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A marcha do tempo é inexorável e com ele o envelhecimento dos seresvivos. O homem não escapa a este fenómeno biológico.
Com o tempo, ao longo da vida, cada homem e cada mulher, foram-se realizando profissionalmente, assumiram funções, e como resultado disso, foram construindo uma cultura pessoal e, quando possível, amealhando alguns recursos materiais.
Porém, hoje, é difícil que a maioria das pessoas alcançem rendimentos suficientes para, na idade avançada, enfrentarem as despesas da saúde quando atingidos por doença mais ou menos crónica e a exigir grandes despesas. Frequentemente acontece que alguém, suadável até os seus 60 anos, se veja a gastar com a saúde muito mais nos anos que ainda viver do que gastou até aquela idade. É por isso importante que haja os mecanismos de apoio para tal, sejam Companhias de Seguros ou o Estado, na base dos contributos dados ao longo da vida.
A reforma deve preparar-se desde longa data, a partir dos 40 ou 50 anos, no sentido de ir preparando a actividade alternativa a empreender quando chegar o fim da actividade profissional a que se consagra.
Mostra a experiência que quem persevera na mesma actividade depois da reforma só cria problemas para si e para os outros. Regra geral a pessoa já não tem nem as mesmas aptidões físicas, nem a mesma capacidade para se manter ao nível da prestação de serviços até aí alcançado.
A ideia é, pois, pensar numa ocupação inteiramente nova, uma "segunda" carreira, não pensando já em fruir lucros, mas buscando motivos elevados, seja de auxílios a terceiros, seja na realização de trabalhos intelectuais ou artísticos.
Tem-me custado muito, ao longo da vida, ver como muitos homens, e mulheres, de grande valor humano e cultural, ficam votados a uma inactividade confrangedora, caminhando para uma invalize total, quando entrados na reforma. É preciso evitar-se isso a todo o custo.
Não quero aqui abordar o problema dos Lares de Idosos. Quero antes falar daquelas pessoas que ainda se bastam a elas próprias, de posse das suas faculdades intelectuais, e possuidoras do grande saber que é o saber da experiência.
Penso que podem participar em núcleos de aconselhamento mas sem poder executivo, ou de mando. É importante a tradição bíblica dos "Conselhos de anciãos". E que seja Gente que se "purifique" para a entrada na "Eternidade de Deus", quer nela acredite ou não, ao menos sabendo que está próximo o seu fim terreno em que há que pensar com serenidade. E essa purificação será, sobretudo, um estado de desprendimento do poder, dos bens, das vaidades e dos caprichos de toda a ordem.
Tenho esperança de poder pertencer a um "clube" com tal finalidade e eventualmente habitar uma "residência", onde pessoas com interesses culturais e artísticos se juntem, aí partilhem experiências e, porque não, aí encontrem os meios para desenvolver a sua "segunda carreira". Penso que poderiam ser os "jardins da terceira idade", potencialmente capazes duma função social importantíssima.
| Levi Guerra |
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Acabam de sair, entre nós, dois livros que pretendem dar subsídios para a preparação do Jubileu: um do Secretariado Diocesano de Liturgia do Porto, com o título A Caminho do 3º Milénio; e outro da Comissão Central do Grande Jubileu do ano 2000, publicado pelo Secretariado Nacional de Liturgia.
A Caminho do 3º Milénio é um livro que contém as três conferências de D. Julián López Martín, Bispo de Ciudad Rodrigo, e ainda a Carta Pastoral para a sua diocese, para este ano preparatório. Aí, poderão os leitores encontrar um manancial de reflexões claras e bastante bem sintetizadas sobre o que é um Jubileu e sobre o projecto do Papa para o Jubileu do ano 2000, concluindo com uma aplicação muito concreta à vivência deste primeiro ano preparatório. Poderá, em nosso entender, ajudar as diversas comunidades (igrejas, paróquias, famílias, comunidades religiosas, movimentos, etc.) a traçar um plano muito próprio de preparação para o acontecimento jubilar.
A Caminho do Grande Jubileu do Ano 2000 apresenta vários subsídios litúrgicos para a missa, celebrações da palavra, adoração do SS.mo Sacramento, devoções e encontros de oração, temáticas resumidas para aprofundar e viver o mistério de Cristo ao longo do ano litúrgico, textos para a oração universal, indicações e sugestões de formulários para diversas celebrações.
Congratulámo-nos com o aparecimento destas publicações porquanto vêm marcar um ritmo nesta caminhada que todos, como Igreja de Cristo, queremos empreender solidária e jubilosamente.
