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1. O Coro da Sé Catedral do Porto quis encerrar as comemorações do 25º aniversário da sua fundação (1971) com a estreia de uma obra coral-sinfónica da autoria do seu fundador, impulsionador e director durante mais de vinte anos, o Cónego António Ferreira dos Santos. |
A cidade e o país conhecem, em graus diferenciados, como acontece com tudo na vida, a actividade de Ferreira dos Santos como músico, liturgista, pedagogo, compositor, dinamizador de actividades culturais e de formação artística tendo como pano de fundo a música, mas que largamente a ultrapassam, para além da sua actividade como sacerdote e membro e responsável de múltiplas comissões diocesanas e nacionais, nos domínios da Liturgia e da Arte Sacra. A grande capacidade de iniciativa e de acção cultural que tem manifestado plasmam-se, de forma visível, para além de tudo o que é invisível aos olhos e às mentes pouco despertas (e que é o essencial), nos grandes órgãos da Catedral do Porto e da Igreja da Lapa, para além de todo o trabalho de restauro levado a cabo em muitos outros órgãos de tubos de igrejas da diocese, património de inestimável valor e até há pouco esquecido das entidades oficiais e da população em geral, mesmo a que se considera culta.
A vida musical da região do Porto modificou-se pela acção deste homem, nomeadamente os grandes concertos corais-sinfónicos em que foram divulgadas na cidade, e pelos seus músicos e grupos, algumas das obras-mestras da música de todos os tempos como são a Missa em si menor, a Paixão segundo São João e várias cantatas de Bach, o Requiem e a Missa em Dó menor de Mozart, Israel no Egipto, de Haendel, Missa da Criação de Haydn e tantas outras obras. Mais recentemente, surgiram o Te Deum de Bruckner e a Oratória de Natal de Bach. Pelo meio fica a divulgação da música de autores portugueses antigos e modernos, incluindo a revelação de obras existentes apenas em manuscritos nunca divulgados. Entre os portugueses sobressaem Bomtempo, Silva Leite, Manuel Faria e o próprio A. Ferreira dos Santos, para além de nomes da polifonia dos séculos XVII e XVIII. Em toda esta actividade acresce a participação das orquestras do Porto, inicialmente a Sinfónica da RDP e ultimamente a Orquestra Clássica do Porto e de um conjunto notável dos melhores solistas portugueses e de muitos estrangeiros.
Entre a veia criadora de F. Santos é particularmente digna de realce a composição de música para a Liturgia, combinada com a acção pedagógica neste domínio, assumida no sentido de dar à música litúrgica o seu valor fundamental, uma música com funda e forte raiz na tradição musical da Igreja, tendo como suporte primordial os textos litúrgicos, e que se projecte para além das modas e dos gostos passageiros.
É este um trabalho árduo e atreito às mais controversas incompreensões e às mais superficiais críticas. O lançamento do Boletim de Música Litúrgica, que vai já no seu número 118 (iniciou-se também aí pelo ano de 1971), foi acompanhado da criação de Escolas de Formação musical e litúrgica, de cursos de formação por toda a diocese do Porto, no sentido de formar pessoas, criar grupos, dinamizar as celebrações de uma forma consistente. Esse Boletim, cuja feitura nascia principalmente do seu director, reuniu também trabalhos de alguns dos mais importantes compositores de música para a liturgia, sobretudo do norte do país. Registam-se nomes como os dos falecidos Manuel Luís, Manuel Faria e Manuel Simões, Ferreira da Silva, Carlos Silva, Azevedo Oliveira, e ainda de Fernando Lapa e Fernando Valente, compositores que também participaram activamente no nascimento e crescimento do Coro da Sé. Constitui-se assim um acervo de composições musicais cujo elo de união é a caracterização litúrgica (não apenas sacra), fazendo participar solistas, coro e assembleia na respectiva execução. Na verdade, a música litúrgica é essencialmente música para a assembleia, para a oração comum.
Não são raros os detractores do tipo de composições da autoria de Ferreira dos Santos, caracterizando-as como difíceis, pouco populares, excessivamente eruditas, difíceis para o ouvido e outras adjectivações que tais. A verdade, porém, é que um número importante dessas composições se tornaram populares, e hoje são cantadas por todo o país. Outras, porém, terão de esperar a acção purificadora do tempo, pedra de toque de toda a obra que permanece. Poucos dos grandes mestres foram reconhecidos no seu tempo. A maioria deles foram incompreendidos.
