Cultura:

O tempo que vem, ou memórias de um concerto coral-sinfónico

A Orquestra Clássica e o Coro da Sé Catedral do Porto, realizaram mais um notável concerto da série Concertos da Páscoa que já são do conhecimento da cidade do Porto e da Região Norte. Com efeito, Braga, Espinho e Porto têm repartido, nos últimos anos, a tríplice apresentação de obras cimeiras da música sacra coral-sinfónica. Recordamos Bach, Mozart, Haendel, Vivaldi, Bomtempo, e por aí fora. Este ano coube a oportunidade a Franz Schubert, de quem se comemora o 2º centenário do nascimento (1797-1828), a quem o programa preparado associou um desconhecido português, seu contemporâneo mais velho: José Joaquim dos Santos (1747-1801?), pouco conhecido compositor português (ser compositor ou autor português e pouco conhecido são quase sinónimos, e não por culpa deles, mas nossa), ao que dizem natural de Óbidos, do qual se ouviu um Stabat Mater, tema litúrgico que contempla Maria junto da cruz de Jesus Cristo, e cujo tratamento musical era frequente na época (o próprio Schubert escreveu um Stabat Mater, que bem pudera figurar também no programa), mas de Pergolesi a Rossini, talvez os mais célebres, muitos compositores sentiram a inspiração sugerida por este texto litúrgico). Na composição do autor agora dado a conhecer, depara-se-nos uma composição de características claramente litúrgicas, sem excessivas repetições nem retornos, numa estrutura e construção musical claramente ao serviço das palavras e da mensagem, onde se pode detectar alguma oportuna influência de Haydn ou até, prematuramente talvez, de Mozart. A visão dramática do autor ressalta na diálogo entre os solistas e o coro, a que a orquestra empresta o seu comentário lírico, porque o texto é essencialmente lírico. O dramatismo resulta da composição e da visão do autor. Não é certamente uma obra-prima, mas é digna de complacente consideração e, por certo, um bom tema de meditação

A Missa em Lá bemol maior D 678 de Franz Schubert (número do Catálogo temático da sua obra, publicado em Nova Iorque, em 1950, o que nos mostra que só em meados do nosso século a obra do compositor austríaco adquiriu um pleno reconhecimento como uma das mais geniais da história da música) é uma das suas 7 missas. Ao contrário da obra anterior, esta não é certamente uma obra para a liturgia, mas uma versão e interpretação dramática do texto tradicional da Missa, que no entanto "lê" em muitas passagens ao gosto romântico, segundo a dinâmica sensorial com que o autor a interpretava. O que não diminui, antes exponencializa a força dinamizadora do texto. Por exemplo, no Gloria (sem dúvida a parte mais expressiva e mais trabalhada da obra) é frequente a alteração da ordem das palavras, a sua associação de uma forma diversa da letra original, que interpretam uma leitura pessoal do compositor. A dimensão litúrgica é assim transformada numa interpretação dramática, dirigida à criação de uma plenitude da visão musical sugerida pela expressividade do texto. Coisa que acontecia e aconteceu frequentemente no período romântico e em muitos dos que lhe sucederam. A complexa e espantosa fuga final deste Gloria é certamente (na sua dificuldade e complexidade) um dos momentos mais emocionantes de toda a obra, e não deixa de transmitir essa espécie de efusão lírica e dialogal-dramática que tão vivamente caracterizam a música de Schubert. Considerar que aquela profusão, riqueza, expressividade, grandiosidade onírica, profundidade estética e dinamismo transformador são obra de um "rapaz" de menos de trinta anos pode explicitar, embora não explicar, a dimensão do que se convencionou chamar o génio. As dimensões do génio permanecem nos domínios incontroláveis do mistério.

