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1. Estes tempos carnavalescos que servem, por imposição social, de pano de fundo à execução da nossa escrita desta semana, enquanto aguardamos serenamente a chegada dos dias da austeridade, são particularmente propícios para que tenhamos que falar do grande fenómeno de massas do século XX, que se tornará certamente no grande fenómeno das minorias no século XXI. Contem bem que lhes digo. É isso que ensina a história, disciplina que nos nossos dias se vem transformando em sociologia, a qual por sua vez constitui a história daquilo que há-de vir. Ou a história do futuro, como diria o padre Vieira. Em tempos de jogos, a envolvência é inevitável. O homem é o indivíduo e as suas circunstâncias.
2. Falemos pois de futebóis, porque não há um só futebol: há o que se joga nos campos e o que se joga nas secretarias; o que se supõe ser um desporto e o que é apenas uma forma de negociata; há o dos futebolistas e o dos "empresários" (designação curiosíssima para significar os que tentam viver à custa das pernas dos jogadores e da respectiva falta de cabeça); há o futebol de bancada e o de café; há o da televisão e o do "dirigismo" (outra curiosa palavra para significar a plêiade de homens generosos que consagram as suas vidas a elaborar planos para superar as crises financeiras dos clubes); há o dos campos e o dos comentadores; há o dos escândalos e o do plano Mateus; há ainda, santo Deus, o mais lídimo de todos, o futebol dos árbitros, a classe mais incompreendida e insultada que vegeta à face da terra!
3. Falemos do futebol português, que é diferente do estrangeiro, segundo aquilo que declaram vários dos atrás mencionados próceres. Que em Portugal os estádios estão vazios e no estrangeiro estão cheios, porque nos mostram os jogos dos grandes clubes de lá de fora comparados com os pequenos clubes de cá de dentro. O futebol português é o eterno incompreendido. Não o compreende o público, porque não vai lá; não o compreendem os jogadores, porque vão todos para fora e os que cá estão não são de cá; não o compreendem os dirigentes, porque estão sempre a dizer mal dele; não o compreendem os árbitros, porque estão sempre a marcar faltas; não o compreende o governo, porque lhes exige que pague os impostos como (quase) toda a gente. Perante este alarmante quadro de incompreensão, que esperança poderemos ter no futuro?
4. Falemos do futebol e das televisões. Ver um desafio de futebol nas televisões é um verdadeiro exercício de paciência anti-cardíaca. As câmaras e os microfones mostram-lhe tudo: você vê as agressões, vê vezes sem conta as costas dos jogadores, as suas cuspidelas, os palavrões que proferem; ouve as palavras sensatas dos dirigentes e observa a sua tranquilidade de espírito, entre mascadelas de pastilha elástica ou fumaradas de cigarro; aprecia a correcção dos espectadores que proferem as mais selectas palavras da língua; disfruta dos mais raros ângulos de câmara que não lhe mostram nada, apenas são esquisitos. No meio disto tudo, veja lá se ainda tem algum espaço para ver o jogo em si mesmo! Você não vê o jogo, vê as marginalidades do jogo, os seus "crimes", as suas transgressões. Exactamente como acontece na informação em geral: vive da marginalidade.
5. Falemos do futebol e das audiências televisivas. Dois jogos entre dois dos maiores clubes espanhóis foram recentemente transmitidos, com espaço de algumas semanas, por duas estações de TV. Numa delas o desafio teve cerca de 20% de audiência, e na outra menos de 10%, segundo as medições divulgadas. Aliás esse fenómeno verifica-se com carácter sistemático: um "grande" desafio (entende-se aqui por "grande" o que se realiza entre os clubes mais populares, embora por vezes seja de péssima qualidade) obtém menos de metade da audiência conforme o canal em que é exibido. Temos que concluir que aqui há gato: ou os espectadores andam distraídos, ou as medições estão mal feitas.
Com efeito, as medições de audiometria já há muito evidenciaram uma clara disfuncionalidade, de que o facto que apontamos não é mais do que uma comprovação óbvia. Dizem que são feitas com rigor. Devemos duvidar. Primeiro porque não são coincidentes umas com outras; segundo, porque a gente não anda a dormir, e a vantagem que é geralmente atribuída à SIC não é verificável na observação do quotidiano. Ainda há dias foi divulgado um inquérito de uma Associação de espectadores que indiciava uma tendência contrária: uma clara aversão ao tipo de programas transmitidos por aquela estação. Cada vez aparece com maior força de imposição junto do sentir da opinião pública que o tipo de medição que é realizado pelas empresas da especializada carece de urgente revisão. Dá-nos claramente a impressão que as técnicas de amostragem não são consentâneas com o universo real da população. O que engana a opinião pública e ilude os anunciantes. As chamadas "guerras das audiências" são cada vez mais virtuais: são guerras económicas e guerras de influência. Mas numa sociedade em que se entende que a acção das televisões, com a influência que tem junto da opinião pública, se mede em termos de "guerra", o menos que se pode afirmar é que cada um tem a "guerra" que merece ou que fabrica.
