Cultura:

Os novos inquisidores

1. Consta que um dos "estrangeirados" mais reconhecidos do século XVIII, emigrado na Áustria, na Holanda e na Inglaterra, autor de uma Recreação Periódica e de umas Cartas de estilo familiar, que foram publicadas por Aquilino Ribeiro, espírito observador mais que sábio, tido por incitador das novas ideias que exaltavam os fulgores da razão iluminista contra o obscurantismo dos pensadores e mestres dos séculos anteriores (é sempre assim), que largamente o superavam em talento, em invenção e em humanismo, terá sido queimado em efígie, em plena praça do Rossio, aí pelos anos de 1760. Seu nome era Francisco Xavier de Oliveira, que ele decidiu transformar em Cavaleiro de Oliveira, por ter descoberto um belo dia que seria descendente de um desconhecido cavaleiro "de uma certa Ordem Militar", como ele mesmo escreve, e da qual se tornara, ao que dizia, também cavaleiro professo. Era a Ordem militar de Cristo.

O homem, vivendo em Londres foi queimado em efígie, às ordens da Inquisição (conhecido e badalado tribunal em que o poder político se servia do poder religioso para perseguir ou eliminar os que o constestavam por qualquer meio, mesmo até pela recta razão, ou por ideias visionárias, como aconteceu ao padre António Vieira). Fora o Cavaleiro condenado pelo cúmulo jurídico de ter abjurado a religião católica em favor da anglicana (que era a da terra onde foi ter, e portanto, como bom português, fez como via fazer: tornou-se anglicano) e de ter declarado, certamente em algum auge de fervores anglicanos, que o terramoto de 1755 fora um merecido e "exemplar castigo do Céu contra o país papista atolado em superstição e licença", como escreve, à sua maneira, Aquilino Ribeiro. Licença, entenda-se "licenciosidade", ou degradação de costumes. Ora tal coisa nem o Rei, nem o Marquês de Pombal (que era quem dizia o que se escrevia), nem por consequência o tribunal da Inquisição podiam admitir. Era desonrar o bom nome do país, e já que a via diplomática não iria resultar, optou-se pela mais segura...

Daí que, conhecidas e analisadas as suas gravíssimas declarações, contra a fé e contra a moral da nação, fidelíssima e de brandos costumes, foi o homem queimado em auto público e, ao que consta, em ambiente carnavalesco, depois de lhe terem construído vera efígie, em estátua de materiais inflamáveis, para que a coisa não redundasse em inoportuno fiasco.

2. Quando, em dias recentes, alguns ânimos exaltados de senhores deputados e de senhoras deputadas (estas exaltam geralmente mais os ânimos que aqueles) a chamada lei do aborto, nos misteriosos interiores inacessíveis do parlamento, verdadeira sacra casa da lídima representação do povo, cá fora a cena, largamente publicitada pela comunicação social, era outra: manifestavam-se dois grupos de tendência inversa: uns contra, outros a favor do aborto. Nem sequer estavam em causa as leis, ou projectos de lei que estavam a ser debatidos. Estavam em causa posições de princípio. Porque se estivessem em causa os projectos de lei, certamente as posições não seriam tão extremadas.

Eis senão quando, no meio da manifestação a favor do aborto, se levanta uma imagem do Papa, e, em vindicativo gesto dos manifestantes, por entre punhos cerrados e esclarecedores gritos adequados ao acto, se pegou fogo à figura de João Paulo II, cena que depois foi excelente para encher as primeiras páginas dos jornais. Não me admiro nem os censuro por isso. Afinal são principalmente os crimes ou os desastres que as enchem.

Não foi no Rossio, foi em frente à Assembleia da República. Não foi no carnaval, mas foi em ambiente de carnaval. Não foi a hedionda Inquisição, mas foram os novos inquisidores. Não foi pela abjuração da religião, mas por afirmar os seus princípios.

Os novos inquisidores não vestem as roupas solenes dos sérios juízes da época das luzes; vão de calça de ganga e reúnem na praça pública; não razonam, mas gritam; não defendem princípios, defendem a sua pragmática; não agem pela razão, agem pela emoção; não debatem ideias ou concepções de vida, mas agridem, destroem e queimam. Se pudessem queimavam não a efígie, mas a pessoa; reuniriam um tribunal, a que chamariam popular, e chamariam à sua fúria a vontade do povo.