2. Voltemos, porém, que era esse o nosso intento, ao concerto coral-sinfónico de encerramento das comemorações das bodas de prata do Coro da Sé, em que este quis prestar homenagem ao seu fundador. O Bispo diocesano associou-se à homenagem através de algumas palavras com que reconheceu a acção pedagógica do homenageado.
A melhor homenagem que se pode prestar a um autor é divulgar a sua obra. Após a execução de outros trabalhos de índole coral-sinfónica (geralmente em forma de cantatas, como As obras de misericórdia, o Cântico daCcriação, O Bom Pastor, São João de Deus, e o Requiem à memória do Infante D. Henrique, surge agora esta nova cantata, para soprano, tenor, orquestra e grande coro, sobre um texto do poeta António Corrêa de Oliveira, da obra Verbo Ser e Verbo Amar, intitulada «O Paraíso».
O gosto do compositor pelas grandes massas corais, certamente influenciado pelo sentido litúrgico do canto para as grandes assembleias, havia já sido objecto de outros concertos com as suas referenciadas obras e de outros autores, a propósito de acontecimentos jubilares. O recurso a alguns dos coros da diocese dedicados à música litúrgica constitui uma possibilidade que poucos têm.
Porém, a vantagem desta obra, concebida para grande coro (actuaram cerca de 500 vozes, o que só por si constitui um acontecimento) parece-me a possiblidade de ser executada também por um coro de menores dimensões, o que também permitirá um melhor equilíbrio entre as vozes e a orquestra, de volume acústico visivelmente insuficiente para a grandiosidade do coro. Com efeito, outras obras do autor, como por exemplo a excelente Cantata da Criação, exigem um conjunto vocal difícil de reunir (coro, grande coro, coro de vozes masculinas), e portanto só excepcionalmente se poderão repetir. Por outro lado, a acústica do local, o grande auditório da Casa Diocesana de Vilar, excessivamente dura e seca, não favoreceu o brilhantismo das execuções. Permite no entanto a presença de cerca de milhar e meio de espectadores, rendibilizando assim o espectáculo.
Falando da obra, o que mais ressalta é o seu equilíbrio formal, só desfeito (por defensável opção estética, certamente) pela repetição algo barroca do Amen, Alleluia, Amen final. Um trabalho muito cuidado e expressivo com as partes orquestrais, nomeadamente o introito inicial, valoriza os metais (o que parece ser também um gosto do autor, para além de se adaptar à grandiosidade da massa coral). De resto, a multiplicidade e variedade de recursos formais, onde se entrelaçam e por vezes entrechocam as concepções barrocas e as sugestões modernas de composição, conduzem a momentos muito ricos de expressividade. Não será difícil encontrar, por exemplo, algumas influências de Messiaen por entre o contraponto de raiz bachiana (são dois dos músicos mais admirados do autor, segundo lhe ouvimos afirmar). Nos corais surge tanto a calma tranquilidade em que se pressentem os finais das cantatas de setecentos, como a vivacidade contrapontística com que se entrelaçam os coros. Ficou-nos na memória o fugato orquestral com que se introduz o coro final, valorizando a acção dos sopros e dos metais. Acontece o mesmo em alguns solos, em que o oboé ou a flauta comentam as palavras do solista.
Duas palavras, uma para os jovens solistas, que assumiram garbosamente uma experiência que lhes será certamente memorável; outra para a Orquestra Clássica do Porto, que tem vindo a manifestar uma louvável disponibilidade, concentração e sentido profissional na sua participação neste tipo de música.
Finalmente, o maestro Eugénio Amorim, actual director do Coro da Sé, denotou sobejo entusiasmo e domínio da complexa situação musical deste concerto. Com uma marcação muito viva e dinâmica, notava-se-lhe a vibração que a circunstância lhe pedia.
