Última Página:

Os medos em face da morte e do Além

Da leitura das duas obras aqui referidas ultimamente, a de Elisabeth Kubler-Ross e a de Marie de Heneezel, fica-nos um sentimento de tranquilidade e de optimismo em relação à morte.

Primeiro, em relação à aproximação da morte ou ao processo de chegar àquele momento final da vida. Na verdade, quando rodeados de cuidados que contribuem para aliviar ou suprimir as dores e de um ambiente em que se promove o bem estar possível, com a marca do carinho humano, os doentes terminais enfrentam o momento da morte com total serenidade. E aqueles que entram nessas unidades de cuidados paliativos a pedir que lhes apressem a morte desistem das suas intenções. Espantado com a descoberta que lhe foi dada fazer, a uma dessas unidades, Miterrand interrogava-se: Qual era o segredo da serenidade daqueles moribundos? De onde extraíam a paz do seu olhar? E referindo-se à equipa de tratamentos, à qual se devia aquele ambiente de serenidade e de paz, escreve Miterrand: Ela (a equipa) faz-nos perceber a aventura quotidiana da descoberta do outro, a coragem dos gestos de ternura para com aqueles corpos a caminharem para a morte. Ela revela, muito longe de toda a morbidez, como é a alegria de viver que alimenta as suas escolhas e os seus actos. A própria autora, dirigindo-se a um dos moribundos, diz-lhe: tu mostraste-me que se pode olhar de frente para a morte e continuar a viver, dando um sentido à vida.

Elisabeth Kubler-Ross, por seu lado, pretende afirmar, através dos testemunhos dos seus doentes, que a morte nos faz entrar num estado de paz e de felicidade, superior a tudo o que se pode desejar neste mundo. Fomos criados para uma vida simples, bela e maravilhosa, afirma ela convictamente. Por isso, pode dizer que o instante da morte é uma experiência única, bela, libertadora, que se vive sem medo e sem angústia. É curioso que Marie de Hennezel, referindo-se à morte de sua mãe, diz: Minha mãe, ao morrer, disse as seguintes palavras: Ah! a luz! então é verdade! Será por isso que muitos dos moribundos dão a sensação de melhorarem, quando estão mesmo a morrer, as chamadas melhoras da morte?

A Igreja, na sua liturgia e na sua pregação, balança entre dois sentimentos: o do medo do juizo rigoroso de Deus e o da esperança na salvação operada por Jesus Cristo. Se é certo que o Filho de Deus encarnou para salvar a humanidade do aniquilamento da morte e que essa salvação não é obra do homem - a salvação não se deve a vós, é dom de Deus, nem se deve às obras, para que ninguém se possa orgulhar, diz S. Paulo - também é verdade que o homem não é salvo contra a sua vontade, pois deve responder pela fé a essa oferta de salvação. Diz ainda S. Paulo: estais salvos pela sua graça e mediante a fé. E como a vida deve ser coerente com a fé, então podemos dizer, com toda a Igreja, que a vida futura na eternidade depende da forma como vivemos a vida no tempo.

A perspectiva de um juizo rigoroso de Deus, do qual dependerá o nosso futuro eterno não pode deixar de ser fonte de medos para nós, conscientes das nossas imperfeições. Diz-se no Eclesiástico que o temor de Deus é o princípio da sabedoria.

O medo é um sentimento ambíguo. Em certas circunstâncias, pode ser expressão de bom senso, de sabedoria humana. A própria consciência do pecado, mesmo geradora de medo, pode ser positiva. O filho que ama verdadeiramente os seus pais, deve sentir também por eles o respeito que o impedirá de fazer o que quer que seja que os possa ofender. O amor é respeitoso, mesmo o amor conjugal. Este medo respeitoso pode conduzir o homem a cuidar da sua vida, a experimentar responsabilidade pelos seus actos, a evitar com mais determinação tudo quanto sabe que pode ser ofensivo para os outros, incluindo o próprio Deus.

Mas pode ser também um sentimento negativo, quando gerador de neuroses, de obsessões ou de desesperos. Delumeau, num grosso volume que escreveu sobre o pecado e o medo, afirma que encontrou, nos vários inquéritos que fez a católicos e protestantes, a tentação do desencorajamento, principalmente à hora da morte, que domina as pessoas a quem se falou mais do pecado do que do perdão. E afirma que, na sua longa investigação, (ele é historiador das mentalidades) encontrou o deslisar do discurso eclesiástico do razoável para o excessivo e verificou, com espanto, a utilização de sentenças da Biblia, tiradas do seu contexto ou levadas até ao extremo do seu sentido. O discurso do medo é, as mais das vezes, apoiado em citações truncadas ou em textos mal compreendidos.

