Cultura:

Vieira e o futuro

Numa época em que proliferam os profetas das coisas futuras, das astrologias e das adivinhações; numa época em que não há jornal ou revista que se preze, seja ela do caração ou dos fígados, que não pespegue em página nobre o seu horóscopo infalível; numa época em que se faz propaganda nas televisões sobre as artes de inventar o futuro como se fossem a última ciência da inteligência humana, dando até a entender que os que não vão nessa são implicitamente ignorantes ou estúpidos; numa época em que (consta) os omnipotentes treinadores de futebol vão aos videntes para lhes ditarem os resultados dos jogos; nos dias em que a Páscoa, a mais sublime de todas as passagens, convida à meditação e à descoberta do novo, tomo a liberdade de me dispensar de quaisquer comentários desluzidos e pobres, como são todos os que aqui produzo, e deixo a palavra ao mais sábio de todos os oradores da raça portuguesa e da estirpe bíblica e evangélica, para que nos ministre, com trezentos anos de avanço sobre as nossas sábias convicções, repletas de uma sabedoria de plástico, as raízes de uma visão tão antiga como fundamentada e verdadeira, e para que nos ensine a prática de uma crítica acerada e frontal sobre tudo o que é destituído de senso, mesmo que seja moda.

Calo-me perante o mestre, exortando os leitores a que o façam também.

(C.F.)

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho de tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada.

A ciência dos futuros - disse Platão - é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demónio com a divindade, quando lhes disse:. Sereis como deuses, conhecendo e bem e o mal. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado.

Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afectando impaciente a ciência das que hão-de ser. (...)

Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até ao céu, levados desse apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos os seus autores vão no apetite daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra o vestígio de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras.

No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira, pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos.

Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos1, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantavam ou figura ou testemunhos a todos os sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, frequentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos.

A este fim excogitam tantos géneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observam os sonhos, como se soubesse mais um homem dormindo do que acordado2; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam resposta às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e voos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores; com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores, e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providência e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa fé com a superstição dos presentes. (...)

Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo é considerar que, enganados tão porfiadamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros, não tenha bastado nenhuma experiência, nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele.
Padre António Veira, História do futuro,cap. I
1 Diz-se genetlíaco (termo de origem grega) aquele que compõe um horóscopo ou tenta predizer o futuro pela observação dos astros.

2 Vieira escrevia muito antes dos estudos de Freud e seus discípulos e sucessores acerca dos sonhos e dos valores, verdadeiros ou supostos, em todo o caso curiosos, das suas revelações do subconsciente ou do inconsciente.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 28 de Março a 3 de Abril


TELEVISÃO - No mês em que são atribuídos os prémios máximos do cinema americano, e mundial, os Oscars, a RTP 1 agendou para o serão do dia 31 (segunda-feira) a exibição de um vencedor de oscars: «Imperdoável», western, de Clint Eastwood (1992), com o próprio Eastwood, e ainda Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris. Neste seu 36º filme e 16º como realizador, vemos Clint Eastwood regressar com enorme sucesso às suas origens: um filme do Oeste complexo e forte que consegue destruir os mitos desse género. Ele faz o papel de um cowboy um tanto ou quanto idoso que é convidado por outro mais jovem (Jaimz Woolvett) a formar uma dupla contra dois bandidos que maltrataram duas jovens prostitutas. Se Eastwood como pistoleiro aposentado, já não consegue montar a cavalo (sem se esborrachar no outro lado) nem acertar no alvo, como realizador ele faz maravilhas. Violência lenta, contemplativa e fascinante caracterizaram os westerns de Sergio Leone e Donald Siegel, realizadores com quem Eastwood trabalhou e que ele homenageia nesta obra (sem se esquecer de John Ford, Raoul Walsh, Howard Hawks, Anthony Mann e muitos outros, que igualmente imortalizaram o Far-west). Os aspectos líricos do Oeste fixados pelos mitos do género - amplas planícies a perder de vista, ocasos estonteantes, heróis do gatilho - são abandonados e no seu lugar surgem a violência nua e crua e as emoções amargas. Magnificamente escrito, fotografado (por Jack Green), dirigido e interpretado, este é um dos grandes filmes dos anos 90 e um dos melhores westerns de sempre. Vencedor de quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, esta é uma daquelas obras-primas obrigatórias. Imperdoável será... não a ver!

