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O fio condutor que une qualquer afirmação das culturas e em particular das artes de inspiração cristã é a referência evangélica Em tal sentido é bem tudo aquilo que leva a Cristo, é mal aquilo que afasta dele
As várias gerações que se sucedem na vida da Igreja, estão investidas duma dupla responsabilidade: acolher o património cultural proveniente do passado; e criar um património em condições para assumir as finalidades do presente. É uma operação delicada. Por um lado exige a tutela da memória histórica em todas as suas componentes; por outro comporta fidelidade ao hoje da Igreja e das culturas. O equilíbrio é instável, as forças são dialécticas, as dificuldades e insídias, muitas
Os bens culturais são expressão típica da espiritualidade do homem Através desses vestígios, de significado relevante ou irrelevante, é possível entrar em sintonia com o património sapiencial de culturas e povos distantes de nós e é possível identificar-se, como comunidade eclesial, no hoje da Igreja e do Mundo.
Os Bens culturais (= BC) ordenados ao anúncio do Evangelho, ao culto divino, ao crescimento da sabedoria humana, têm uma notável relevância eclesial e como tais devem ser salvaguardados, valorizados e actualizados Um Estado, democrático e pluralista, considera o seu património um «bonum publicum», ou seja, um conjunto de bens a que subjazem diversas ideologias e díspares finalidades, por vezes discrepantes entre si. São bens que afloram casualmente do passado e que são tutelados sobretudo na sua materialidade. A Igreja, ao invés, considera o seu património um «bonum communis», isto é, um conjunto de bens congruente com a vida da comunidade eclesial e, portanto, adequado às finalidades que a comunidade se prefixa; por isso a tutela deve ser integral (contexto, matéria, conteúdo, agente, fim, etc.).
No pensamento da Igreja, a «salvaguarda» está em função da «valorização» e a «valorização» faz-se em âmbito cultual e, portanto, «actual». Tal «primado do cultual» não se opõe ao desenvolvimento cultural, uma vez que a verdade imanente à criação encontra pleno cumprimento na verdade transcendente da redenção, referindo-se ambas a Deus, suma Verdade e sumo Bem
O carácter religioso dos BC da comunidade eclesial é, portanto, primário. Isto não significa que todos os bens devam ter um conteúdo explicitamente religioso, mas antes que a sua finalidade respeite a lei natural e que eles ajudem, em última instância, à emancipação espiritual do homem
Neste contexto, os BC são o depósito da criatividade humana, o eloquente documento onde a inteligência do homem manifesta a sua participação no criar divino. Eles constituem, por isso, um património usufruível pela comunidade dos fiéis pelo qual a Igreja é responsável. Secundando tal instância, a Igreja não se considera apenas guarda de despojos passados, mas antes promotora de cultura e em particular de «cultura cultual» através da qual as diversas gerações podem exprimir comunitariamente o seu encontro com Deus.
A «nova evangelização» não pode deixar de incidir sobre a cultura cuja desejável novidade consiste na recuperação da pessoa na sua integralidade, ou seja, na sua abertura a Deus, e não pode deixar de se concretizar em «bens vivos» nos quais esteja impresso o génio e a fé dos crentes, dos quais emirja a força da tradição e a coragem do futuro, onde se manifeste, com a beleza das formas sensíveis, o esplendor da glória de Deus
(Notas de reflexão do Secretário da Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja)
| S.D.L. |
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