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Don't cry for me Argentina For I am ordinary, unimportant And undeserving Of such attention Unless we all are - I think we all are So share my glory So share my coffin... |
Em Novembro de 1976, o compositor Andrew Lloyd Webber (responsável de musicais tão famosos como «Jesus Cristo Superstar», «Cats», «O Fantasma da Ópera» ou «Sunset Boulevard», entre outros) e o letrista Tim Rice (últimamente popularizado graças ao seu trabalho para «O Rei Leão», da Disney) levavam a cabo a primeira gravação do musical «Evita». A mais carismática canção do mesmo, "Don't Cry For Me Argentina", seria gravada pela primeira vez por Julie Covington. Em 21 de Junho de 1978, «Evita» estreava-se mundialmente no londrino Prince Edward Theatre, com Elaine Paige no papel protagonista. O seu êxito foi tão colossal que, no ano seguinte, Patti LuPone encabeçava o elenco da primeira representação na Broadway de Nova Iorque, onde «Evita» se fez merecedora de sete prémios Tony (o Oscar do teatro americano). «Evita» já foi práticamente representada em todos os países e todas as línguas do mundo. Agora, chegou ao cinema. Já em 1979, quando «Evita» se estreou nos Estados Unidos, o produtor Robert Stigwood e o realizador Alan Parker haviam estudado a possibilidade de transpôr a peça para o grande ecrã. Mas os anos foram passando e nada acontecia. Eram muitos os nomes apontados como possíveis protagonista e realizador, mas não se adiantava mais.
"O mais irónico de toda esta história é que eu fui o primeiro a propor este projecto e, por fim, fui o último de quantos passaram por ele que acabou por fazê-lo", comentário divertido de Alan Parker, que confessa ter tido um grande susto quando, há pouco mais de dois anos, Oliver Stone anunciara a intenção de fazer este filme, com Michelle Pfeiffer como protagonista definitiva. Parker, que respeitou as idéias de Stone no argumento, afirma ter feito 146 alterações sobre a obra original, sendo a mais significativa converter o personagem de Che Guevara do teatro em, simplesmente, Che, encarnado no seu filme por António Banderas, talvez para eliminar toda a possível referência à actual política cubana, que continua a ter Che Guevara no panteão dos heróis revolucionários.
Sempre que se fala de um musical e mais deste que temos entre mãos, há que partir de uma premissa: que gostemos de filmes onde os diálogos são substituídos por canções. Uma vez superados os primeiros momentos, encontramo-nos com um filme soberbo. Alan Parker soube dotar este «Evita» do talento congénito do seu grande director, o realizador de «Fama» e «O Expresso da Meia-Noite». O musical criado por Webber e Rice nos anos setenta, era uma das peças mais cotadas por produtoras e realizadores para a sua plasmação em obra cinematográfica e, finalmente, o primeiro candidato durante esses anos, Parker, demonstrou ser o mais idóneo. A ascenção de uma medíocre actriz ao poder na Argentina, supõe o eixo deste retrato histórico de Maria Eva Duarte de Perón, Evita, odiada por muitos e quase elevada aos altares por outros tantos; Parker procura ser imparcial e limita-se a contar um grande melodrama, no qual o espectador poderá ou não tomar partido pela figura e distintos personagens que vão sendo mostrados, mas que seguramente sairá da sala satisfeito de ter visto um esplêndido trabalho. Se alguém fica reticente ao saber que «Evita» é Madonna, como foi o meu caso, encontrar-se-á igualmente perante outra surpresa. Nunca Madonna terá sido menos Madonna que nesta ocasião: com isto quero dizer que uma má actriz, como o demonstrou um várias ocasiões, se converte por obra e graça do realizador na "actriz" mais acertada para um filme desta envergadura, que dá boa réplica a Antonio Banderas no seu também melhor trabalho feito em Hollywood até esta data. Menção especial merece toda a figuração: devo reconhecer que fiquei realmente surpreendido por esse grupo de homens e mulheres que saltam do ecrã, dando vida ao povo com uma verossímil empolgância. Em resumo, o que descortinamos neste «Evita» é um grande espectáculo cinematográfico, cheio de pulso e paixão que cativará até aqueles que não gostam de musicais.
Nesta altura, pouco mais se poderia acrescentar sobre a ópera-rock de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber: um triunfo absoluto em práticamente todo o mundo, com milhares de discos vendidos e uma curiosa revalorização de uma das mulheres mais polémicas do século, Eva Perón. Numa época em que fazer um musical se torna demasiado caro e tãopouco goza do agrado do grande público, «Evita» supõe o mesmo desafio que quando se estreou a peça teatral. Claro que os seus produtores souberam multi-publicitar esta «Evita» cinematográfica quase desde a sua preparação. Mas também houve muita polémica, especialmente com a escolha de Madonna e suas possibilidades vocais. Não houve tanta história nem com o espanhol Antonio Banderas, nem com o inglês Jonathan Price (de «Brazil» ou «A Idade da Inocência»), um estupendo actor que demonstrou bem a sua eficácia no musical cénico «Miss Saigon».
Depois, foi a escolha das localizações - rodar-se-ia, finalmente, nos Estúdios Shepperton de Londres e na Argentina, onde se armou enorme revolução por causas óbvias.
"É uma história tão cheia de vida, tão compacta, que o filme parece-se muito pouco com a produção de teatro, graças a Deus", comenta Madonna. "Realmente, a obra enfureceu-me, porque sentia que só se dava importância ao ponto de vista da aristocracia e se dava a imagem de que Eva era, tão sómente, uma rameira ambiciosa... Investiguei por meu lado e imprimi-lhe a humanidade que não creio que nem Andrew Lloyd Webber nem Tim Rice lhe consentiram no musical".
A polémica já está servida. O certo é que no duplo CD que recolhe a banda sonora - excepcional, não se pode dizer outra coisa -, Madonna surpreende os seus fãs e quem a não conhece com uma voz diferente, limpa, potente. Quanto a Antonio Banderas, em nada nos surpreende, já nos havia demonstrado que é capaz de cantar e bastante bem. Como curiosidade, refira-se que Parker conseguiu que Webber e Rice escrevessem uma nova canção para o filme, algo nada fácil tendo em conta que ambos os autores passaram algum tempo práticamente sem se falarem. Assim surgiu "You Must Love Me", interpretada por Madonna, candidata ao Oscar de Melhor Canção 1996.
Esta produção da Cinergy é distribuída em Portugal por Vitória Filme-Exclusivo Ecofilmes.
| Vasco Martins |
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