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Notícias e jogos

A coisa deve ter começado mais ou menos assim: uma notícia sensacionalista apareceu sobre a mesa de algum atento informador ambicioso, na procura incontida de se tornar conhecido; depois passou a alguma estação televisiva, na ânsia premeditada de se tornar ouvida; depois, de forma epidémica, foi passando de televisões para rádios, de rádios para televisões e de ambas para os jornais. De repente o país inteiro, sem ninguém saber, vivia com um surto de meningite. Nem comprovado, nem fundamentado, mas um surto.

A seguir, na naturalidade da inconsciência e da falta de ética e de rigor, entrou-se na contradança: os solícitos informadores abriam os noticiários com uma informação sensacional que sabiam que era era falsa, mas a que davam a expectativa e a aparência de verdadeira: e assim se passa a falar de um surto de meningite um pouco por todo o país (como é sabido, todo o país, em linguagem radiofónica e televisiva, significa Lisboa, e por vezes a rua onde se situam os estúdios da estação ou a janela por onde olha o comunicador). Contactavam-se febrilmente as entidades entendidas e responsáveis no assunto, os hospitais, o ministério, o director geral, a ministra, e se mais houvera lá chegara. As respostas eram desoladoras: que não, que se tratava apenas um ou outro caso esporádico mais grave, que apenas outros poucos casos que não inspiram preocupação foram detectados, que não há razão para alarme. A ministra dizia que não havia qualquer surto e que a situação estava sob controlo (que é como se deve dizer sempre).

Podia lá ser uma coisa dessas! Então um assunto tão interessante e que chamava tanto a atenção da população, dir-se-ia mesmo que a tocava no mais fundo do coração, como podia ser que não fosse verdade? Se se tinha noticiado, tinha que existir. O que parecia tinha que ser. Então o solícito informador recorre às suas qualidades profissionais indesmentíveis, de uma seriedade a toda a prova: telefona para os hospitais, para as urgências, para os centros de saúde, para as clínicas, para os consultórios. A resposta era sempre a mesma: registavam-se dois casos em Sintra, três em Lisboa, outros no Porto. Ah! felizmente tínhamos razão! Há casos de meningite! Graças a Deus! Não nos enganamos nas nossas notícias. Não está em causa o nosso sentido profissional. E a saga continua: todos respondiam que não havia motivo para alarme, mas o alarme estava dado. As notícias passaram a ser dadas pela negativa: não há surto de meningite! O que é o mesmo que dizer que não há a queda de nenhum cometa, que não há tremor de terra, que Portugal não declarou guerra à Espanha ou que o sol não nasceu à meia noite em ponto.

Mas a semente estava lançada e iria produzir seu fruto: as extremosas mamãs e os solícitos papás, sempre atentos a todas as informações úteis, arrumaram apressadamente os papéis no escritório, estugaram o passo para chegar a casa, e como a criança tinha tossido, toca de correr às urgências hospitalares para que o menino fosse tratado de meningite. Veio então ao de cima a crónica falta de educação nacional. Como lhes disseram que os casos não eram de cuidado, toca de insultar o pessoal da saúde, gritar e protestar que os serviços são péssimos e até, dizem, atirar tomates e latas contra o pessoal, por entre aquelas palavras sintomáticas da nossa deseducação colectiva. Já toda a gente queria a doencinha para ao menos ser atendido. Era inadmissível que o menino não tivesse a maleita! Então se tinham dito na televisão!

Eis como uma notícia descuidada e sensacionalista pode pôr em causa a saúde, a educação e o equilíbrio psíquico da população. A saúde, porque para se atender os que não precisam, se tiveram de descuidar muitos que precisavam; a educação, porque estas ocasiões são sempre propícias para a acusação infundada e para o insulto arbitrário; o equilíbrio psíquico, porque provoca o enervamento e o desequilíbrio emocional dos profissionais e dos utentes dos serviços de saúde.