6. Mas não nos afastemos do aspecto fundamental desta crónica: nada de fugir ao assunto, porque a sua importância assim o exige. Falemos de futebóis.
Os dois mais trágicos dramas que vemos apontados ao futebol português são: falta de qualidade competitiva e falta de espectadores. E vêm as comparações típicas da nossa mentalidade portuguesa: lá fora os estádios estão cheios, cá dentro estão vazios. Por isso nós não prestamos para nada e os outros é que são bons. Toca assim de ver os futebóis dos ouros, fenómeno que agora se tornou moda. Quando é dos outros, torna-se "provavelmente o melhor futebol do mundo", seja ele espanhol, italiano, francês, inglês ou até bósnio herzegovino.
Mais uma vez estamos perante os erros de paralaxe, ou perante as árvores que não deixam ver a floresta. Os termos de comparação utilizados são desajustados: comparamos o Barcelona com o Leiria ou o Juventus com o Rio Ave. Então "lá fora" há mais espectadores, mais entusiasmo, mais competitividade. Esquecemos que a Itália ou a Inglaterra possuem 60 milhões de habitantes, a Espanha 40, a França 50 e Portugal 10 (ou menos). Esquecemos que num raio de quarenta quilómetros à volta do Porto (área que terá uns escassos dois milhões de habitantes) há 9 (nove!) equipas de futebol da 1ª divisão! Em Madrid, com mais de cinco milhões, há três e em Barcelona, com mais de oito milhões de habitantes, há duas! Ainda muito generosos somos nós, caramba!
7. Acresce a tudo isso um fenómeno mediático importante e condicionador da mentalidade colectiva "nesta matéria": as péssimas transmissões televisivas do nosso futebol, se exceptuarmos talvez as que se efectuam "desde" (como eles dizem) o estádio da Luz. A diferença que há, falando das transmissões televisivas, entre os jogo do campeonato espanhol ou italiano e o do português não está no jogo mas na maneira como ele é mostrado. Analisemos. Numa transmissão das televisões espanholas o espectador pode ver, pela suficiente distanciação e correcta colocação das câmaras, o desenrolar das jogadas, a movimentação táctica das equipas, a posição dos jogadores. Na generalidade das transmissões "de cá" vemos molhos amontoados de jogadores uns em cima dos outros, vislumbra-se o fundo do campo por entre as respectivas pernas, não é possível uma visão de conjunto. Defeitos comuns das transmissões de fora e de dentro: a procura do pormenor inútil, o excesso de repetições que impedem ver a continuidade do jogo, a mania de individualizar excessivamente os jogadores (o futebol é um jogo colectivo, não é verdade?), os microfones colocados junto aos bancos dos responsáveis, para que se ouçam todos os berros, todos os impropérios e termos técnicos da má-criação em que abundam jogadores e dirigentes, verdadeiro retrato da educação nacional. O seu valor pedagógico possui um largo alcance. Se não acreditam no que lhes digo, gravem os jogos e comparem. Exercício que seria útil primeiramente aos responsáveis da TV em Portugal. Que não o fazem porque têm coisas mais sérias para fazer. As vítimas da sua seriedade são os espectadores e o interesse desportivo das transmissões, em que no entanto se gastaram grandes quantidades do mesmíssimo orçamento do Estado. Haja mais seriedade na gestão desses dinheiros. Haja mais qualidade e sentido profissional.
8. Chegados que somos a este momento histórico da crónica, verificamos que dos futebóis já passamos às televisões, já fomos às sondagens, já nos perdemos no emaranhado da teia entrelaçada. Pobres de nós, amável leitor! Não somos mais do que a parábola ou a alegoria do temeroso universo em que vivemos!
| C.F. |
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De 14 a 20 de Fevereiro
TELEVISÃO -
«Um Peixe Chamado Wanda» é talvez o melhor
filme que a RTP 2 exibe esta semana, na sua rubrica cinéfila
"Cinco Noites, Cinco Filmes" (sexta-feira, dia
14). Realizado por Charles Crichton, em 1988, e contando com as
divertidas presenças dos Monty Python's John Cleese
e Michael Palin, e dos americanos Jamie Lee Curtis e de Kevin
Kline, estamos na presença de uma deliciosa história
de gangsters e espiões, uma visão muito peculiar
da rivalidade entre ingleses e americanos, uma comédia
de costumes e uma guerra de sexos.