3. O confronto que até aqui sugiro não é meramente ocasional nem meramente juvenil. Encontramos hoje na nossa sociedade e nas suas forças de intervenção, nos poderosos do momento que têm acesso aos grandes Media, uma evidente mentalidade inquisitorial de sentido inverso àquela que tão vivazmente censuram nos séculos passados. Os modernos queimados em efígie são entidades vulgarmente designadas como Vaticano, Igreja Católica, Papa, Bispos, sacerdotes de diverso perfil e outros variegados alvos: Geralmente todos os processos dão no mesmo: uma versão serôdia do anticlericalismo decimonónico. Muitos desses textos possuem a virulência anquilosada e bolorenta de uma Velhice do Padre Eterno, ou o espírito persecutório de qualquer mata-frades.

Não parece (dizem) que estejamos no tempo de intolerância. As mentalidades modernas são abertas, espíritos livres, ideias arejadas, pensamento profundo, visões abrangentes, conspícuas e argutas análises sociológicas, eu sei lá. Quem somos nós à beira das mentalidades modernas? Somos o desprezível, somos o marginal, somos o espúrio da sociedade. Queimados em efígie nas praças públicas das colunas dos jornais, tornamo-nos as vítimas de uma nova sociedade inquisitorial, em que o Santo Ofício se tivesse transformado em Media e os executores arribassem, como aves de rapina, dos fundos nublosos do progresso e não se sabe de que misteriosas e anquilosadas ideias novas.

4. Para terminar, entenda-se que não está em causa nem a crítica, nem o direito (que entendo por dever) de a operacionalizar. Está em causa a rectidão e a pertinência dos juízos e a sua fundamentação factual. Está em causa a recta consciência e um espírito de avaliação justa, que tenha em conta tanto as deficiências como as dedicações e os ideais. Está em causa a compreensão por tarefas de horizontes mais alargados e límpidos.

A missão doutrinária da Igreja não é conformar-se ao espírito deste mundo, como escreveu S. Paulo, mas traçar para ele linhas novas e essenciais que por vezes não são compreendidas. Como declarava D. José Policarpo em recente entrevista, ao ser confrontado com a questão revelha que diz que "a Igreja está a perder o caminho da história", em palavras que resumo à minha maneira: a Igreja não pode nem deve deixar-se enredar nas modas, que são sempre passageiras, mas ser em todos os tempos a consciência dos valores perenes. Em primeiro lugar os humanos (como a vida, o bom nome ou o valor essencial do amor e da liberdade) e depois, com eles e sobre eles, os cristãos (o amor, a fraternidade, a paz, a reconciliação, que tudo é a mensagem e o rosto de Cristo). E o primeiro de todos os mandamentos: amarás o Senhor teu Deus. Que como se sabe, é o mais esquecido, e por está o mundo como está.

Mas mantemos a proclamação do ideal. Aquele futuro hebraico amarás tem o condão de nunca se perder e de olhar sempre para o longe. Se calhar por isso é que o verbo está no futuro, e não no imperativo...
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 14 a 20 de Março


TELEVISÃO - Bette Davis vai estar na berlinda em "Cinco Noites, Cinco Filmes", esta semana na RTP 2, onde poderemos ver cinco dos seus melhores trabalhos sob a direcção de outros tantos realizadores de qualidade. A abrir, na segunda-feira (17), teremos «A Floresta Petrificada», drama, de Archie Mayo (1936), no qual contracena com Humphrey Bogart; depois, dia 18, temos «Jezebel, a Insubmissa», drama, de William Wyler (1938), com Henry Fonda; segue-se «Vitória Negra», drama, de Edmund Goulding (1939), de novo ao lado de Bogart (dia 19); e, «A Filha de Satanás», drama, de King Vidor (1949), com Joseph Cotten (dia 20). O ciclo termina na sexta-feira (21), com a passagem do penúltimo grande trabalho da actriz, ao lado de outra grande notável actriz, Lillian Gish: «As Baleias de Agosto», drama, de Lindsay Anderson (1987). Destes cinco brilhantes desempenhos, permitam-me destacar apenas aquele que considero o seu melhor e mais expressivo papel, aquele que mais marcou o meu gosto pelo cinema e seus monstros sagrados: «Jezebel, a Insubmissa». Para os americanos, a belle époque de Nova Orleães foi uma fonte inesgotável de inspiração. É precisamente nessa cidade que se desenrola esta história, ambientada no ano de 1850. Julie Marston, uma rica e fantasiosa herdeira (do estilo Scarlett O'Hara), tem dois admiradores, Pres Dillard e Buck Cantrell, que ela trata com arrogância. Um dia, porém, cheio daquilo, Pres revolta-se. Para humilhá-lo, ela aparece num grande baile vestida de vermelho, em vez do branco que se impunha às jovens. Com este brilhante desempenho, Bette Davis alcançou o segundo Oscar de sua extensa e bem sucedida carreira.

