Cultura:

Gralhas e outras passaradas

1. É indispensável, mais volta, menos bocado, retornar ao tema das gralhas. Sempre me resultou enigmático perceber por que razão a esses enganos tipográficos de substituição importuna de caracteres se convencionou chamar na língua portuguesa gralhas, porque os pobres pássaros corvídeos que deram origem à designação metafórica não têm culpa nenhuma do ruidoso e agreste teor da sua voz. Seria porque o engano tipográfico introduz um ruído no texto? O certo é que os espanhóis chamam a tais enganos, de forma menos imaginativa mas mais correcta, menos metafórica mas mais directa e mais explícita, simplesmente erratas, enquanto os franceses, também com manias simbólicas, as designam por coquilles, traduzindo a original visão metafórica portuguesa de tal fenómeno através de outra visão metafórica de referente diverso, mas não menos estonteante, porque entre um prosaico engano tipográfico e uma concha (que é como quem diz coquille) vai distância tão complexamente compreensível como do mesmo a uma gralha. Mas a criatividade linguística não tem limites, e como se inventam agora palavras novas como totonegócio e cinenegócio, ou se inevntaram antes outras como Sãobentogate (que apenas retém uma insignificante, isto é, não significante, terminação de um escândalo americano e por isso carece de sentido plausível), nascidas de esquemas mentais de jornalistas de cérebro embebido em economia ou em futebóis, buscadores de novidades marcadas pela ambição de dinheiro ou de fama, onde o perfume do escândalo é senhor, antigamente eram os tipógrafos que estimulavam a imaginação com signos nascidos de uma mente mais traquejada nas coisas simples da natura do que nos âmagos pseudocientíficos da economia e da ganância.

Assim, na nossa anterior crónica dedicada à Oratória de Natal saíram ao menos duas gralhas, entre outras eventuais incorrecções. Tratou-se do nome do maestro alemão Jorg Straube (e não Staube), mesmo descontando que em cima do o de Jorg devia levar um trema, escrevendo-se assim: Joooo

örg. Duas foram, pois, as ruidosas e impertinentes gralhas, o que é muito para um só nome, mesmo que alemão, que é língua bárbara e complicada, e para uma crónica só, além do mais despretensiosa e pobre. Mas a coisa não ficou por aí, porque mais adiante se confundiam "Árias", como devia estar escrito, com "Áreas", como estava e não devia estar. Com efeito, "Árias" (em palavra de origem italiana) são aquelas peças de características melódicas, geralmente para uma voz e um ou mais instrumentos, habitualmente utilizadas pelos compositores nas cantatas, nas oratórias ou nas óperas, das quais se falava no texto; "Áreas" (em palavra de lídima origem latina), como se escrevia mal, são superfícies, espaços ou campos de actividade, consoante o contexto, possuindo na linguagem corrente um campo semântico muito alargado, de tal forma que até no ensino agora falam de uma "Área Escola", que nem é "área" nem muitas vezes tem que ver com e escola.

2. Espero que me desculpem estas gralhas e outras (ainda há dias, noutra crónica, surgia o demonstrativo espanhol ese grafado como se fosse português esse), já que eu vou também desculpar algumas outras incorrecções que, não sendo gralhas, se aproximam perigosamente dos domínios da ignorância linguística generalizada que caracteriza muitas das mais correntes formas de comunicação, social ou menos social (toda a comunicação é social, se não não seria comunicação).

Não vamos recorrer de novo aos comentadores desportivos, onde a cada hora (entre as muitas que há) deparamos com um alfobre imenso de incorrecções, erros crassos, frases mal construídas, palavras com sentido diferente daquele que lhe pretendiam atribuir, e outras maldades triviais como estas. (Ainda há dias um entendido afirmava, numa estação de rádio que diz que ali só fala quem sabe, em pergunta retórica digna do padre Vieira: "Porque hadem os árbitros ser mais sérios do que os outros?").

Vamos, porém, a quem tem mais obrigações (que todos as temos, e mal vai quando delas nos esquecemos, que é o que contece cada dia) nos domínios da correcção linguística.

