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A Páscoa e a vida no tempo

A teologia da esperança baseia-se nas promessas de Deus, sem dúvida, e sobretudo na palavra de Jesus Cristo e na sua praxis histórica, mas parte da existência de uma vida imperfeita no tempo e da consciência de que essa vida não satisfaz os mais profundos anseios do homem.

Só quando tomamos consciência das nossas carências e da nossa incapacidade para lhes dar plena satisfação é que podemos recorrer a algo ou alguém fora de nós que alimente a nossa esperança de que a vida se poderá tornar mais satisfatória no tempo, ou perfeita e sem limites no além tempo. Portanto: a primeira condição da esperança é a constatação da existência do mal e do sofrimento e da nossa ambição de viver sempre, apesar da ameaça permanente da morte.

Por outras palavras, se a fé na ressurreição de Jesus Cristo e nas suas promessas de vida eterna fundamenta a nossa esperança, a experiência da nossa vida e do que conhecemos da vida dos homens no tempo faz-nos crer que o caminho que levou Jesus Cristo a ressuscitar dos mortos é o mesmo que nós teremos de percorrer: teremos de participar da sua cruz, da sua paixão e da sua morte, teremos de passar por Sexta-feira santa para chegar à manhã da Páscoa.

Isto não é nem pessimismo nem fatalismo. É antes o realismo da situação actual da humanidade, confrontada com a forma como Deus realizou o Seu projecto de salvação do homem. É elucidativa a palavra do ladrão pregado na cruz ao lado de Jesus: se és o salvador, então salva-te e ti e salva-nos a nós, poupa-nos ao sofrimento e à morte, resolve todos os problemas graves que afectam a nossa vida nesta terra, faz dela um paraíso, como aquele em que foi colocado o homem, no acto de criação original de Deus. Sabemos como Jesus Cristo não se dignou sequer responder-lhe já que a resposta estava a ser dada nos acontecimentos que iriam culminar na manhã da ressurreição, quando a vida, vencendo a morte, surgiu pujante, purificada de todas as limitações. É preciso que a semente seja enterrada, para surgir depois a nova planta, promissora de frutos, como tinha dito já o mesmo Jesus Cristo. E os exemplos podem multiplicar-se. Foi necessário caminhar penosamente através do deserto, para chegar à terra de promissão. E, na vida de cada um de nós, só no final de trabalhos, por vezes penosos, é que conseguimos alcançar os objectivos que nos propusemos de realização de um projecto empenhativo.

Encarnando, assumindo a nossa natureza humana, vivendo e morrendo como nós, Deus quis dizer-nos que está ao nosso lado nos momentos mais difíceis da nossa vida, que não nos deixou entregues à nossa sorte, indiferente e insensível aos nossos sofrimentos. Agora podemos dizer, com razão, que as nossas dores são também as dores de Deus e que essas dores, que nos conduzem à morte, também nos abrem a porta da vida pela ressurreição.

Paul Claudel escreveu: O Filho de Deus não veio eliminar o sofrimento, mas sofrer connosco. Não veio destruir a cruz, mas colocar-se sobre ela... O homem que sofre não é um inútil e inactivo. Trabalha e ganha, não bens perecíveis e relativos, mas valores absolutos e universais, para os quais se predispõe pelo sofrimento.

É curioso verificar como, mesmo ao nível do pensamento puramente humano, sem referência à Revelação, o sofrimento pode revelar as riquezas mais profunda da vida. Marie de Hennezel, já aqui citada (felizmente traduzida para a nossa língua), escrevia: eu não sabia quanto a proximidade do sofrimento e da morte dos outros me ia ensinar a viver de outra maneira, mais conscientemente, mais intensamente. E o insuspeito Nietzsche escreveu: só o grande sofrimento é o grande libertador do espírito.

Perante a inevitabilidade do sofrimento, só há duas atitudes: ou blasfemar ou rezar, ou render-se-lhe ou continuar a lutar, ou desesperar ou continuar a afirmar a esperança na ressurreição.

O jornalista francês Jean-Paul Kauffman, feito refém durante longos três anos em Beirute, escreveu, depois da sua libertação: Claro que não pratico o culto do sofrimento, mas acredito no seu aspecto redentor... Estes anos foram atrozes. Chegámos ao grau mais próximo da estupidez humana a que um ser humano pode chegar. Mas quando uma desgraça assim nos bate à porta, temos de saber usá-la para fazermos marcha atrás, para, de certo modo, nos testarmos. O sofrimento revela muita coisa. É horrível dizê-lo, mas eu podia ter morrido idiota, se não tivesse passado por tudo aquilo.

Elisabeth Kubler-Ross, aqui já citada também, escreveu: quando as tempestades da vida nos atingem, pensai que essas tempestades são uma prenda, que havereis de reconhecer como tal, não agora, mas talvez dentro de dez ou de vinte anos, já que elas conferem-vos fortaleza e ensinam-vos coisas que, de outra forma, não aprenderíeis... Todo o sofrimento é gerador de crescimento.

