Cultura:

O Paraíso

Cantata para Soprano, Tenor, grande Coro e Orquestra do Cón. Ferreira dos Santos. Estreia absoluta, no Grande Auditório do Seminário de Vilar, nos dias 28 de Fevereiro e 1 de Março, às 21. 30 horas.

Tendo aberto as comemorações do seu 25º aniversário, em 1 de Março de 1996, com apresentação de dois Te Deum, de M.-A. Charpentier e A. Bruckner (assinalando o centenário da sua morte), o Coro da Sé Catedral do Porto vai encerrar a referida efeméride com um Concerto Monumental, em que será apresentada, em estreia absoluta, uma nova Cantata do seu fundador, o Cón. Ferreira dos Santos e em que participarão uma dezena de Coros da diocese do Porto (Fornos, Oliveira de Azeméis, Milheirós de Poiares, Aldoar, Rio Tinto, S. Tiago de Bougado, S. João da Madeira, Sª da Conceição, Carregosa, Vale, Arrifana, Urrô, Orfeão de Arouca), num total de 500 vozes, o Coro da Sé Catedral, a Orquestra Clássica do Porto, os solistas Cláudia Pereira Pinto e Mário João Alves, sob a Direcção do Maestro Eugénio Amorim.

A Cantata O Paraíso, cujo texto foi tirado do poema de António Corrêa dOliveira, Verbo Ser e Amar (Canto Primeiro), 1926, para dois solistas (Soprano e Tenor), grande Coro e Orquestra, é uma obra em 4 partes que dura cerca de 55 minutos e foi composta durante o ano de 1996, pelo Cón. Ferreira dos Santos.

O compositor, para além de mais de um milhar de cânticos para a Liturgia, muitos dos quais publicados no Boletim de Música Litúrgica, apresentou, em público, várias cantatas, como As obras de misericórdia, A criação, O bom Pastor, S. João de Deus, etc. e a Missa de Requiem, à memória do Infante D. Henrique.

A cantata O Paraíso tem uma expressão vocal muito rica em planos (solista, Coro e grande Coro) e uma densidade orquestral que lhe conferem uma grande expressividade. Este interesse pelas grandes massas corais tem sido manifestado em outras obras já apresentadas, as quais, também por esse motivo, beneficiam de uma profunda e intrínseca energia arrebatadora. Esta experiência musical não é muito comum e só é possível, entre nós, graças a uma intensa actividade coral desenvolvida pelo autor, ao longo destes 25 anos, nomeadamente na diocese do Porto. Os coros que se juntam ao Coro da Sé para realizar a obra (e poderiam ser outros mais nesta nossa riquíssima região, em cultura musical e coral), são um dos frutos de uma grande obra cultural realizada, em 25 anos, pelo Cón. Dr. Ferreira dos Santos.

O Cón. Ferreira dos Santos pôs em marcha um movimento que transfigurou a imagem musical do Porto e reatou o diálogo e a cooperação entre a Igreja e a cultura musical.

Em 1971, recém-chegado da Alemanha, onde concluíra o seu Curso de Música (Órgão, Composição, Direcção de Coro e Música Sacra), na prestigiada Escola Superior de Música de Munique e, sobretudo, onde vivera uma experiência cultural ímpar, particularmente ao nível musical, o Cón. Ferreira dos Santos não se deixou abalar pelo pobre ambiente cultural e musical que veio encontrar na sua cidade (com algumas ilustres e honrosas excepções) e, sobretudo, com o estado deplorável a que a cultura musical tinha chegado nas igrejas do nosso País. Desejando transformar a situação, pressionado pela imagem que trazia desses ambientes cultos que frequentara, lançou-se, sem delongas, nem tergiversações, mas com o entusiasmo e tenacidade que sempre o caracterizaram, numa acção pedagógica que não duvidou ser penosa e longa, convencido de que era essencial para o projecto que acalentara ou, talvez, para o sonho que o atormentava. Nesse mesmo ano, reformava a música nos Seminários diocesanos, fundava uma revista de Música Sacra e Litúrgica (que ainda hoje se mantém, com 5 números anuais) e criava uma Escola Diocesana de Música Sacra e Litúrgica. Foi, neste contexto, que fundou o Coro da Sé Catedral do Porto. As Catedrais e igrejas maiores das mais importantes cidades da Alemanha e dos outros países europeus cultos tinham coros de alto nível que eram motores da vida musical das mesmas cidades. Sonhou que o Porto deveria ser uma dessas cidades. Nesse mesmo ano, ainda, eram restaurados os dois Órgãos históricos da Catedral e o Coro da Sé apresentava-se pela primeira vez no Concerto inaugural.

Em 1977, fundava um agrupamento de Metais e Tímpanos (Sollemnium Concentus), género de agrupamento, até então, inexistente em Portugal, que acompanhou o Coro da Sé por todo o Norte do País. Foram surgindo, entretanto, outros novos agrupamentos, quer vocais quer instrumentais, menos estáveis ao longo destes 25 anos, mas que assinalaram, sem dúvida, a vontade de fazer do Porto uma cidade musicalmente culta.

