| Cultura: | ||
De 17 a 23 de Maio
TELEVISÃO
- O realizador homenageado
esta semana na rubrica "Cinco Noites Cinco Filmes"
da RTP2 é Frank Capra, estando agendados cinco dos
melhores trabalhos realizados na década de 30: «Loura
Platinada» (1931), com Jean Harlow (dia 19); «A
Grande Muralha» (1933), com Barbara Stanwyck (20); «Uma
Noite Aconteceu» (1934), com Claudette Colbert e Clark
Gable (21); «Doido com Juízo» (1936),
com Gary Cooper (22); e, «Peço a Palavra»
(1939), com James Stewart (23).
Frank Capra nasceu em 1897 em Bisaquino, na Sicília, numa família pobre e com seis irmãos. Aos seis anos emigra com a família para a América. Os seus filmes mais famosos tinham como tema o homem comum - personificados de maneira ideal por James Stewart ou Gary Cooper - que vence as dificuldades através do seu carácter moral e determinação. Capra foi o optimista de Hollywood, cuja abundância de sentimento, aliada à comédia, elevava o espírito das platéias americanas, abalado pela Depressão e pela guerra. Os seus filmes eram, segundo ele, uma nota de agradecimento à América. Ao serviço da Columbia Pictures dirigiu 51 filmes, destacando-se «Uma Noite Aconteceu», o seu primeiro grande sucesso, com uma história simples de uma rapariga rica e mimada que aprende a gostar das pessoas simples (o filme ganhou os cinco principais prémios da Academia, um recorde que só viria a ser batido 41 anos depois); «Doido com Juízo» garantiu-lhe o segundo Oscar como realizador; «Peço a Palavra», uma história sobrecarregada de considerações humanitárias, e «Do Céu Caiu Uma Estrela», de 1947, que ficará na história como o maior filme de "optimismo" jamais produzido, embora o seu sucesso só se tenha verificado após sucessivas passagens na televisão americana. Frank morreu com 94 anos, a 3 de Dezembro de 1991. Todos herdámos dele uma mensagem de esperança e fé na fraternidade humana.
Sendo actualmente o mais antigo festival de cinema em actividade no nosso país, o Festival Internacional de Cinema do Algarve (FICA) atingiu o quarto de século de existência, comemorando o seu 25º aniversário na realização do certame deste ano, entre 19 e 25 de Maio. O Cinema Três Irmãos do Hotel Alvor Praia será, a exemplo do ano passado, local onde serão exibidas mais de 50 curtas-metragens, entre documentários, animação e ficção, provenientes de cerca 18 países, destacando-se a Bélgica, com 11 filmes, seguindo-se os Estados Unidos da América, com 8, e Portugal com apenas sete títulos.
O FICA caracteriza-se como um encontro de cultura(s) e turismo, tendo dedicado estes 25 anos à divulgação de Curtas-Metragens, um tipo de Cinema diferente, de há uns anos para cá posto à margem das distribuidoras (quem não recorda com saudade os pequenos filmes de animação e didáticos que antecediam as sessões de cinema comercial), mas também um certame de descoberta, onde o público toma contacto com novos cineastas e novas formas de leitura da linguagem cinematográfica, igualmente um festival de retrospectiva, por vezes satisfazendo desejos nostálgicos, onde se mostram obras, às vezes inéditas, de realizadores conhecidos do grande público.
Entre os filmes que iremos poder ver este ano, destaca-se o inteligente trabalho com areia «A Busca/Quest», do alemão Tyron Montgomery, vencedor do Oscar para a Melhor Curta-Metragem de Animação 1996 (igualmente vencedor do "Cartoon D'Or '96"), além de ter ganho o Prémio da Crítica no Cinanima, de Espinho, no ano passado; a curta-metragem de ficção «O Prego», de João Maia (Portugal), seleccionado para o Festival de Cannes 1997; o espanhol «La Viga», do jovem cineasta Roberto Lazaro, recentemente galardoado com o Prémio Goya do Cinema Espanhol; o mexicano «De Tripas Corazon», de António Urrutia, que também esteve nomeado na última edição dos Oscars da Academia. A abrir o festival estará presente a curta-metragem de ficção portuguesa «Dois Dragões», de Margarida Cardoso, com Ana Zannatti, que chegou a ter estreia nos cinemas. Outros destaques vão para o hilariante trabalho de animação com plasticina saído dos Estúdios Aardman, de Londres, «A Tosquiadela/A Close Shave», do britânico Nick Park, que trará as aventuras da divertida dupla Wallace & Gromit; «The Chicken from Outer Space», de John R. Dilworth (EUA); «O Despertador», de Júlio Alves (Portugal), que já passou no Fantasporto, este ano; «O Fim do Mundo em Quatro Estações/The End of the World in Four Seasons», de Paul Driessen, uma boa representação da escola de cinema de animação do Canadá, que ganhou um prémio no Festival de Vila do Conde, no ano passado; «The Forgotten Toys», que já se encontra editado em vídeo no mercado português traduzido por «Os Amigos» (edição Prisvídeo), foi realizado por Graham Ralph (Inglaterra), tendo ganho o Prémio de Melhor Curta-Metragem de Animação no Festival de Berlim de 1996.
