num trabalho com estas características do que um lapso na inteligência, perspicácia ou perícia de um só homem, por muito génio que seja.

Estava descoberto o ovo de Colombo: afinal o computador não era mais que o intermediário entre um homem e uma equipa de homens. E como todos os intermediários, não vale mais do que isso: não produz nada, não cria nada, mas é quem tem o maior proveito de todas as criações.

Não há nada mais pesaroso para um informador destemido do que ter que aceitar semelhante situação. Então a espantosa notícia fica assim reduzida à banalidade de um simples relacionamento entre inteligências humanas? Como é possível perder-se o fulminante, o surpreendente, o invulgar, o fulgurante, o que verdadeiramente importa divulgar aos ventos? Por que raio havemos de meter ministros de ciência neste mundo deslumbrador da informação?
C. F.
MEC - Movimento de Educadores Católicos. O MEC promove, neste fim de semana, uma Visita Cultural e de convívio à cidade do Porto e à Região Duriense, que tem como componentes do programa os seguintes actos: No sábado, 24, uma visita de barco ao Douro e um convívio na Casa de Vilar; no Domingo, dia 25, visitas, guiadas por Dom Geraldo C. Dias a vários monumentos da cidade (Sé, Grilos, São Bento, Clérigos), e terminará com um Concerto Coral, de órgão e Canto gregoriano, na Igreja da Lapa, às 16 horas. A participação na visita e no Concerto é livre. Ponto de encontro para as visitas: Terreiro da Sé, a partir das 10 horas.
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