Há não muito tempo, apresentava-se uma daquelas apresentadoras de boletins meteorológicos que mal aparecem a primeira coisa que fazem é pespegar-se diante das imagens para a gente as ver a elas e não às imagens, que custaram dinheiro mas não foram vestidas pelo costureiro tal, que aperece no fim para pagar aquilo. Apresentava-se, usando com inusitada eloquência daquelas formas de dizer extremamente originais, tais como "tempo cinzento", "muito sol", "o mercúrio dos termómetros", "levar os chapéus". Para buscar maior originalidade declarou por sua honra que seria "Lisboa a capital mais solarenga" (RTP, 5-11-96). É certo que em Lisboa deve haver montes de solares, um até em cada esquina, mas daí até ser a capital mais solarenga... É uma questão de consultar o dicionário. A pequena queria apenas dizer "soalheira", "com muito sol", como originalmente costuma dizer (será que o sol se divide em pouco e muito?).

Por sua vez, um daqueles noticiadores-comentadores, que é uma originalidade nossa, nunca se sabe onde começa a notícia e acaba o comentário, dizia solenemente que "se o governo não rever o orçamento..." (TVI, 27-2-96). Basta consultar na gramática a conjugação do verbo rever. (Aproveitar para estudar a cojugação dos outros compostos do verbo ver, e já agora confrontar com os compostos do vervo vir. Aproveitar também para registar e fixar as respectivas diferenças).

É sabido que muitos dos papéis dimanados dos gabinetes ministeriais primam pela incorrecção gramatical, sobretudo sintáctica. Mas não têm o exclusivo. As cartas provenientes de empresas comerciais são um manacial inesgotável de trágicos divertimentos linguísticos. Há dias, uma editora de livros escolares propagandeava-me um qualquer dos seus produtos de excelência (dizia), declarando: "Tratam-se, sem dúvida, das versões mais actulaizadas existentes no mercado, etc". Mesmo tratando-se de um erro excessivamente fequente em várias instâncias comunicativas, há locais onde fica pior que em outros.

Ainda o meu jornal de hoje, dia em que escrevo esta crónica de gralhas, nos presenteva com o anúncio de uma novíssima Rádio, nos seguintes termos: "Fizémos 3 anos..., etc). Todos os dias nos surgem os ecrãs televisivos palavras mal escritas, como côr e dôr e outras, mesmo sem ser preciso falar das legendas dos filmes. Pois se nos mandam escrever Côa, por que raio não havemos de escerever côr? Virá depois a diferênça, os verbos influênciar e diferênciar e outros acentos com assento errado.

3. Entre as muitas frases publicitárias que os nossos transportes públicos nos exibiam, encontrava-se a seguinte: "Jardel mortífero". Segui o autocarro como uma rota própria, meditei longamente no sentido daquela estonteante frase. O que significaria "Jardel"? Seria o nome de algum foguete lançado contra os adeptos do outro clube que matou alguém? Porque ouvi dizer que uma vez lançaram um veri laite e foi uma desgraça, porque o dito objecto, que não era veri leite pronunciado à maneira de Lisboa, como faz a Dona Judite, que diz manaira e faira. O dito veri laite fora "mortífero", porque infelizmente acabara por matar um espectador que não tinha culpa nenhuma de que continuem a permitir que outros espectadores pagos pelos clubes para fazer claque continuem a levar para os desafios de futebol artefactos de fogo de artifício e os exibam impunemente perante as câmaras de televisão, e que acabou por morrer em consequência de tal explosão. Quando vi o tal "Jardel mortífero" disse comigo assim: mais um acidente lamentável nos estádios! Ingenuidade minha! Aquilo era só um futebolista que tinha marcado um golo, e logo ali ficou plasmado como "mortífero" para toda a posteridade! Pobre homem! Nem o pouco que ganha o rapaz o liberta do terrível labéu de ser chamado mortífero, isto é, assassino, destruidor, eu sei lá! As coisas que sofre um homem do futebol, que trabalha seriamente(como eles dizem) para ter um lugar na equipa. Há lá maior injustiça?

4. Já que nos adentramos perigosamente pelo mundo dos futebóis, onde é mais perigoso circular que em qualquer rio tropical infestado de crocodilos, quero render a minha homenagem humilde a um grupo de intelectuais de Lisboa que decidiu inscrever-se (ou ao menos declarar-se) como apoiante do Barcelona. Como se tratava de intelectuais, espevitei as orelhas. Porque isto de se chamar intelectuais à pessoas não é para qualquer um. Acho que é um nome racista, elitista, e desprestigiador do semelhante. Chamar a um tipo intelectual significa que os outros não são ou são menos. Que a inteligência se concentrou, em estado puro, apenas nos ditos. Mais: eu nunca ouvi chamar intelectuais aos grandes homens e mulheres deste país. Nem aos membros do governo, nem aos deputados, nem aos treinadores de futebol, nem aos jogadores, mesmo aos mortíferos (mas já ouvi chamar-lhes génios, que é qualitativamente muito mais que intelectual, ouviste?), nem sequer aos do Parlamento europeu. Um intelectual é uma espécie de avis rara que assim se nomeia porque não se sabe o que é.