Mas isto não quer dizer que tenhamos de ser passivos ou resignados perante o sofrimento, seja o nosso, seja o dos outros. O sofrimento é um mal, contra o qual importa lutar, na certeza de que Deus está ao nosso lado também nessa luta, na certeza de que nem o sofrimento nem a morte terão a última palavra, porque a última palavra é a ressurreição para uma vida perfeita, onde não haverá mais dor, nem lágrimas nem luto, porque não haverá mais morte (Apocalipse).

Causou-me verdadeiro escândalo ver, em recente reportagem da TV, pessoas que levam uma vida de verdadeira miséria, em Manila, dizerem que aceitavam a sua situação porque era a vontade de Deus. Que Deus sádico será esse? O de Jesus Cristo não é com certeza.

A fé na ressurreição de Jesus Cristo não é só fundamento da nossa esperança numa vida melhor no além tempo, ela tem também poderosos dinamismos para o tempo presente. Logo no início, os primeiros cristãos sentiram a necessidade de se comprometerem na vida social. Como se diz nos Actos dos Apóstolos, ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, pois punham tudo em comum.
Gonçalves Moreira
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Defesa e valorização do Património Cultural Religioso

Fátima, 18 e 19 de Abril - Encontro Nacional para zeladores e responsáveis de Igrejas

«Os bens culturais da Igreja correspondem a cerca de 70 do património português e formam uma parcela fundamental da nossa identidade como povo e como país. Constituindo uma prioridade que envolve a sociedade no seu todo, a salvaguarda e a apresentação de tão significativo conjunto de valores dependem em larga medida das pessoas que têm directamente a seu cargo, no dia a dia das comunidades cristãs, a responsabilidade pela abertura e manutenção dos lugares de culto.

«Para que as coisas corram bem é cada vez mais importante que os colaboradores das paróquias, irmandades e outras instituições religiosas possuam os conhecimentos adequados ao eficaz desempenho das suas funções e saibam actuar com competência perante as diferentes situações que se lhes podem deparar no exercício desse trabalho.»

A Comissão Nacional de Arte Sacra e do Património Cultural da Igreja promove, em Fátima, desde o dia 18 de Abril, às 9. 30 horas até às 17 horas do dia 19, um Curso para Párocos, Reitores, Zeladores, Sacristães e Responsáveis das igrejas, guardas e pessoal de serviço aos monumentos, museus e colecções da igreja, voluntários para a defesa do património cultural das paróquias, irmandades e outras instituições religiosas.

Serão apresentados os seguintes temas de reflexão: A conservação dos edifícios; A conservação da escultura; A conservação do mobiliário e da talha; A conservação dos objectos de ouro e prata; A conservação dos têxteis litúrgicos; A conservação dos documentos; A conservação das pinturas; Introdução aos aspectos de segurança; O acolhimento dos visitantes; O arranjo e a ornamentação das igrejas; Perspectivas sobre a defesa e a valorização do Património Cultural da Igreja. Esta iniciativa pretende «divulgar as noções gerais acerca da conservação, arranjo e segurança das igrejas e do seu recheio móvel, sem esquecer os problemas relacionados com o acolhimento dos visitantes, o funcionamento dos museus de pequena e média dimensão e a realização de actividades culturais (concertos, visitas guiadas, etc.)».

O preço de inscrição é de 5 000$00. As inscrições da diocese do Porto poderão ser feitas no Secretariado Diocesano de Liturgia (Seminário de Vilar - Casa Diocesana R. Arcediago Van - Zeller, 50 4 050 Porto Tel. 02-6000824), até ao dia 10 de Abril. Após essa data, deverão ser feitas no Centro Nacional de Pastoral Litúrgica (Santuário de Fátima - Apartado 31 - 2469 Fátima Codex - Tel. 049-533327) e terão um aumento de taxa de inscrição.

Outras informações, nomeadamente sobre alojamento e alimentação, poderão ser obtidas no Secretariado Diocesano de Liturgia, nas horas de expediente.

«Na abordagem destas diversas vertentes privilegia-se uma óptica de sensibilização, com a preocupação de dar a conhecer de forma simples e acessível as linhas principais de cada tema, ilustrando-as através da apresentação de casos práticos. É uma formação concebida num ambiente de diálogo que, partindo das bases, vai ao encontro de problemas concretos.»

O Secretariado Diocesano de Liturgia recomenda vivamente esta Acção de Formação porque a considera importante para a criação de uma nova mentalidade eclesial relativamente aos espaços litúrgicos e aos bens culturais da Igreja, à sua destinação e uso na Liturgia e na Evangelização
S.D.L.
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