As cidades de Braga, do Porto e de Espinho reviveram mais um dos grandes momentos musicais, de que a música coral sinfónica é um dos máximos expoentes. A interpretação, tranquila na primeira obra e teatral na segunda, como convém ao tipo da música respectiva, reafirmou a qualidade dos participantes. A orquestra clássica do Porto e o Coro da Sé Catedral formam cada vez mais um conjunto que se completa e interpenetra: nas mãos de um maestro que domina as partituras de uma forma impressionante, assumindo as funções de dinâmica complementaridade criadora, ouviu-se um conjunto em que a unidade se tornou irmã da diferença. Talvez um pouco mais de moderação em alguns momentos mais entusiásticos e um melhor controle das sonoridades possam vir a favorecer esta obra, que certamente ouviremos em novas circunstâncias. Os solistas, dos quais apenas Sílvia Mateus (soprano) era portuguesa, mostraram profisisonalismo e capacidade de abordagem de composições de tão diferente complexidade. A soprano, colaboradora repetente destas andanças, demonstrou mais uma vez que é uma das mais notáveis vozes do canto em Portugal: volume, expressividade, sentido interpretativo do texto, rigor de dicção, emoção e sentimento.

Esperam-se novos projectos. Anda por aí um centenário de Brahms e aproxima-se o ano jubilar do cristianismo. A música, como as artes, tem que ser o sinal de uma dinâmica de esperança para estes tempos, que não podem ser entendidos apenas como de moedas únicas, de integrações europeias, de progressos materiais ou de temerosos e incontroláveis avanços tecnológicos ou das ciências da vida. O mais importante de tudo é que sejam ocasião de renovação de mentalidades, de invenção de novos horizontes de esperança, de criação de novas forças de integração e de solidariedade, de superação dos vírus da discórdia (a que se liga menos que ao da gripe ou ao da Sida), da construção de novos tecidos sociais assentes em solidariedade e em paz bíblica e messiânica: "naqueles dias uma grande paz brilhará sobre toda a terra". O fim de um século é como o fim dos tempos: todos os dias são fins do tempo e começos de novos tempos. O mistério do tempo é talvez o maior, ou pelo menos o que os engloba ou envolve a todos: o universo que desconhecemos, os cometas que vêm de vez em quando, o sol e as chuvas, a vida que queremos controlar nas vicissitudes e nos promenores mas que sempre nos escapa no essencial, o espírito que anima e imperceptivelmente vivifica e permanece para além das desagregações corporais. Tudo é tempo, tudo está no tempo. E mais que tudo a eternidade, que ninguém sabe o que é.
C.F.
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O CINEMA

Entre o Amor e a Guerra

Vencedor do Globo de Ouro para o Melhor Filme e nomeado para 12 Oscars, entre eles o de Melhor Filme, Realizador, Actor (Ralph Fiennes, de «A Lista de Schindler» e «Quiz Show»), Actriz (Kristin Scott-Thomas, de «Quatro Casamentos e Um Funeral») e Actriz Secundária (a francesa Juliette Binoche, de «Relações Proíbidas» e «Três Cores: Azul»), «O Paciente Inglês» converteu-se na película do ano. Um filme intenso, complexo e apaixonante à moda antiga.

Uma das anotações que Laszlo Almásy (Fiennes) escreve no seu livro serve para o fazer recordar um passado que esquecera: "As traições na guerra são brincadeiras de criança comparadas com as traições em tempos de paz. Os novos amantes mostram-se afáveis e nervosos porque o coração é um orgão ardente". A história que se desenvolve a partir daí mescla mistério, romance, tragédia, morte, traição, ciúme, amizade, espionagem, paixão e lugares remotos.

A história de «O Paciente Inglês» abarca tantos temas e tantos vértices que resumi-la em meia dúzia de linhas torna-se práticamente impossível. Construída através de flashbacks e ambientada em, pelo menos, três cenários diferentes (La Toscana, o deserto do Sahara e o Cairo) antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, os protagonistas do filme respondem a diversas nacionalidades, franceses, canadianos, ingleses, hindús e húngaros. Como se não bastásse, o filme, fazendo gala do seu carácter épico e das suas ambições narrativas, é fundamentalmente uma história romântica marcada pela fatalidade, mas também é um complexo mosaico onde surgem temas como a fidelidade, o adultério, o nacionalismo e a traição. "Através do prisma da guerra, do amor e da amizade, estes temas já foram demais dramatizados e explorados. Os amigos convertem-se em inimigos, os amantes separam-se de repente por causa das suas nacionalidades, enquanto os homens e as mulheres atraiçoam a lealdade aos seus países e a eles mesmos", assegura o realizador deste drama épico, o inglês de origem italiana Anthony Minghella, que conta com apenas duas longas-metragens na sua filmografia além desta (em Portugal só vimos «Truly, Madly, Deeply», uma deliciosa comédia de fantasmas, revelada pelo FANTASPORTO, em 1991).

