Cultura:

«UMA SEMANA DE CINEMA»

De 8 a 16 de Maio


TELEVISÃO - A rubrica "Cinco Noites Cinco Filmes" da RTP 2 seleccionou alguns dos melhores exemplos de musicais mesclados com outros géneros. Assim, teremos a comédia musical «Escola de Sereias», de George Sidney (1944), com Esther Williams e Red Skelton (dia 12); o genuíno e inconfundível melodrama «O Feiticeiro de Oz», de Victor Fleming (1939), com Judy Garland e Frank Morgan (dia 13); dois documentários com so melhores musicais de sempre em «Isto é Espectáculo», de Jack Haley Jr. (1974), no dia 14, e «Hollywood, Hollywood», de Gene Kelly (1976), no dia 15. Este pequeno ciclo conclui com chave de ouro, apresentando o espectacular «Cabaret-Adeus Berlim», de Bob Fosse (1972), com Liza Minelli e Joel Grey (dia 16).

Depois de «West Side Story», eis a brilhante metamorfose da comédia musical hollywoodiana, a que foi injectada uma dose intensiva de realismo político. Estamos em Berlim, no início dos anos 30. No "Kit Kat Club" um apresentador afeminado recebe com grande pompa um público variado. Enquanto o país atravessa uma grave crise (a gênese do nazismo), as pessoas alheiam-se dos problemas com cantos e danças. A estrela da companhia é Sally Bowles (Liza Minnelli), uma jovem de formas carnudas e voz de ouro.

O argumento de Jay Allen e Hugh Wheeler foi baseado no show de Joe Masteroff, John Kander e Fred Ebb, tirado da peça «I am a Camera» de John Van Drutten, inspirada por sua vez no livro «Goodbye to Berlim» de Christopher Isherwood. Uma primeira adaptação cinematográfica do livro de Isherwood, fora realizada em 1955, na Inglaterra, com Julie Harris no papel de Sally. Depois, foi encenada uma peça na Broadway, com Jill Haworth. Mas foi o americano Bob Fosse (1925-1987), dançarino, coreógrafo e realizador, que soube dar a essa tragicomédia berlinense a sua verdadeira dimensão, a meio caminho entre «O Anjo Azul», de Josef von Sternberg (1930) - abertamente decalcado - e «Os Malditos», de Luchino Visconti (1969). Fosse rodeou-se de uma equipa de luxo: Liza Minnelli, filha de Judy Garland e do realizador Vincent Minnelli, espreme maravilhosamente o sumo ácido da "divina decadência"; Joel Grey compõe um entertainer luciferiano na medida certa; Geoffrey Unsworth (que foi o genial director de fotografia de «2001, Odisséia no Espaço», de Stanley Kubrick) assesta os seus projectores neste carrocel enlouquecido... Os factos explosivos do music-hall encontram o seu contraponto num documento social de um realismo impressionante. Produção de qualidade incontestável, «Cabaret» cobriu-se de Oscars, num total de oito: para a realização, a interpretação, a fotografia, cenografia, som, montagem e música (de Ralph Burns e John Kander), competindo com «O Padrinho», de Francis Ford Coppola.

Outros filmes que também deve ver: «O Feitiço da Lua», comédia, de Norman Jewison (1987), com Cher, Nicolas Cage e Olympia Dukakis (dia 9, na RTP 2); «A Regra do Jogo», drama, de Jean Renoir (1954), com Marcel Dalio e Nora Gregor (dia 10, em "O Filme da Minha Vida", na RTP 2); e, «Fiorille», drama, de Paolo e Vittorio Taviani (1993), com Claudio Bigagli e Galatea Ranzi (TVI, dia 10).


CINEMA - David Bowie confessa-se perturbado enquanto a sua voz e a sua música acompanham a câmara numa vertiginosa viagem através da noite. Seguindo pintura sinalizadora a tracejado da estrada, o espectador penetra nos mistérios de um argumento engendrado por David Lynch durante as filmagens de «Twin Peaks: Fire Walk With Me». Inactivo desde 1992, David Lynch oferece-nos um dos mais esperados filmes dos últimos tempos com um argumento escrito por ele mesmo e Barry Gifford: «Estrada Perdida/Lost Highway». De facto, toda a história nasce a partir de uma frase (lost highway) retirada do livro «Night People», do próprio Gifford. Como em muitos dos filmes de Lynch, fazer uma sinópse argumental é um verdadeiro desafio, embora o certo é que a história acaba por ser de menor relevância e o que prima é a atmosfera em que somos envolvidos. Lynch diz que "em níveis profundos, o filme aborda os fragmentos da personalidade de um homem e dá um forte abanão de emoções e motivações: ira, raiva, medo, tristeza e humilhação, todas elas combinadas para mostrar o poder que tem a mente de se enganar a si mesma. A consciência oculta-se quando o horror da vida e o horror das nossas próprias acções se torna insuportável".