As missas de Requiem têm textos de grande beleza, mas alguns deles estão carregados do sentido trágico da passagem desta para a vida futura. A Sequência, ou Dies irae, (aliás retirada dos textos actuais em vernáculo), tem expressões de profundo temor perante a perspectiva do nosso encontro com Deus. (O Dies irae é uma composição de autor anónimo, já conhecida no século XII, inspirada no tema do juizo final). Aí se diz: dia de cólera aquele dia, em que o mundo será reduzido a pó... Que terror, quando vier o juiz para examinar tudo com rigor. Uma trombeta espantosa convocará todos os mortos. A natureza e até a morte ficarão estupefactas quando as criaturas ressurgirem para responderem ao supremo juiz. Aberto o livro, o juiz sentar-se-á para julgar e nada ficará oculto. Que direi eu então, mísera criatura, quando nem o justo estará seguro? A quem recorrerei para me defender? Seguem-se depois algumas estrofes de oração suplicante e humilde ao Senhor, que afinal salva gratuitamente: rezo, suplicante e humilhado, com o coração contrito, como reduzido a cinza, naquele dia terrível de lágrimas. Não se fala nunca aqui de um encontro gozozo com Deus, o Pai que Jesus Cristo nos revelou. Os mesmos sentimentos de medo, de angústia e de humilde súplica perpassam pela oração final, o Libera me, dito junto do féretro: livrai-me, Senhor, da morte eterna, naquele dia tremendo, em que serão abalados o céu e a terra. Tremo de terror, na previsão daquele dia da cólera divina, dia de calamidade e de miséria, dia grande e de profunda aflição.

Vale a pena ouvir estes textos em canto gregoriano, ou no aproveitamento que deles fizeram alguns dos maiores compositores musicais. Experimentaremos então todo o sentido trágico daquelas composições.

Mas terá isto algo que ver com as repetidas expressões de bondade, de compreensão e de misericórdia, que perpassam em todo o Evangelho, quer nas palavras, quer nas atitudes de Jeus Cristo?
Gonçalves Moreira
Início


O Tríduo Pascal

A Celebração litúrgica anual mais importante é o Tríduo Pascal que deve ser considerado como celebração una (Missa Vespertina de 5ª feira santa, Celebração da Paixão, Recolhimento do Sábado, Vigília Pascal e Domingo da Ressurreição). É desejo da Igreja que o santo Tríduo seja celebrado solenemente em todas as comunidades de fiéis. Esta será uma das melhores propostas para este ano preparatório do Jubileu do ano 2000. O SDL, a fim de ajudar as comunidades a celebrar dignamente o Tríduo pascal, apresenta as orientações recolhidas da Carta circular da Congregação para o Culto Divino: Preparação e celebração das Festas Pascais.

«A Igreja celebra em cada ano os grandes mistérios da redenção humana desde a Missa vespertina de Quinta-Feira «na ceia do Senhor», até às Vésperas do Domingo da ressurreição. Este período de tempo é justamente chamado o «tríduo do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado»; chama-se também «Tríduo Pascal» porque com a sua celebração se torna presente e se realiza o mistério da Páscoa, ou seja, a passagem do Senhor deste mundo para o Pai. Com a celebração deste mistério a Igreja, por meio dos sinais litúrgicos e sacramentais, associa-se em íntima comunhão com Cristo seu Esposo

Na Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor deve observar-se em toda a parte o jejum e a abstinência, e recomenda-se o seu prolongamento também durante o Sábado Santo, para que a Igreja possa chegar com o espírito leve e aberto à alegria do Domingo da Ressurreição.

Recomenda-se a celebração em comum do Ofício de Leitura e Laudes da manhã de Sexta-feira da Paixão do Senhor e também de Sábado Santo…

Para a celebração adequada do Tríduo Pascal requere-se um número conveniente de ministros e colaboradores, que hão-de ser cuidadosamente instruídos acerca do que hão-de fazer. Os pastores não deixem de explicar aos fiéis do melhor modo possível o significado e a estrutura das celebrações, preparando-os para uma participação activa e frutuosa.

O canto do povo, dos ministros e do sacerdote celebrante tem particular importância nas celebrações da Semana Santa e, especialmente, durante o Tríduo Pascal, porque está de acordo com a solenidade destes dias e, também, porque os textos adquirem toda a sua força precisamente quando são cantados.

[Particularmente:]

a) a oração universal de Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor; o convite do diácono, se o faz, ou a aclamação do povo;

b) os cantos durante a ostensão e adoração da Cruz;

c) as aclamações durante a procissão com o círio pascal e as do precónio, o Aleluia responsorial, as ladainhas dos santos e a aclamação que se segue à bênção da água…

Prepare-se um repertório próprio para estas celebrações, a utilizar exclusivamente nelas. Proponham-se, particularmente:

a) os cantos para a bênção e procissão de ramos, e para a entrada na igreja;

b) os cantos para a procissão com os santos óleos;

c) os cantos para a procissão das oferendas na Missa na Ceia do Senhor, e o hino para a procissão de trasladação do Santíssimo Sacramento para a capela da reserva;

d) as respostas dos salmos responsoriais da Vigília pascal e os cantos que acompanham a aspersão da água baptismal.

Nas igrejas importantes, utilize-se também o abundante tesouro da música sacra antiga e moderna; tenha-se em conta, entretanto, a necessidade de uma adequada participação dos fiéis.

É muito conveniente que as comunidades religiosas, clericais ou não, bem como as comunidades laicais, participem nas celebrações do Tríduo pascal nas igrejas mais importantes.

Do mesmo modo, não se celebrem os ofícios do Tríduo pascal naqueles lugares onde não haja um número suficiente de participantes, ministros e cantores; e procure-se que os fiéis se reúnem para participar nos mesmos numa igreja mais importante.

Também quando um único presbítero é responsável por diversas paróquias, convém que os fiéis das mesmas, na medida do possível, se reúnam na igreja principal para participar nestas celebrações…»
S.D.L.
Início


Primeira Página Página Seguinte