«O Paciente Inglês» foi baseado num romance de Michael Ondaatje, prestigiado escritor nascido em Ceilão (hoje, Sri Lanka), que colaborou estreitamente na elaboração do argumento do filme com Minghella e o produtor e mentor do projecto Saul Zaentz (descrito pelo jornal Variety como "a mais próxima versão do que deve ser um produtor independente perfeito"), responsável por obras de grande qualidade, como «Voando Sobre um Ninho de Cucos», «A Insustentável Leveza do Ser» e «Amadeus». Durante o longo processo de pré-produção, o comportamento de Ondaatje foi tão acessível, que seguramente muitos escritores, que viram as suas obras ser adaptadas ao cinema e depois entraram em inúteis e pomposas polémicas, tinham muito a aprender com ele. "Não queria que o filme fosse uma respeitosa versão da novela. Estava consciente de que são necessárias transformações e várias histórias e sub-histórias não poderiam sair perfeitas na adaptação pelo modo como estavam escritas. Saul mostrou-me o relato em que se baseou «A Janela Indiscreta» e surpreendeu-me ver que o personagem de Grace Kelly nem sequer existia. Assim compreendi tudo", explica o escritor. Ele e o realizador converteram essa poética obra literária cheia de imagens e evocações num romance épico que já foi comparado com «Dr. Jivago». A sua duração, consequentemente, é quase maratoniana: 162 minutos, mas bem podia ter sido reduzida a apenas duas horas.

O presente é um mosteiro italiano, nos finais da Segunda Guerra Mundial, onde várias personagens recuparam de suas feridas. O seu passado irá surgindo através de diversos flashbacks, os quais recuperam suas respectivas histórias, carregadas de aventuras, tragédias, acção e, também, feitos obscuros e vergonhosos.

A guerra está quase a chegar ao fim e uma enfermeira franco-canadiana, Hana (Binoche), decide tomar a seu cargo um homem ferido (Fiennes), num mosteiro na região toscana. Hana crê que carrega uma maldição, pois as suas traumáticas experiências durante a guerra convenceram-na de que qualquer homem por quem se apaixone está predestinado a morrer. O trauma que lhe provoca a morte do seu noivo e de uma amiga, também enfermeira, leva-a a retirar-se nesse mosteiro, enquanto os companheiros avançam, aí se escondendo, tentando fazer o que acha correcto: cuidar do seu doente, que ficou horrivelmente queimado após a queda do seu avião, no deserto, mergulhando numa profunda amnésia, não sabendo sequer o seu nome. A única pista para descobrir a sua identidade e o seu passado reside num livro que trás consigo, uma cópia das histórias de Herodotus (um historiador grego do século V a. C.), cheio de cartas pessoais, desenhos, mapas e fotografias. Com a ajuda de Hana, o doente conta-nos a sua terrível e apaixonante história, e para isso se transporta ao passado, quando era o Conde Almásy, um prestigiado explorador do Sahara, e conheceu o aristocrata inglês Geoffrey Clifford (Colin Firth) e sua mulher Katharine (Scott-Thomas). Um enredo de paixões desatadas está prestes a começar, e a guerra ameaça acabar com tudo, e esses personagens ver-se-ão envolvidos num terrível e trágico jogo erótico com consequências catastróficas. Enquanto o doente recorda a sua história, o passado e o presente entrecruzam-se de forma caprichosa com o fim de libertar as atormentadas existências dos seus protagonistas.

Em Março, o filme foi distinguido com nove Oscars, incluíndo Melhor Filme e Melhor Realizador. Juliette Binoche recebeu o muito bem merecido Oscar de Actriz Secundária (quando ela tem relevo de principal durante toda a acção). O britânico Ralph Fiennes não teve a mesma sorte. Saul Zaentz recebeu o Irving G. Thalberg Award (que distingue o Melhor Produtor do Ano), como prémio de carreira.