Para a informação isto é óptimo, porque uma tal sementeira faz aparecer seguramente mais notícias sobre as bancas jornalísticas, e agressões, insultos, protestos e suspeitas são o melhor pasto para um bom noticiário. Bom, como é sabido, quer dizer que gera muita audiência. Nada de más interpretações.

Aqui temos o retrato cómico, para não dizer trágico, dos caminhos que se traçam para a informação em Portugal. Se pelo meio meter um colegiozinho católico ou um padre mais ou menos conhecido, melhor. Assim junta-se o agradável ao produtivo. Inculca-se o veneno e consegue-se audiência. E, para que seja perfeito o cenário, em ampla visão de futuro, infantilizam-se as gentes para se aceitarem novas situações similares. O proveito é completo.

2. O país viveu momentos de verdadeira euforia colectiva com o duplo jé que pote. Como há o café duplo, o uísque duplo, também há o duplo jé que pote. Suponho que já aqui expliquei o que é o jé que pote: trata-se de uma palavra portuguesa de grande erudição e sabedoria, que traduz a junção dos quantitativos dos prémios nas lotarias e nos casinos. Não foi possível encontrar melhor forma de dizer. A riqueza expressiva da palavra jé que pote é insuperável.

Exultou a Santa Casa (nunca percebi por que lhe chamam santa), exultaram os agentes, deliraram os noticiários, triunfaram os repórteres. Nunca melhor assunto. E então, não é que o sobredito sai a um felizardo do Algarve! O pessoal caiu em cima dele como moscas. O homem primeiro escondeu-se e depois saltou alegremente do anonimato para a fama. Faça-se-lhe uma estátua, promova-se uma homenagem, peça-se-lhe que dê alguma coisinha para a crise do turismo. Mas sobretudo que venha à nossa televisão. Pague-se-lhe outro jé que pote se for preciso! Mas que não falte! Assim estaremos na vanguarda informativa e ganharemos mais uns anúncios.

Bem vistas as coisas, a Santa Casa foi a principal beneficiada, e ainda bem. Importa que sinceramente nos congratulemos com isso, até porque diz que tem não sei quanto de défice, apesar da garantia dos seus rendimentos e das percentagens demasiadas que deles recebe. Mas já agora, poderia aproveitar esta maré favorável da fortuna para modernizar o sistema de registo de apostas, de difusão dos resultados e distribuição dos prémios, que ainda se regem pelos sistemas da idade da pedra. Em qualquer país europeu, nomeadamente nos mais vizinhos, qualquer apostador pode receber de imediato os seus prémios. Aqui obrigam-nos ainda a esperar uma semana ou mais para nos pagarem os míseros quinhentos escudos de um acerto de suprema felicidade. Os proveitos dessa forma anquilosada de proceder são contabilizados? Alertem-se igualmente para as deficiências da informação: houve tempo em que era publicado nos jornais os resultados dos concursos. Agora apenas encontramos publicidade. Não é de estranhar: entre nós é corrente transformar a informação em propaganda. E nem sequer os inócuos (ou até virtuosos, como nos inculcam) jogos e concursos de apostas escapam a tal labéu.

Já agora também uma palavra para os jornais de grande informação. Quando acontece um acontecimento como o atrás referido, o que por sua natureza á raro, enchem-se-lhes as páginas; na correnteza dos dias e das semanas, não se encontram informações rigorosas sobre os prémios e seus quantitativos. Vejam como fazem os congéneres vossos vizinhos. Imitem as qualidades, já que a imitação dos vícios é tão maléfica como imediata.

Estou a ouvir o que dizem os mais sisudos: tudo isso são questões sem importância. Episódios menores do quotidiano. Circunstâncias mínimas da correnteza da vida.