Numa cantata é sempre importante a expressividade e a qualidade do texto. O presente, de António Corrêa de Oliveira, não me parece nem muito dinâmico poeticamente nem muito profundo em seu sentido.Tentando ligar a natureza ao homem, ambos como obra divina, pretende uma visão poética, em versos decassílabos, da narrativa bíblica da criação. O compositor acrescentou-lhe algumas aclamações mais musicais que o próprio texto em si. Mas decerto o autor nunca pensou que dele fizessem uma cantata.
3. O compositor Ferreira dos Santos não se revelou, mas sagrou-se. A plateia sentiu-o e tributou-lhe um merecido penhor da sua admiração. Esperam-se outras obras, com que se enriqueça a música sacra moderna em Portugal. Novas obras e novas execuções das já concluídas.
| C.F. |
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De7 a 13 de Março
TELEVISÃO - A
RTP comemora hoje, dia 7, o seu 40º Aniversário
e é ela quem dá os presentes: uma programação
especial, com destaque previligiado para o cinema. Só neste
dia irão ser exibidos mais filmes que durante toda a semana
nesse canal. A abrir uma autêntica maratona cinéfila,
a RTP 1 apresenta «Corrida Mortal», acção,
de Paul Schneider (1995), com Kate Jackson e Corbin Bernsen; segue-se
o drama «Fedora», de Billy Wilder (1978), com
William Holden e Marthe Keller; e a comédia «Sómente
Tu», de Betty Thomas (1993), com Andrew McCarthy, Kelly
Preston e Helen Hunt. Depois, a festa prossegue na RTP 2
com o expoente máximo do terror de David Cronenberg, «A
Mosca», de 1986, com Jeff Goldblum e Geena Davis, integrado
no ciclo sobre este realizador na rubrica "Cinco Noites,
Cinco Filmes"; segue-se o clássico francês
de Jean Vigo, «A Atalante», de 1934, com Michel
Simon e Dita Parlo; vêm depois «Jardim Profano»,
acção, de George Fitzmaurice (1931), com Ronald
Colman e Fay Wray; «Mulher caça Homem»,
comédia, de John G. Blystone (1937), com Joel McCrea e
Miriam Hopkins; «Festival Cantinflas», montagem
de diversos sketches de filmes de Mario Morene Reyes, actor
mexicano popularizado como Cantinflas; e, «O Rapaz e o
Cavalo», drama, de Edward L. Alperson (1957), com John
Crawford e Mimi Gibson. De todos os filmes referenciados, vou
destacar o melhor de todos.
Realizado em 1934, «A Atalante» foi o último filme da curta carreira de Jean Vigo como realizador. Tudo gira em torno de uma viagem fluvial a bordo de um barco chamado Atalante, uma chata a motor que percorre o Sena ao serviço de uma companhia de navegação. Pela sua mistura de estetismo e realismo, o seu lirismo arraigado no quotidiano, o seu poder de subversão, Jean Vigo afirmou-se, bastante jovem, como um dos grandes poetas da sétima arte, o Rimbaud do ecrã. François Truffaut, outro jovem realizador francês (dos tempos da Nouvelle Vague) escreveu a propósito: "Se examinarmos o cinema francês do início do falado, perceberemos que, entre 1930 e 1940, Jean Vigo encontrou-se praticamente só ao lado de Jean Renoir, o humanista, e de Abel Gance, o visionário". A existência breve e dolorosa (1905-1934) desse criador fora do comum corresponde bem a uma obra pura e sem concessões. Filho do militante anarquista Miguel Almereyda, formado na escola da vanguarda, de saúde frágil (passava a vida em sanatórios), Vigo não pode realizar mais do que quatro filmes, um só de longa-metragem, todos levando a marca de uma forte sensibilidade e de um rude lirismo: «À propos de Nice» (1929), é um "ponto de vista documentado" sobre a cidade dos milionários; «Taris ou la natation» (1931), uma delicada marinha; «Zero de Conduite» (1933), um libelo contestatário de humor arrasador. Ajudado na fotografia por Boris Kaufman (que foi cameraman de Dziga Vertov) e, no último, por Maurice Jaubert na música, Vigo manifesta um anticonformismo, uma liberdade de tom, uma espontaneidade, e, sobretudo, um contacto constante com a vida, com as coisas presentes, únicos no cinema francês. A crítica não