Uma das nove estatuetas douradas da Academia caiu nas mãos do compositor Gabriel Yared, que compôs um score de luxo para uma produção de gigantes. Ele resolveu com elegância a tarefa de unificar uma narração não convencional que se desenvolve em várias épocas/cenários, com personagens das mais diversas origens. A sua composição integra paisagens barrocas, ecos húngaros (com a voz do grupo Muzsikás, a grande Márta Sebestyén) e prelúdios de cordas sob a lua dos compositores românticos; o seu romantismo não é transparente, mas opalino, moderado, resistente. De facto, as punhaladas no coração procedem dos discos da época, como esse "Cheek to Cheek" que soa primorosamente frívolo na voz de Fred Astaire e emocionalmente na de Ella Fitzgerald. A banda sonora, composta por 27 temas fortes, onde também se destaca a voz de Benny Goodman, e as vozes do côro da Academy of St. Martin in the Fields, está disponível em discos Polydor, distribuído em Portugal por Polygram.

Produzido pela Miramax Films e distribuído por Filmes Castello Lopes, «O Paciente Inglês» é um desses filmes de qualidade enigmática, com interpretações fortes e uma história envolvente, sedutora mesmo, que não deve ser ignorado.
Vasco Martins
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"Pregões de Esperança"

de D. Manuel Martins

Erguer a voz quando importa clamar, conversar quando é necessário, pregar sempre, profetizar e denunciar - de tudo isto tem sido feita a vida episcopal do Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Muitas vezes essa voz profética revela-se nas páginas humildes de "A Seara", ultrapassando o âmbito territorial da Diocese setubalense para pairar sobre toda a nação portuguesa.

Em boa hora a Caritas Diocesana de Setúbal decidiu publicar em livro essas crónicas de D. Manuel, organizadas tematicamente, sem perderem a frescura do momento em que as palavras foram ditas.

Como refere o próprio Bispo de Setúbal no "Porquê?" da portada do livro, a "actualidade e a serenidade destas mensagens" ditaram o interesse na sua publicação, de modo a que os "apelos de solidariedade e de paz" e a "chamada à esperança" fiquem, nestas páginas, "para continuarem a alertar, a incomodar e, se possível, a transformar."

Dirigida a todos os "homens de boa vontade", a mensagem do Bispo de Setúbal constitui um excelente momento de meditação e uma oportunidade de reflectir sobre a realidade social e religiosa em que nos movimentamos.

Ademais tem a bondade da fácil e suave leitura, o encanto da linguagem simples, o arrojo da denúncia, o apelo da solidariedade e a proclamação da esperança. Tudo, afinal, o que importa encontrar numa voz profética que continua a marcar os dias da Igreja em Portugal.

(D. Manuel da Silva Martins, Pregões de Esperança. Ed. Caritas Diocesana de Setúbal, 1997. Distrib. Livraria Telos Editora, R. Santa Catarina, 521, Porto)

B. C.


Um livro do Dr. Ernesto Campos

Crenças e Malquerenças

A dedicação a uma causa é muitas vezes o motivo a partir do qual nos surgem interessantes testemunhos escritos que ficam para a memória, ilustrando o pensamento do seu autor e, não raro, a obra em que esse mesmo autor mergulhou.

Pensamos que está neste caso o livro Crenças e Malquerenças que o Dr. Ernesto Campos, um dos mais perseverantes colaboradores da "Voz Portucalense", recentemente fez publicar. Trata-se de textos que o autor, conhecido interventor na área da Educação e da Solidariedade Social, produziu como "nota de abertura" de um programa radiofónico (Convergência - Um espaço aberto à diferença, emitido pela Rádio Festival) em que são tratados os "muitos e diversificados assuntos, problemas e preocupações que gravitam no universo da Deficiência Mental, dos seus portadores e das suas famílias e das Instituições que se dedicam a este delicado trabalho que é o de procurar melhorar as condições de vida das pessoas com essa deficiência."

É neste âmbito que surgem os textos do Dr. Ernesto Campos ora reunidos em livro, numa edição que é da responsabilidade da Delegação do Porto da APPACDM. São textos breves, dotados de uma grande riqueza humana, por isso, capazes de penetrar até ao âmago o leitor dotado de abertura de espírito aos problemas surgidos numa área tão difícil como é aquela em que se move a referida Associação.

Nas palavras de Manuel Aires Moreira, que escreveu a introdução a este belo livro, os textos assinados pelo Dr. Ernesto Campos "são movimentos do pensamento, económicos, mas minuciosamente programados para rasgar avenidas no íntimo dos seres."