Mas há mais bons e premiados filmes a não perder: «Encontro de Irmãos», drama, de Barry Levinson (1988), com Dustin Hoffman e Tom Cruise, num filme sobre o autismo (RTP 1, 28); «As Asas do Desejo», drama, de Wim Wenders (1988), sobre dois anjos que passeiam pelas ruas de Berlim observando as pessoas (TVI, 29); «Jesus Cristo Superstar», drama musical, de Norman Jewison (1973), com Ted Neeley, Carl Anderson e Yvonne Elliman: adaptação cinematográfica da famosa ópera-rock de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice (os autores de «Evita»), que ilustra, com canções e sequências bailadas, fases da vida de Jesus Cristo (RTP 1, 30); «Miss Daisy», comédia dramática, de Bruce Beresford (1989), com Jessica Tandy e Morgan Freeman (TVI, 30).


...E FORA DE CASA

Não estamos habituados a ver Tom Cruise numa comédia romântica de qualidade, e muito menos a vê-lo nomeado ao Oscar por isso mesmo na categoria de Melhor Actor. É sem dúvida uma surpresa e igualmente uma bênção para este filme, o último do realizador de «Vida de Solteiro», o também argumentista Cameron Crowe. O tema deste «Jerry Maguire» poderá parecer algo peculiar: as desventuras de um agente de estrelas do mundo do desporto, num ambiente de forte competitividade. Para os fans de Tom Cruise estes são momentos áureos, pois o filme poderá ser veículo de absoluto brilho para o actor. Durante 135 minutos, ele dá corda a todos os seus dotes interpretativos num verdadeiro festival Cruise. Depois de ter ganho o Globo de Ouro é muito provável que ganhe o Oscar para que está nomeado (N.R.: este artigo foi redigido três dias antes da entrega dos Oscars). Se analisarmos os últimos filmes do actor, encontramos produto de elevado orçamento, superproduções dirigidas por grandes realizadores e rodeadas, muito antes de começarem a ser rodadas, de grandes campanhas de marketing. «A Firma», «Entrevista com o Vampiro» e «Missão Impossível» deixaram bem claro o status a que Tom Cruise havia chegado. Por isso chamou a atenção que o actor escolhesse como novo trabalho, após aquele espectacular trio, um filme dos chamados "pequenos", dirigido por um realizador pouco conhecido, e com um elenco composto por intérpretes semidesconhecidos. A razão que levou a superestrela a aceitar protagonizar «Jerry Maguire» pode ser encontrada no próprio filme, pois trata-se de um autêntico veículo de brilho onde Cruise oferece um recital interpretativo como poucas vezes se tem visto no cinema moderno.

Jerry Maguire é um dos melhores agentes desportivos que trabalha para a SMI (Sports Management International). Jerry é um vencedor: ambicioso, bonito, simpático, tem uma espampanante namorada (Kelly Preston, mulher de John Travolta na vida real), triunfa nos negócios e conduz uma vida programada ao segundo, onde o sexo e as relações pessoais também funcionam para ele de forma programada. Mas todo este mundo de sucesso e dinheiro se desmoronará para ele sem prévio aviso quando decide levar a cabo um acto de honra não planeado: escrever uma declaração de princípios para a empresa intitulada "O que pensamos mas não dizemos". Como é lógico, a idealista proposta de Jerry, centrada em que a empresa deve tratar com humanidade os seus clientes e que o que interessa são as pessoas e não apenas o dinheiro, não encontra boa receptividade nos executivos da SMI e Jerry é despedido sem contemplações. A partir desse momento, o protagonista, sem trabalho e inclusive sem identidade, empreenderá um caminho de redenção que o levará a recuperar a fama e a fortuna. Para isso contará com a inestimável ajuda de um futebolista de segunda categoria (Cuba Gooding Jr.) que se converte no único cliente de Jerry e uma jovem mãe solteira (Renee Zellweger) que, impressionada pela personalidade do agente, decide deixar o seu lugar de secretária na SMI por um futuro inseguro às ordens de Maguire e o seu novo negócio.

Cameron Crowe levou quatro anos a escrever o complicado guião de «Jerry Maguire». O realizador teve que dedicar muito tempo a investigar o competitivo mundo onde se moveria o protagonista: os agentes desportivos, uma profissão onde se movimentam milhões de dólares e onde muitas vezes se esquece a parte humana das relações e a humildade e o amor ficam para segundo plano. Crowe construiu um personagem considerado bombom para um actor. Jerry Maguire passa ao longo do filme por todo o tipo de estados anímicos, passa de ser um triunfador a ser um derrotado, há comédia, drama e está em todas as cenas do filme, em muitas das quais tem a possibilidade de brilhar com extensos monólogos. Daí não ser de estranhar que Cruise aceitasse protagonizar o filme.

Produzido pela Gracie Films e distribuído pela Columbia-Tristar-Warner Filmes de Portugal, aí está um desses filmes que nos deixam bem dispostos.
Vasco Martins
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