Este ano o Júri Internacional será composto pelo belga Jean-Marc Vervoort (realizador do filme «Le Pendule de Madame Foucault», vencedor do "Grande Prémio" do FICA '96), a jornalista e crítica de cinema alemã Sanja Seaber, o realizador italiano Rolf Mandolesi, o realizador e crítico de cinema inglês Tony Shapps e o produtor de cinema francês Jesus Rodriguez, além da jornalista portuguesa Helena Balsa e do jovem realizador Pedro Sena Nunes, vencedor do "Grande Prémio" do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde, no ano passado, com o documentário «Margens».
| Vasco Martins |
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| Não é o mesmo permitir que aprovar; antes o que se permite já se supõe condenado. |
| Padre António Vieira |
Oportunamente salienta Frei Bento Domingues, na sua crónica do Público do passado Domingo (11 de Maio), que nas sociedades marcadas pela modernidade (que são todas as do chamado mundo ocidental), que a religião já não é de interesse público. De interesse público é a liberdade religiosa, fundada no reconhecimento dos direitos da consciência individual, garantida pela mediação da democracia política.
A observação é não apenas lúcida e oportuna, mas verte e manifesta uma das constantes da nossa sociedade. Os poderes públicos concedem, permitem, autorizam, legislam, zelam até, pela liberdade religiosa, em nome da consciência individual. Mas a religião, enquanto valor humano, não é nunca assumida, antes parece tolerada. É aprovada porque se supõe condenada, ou pelo menos condenável. A mais profunda de todas as convicções humanas de antanho, a única convicção que nunca foi abandonada pelos homens e pelas culturas, surge agora como tolerada e objecto de uma lei, como se faz uma lei para os cafés e bares diurnos e nocturnos, para o trânsito, para a canalização das águas pluviais ou para a plantação de oliveiras. Arvoram-se os poderes públicos em decisores e toleradores de algo que é indissociável da natureza humana.
Vejamos: as concepções mais antigas de sábios da cosmografia e da cosmogonia foram superadas pela revolução coperniquiana: a terra deixou de ser o centro do universo, mas o firmamento continua gloriosamente a cantar as glórias de Deus. A terra deixou de ser plana, mas o espírito de Deus continua a pairar sobre as águas e o espírito humano continua a elevar-se para além dos astros e a inquietar-se pelo inefável. Pelas teorias evolucionistas, o homem deixou de ser independente dos outros viventes, mas continua a cumprir escrupulosamente o mandato de dominar sobre eles, a até o amplia ao dever de os proteger; os poderes cartesianos da razão como primórdio do ser racional, dogmaticamente assumidos ao longo dos séculos das luzes, são reduzidos a produtos da natureza: a verdade dogmática de Descartes transforma-se dogmaticamente em erro de Descartes; no entanto a fé continua a transportar montanhas e a percorrer distâncias. Pelas teorias modernas o poder que nas mais lídimas filosofias antigas nascia de Deus, passa a ser gerado pela sociedade e pelos princípios democráticos: a maioria tem sempre razão, ainda que proponha e assuma erros sistemáticos; frequentemente, sobretudo nas grandes causas e nas grandes cousas, a razão está apenas com alguns indivíduos, quase nunca aceites. No entanto, o coração humano continua inquietamente a buscar a sua realização fora de si, porque em si sabe que nunca a encontrará.
Neste complexo caldo de cultura, os poderes humanos, políticos e sociais, que são os que agora mandam, fazem arvorar a liberdade em valor supremo, aceitando que o homem afirme sociológica, política, constitucional e legalmente sociologicamente o que não afirma nem histórica nem antropologicamente: que a liberdade religiosa, que assenta na religião, se não não faria sentido, passa a ter a sua raiz na consciência individual, sendo a consciência de cada pessoa a fonte da sua dignidade. Mas quem é a fonte da consciência de cada pessoa? E quem é a fonte de cada pessoa? Estou a ouvir a resposta: a natureza humana. E quem é a fonte da natureza humana?
Desta forma, a religião, sendo embora inata ao homem, é assumida pelas leis como produto social. Em nome da liberdade, aceita-se a religião. Em nome do social, que o homem aceite o seu princípio e o seu fim. Em nome do social aceita-se a liberdade individual. A religião torna-se socialmente um produto tolerado, e portanto condenado; permitido, e portanto supostamente aceite sob reserva. Não se aprova a religião, normatiza-se; não se afirma como valor, aceita-se sob dadas circunstâncias, que a sociedade, o Estado, os ordenamentos jurídicos, os governos, os magistrados, as polícias se encarregam de regulamentar.