Segundo o dossier fornecido à imprensa, o filme é "a história de um assassino que sofre de uma esquizofrenia aguda". Trata-se de um resumo bastante tosco. Na "Première", o realizador define-o como "uma fuga psicogénica", quer dizer, "a capacidade que uma pessoa tem para desenvolver uma nova identidade, criando para isso novos amigos, um novo lar, uma nova família". Só que agora, Lynch concede ao seu personagem um novo rosto, um novo corpo: assim, Bill Pullman converte-se rápidamente em Balthazar Getty. A voluntária distorção deste fenómeno psicogénico alimenta a dúvida no espectador, submetido a um jogo de claras referências sensoriais (o ruído subliminar constante; a obscuridade impenetrável...) e bombardeado por símbolos, enigmas e omissões (parece que todas as sequências explicativas foram eliminadas da montagem final para deixar o espectador alheado de referências) que convergem numa estranha dobragem.

Tudo se dobra - aliás, desdobra - em «Estrada Perdida»: Bill Pullman fala consigo mesmo através do telefone da porta de casa, um Homem Misterioso (Robert Blake) chama-se a si mesmo por telemóvel para demonstrar que na realidade está noutro sítio (e nos dois ao mesmo tempo!?), Patricia Arquette é uma loira fogosa e uma morena frígida. Tudo é dobragem e paradoxo ao mesmo tempo: alguns personagens vivem situações típicas de dupla personalidade sem realmente viverem. As regras do jogo são básicamente uma: não existem regras do jogo. Daí estarmos na presença de um puro Lynch, fiel a si mesmo. Segundo os "Cahiers du Cinèma", «Estrada Perdida» sugere um excepcional estilo abstracto-figurativo. Lynch não aposta nas referências, serve-se delas para recriar um fundo único no qual se sobrepõem as suas figuras.

Como sempre, David Lynch apoia-se na banda sonora para criar um efeito de ósmose entre distintas artes: a parte visual torna-se musical, e vice-versa. Angelo Badalamenti, colaborador habitual de Lynch (desde «Veludo Azul»), assina uma partitura que vai do metálico ao confuso (música e ruídos num único suporte de sons desconcertantes: inclusivé adivinham-se diálogos, quase susurros, sendo a voz um puro instrumento).

Distribuído por Atalanta Filmes, não deve perder este invulgar filme de invulgar qualidade, de um invulgar realizador.
Vasco Martins
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A actualidade pedagógica de Paulo Freire e a sua visão do futuro

1. Paulo Freire, pedagogo brasileiro que faleceu aos 76 anos, no passado dia 1 de Maio, constitui um nome de referência mundial quando se fala de novidade ou inovação em educação e sobretudo em métodos de alfabetização. Nascido num país em que era e é grande a percentagem de analfabetos, procurou estruturar um método que desse resposta simultaneamente à necessidade de aprender a ler e escrever e à dimensão muito mais vasta de aprender a ler e a escrever para tornar o homem e a mulher mais pessoas, mais livres. Nascido em 1920, no Recife, após os anos da sua formação, tornou-se professor de Filosofia e História na Universidade daquela cidade. Ao verificar a grande quantidade de analfabetos adultos naquela zona do Brasil (como em outras), comprovando que o analfabeto era uma pessoa diminuída, procurou desenvolver um método de aprendizagem que assentava simultaneamente em "palavras geradoras" e naquilo a que chamou a "conscientização", e que foi aceite e desenvolvido pelo próprio governo federal, de tal forma que se formaram numerosos círculos culturais destinados a alfabetizar as populações. Com o golpe militar de 1964, porque a ditadura militar considerou o seu método "subversivo", teve que abandonar o país. Exilado no Chile, continuou a desenvolver e aperfeiçoar o seu método, que pouco a pouco se foi tornando conhecido, ultrapassando as barreiras do Brasil. Nos anos 70 passou à Universidade de Harvard, e foi designado consultor do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra. As revistas de Educação e numerosos organismos culturais de todo o mundo divulgam os seus escritos, realizam entrevistas, escutam conferências. Uma dessas conferências, em conjunto com uma sua entrevista, foi publicada em Portugal, em 1973, sob o título "Uma educação para a liberdade", numa altura em que (estranhamente) afirmar o princípio da liberdade era, por alguns, considerado subversivo. Muitas das ideias aí expressas possuem notável actualidade.