Para além disso, terão lugar na Casa Diocesana (Seminário de Vilar), nos dias 26 e 27, as II Jornadas Diocesanas sobre o Jubileu, orientadas pelos Doutores Pe. Geraldo Coelho Dias e Manuel Braga da Cruz. Os temas de reflexão serão: Um retrato de Jesus Cristo, segundo S. Marcos e Desafios culturais e socais da transição do milénio. No dia 26, das 14 às 18. 30 horas, destinam-se a Leigos e Religiosas; no dia 27, das 10 às 17 horas, a Padres e Diáconos. A inscrição será feita no próprio dia.
Ao abrir solenemente o triénio preparatório, o nosso Bispo concluía com estas palavras:
«Confiamos ao coração materno de Maria a participação de toda a Igreja Portucalense neste Advento prolongado a caminho do terceiro milénio da Incarnação. Ela que é a figura e modelo da Igreja peregrina nos inspire as atitudes e as respostas para correspondermos à graça desta hora decisiva da nossa história. E, no termo desta caminhada, seja Ela a mostrar-nos a Porta Santa que é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre!»
| S.D.L. |
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| "Os árabes têm consigo o espaço, o tempo e o número" | De Gaulle |
Quando Saddam Hussein se disse descendente de Maomé não estava só a fazer retórica. Verdadeira ou falsa, tal afirmação teve um significado na estratégia da guerra: é o apelo à guerra santa, à unidade da "nação" árabe, às lições da história. Com efeito, a expansão árabe no século VIII e o desenvolvimento da sua civilização nos séc. IX e X começam com essa grande personalidade que foi Maomé. Sem ele e sem o seu impulso religioso nunca os árabes teriam chegado a unir-se tão irresistivelmente.
A origem da civilização árabe é, porém, anterior. Vem lá do sul da Península Arábica, do reino de Sabá, o actual Iémen. Com a lendária rainha, o matriarcado desempenhava um papel de relevo na organização social sedentária. Ao contrário, as tribos do Norte, nómadas e sem grande expressão religiosa, viviam num rígido regime patriarcal. É esta a imagem que ainda hoje temos dos árabes.
Maomé (570-632) surge num período crítico: a antiga civilização meridional entrara em decadência: Meca, com o seu Santuário, a Kaaba, ocupava uma posição intermediária entre dois tipos de sociedade, a da antiga Arábia meridional e a das tribos nómadas do deserto. A época era também de transição, do paganismo para o Cristianismo emergente.
É com estes elementos híbridos que Maomé funda uma religião e se torna chefe dum partido. O hibridismo superam-no com o cimento da unidade religiosa; e é aí também que vão buscar o seu puritanismo combativo. Não tinham petróleo, mas a superioridade da sua cultura foi outro factor que lhes permitia penetrar com facilidade numa Europa que mal saía do colapso do Império Romano e da barbárie. Dominaram, por exemplo, a Península Ibérica em escassos oito anos (711-718). Apesar da reconquista cristã, ali no norte de Espanha, a partir das Astúrias, só em 732 são detidos por Carlos Martel em Poitiers, nos Pirinéus. E por cá ficaram, em Portugal até ao séc. XIV e até ao séc. XV em Espanha.
Depois tudo mudou. Também na Europa se desenvolveu uma civilização própria, marcada pelo humanismo da tradição greco-romana impregnada da religião de Cristo. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro, e foram as cruzadas medievais e depois os Descobrimentos.
Agora os árabes têm de novo sonhos de expansão. Ainda se invoca o Islão como factor de unidade; mas também como pretexto que encobre interesses relativos a petróleo e a petrodólares; mais do que a um ideáreo civilizacional. As ideias unificam, os interesses dividem. Não há verdadeiramente uma "nação" árabe.
O primeiro milénio desta era foi, pois, o do expansionismo árabe. No segundo milénio expandiu-se a civilização europeia. Às portas do terceiro milénio, os fundamentalismos árabes que emergem aqui e ali e as fragilidades notórias da civilização europeia levantam uma interrogação: É um choque de culturas ou um conflito de interesses? Que é que vai prevalecer?
É doutrina islamita que "Deus comprou os fiéis, as suas pessoas e os seus haveres em troca do paraíso; nas sendas de Deus, eles devem combater, matar e deixar-se matar porque Ele fez uma promessa". Mais nos parece um pragmático realismo negocial do que mundividência religiosa.
O jejum do Ramadão, a esmola e dizer Senhor, Senhor cinco vezes ao dia não garantem a civilização do Amor. Mas têm-lhes garantido o controlo hegemónico da civilização do petróleo.
| Ernesto Campos |
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