Há aqui algo de equivocado; há uma incursão do Estado em meios que lhe não são próprios; há a relativização de valores que se devem entender como essenciais. Legislar sobre uma situação é supor que ela se torna transgressora. A religião nunca é transgressora. Transgressora é a sociedade que transforma esse sentimento e convicção profunda do homem em factos sociais, tais como as guerras ditas religiosas (que não são religiosas, mas conflitos de interesses geralmente evidentes), as perseguições inquisitoriais (que enfermam justamente de ter sido o Estado a assumir e a definir as convicções religiosas), e todas as formas de abusos, como a dos grupos que se imolam pelo fogo ou pelo veneno: aí não entra a religião, mas a transgressão e o desequilíbrio social.
Por tais razões, mais que por garantir ou deixar de garantir direitos, qualquer lei de liberdade religiosa carece de plena justificação. A única justificação que talvez tenha é a de não poder ser doutra maneira.
| C. F. |
memórias de pessoas falecidas na passada semana: a primeira, do jornalista Silva Costa, que foi colaborador da «VP» nos primeiros anos da sua publicação. Grande defensor da deontologia profissional e possuidor de nobre sentido do humanismo cristão, quis que a sua morte passasse despercebida.
A outra figura notável que desceu à sepultura foi a do professor, investigador e etnólogo Manuel Viegas Guerreiro, que continuou os trabalhos etnográficos de Leite de Vasconcelos e Jorge Dias, tendo-se dedicado especialmente ao estudo dos costumes e hábitos tradicionais dos povos e Angola e Moçambique. Estudou também a literatura popular portuguesa. A sua última obra é dedicada ao que fora seu mestre: "Leite de Vasconcellos e a Ciência etnográfica em Portugal"(1992). Contava 84 anos.
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No entanto, a despeito das centenas de trabalhos de indispensável leitura para a compreensão de um dos mais emblemáticos e imprescindíveis escritores portugueses deste século, a maioria aborda aspectos monográficos ou parcelares da sua obra, a que continua a faltar um sistemático e global estudo de conjunto, que englobe a totalidade da sua obra até ao fim (1995), Entretanto importa salientar alguns ensaios que procuram adentrar no complexo universo telúrico e mental de Torga. Neste ainda misterioso, rico e complexo domínio, surgiram já trabalhos de imprecindível leitura, devidos a pessoas que disfrutaram do privilégio da convivência com o escritor. Entre eles haverá que colocar O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga, de Clara Crabbé Rocha (filha do homem de quem Miguel Torga é apenas o pseudónimo), datado de 1977; e Ser e Ler Torga, do prematuramente falecido Fernão de Magalhães Gonçalves (1986), que perspectiva uma interessante análise de uma tríplice dimensão, ou tríplice discurso na sua obra: propõe uma dimensão teológico-cósmico-sociológica, como chave interpretativa do complexo mental da obra. Esta análise parece constituir uma perspectivação, ainda não superada nem completamente desenvolvida, para um estudo de conjunto sobre as amplas dimensões do pensamento de Torga.
É agora dado à luz, nas Edições Tartaruga, um escrito de outro homem, entretanto falecido, também transmontano e que privava de perto com Torga, o franciscano Armindo Augusto de Carvalho. É um estudo publicado já em 1960, na revista Itinerarium, numa altura em que surgia na ribalta o nome de Torga como candidato ao prémio Nobel, e que leva agora por título Miguel Torga - O drama de existir, transmutando um pouco o original O drama de Miguel Torga. Trata-se de uma análise de alguns dos aspectos mais repetidos na escrita do escritor transmontano: as suas ligações filosóficas, as posições sociológicas e políticas, os aspectos do que se vai definindo como visão telúrica, o sentido das sua dimensão regional, nacional, peninsular e universal, e sobretudo o alinhamento/desalinhamento religioso de Miguel Torga.
Avulta a admiração extática pelo espiritualismo naturalista de São Francisco de Assis, tão querido a tantos escritores de grande fé interior vivenciada em dramas religiosos institucionais, mas sobretudo aquela relação afectiva que Torga dedicava a muitas pessoas que, pelo seu diálogo e convivência, colocavam perto dele a inquietação religiosa, ou ajudavam a aproximar do seu profundo sentido místico.
Assim, este reeditado estudo ajuda a preencher talvez a mais importante lacuna em toda a crítica sobre Miguel Torga: uma análise fundamentada, intensiva e alargada das suas concepções sobre a religião, o sentido da vida e da morte, as relações homem-Deus, o desespero e a esperança, o presente e o além. Seria agora interessante confrontar a análise feita pelo autor deste estudo com o percurso posterior de Torga até que os seus dias telúricos chegaram ao termo. O resultado será certamente um edifício em que se há-de misturar a catedral gótica com a arquitectura modernista, e sairá um tosco edifício que, porque nunca se desmoronou, pode tornar-se sinal de esperança para todos os que, procurando, vivem a angústia de não encontrar.
| C. F. |
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