Para além da beleza própria da prosa, apetece dizer radiofónica, do Autor, esta obra foi enriquecida com desenhos do professor Escultor Joaquim Machado, um homem empenhado não apenas na tarefa de ensinar "Arte", como na nobre tarefa da solidariedade. São desenhos, ainda nas palavras de M. A. Moreira, que reflectem o "testemunho do seu pressentimento de tantas realidades invisíveis que se ocultam por detrás das visíveis."

Nesta tarefa, a de atingir o invisível olhando o visível, Crenças e Malquerenças, título do primeiro texto do livro ("as pessoas comportam-se de acordo com aquilo em que acreditam"), proporciona um grande proveito espiritual.

(Ernesto Campos, Crenças e Malquerenças. Ilustrações de Joaquim Machado. Ed. Deleg. Porto APPACDM. Porto, 1996)

B. C.


Dialogar com a morte

O problema da morte, num mundo que aprecia sobremaneira - e com razão - a vida, é cada vez menos um tabu. Sabendo todos que, para utilizar uma expressão cansada de tanto uso, "a morte é certa", podemos perguntar com François Mitterrand "como morrer?"

O mais fácil, numa primeira e fútil tentativa de evitar a resposta, é ignorar a realidade e virar-lhe as costas. Mas pressentimos que, à semelhança de algumas civilizações passadas, talvez a melhor solução seja encarar a morte de frente.

Nesta perspectiva, como nas páginas da "Voz Portucalense" escreveu Gonçalves Moreira, têm sido publicados alguns trabalhos nos quais psicólogos e médicos falam da sua experiência junto de doentes terminais e de pessoas que viveram longos períodos de "morte aparente".

Rfeerimo-nos, hoje, ao livro de Marie de Hennezel, Diálogo com a Morte, em que a autora, psicóloga de profissão, defende que "a sociedade ocidental precisa de rever as suas atitudes perante a morte, abandonando o medo e aceitando-a como uma fase do processo da vida".

A partir de experiências que viveu à cabeceira de doentes terminais, Marie de Hennezel dá-nos "uma lição de vida", um livro de que "emana uma luz" que é "mais intensa que muitos tratados de sabedoria", ainda nas palavras de F. Mitterrand.

Afinal, de acordo com o antigo Presidente da República francesa, uma pessoa que viveu longos meses de "diálogo com a morte", o "mais belo ensinamento deste livro" é este: "a morte pode fazer que uma pessoa se torne naquilo para que foi chamada a ser; ela é, talvez, no pleno sentido da palavra, uma realização".

(Marie de Hennezel, Diálogo com a morte. Trad. José Carlos Gonzalez. Editorial Notícias, Lisboa, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Stª Catarina, 521, Porto)


Dizer Deus com modéstia

Qualquer livro com a assinatura de González-Carvajal é credor de uma demorada atenção e de cuidada leitura. Pena que nem sempre as suas obras nos sejam oferecidas em português, embora se admita que o castelhano não é entrave a uma leitura que se faz com verdadeiro prazer espiritual.

Desta vez, este sacerdote madrileno conduz-nos a uma tema de flagrante interesse - quando dizemos "Deus", o que dizemos de facto? Longe do mandamento que orienta cada crente na santificação do nome de Deus, esta palavra tem sido mutilada e utilizada nos mais diversíssimos sentidos por homens que por ela mataram e se deixaram matar...

Importa, diz González-Carvajal, limpar a palavra Deus, devolver-lhe a sua integridade original. Será possível? O que podemos fazer, defende o Autor, é, sabendo-a uma palavra "profanada e mutilada", levantá-la do pó, retirar-lhe um pouco do lixo que os séculos sobre ela depositaram.

Para isso, os crentes devem adoptar uma nova práxis, fazendo associar a palavra Deus a experiências positivas e libertadoras.

O padre Carvajal é, como se sabe, talvez o mais lido autor de temas religiosos de língua castelhana. Isto porque consegue, como refere ser seu propósito, "explicar a teologia da forma mais simples possível, sem perder por isso profundidade, àqueles que com ela não estão familiarizados". Um propósito totalmente conseguido, neste caso, falando, "com modéstia", de Deus que "também é mãe."

(Luis Gonzalez-Carvajal Santabárbara, Noticias de Dios! Ed. Sal Terrae, Santander, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Stª Catarina, 521, Porto)

B. Chamusca


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