Em 1981, para comemorar o 10º aniversário do Coro, realizou-se um Concerto monumental, em que participaram, com o Coro da Sé, dez coros da diocese do Porto, num total de 400 vozes. Tal Concerto teve um grande impacto no público e foi o corolário de um intenso trabalho musical alargado à região Norte. Nessa data, foi lançado um movimento de entusiasmo pela aquisição de um grande Órgão de Tubos para a Catedral. Tratava-se de um sonho antigo nunca realizado.

Em 1985, foi inaugurado o grande Órgão da Catedral e criou-se uma onda de entusiasmo pela música de Órgão. A partir de então, algumas igrejas do Porto e do País começaram a adquirir Órgãos de Tubos e a restaurar outros, até aí, votados ao esquecimento, senão ao desprezo. Desde então, os Concertos de Órgão no Porto são um relevante acontecimento cultural que têm chamado à nossa cidade os melhores organistas do mundo.

Com bastante frequência, o Coro ia realizando Concertos com diversas Orquestras, apresentando obras-primas nunca ouvidas no Norte e, em alguns casos, em Portugal. Ao longo destes anos o Coro desenvolveu, também, uma intensa actividade pedagógica, levando a música até às aldeias, organizando cursos (Curso de iniciação à criatividade musical da criança, orientado pelo pedagogo musical Pierre Van Hawve, a 3ª. semana de Música Antiga Ibérica, com Santiago Kastner e Jordi Savall, um Curso para Directores de Coro, pelo Prof. Velten, Director do Instituto de Música Sacra de Regensburg), estabelecendo contactos (com a Orquestra Juvenil de Brighton, o Coro e Orquestra do Ensemble Josquin des Près, de Poitiers, os Coros da Catedral de Würzburg, Schiersteiner Kantorei e Bach Ensemble de Wiesbaden, Brandon Hill Chamber Orchestra e Coros de Bristol, etc.).

Em 1995, foi inaugurado o grandioso Órgão da Igreja da Lapa, a que o Coro da Sé se associou com o Concerto de encerramento, apresentando, com a Orquestra Clássica do Porto, um Te Deum inédito de um compositor português do séc. XIX. A inauguração do grande Órgão da Lapa foi um grande acontecimento social e cultural que intensificou a onda de entusiasmo popular pela música. Para além da dezena de concertos a que acorreram milhares de pessoas, não faltaram muitas outras inéditas manifestações populares de júbilo pelo acontecimento.

Em 1996, o Coro da Sé assinalou condignamente o seu 25º aniversário e, na passagem do 1º aniversário do grande Órgão de Tubos da Igreja da Lapa, realizaram-se os Primeiros Concursos Nacionais para Organistas e Compositores de Música de Órgão que representaram um êxito pelo nível alcançado.

Hoje, a cultura musical no Porto é uma realidade que se impõe e desperta, de novo, entusiasmo no público, nomeadamente, pelos célebres Concertos da Páscoa e do Natal (que têm uma procura inusitada de público que enche completamente a grande igreja da Lapa) em que o Coro da Sé intervém desde há alguns anos, em colaboração com a Orquestra Clássica do Porto, apresentando as grandes obras-primas corais sinfónicas, jamais ouvidas no Porto.

A par disso, é notória a elevação do nível da música que se vai cantando na liturgia, particularmente na nossa diocese, onde uma vintena de Coros realiza um trabalho meritório, apesar de algumas mentalidades estreitas e liturgicamente mal formadas. Apenas uma dezena de Coros juntar-se-á ao Coro da Sé e poderiam ser mais… Mas, o facto é, em si, indício bastante para ilustrar o nível da música que se pode praticar (e se pratica, aqui e ali) nas nossas igrejas.

Ao promover e organizar estes Concertos, quer o Coro da Sé Catedral do Porto prestar uma justa homenagem àquele a quem deve a sua existência e a quem a cultura musical do Porto e do País, também, muito devem. Além disso, quer manifestar, também, o seu apoio ao Cón. Ferreira dos Santos nos novos projectos que quer levar por diante, entre os quais ressalta, no momento, a Escola das Artes, bem como continuar a engrandecer esta região e o País, e ser uma voz crível no mundo da cultura musical que tanto recebeu da Igreja e que tanto deu e pode dar à transmissão e expressão da Fé.
Pe. Manuel Amorim
Entrada por convite: disponíveis na Igreja da Lapa
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Variações sobre um tema de Vieira

As palavras devem ser como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras.
Assim há-de ser o estilo da pregação: muito distinto e muito claro.
Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima

1. Está muito claro e distinto que não vou falar de sermões, porque muito houvera que dizer. Nem dos discursos dos políticos, que no entanto têm muito de sermões. E em muitos casos aplicam bem as recomendações de Vieira, quiçá sem as conhecerem ou conhecendo-as doutra maneira: que o estilo dos discursos deve ser tal que o entendam os que não sabem e que tenham muito que entender os que sabem. Para isso buscam e rebuscam palavras-chave ou chavões que repetem até à exaustão. Eis como subvertem o ideal do orador: tentam fazer-se entender dos que não sabem e aborrecem até à exaustão os que sabem.