Enganam-se os mais sisudos: estes são os problemas da moral social, da ética dos comportamentos, da rectidão da consciência colectiva. Pretender ignorá-los é ser inconscientemente absorvido por eles, como videiras generosas em silvado absorvente.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 21 a 28 de Março


TELEVISÃO - Como já vem sendo hábito, durante a Semana Santa, a RTP 2 pretende assinalar o tempo pascal com uma programação cinematográfica muito própria. Assim, a rubrica "Cinco Noites, Cinco Filmes" será preenchida com o saudoso e sempre bem-vindo Cinema Bíblico, que, noutras épocas, quando só existia um canal televisivo, era costume ser visto nas salas de cinema. Agora, nem o mercado do vídeo se lembra dele. Mas, eis a selecção desta semana: «O Messias», de Roberto Rossellini (1976), com Pier Maria Rossi, Mita Ungaro e Carlos de Carvalho: a vida quotidiana de Jesus num filme evangélico duma simplicidade sulpiciana (dia 24); «A Bíblia», de John Huston (1966), com Michael Parks, Ulla Bergryd, John Huston, Richard Harris e Stephen Boyd, entre muitos outros: a mais velha história do mundo - as origens da Humanidade, como é relatada no Livro do Génesis (dia 25); «Quo Vadis?», de Mervin LeRoy (1951), com Robert Taylor, Deborah Kerr e Peter Ustinov: as perseguições e os suplícios impostos aos primeiros cristãos, ordenados pelo maquiavélico imperador Nero (dia 26); «Ben-Hur», de William Wyler (1959), com Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkins e Haya Harareet: como os caminhos de um jovem príncipe hebreu se cruzam com os de Cristo (dia 27); e, «David e Golias», de Richard Pottier (1961), com Orson Welles, Ivo Payer e Eleonora Rossi Drago: um peplum franco/italiano sobre um dos mais romanceados capítulos da Bíblia, a relação de David com o rei Saul (dia 28). Também a TVI nos dá cinema bíblico, mas apenas na quinta e sexta-feira santas, repetindo os três episódios da série "A Bíblia": «Abraão» (dia 27), «Jacob» e «José do Egipto» (ambos no dia 28).

No entanto, o meu destaque vai para a escolha de "O Filme da Minha Vida" (RTP 2, dia 22), em que poderemos ver o clássico dos clássicos: «Casablanca», que nada tem de bíblico, mas significou esperança para muitas gerações de cinéfilos de todo o mundo, há 54 anos, quando o mundo vivia sob o terror nazi. Nessa altura, Lisboa era o ponto de partida para a Liberdade na América, mas antes tinha de se passar por Marrocos. Casablanca em 1943, pivot da resistência francesa, é uma encruzilhada de paixões (políticas e privadas), um lugar mítico propício à Aventura. O governo de Vichy exerce a sua autoridade sobre essa cidade cosmopolita onde transitam emigrados que fogem da ameaça alemã. Todos se encontram no Café do Rick, onde se pode ouvir o pianista Sam interpretando os seus refrões nostálgicos ("... as time goes by!"). Uma noite, aparece um casal: ele é perseguido pelos nazis, ela é Ilsa, uma ex-namorada de Rick. Será que este os vai ajudar a fugir rumo aos céus mais clementes, expondo-se ao risco de se comprometer? Para tanto, é preciso neutralizar o feroz major Strasser, representante do III Reich em Casablanca, e obter a cumplicidade do capitão Renault, o aliado de Vichy... Tudo será resolvido no aeroporto, na bruma da manhã.