percebeu logo a sua novidade, e a censura não o poupou («Comportamento Zero» esteve proibido até 1954). Com «A Atalante», filmado em pleno inverno por um homem atormentado pela doença (morreu de uma tuberculose pulmonar mal acabou o filme) e distribuído nas piores condições (com inúmeros cortes e a adjunção imposta de uma canção da moda, "La chaland qui passe[a chata que passa]"), Vigo deu à sétima arte o seu Bateau ivre. Iniciado como uma farsa camponesa, a obra termina como um maravilhoso poema de amor, após uma passagem pela canção popular (sequência na gafieira), o espectáculo surrealista e o documentário social (os desempregados arrastando o pé em frente da fábrica). Michel Simon, maquilhado de maneira inacreditável, parece-se com um personagem dos romances dramáticos de Zola; o casal Jean Dasté/Dita Parlo têm uma rara presença carnal; o cenário, o ritmo e a música proporcionam à aventura ares de sonho acordado. O milagre está em que a mistura de todos esses componentes produz um resultado cristalino. «A Atalante» foi exibido, a princípio, a pedido da distribuidora, com o título «A chata que passa», tomado de uma canção popular de Cesare Andrea Bixio, interpretada por Lys Gauty. O sucesso foi medíocre. Em 1940, o filme tornou a ser lançado, no Studio des Ursulines, com o título e a forma desejados por Jean Vigo. No entanto, faltavam inúmeras sequências, que Henri Langlois se esforçou por reconstituir numa terceira versão, a mais completa até hoje, apresentada em 1950 sob a égide da Cinemateca francesa. Um dos mais belos filmes que já tive o prazer de ver, e recomendo vivamente a todos os leitores. Já existe, entretanto, no mercado português, uma edição em vídeo deste filme, precisamente a recuperação de 1950, com a chancela de qualidade Atalanta Vídeo.
Outros filmes para ver ainda esta semana: «Ofício de Matar», drama, de Jean-Pierre Melville (1967), com Alain Delon e Nathalie Delon (RTP 2, dia 8, em "O Filme da Minha Vida"); «A Verdade dos Factos», drama, de Richard Eyre (1985), com Jonathan Pryce (o actor que interpreta Perón em «Evita») e Tim Curry (TVI, dia 8); «Os Melhores Anos da Nossa Vida», drama, de William Wyler (1946), com Frederic March e Myrna Loy (TVI, 9); «Feios, Porcos e Maus», comédia dramática, de Ettore Scola (1976), com Nino Manfredi (RTP 2, 11); «Pequeno Buda», fábula, de Bernardo Bertolucci (1993), com Keanu Reeves, Bridget Fonda e Chris Isaak (TVI, 12). Os melhores filmes da semana.
O "Manual do Bom Anjo", que Denzel Washington (o anjo desta história) consulta amiúde durante a acção do filme «Espírito do Desejo», contêm três regras: "os anjos não podem mentir, não podem ajudar a quem não lhes peça e não podem pemanecer na memória dos que ajudam". Mas os argumentistas Nat Mauldin e Allan Scott esqueceram-se de acrescentar um conselho: "os anjos, sobretudo, não devem apaixonar-se durante os trabalhos", e em especial pela mulher de um sacerdote. A realizadora Penny Marshall não consegue criar tensão, mas alguma candidez e ambiente religioso para o que contribui a portentosa voz de Whitney Houston (a mulher do pregador) nas numerosas canções corais, os "gospels". Chegando um pouco atrasado, pelo facto de ser ambientada na época natalícia, esta deliciosa comédia é um remake do clássico «O Mensageiro do Céu/The Bishop's Wife" (1947), de Henry Koster, com Cary Grant, Loretta Young e David Niven.
A história é a mesma: um anjo-da-guarda de um pastor protestante (Courtney B. Vance) é enviado à terra para o ajudar a não fraquejar na sua fé. «Espírito do Desejo» (no original, «The Preacher's Wife») é uma comédia agradável de ver, e de ouvir, sobretudo pela maneira de cantar de Whitney Houston.
Produzido por Samuel Goldwyn para as Produções Walt Disney, este filme é distribuido por Lusomundo Audiovisuais, podendo ser visto no Cinema Estúdio Foco, do Porto.
| Vasco Martins |
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