2. Se falara de sermões, houvera de declarar que hoje já quase não os há. E digo-o com pena, porque se os sermões fossem bem cuiados, como teoriza o Vieira, muito poderiam ensinar os que não sabem das coisas da fé e da cultura, que são cada vez mais, e muito poderiam aproveitar aos que já sabem, que são cada vez menos. Há dias escutava num programa de rádio uma reflexão a que importa, apesar de consabida, dar o necessário realce: que ao menos nos grandes celebrações da vida (os funerais, os casamentos, os baptizados) os celebrantes soubessem dirigir uma palavra sábia e oportuna , adequada ao momento e conhecedora das circunstâncias especiais, explicando o sentido da celebração aos presentes e supostamente participanes. Que ao menos para estas ocasiões se preparassem com especial cuidado. Sabemos que não é isto que acontece. Muitas vezes estas ocasiões motivam mais o conflito que a evangelização, a propósito de exigências excessivas, e portanto inoportunas, com imposições nascidas de excessos de zelo doutrinário ou litúrgico, ou de latentes conflitos pessoais.. Aqui está um vasto campo de cultura da fé que quase ninguém desconhece mas que poucos cultivam adequadamente.

Mas também não era por aqui o caminho a percorrer.

3. Creio que foi um ministro da educação de alguns anos atrás que introduziu no vocabulário mediático o termo "facilitismo". Dava-se-lhe um inevitável sentido depreciativo e denunciador de situações vigentes no campo do ensino (como em muitos outros, porque se pode dizer do ensino o mesmo que se propala do futebol: um retrato do país real e dos outros países reais). Esse sentido seria o de aceitação ou prática de princípios e actuações orientados pela tendência para facilitar. Ora, este verbo pode ter pelo menos dois sentidos que interessam para o caso. O primeiro é o de simplificar para tornar masis expeditas e eficazes as actuações. Neste sentido falamos de facilitar o acesso ao crédito, facilitar os processos burocráticos, etc. Falamos, mas não praticamos. Não era este o "facilitismo" trazido à colação. O segundo sentido (as palavars têm sempre um segundo sentido) é o de encarar e ralizar quaisquer tarefas com um espírito de insuficiente dedicação, com falta de seriedade e de profundidade, ou por métodos e processos ineficazes ou não assumidos. Era esta tendência quese pretendia denunciar no ensino em Portugal. A ela se deveria contrapor a necessidade homóloga: a de uma maior exigência e rigor na actuação e na avaliação dos processos, métodos e resultados das tarefas escolares. Se ao acto ou efeito de facilitar se chama, de forma simplista,"facilitismo", ao de "exigir" deveria chamar-se "exigismo"! Não creio que este termo tenha pegado ou venha a pegar. Mas a gente já está por tudo, quando se trata de língua portuguesa: qualquer novidade arrisca-se a fazer costume.

4. Para se formar um substantivo com o sufixo ismo pode partir-se de um verbo ou de um nome. Não há muitos anos, orador ou comentador que se prezasse não perdia oportunidade de denunciar como egipcíaca praga a invasão dos ismos: o comunismo, o socialismo, o impressionismo, o romantismo, o simbolismo, o olimpismo, o cubismo e o clubismo. Todos estes termos entrados em uso têm na sua origem um nome, substantivo ou adjectivo. Agora avançou-se com a moda, de raiz tecnocrática, burocrática ou mediática, de aplicar o mesmo sufixo a alguns verbos, poucos, mas certamente os mais afortunados. Surgem então ao menos dois vocábulos instalados recentemente na coloquialidade: o facilitismo e o dirigismo. No primeiro caso o termo vem carregado de conotações pejorativas e negativistas; no segundo, embora não intencionalmente, não escapa a elas. No primeiro caso, o termo conforme à norma deveria ser facilismo (de fácil). No segundo caso, embora a palavra encontrada soe mal, a substituição torna-se mais difícil.

O sufixo que habitualmente se inseria em raízes verbais era -acção. Por exemplo, de facilitar - facilitação, como aliás registam os dicionários. O substantivo existente na língua relativo a dirigir é "direcção". Quando se ouve falar de "dirigismo", fala-se do conjunto, ou do universo, ou das atitudes dos que dirigem, que não é tradutível pelos sentidos habituais do termo "direcção". Eis como a necessidade cria o órgão, mesmo que trôpego.

5. Certamente as palavras aqui não foram como as estrelas. Nem claras na sua constituição nem distintas nos seus sentidos. Talvez apenas tremeluzentes.
C.F.
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