Mas o tal grupode intelectuais resolveu tornar-se apoiante do Barcelona, porque aquilo é que é jogar. Aqui nada. Nem Jardel mortífero, nem Pinto estonteante, nem Costa de nariz partido. Lá, tudo. Figo maduro, Couto cabeludo, Baía inpenetrável. Mas logo por azar o raio do Barcelona perdeu no jogo seguinte!

Ora, as grandes decisões dos intelectuais devem ser ponderadas intelectualmente. Fiquei assim a pensar: Se naquele grupo temos ao menos um escritor que diz que está a escrever a grande literatura portuguesa, e um cineasta-cronista que já foi director de departamentos de cinema, alguma razão de fundo haveria para tão mediática decisão.

Fez-se-me luz noutro dia: se o Barcelona joga com três portugueses, o Benfica joga com quatro e o Porto com cinco ou seis, para não falar do Marítimo ou do Chaves, é aceitável que ao menos se apoiem os nossos emigrantes, já que somos um país de diáspora, fenómeno que só é verdadeiramente compreendido pelos intelectuais.

Com esta luz no espírito, consegui finalmente dormir descansado.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 17 a 23 de Janeiro


TELEVISÃO - A escritora Maria João Seixas, apesar da sua gaguez natural, escolheu o clássico japonês «Os Contos da Lua Vaga», drama histórico, de Kenji Mizoguchi (1953), com Masayuki Mori, Kinuyo Tanaka e Machiko Kyo, como "filme da sua vida": através de uma adaptação bastante livre de duas narrativas de Ueda Akinari, o filme entrecruza o destino de duas personagens no tempo das guerras e das pilhagens, no séc. XVI. Trata-se de uma obra de extrema subtileza, de uma beleza ora tumultuosa ora serena, constantemente submersa entre a ilusão e a realidade, sendo ao mesmo tempo um poema de amor e um hino à renúncia.

Poucos filmes descreveram com tamanha força o tumulto do mundo exterior e cantaram com tal graça os impulsos da alma. Nele chegamos aos píncaros da poesia cinematográfica. Filme de um requinte extremo, de uma beleza sucessivamente altaneira e etérea. Conjugando num mesmo e amplo movimento a epopéia e a elegia, a arte do afresco e a arte da fuga, «Os Contos da Lua Vaga» pode ser considerado um ponto limite da arte cinematográfica, que transcende a divisão entre géneros, lugares, épocas, alcançando o universal. Ainda que no seu país tenha sido um meio-sucesso (o próprio realizador declarava-se insatisfeito), a crítica ocidental reservou um triunfo a este filme: premiado no festival de Veneza em 1953 e em Edimburgo em 1955, figura na lista dos melhores filmes do mundo, segundo as mais importantes publicações de crítica de cinema, os Cahiers du Cinéma (1958), Sight and Sound (1962 e 1972), L'Avant-Scène Cinéma (1978) e Positif (1982), e recentemente foi incluído na lista dos melhores na óptica do Vaticano. Kenji Mizoguchi é, sem dúvida nenhuma, o maior realizador japonês, praticando com virtuosismo o que Jacques Rivette chamou de "uma arte da modulação". A sua inspiração é generosa ( o seu tema preferido é a decadência da mulher, vítima da orgulhosa ambição dos homens), a sua técnica bastante fluída (movimentos lentos da câmera varrendo a paisagem e enquadrando os actores à distância), o seu senso plástico, deslumbrante (cada plano é composto como um quadro, cada sequência, como uma melodia). Neste filme, ele inspirou-se numa célebre antologia de fábulas fantásticas do século XVIII, "Contos da Chuva e da Lua", que giram em torno de histórias fantasmagóricas. A construção oscila entre duas narrativas diferentes, mistura o destino de duas personagens, opõe dois tipos complementares de mulher, joga com a alternância de dois ritmos. Ora, o que poderia parecer incoerente deixa uma impressão de harmonia inefável. O génio do autor unifica admiravelmente os contrastes, deixando-nos completamente enfeitiçados, como o herói ficou pela princesa. Este clássico a preto-e-branco pode ser visto na RTP 2, sábado, dia18.