Filha dos actores Tony Curtis e Janet Leigh, nascida em 22 de Fevereiro de 1958, mudou várias vezes o rumo da sua carreira até alcançar o sucesso. Tendo saído da faculdade aos 18 anos, fez pequenos papéis na TV antes de conseguir um papel consistente na série «Operation Petticoat», baseada na comédia de 1959 protagonizada por seu pai. O seu debute cinematográfico, «Halloween» (1978), foi muito bem recebido. Mostrando talento para papéis de heroínas determinadas, mesmo em situações de extremo perigo, recebeu o apelido de "rainha do grito" e participou em vários filmes de terror de baixo orçamento. Posteriormente, exibiu uma inesperada atracção erótica em «Os Ricos e os Pobres» (1983) e do dia para a noite tornou-se um símbolo sexual. Fortaleceu essa imagem como instrutora de aeróbica no fracassado «Perfeição» (1985), antes de revelar um aguçado instinto para a comédia, em «Um Peixe Chamado Wanda», onde esteve deliciosamente memorável. Em 1995, o mesmo elenco reuniu-se para o que poderá ser uma sequência desse filme, em «Fierce Creatures», a estrear para meados deste ano.
Outros filmes a ver: «Noites Escaldantes», thriller, de Lawrence Kasdan (1981), com William Hurt, Kathleen Turner e Ted Danson: um bem construido argumento sobre um caso "quente" entre um advogado falhado e um mulher fatal, que marca o debute de Kathleen Turner no cinema (RTP 1, 17); «Perfume de Mulher», comédia, de Dino Risi (1974), com Vittorio Gassman, Alessandro Momo e Agostina Belli: o original de onde foi adaptado o filme com o mesmo título, em 1992, no qual Al Pacino ganhou um Oscar de melhor actor (RTP 2, 18); e, «Disposta a Tudo», drama, de Gus van Sant (1985), com Nicole Kidman e Matt Dillon: também uma mulher fatal que ambiciona tornar-se figura de proa na televisão por cabo (TVI, 20).
Mais que um filme, «Ondas de Paixão» é uma experiência religiosa: emocional, inexplicável e inextrincável em certa medida. E, sobretudo, devastadora. Herdeira da intensidade intimista de «A Palavra», de Carl Theodore Dreyer, assim como do olhar romântico de Douglas Sirk ou a paixão vitalizante de John Ford, a terrível fábula místico-naturalista do dinamarquês Lars von Trier escarva, câmara ao ombro, na dor de uma mulher que sacrifica a sua vida por amor (no sentido mais estrito, desgarrado e injusto da expressão).
Ingénua, apaixonada, generosa, Bess (Emily Watson, capaz de tingir o seu rosto com as tonalidades da sua emoção: o branco da inocência, o vermelho da paixão, o ocre do desespero...) é, sobretudo, uma mulher boa. E é tal a bondade que abunda no coração desta jovem escocesa, marcada por uma mãe ríspida e uma educação repressiva de poderosa raíz religiosa (um calvinismo misógino e cruel que impede as mulheres de participar no enterro dos seus entes queridos, entre outras coisas para impedir que descubram como os anciões são capazes de condenar ao inferno uma alma que não foram capazes de entender e perdoar em vida), que Deus acede em premiá-la com o amor de Jan (Stellan Skarsgaard), um simpático trabalhador de uma plataforma petrolífera do Mar do Norte. Bess e Jan formam um estranho casal, mas as primeiras semanas de casamento são de uma felicidade sem limites. Só que tamanha felicidade acaba por ter um trágico limite, e um desenlace algo desolador.
Todo o peso criativo de Lars von Trier apoia-se no trabalho do seu operador de fotografia, Robby Müller (o mesmo de «Homem Morto», de Jim Jarmusch), e numa planificação que procura, em momentos sem foco, com a imagem viva, captar nos primeiros planos, o espírito mais íntimo de uns seres arrastados por um amor para além deste mundo, desta terra dominada pela repressão, o medo, a negação do prazer. Que a redenção de Bess passe pela sua própria destruição é, sem dúvida, o mais injusto deste relato em oito episódios e um epílogo apresentados em belos postais com as canções de David Bowie, Lou Reed, Elton John e Leonard Cohen, entre outros. A experiência é única, mas deixa destroçado o coração do espectador. Um delicioso poema de amor que não pode ser esquecido. Imperdoável perder! E não só por ter sido distinguido no último Festival de Cannes com o Grande Prémio do Júri, além dos Prémios Felix do Cinema Europeu, para o Melhor Filme e Melhor Actriz! Uma daquelas obras de grande intensidade dramática que não pode ser ignorada. Distribuido por Atalanta Filmes, pode ser visto na simpática e acolhedora sala do Cinema Nun'Álvares.
| Vasco Martins |
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