Ruth Elizabeth Davis nasceu em Lowell, Massachusetts, no dia 5 de Abril de 1908. Toda a sua vida, pessoal e profissional, caracterizou-se pela sua arrogância e insubmissão. A sua carreira começou nos palcos da Broadway, em 1928, dirigida por George Cuckor, onde alcançou enorme sucesso. Dois anos depois, foi contratada pela Universal Pictures, debutando no filme «The Bad Sister» (1931). Mudou para a Warner Brothers, iniciando uma longa e ilustre associação com o estúdio. Os seus papéis mais famosos, incluíndo «Dangerous» (1935) e «Jezebel» (1938), premiados com Oscars, foram em «Servidão Humana» (1934), «A Mulher Marcada» (1937), «Vitória Negra» e «The Private Lives of Elizabeth and Essex» (ambos de 1939), e «A Carta» (1940). Muito temperamental, ficaram famosas as suas discussões com Jack Warner sobre salários e sobre a qualidade dos argumentos, que originaram uma longa batalha judicial, da qual saiu perdedora. Abandonou o estúdio em 1949 e criou a personagem Margo Channing de «Eva/All About Eve» para o filme de Joseph Leo Mankiewicz (1950). Na década de 60, a sua carreira foi voltada para filmes de baixo orçamento, dos quais o mais famoso é «Que Teria Acontecido a Baby Jane?» (1962), primeiro de uma série de filmes de terror que interpretou. Foi Presidente da Academia de Hollywood em 1941. No total, foi nomeada para dez Oscars de Melhor Actriz e, em 1977, recebeu do American Film Institute o prestigioso prémio pela sua carreira. Faleceu em Paris, aos 81 anos de idade, a 6 de Outubro de 1989, após uma série de derrames cerebrais.

Outros filmes a não perder: «O Monstro», comédia, de Roberto Benigni (1994), com o próprio Benigni, Nicoletta Braschi e Michel Blanc (RTP 2, dia 14); «Deus Sabe Quanto Amei», drama, de Vincente Minnelli (1959), com Shirley MacLaine, Frank Sinatra e Dean Martin (RTP 2, 15); «Rangoon», drama, de John Boorman (1995), com Patricia Arquette e Frances McDormand (SIC, 15); «Fitzcarraldo», drama, de Werner Herzog (1982), com Klaus Kinski e Claudia Cardinale (TVI, 15); e, «O Monte dos Vendavais», drama, de William Wyler (1939), com Merle Oberon e Laurence Olivier (TVI, 16).


...E FORA DE CASA

A super-famosa série televisiva «Star Trek» e a sua sequela no pequeno ecrã, «A Nova Geração», conseguiram fundir-se também no cinema com «Star Trek: Gerações», e agora adquirem continuidade numa nova aventura - «Star Trek: O Primeiro Contacto» - na qual os tripulantes da nova nave USS Enterprise NCC-1701-E enfrentam a ameaça dos Borg, andróides híbridos, meio-máquinas e meio-orgânicos, vilões que herdam com singular efectividade a função de inimigos dos heróis da Federação, anteriormente atormentados pelos Romulanos e Klingons.

Mais carregada de acção que os filmes anteriores, esta nova peripécia, que inclui viagens no tempo e contactos imediatos do terceiro grau com extraterrestres, tem todos os ingredientes próprios da ficção científica, bem salpicados de efeitos especiais e visuais, capazes de atrair mesmo os que não se interessam por este género de produtos. O realizador Jonathan Frakes não é um estranho nestas andanças estelares; além de dirigir e interpretar o papel de Comandante William Riker nesta oitava longa-metragem da série, foi o responsável pela direcção de alguns episódios das séries televisivas «Star Trek: A Nova Geração», «Star Trek: Voyager» e «Star Trek: Deep Space Nine». Produzido por Rick Berman, herdeiro do Império Trek por expresso desejo de Gene Roddenberry (criador da série), para a Paramount Pictures, o filme é distribuído por Lusomundo Audiovisuais, podendo ser visto no Cinema Charlot e na Sala 6 do moderno Warner-Lusomundo, do Gaiashopping.
Vasco Martins
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