Mas ainda se pode ver: «O Odor da Papaia Verde», comédia-dramática vietnamita, de Trai Anh Hung (1993), com Tran Nu Yên-Khê e Truong Thi Lôc (TVI, 18); «Fado-História de uma Cantadeira», drama romântico, de Perdigão Queiroga (1947), com Amália Rodrigues e Virgílio Teixeira (RTP 2, 19). Nesta semana, «Cinco Noites, Cinco Filmes» agendou para os serões da RTP 2 alguns dos melhores exemplos de cinema de aventuras, a não perder: «Tarzan, o Homem-Macaco», de W. S. Van Dyke (1932), com Johnny Weissmuller e Margaret O'Sullivan (dia 20); «Aventuras de Robin dos Bosques», de Michael Curtiz (1938), com Errol Flynn e Olivia de Havilland (21); «Ivanhoe-O Vingador do Rei», de Richard Thorpe (1952), com Robert Taylor, Elizabeth Taylor e Joan Fontaine (22); «O Príncipe Valente», de Henry Hathaway (1954), com Robert Wagner, James Mason e Janet Leigh (23); e, «Scaramouche», de George Sidney (1952), com Stewart Granger e Eleanor Parker (já na sexta-feira, dia 24).


...E FORA DE CASA

Pablo Picasso foi, além de um criador formidável, um mulherengo empedernido. Vinte e três anos após a sua morte, o brilhante realizador britânico James Ivory entregou a Anthony Hopkins a tarefa de reviver o personagem do artista malaguenho no seu filme «Sobreviver a Picasso». Uma tarefa complexa se se tem em conta que Picasso, além de às suas mulheres, sobreviveu como uma alma imortal a este século de mitómanias. O relato de Ivory começa em 1943, com o final da ocupação alemã de Paris, quando Picasso é já um sexagenário cheio de energia que combate o frio do seu atelier da Rue des Grands Agustines, alimentando os vícios do Minotauro: duas donzelas diárias que o pintor partilha com o monstro. Um belo dia chega ao seu estúdio a bela Françoise (a estreante Natascha McElhone) e começa uma das mais especiais relações na vida de um homem que já havia sido capaz de devorar Olga Koklova e Dora Maar (Julianne Moore está excelente). Esses dez anos da vida do pintor, até que pelo castelo de Vallauris aparece Jacqueline metendo as mãos no barro, são o suporte argumental do filme.

O harém de Pablo Picasso, pois esse e não outro é o motivo que inspira o desfile de suculentas imagens, agradará aos coleccionadores de vidas exemplares, de uma boa vida em fotos íntimas do mestre, e desconcertará aqueles que consideram Pablo Picasso esse animal ibérico que devolveu a arte ao seu estado primitivo. Hopkins conseguiu uma estupenda caracterização física ainda que algo afectada. Ivory, por seu lado, realiza uma interpretação correcta, muito estética embora algo superficial de um personagem que se conduzia pelo labirinto da modernidade apenas com o seu prodigioso tacto. Outro trunfo é o discurso crítico do filme que retrata um ser egocêntrico, mesquinho e tão apegado de si mesmo que jamais aceitará que mulher alguma seja capaz de abandoná-lo. É neste ponto, quando a câmera ataca o mito do matador ibérico, que a história se torna menos complacente com o autor do "Guernica".

Em resumo, nenhuma mulher sobreviveu a Picasso, apenas Picasso sobreviveu a si mesmo. Partindo desta hipótese torna-se, pois, difícil escavar na vida de alguém e muito menos na de um ser em que a vaidade coincidia amiúde com um grau de hermetismo que sómente podiam interpretar as suas amigas cabras. Depois das neblinas e ambiguidades de E. M. Forster, James Ivory (ainda aliado ao produtor Ismail Merchant e à argumentista Ruth Prawer Jhabvala) teve de lidar aqui um touro bravo, e o caso é que a sua faena pode causar divisão de opiniões (como aliás já se verifica um pouco por todo o lado, incluindo a crítica portuguesa). Como nota curiosa, acrescente-se que durante a sua relação com Françoise, Picasso teve dois filhos: Paloma e Claude.

Um monumento da (actual) história do cinema a não perder, que pode ser visto numa das 20 salas do moderno AMC Arrábida, distribuído por Columbia-Tristar-Warner Filmes de Portugal.
Vasco Martins
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