O seu primeiro livro de envergadura foi "Educação como prática da liberdade", logo traduzida em várias línguas. Segui-se outra das suas obras fundamentais: a Pedagogia do oprimido, publicada em Nova Iorque. A seguir surgiram numerosos artigos em revistas de todo o mundo. Regressado ao Brasil, milita no Partido dos Trabalhadores, e torna-se Secretário Municipal da Educação no Município de São Paulo (1989-91). Estava prevista a sua visita a Portugal na última semana de Maio, devendo ser homenageado pela Universidade de Lisboa, por cuja Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação era Doutor honoris causa; seria também doutorado honoris causa pela Universidade do Algarve e condecorado pelo Presidente da Republica. O homem põe, Deus dispõe. Mais que as homenagens, vale a sua obra. Ela contém os gérmens de uma visão cada vez mais actual e reconhecida da educação. Ele pensou a acção educativa para os adultos, mas os seus princípios valem também para os jovens. Definia-se como "humanista cristão", considerando o homem como centro da história. Porque era difícil que um homem analfabeto se pudesse tornar centro de história, a primeira tarefa era criar nele os instrumentos de promoção e valorização.

2. A Educação como prática da liberdade e a Pedagogia do oprimido são os seus dois títulos mais famosos. Os princípios aí afirmados são hoje lugar comum e quase dogma corrente. Entre esses princípios podem salientar-se: o educando deve ser sujeito activo da educação; toda a educação deve conduzir ao sentido e à prática da liberdade; toda a prática de liberdade é uma prática de responsabilidade; a acção do homem no mundo implica uma permanente definição ética; toda e educação exige a formação permanente dos educadores; a educação é um elemento essencial de todas as políticas de desenvolvimento. Ainda recentemente afirmava, em entrevista à agência Lusa: "Eu defendo uma prática educativa que discute, convida e insiste em que o educando se deve assumir como sujeito da História".

3. Há duas semanas atrás publicávamos aqui conclusões de umas Jornadas Pedagógicas em que os peritos participantes assumiram, por formas mais actuais e reelaboradas esse mesmo princípio. A educação de hoje não pode continuar a ser apenas e educação para as competências profissionais, para as destrezas técnicas, para as respostas ao mercado de trabalho, como defendem (ou supõem) múltiplas ideologias tecnicistas e economicistas. A educação que responda às sociedades modernas (e isso parece começar a ser entendido pelas organizações internacionais) deve essencialmente formar pessoas, homens e mulheres livres e responsáveis. Deverá ser uma educação "com valores", os valores essenciais da dignidade do homem, da convivência, da liberdade e da responsabilidade, dos direitos e dos deveres pessoais e sociais.

Ao chamar a atenção para a centralidade da pessoa (em vez da centralidade das competências ou das habilidades, ou da profissão, ou do emprego, ou da produção, que ainda informa muitas das teorias que nos impingem empresários e doutores da pragmaticidade), ao insistir na "prática da liberdade", na procura de valores essenciais ao homem, Paulo Freire adiantou-se ao seu tempo, e os entendimentos, as normas e processos que formulou para a alfabetização de adultos valem para a educação em geral.

Enquanto a educação não formar homens imbuídos de valores pessoais e sociais, de sentido moral e sentido cívico, da dignidade pessoal e do bem comum, será sempre deficiente. O problema essencial das escolas de hoje não é tanto a diminuição de conhecimentos, mas a diminuição da "conscientização" dos valores humanos que se pressente e vê. E estes aspectos não são redutíveis a estudos de "iliteracias". Sentem-se nos conflitos sociais, na delinquência, na marginalidade, na perda de sentido ético nas empresas e no trabalho, na falta de empenhamento nas actividades de interesse da colectividade. E estas doenças são mais generalizadas e mais graves que as sidas, as vacas loucas ou mesmo os acidentes de viação. Porque tocam o essencial do homem. E no entanto não merecem tantas atenções.
C. F.
P.S. Esta memória de Paulo Freire deve ajudar-nos a recordar igualmente outras duas

memórias de pessoas falecidas na passada semana: a primeira, do jornalista Silva Costa, que foi colaborador da «VP» nos primeiros anos da sua publicação. Grande defensor da deontologia profissional e possuidor de nobre sentido do humanismo cristão, quis que a sua morte passasse despercebida.

A outra figura notável que desceu à sepultura foi a do professor, investigador e etnólogo Manuel Viegas Guerreiro, que continuou os trabalhos etnográficos de Leite de Vasconcelos e Jorge Dias, tendo-se dedicado especialmente ao estudo dos costumes e hábitos tradicionais dos povos e Angola e Moçambique. Estudou também a literatura popular portuguesa. A sua última obra é dedicada ao que fora seu mestre: "Leite de Vasconcellos e a Ciência etnográfica em Portugal"(1992). Contava 84 anos.

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