Este resumo transmite de modo imperfeito o charme tenaz que emana de «Casablanca», fruto de uma feliz conjunção de talentos e de circunstâncias. Para isso concorrem a mitologia pessoal de Humphrey Bogart, então no seu apogeu (vestido de branco, é o califa omnipotente deste conto de fadas moderno); a experiência segura do realizador Michael Curtiz (1888-1962), de origem húngara que tem no seu activo uma impressionante quantidade de thrillers e filmes de aventuras, de que faz, neste, a síntese; a hábil combinação de romance sentimental e melodrama de espionagem; a música "vienense" de Max Steiner; enfim, a coincidência do desembarque aliado na África do Norte alguns dias depois da estreia do filme. Realismo e romantismo são harmoniosamente conjugados e tudo o que poderia parecer lugar-comum assume uma dimensão mágica. É fácil explicar o sucesso de «Casablanca» e sua permanente popularidade. Trata-se de um filme onde tudo correu bem. Não apenas os ingredientes são dos melhores, como também foram bem misturados. Há um lado patriótico (que não envelheceu), um forte tema romântico, mas, principalmente, um elenco excepcional. Todos os actores, dos figurantes aos principais, estavam em momentos marcantes de suas carreiras. O filme foi inteiramente rodado em estúdio - além de ser costume na altura, havia as dificuldades provocadas pela guerra -, mas ninguém acreditava que aquela perfeição de cenários tivesse sido fabricada. É no argumento, contudo, que tudo está como deve ser. Baseado na peça teatral "Everybody comes to Rick's", de Murray Burnett e Joan Allison, os diálogos foram adaptados de forma brilhante, engraçados e inesquecíveis. Por exemplo, quando Rick é interpelado porque se encontra em Casablanca, diz que foi por causa das águas (termas). "Mas estamos no meio do deserto?", surpreende-se seu interlocutor. "Fui mal informado!", responde Rick, cínico, mantendo a seriedade.

Curiosamente, a frase mais famosa não existe no filme. Ninguém diz "Play it again, Sam" (esta expressão foi usada por Woody Allen no seu filme «O Grande Conquistador», de 1972, no qual rendia homenagem ao clássico e em que protagonizava um crítico de cinema obcecado por Bogart). O que se ouve, realmente, é Ilsa pedir ao pianista "Play it, Sam". E Dooley Wilson, que pura e simplesmente não sabia tocar piano - pelas mãos de Elliot Carpenter - executa magistralmente esse tema inesquecível, "As Time Goes By", composto por Herman Hupfeld, que estranhamente não ganhou o Oscar.

Realizado em 1943, este filme alcançou já o estatuto de cult movie, filme de culto para os cinéfilos e apreciadores da obra do realizador. Ao lado de Bogart, encontramos Ingrid Bergman, Claude Rains e Peter Lorre.


...E FORA DE CASA

«Shine-Simplesmente Genial» tem todos os ingredientes necessários para ser um dos ganhadores na próxima noite dos Oscars (dia 25 de Março). É uma produção australiana, obra de estreia do realizador Scott Hicks, baseada na vida real do pianista David Helfgott (natural desse país), e com excelentes desempenhos de um naipe de actores de grande prestígio como Armin Mueller-Stahl (candidato ao Oscar de actor secundário), Lynn Redgrave ou o nonagenário Sir John Gielgud. Além disso, contém todos os elementos capazes de sensibilizar os membros da Academia, como drama, superação pessoal, doença e tensas relações humanas. O protagonista é um menino prodígio do piano, a quem um pai super-protector (Mueller-Stahl) impede de assumír a sua verdadeira identidade como artista. Finalmente, quando consegue viajar para Inglaterra para estudar sob a proteção de um grande professor (Gielgud) e tocar em público um dificílimo concerto de Rachmaninoff, David sofre um colapso nervoso que o obriga a passar quinze anos numa instituição psiquiátrica. Repudiado pelo seu pai, parece incapaz de voltar a tocar no seu amado piano, mas a relação com Gillian (Redgrave), uma astróloga divorciada, devolve-lhe a confiança e o valor necessários para fazer um regresso triunfal. Geoffrey Rush é um dos três actores que vestem a pele de David, e um dos que aspira ao Oscar de melhor actor. Ao todo, são sete nomeações. Imprescindível ver este filme, distribuido por Vitória Filme - Exclusivo Ecofilmes.
Vasco Martins
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