Cultura:

Guerra Junqueiro, a recordação de um poeta

Abílio Manuel de Guerra Junqueiro (1850-1923), natural de Freixo de Espada à Cinta e falecido no Porto, terá sido, de entre os nossos mais conhecidos escritores, um dos que obteve maior reconhecimento popular e aura poética em vida. Terá sido também daqueles que mais tem vindo a ser injustiçado após a morte, sobretudo na fortuna dos estudos sobre a sua obra. Nos anos cinquenta muitos dos seus poemas circulavam pelas antologias, servindo de modelo à formação linguística e poética de jovens e de adultos. Falava-se da agressividade dos textos d'A Velhice do Padre Eterno, mas liam-se, memorizavam-se e recitavam-se (quando memorizar era uma forma de aprender e recitar era um exercício de domínio da língua e da voz) os versos sonorosos d'Os Simples ou as preces da Oração da Luz. Sentia-se a força poética de um autor que dizia de forma elaborada aqueles conceitos sobre a vida e a natureza que nós gostaríamos de dizer. Aprendia-se inconscientemente a musicalidade da linguagem e o conhecimento de uma língua que se sentia capaz de dar vida às coisas simples como se se tivesse tornado de novo a dos cancioneiros ou a dos clássicos.

Vieram depois as modas estruturalistas acompanhadas de alguma ignorância enciclopédica. Os programas começaram a prestar maior atenção a algumas modernices vácuas que endeusavam irreflectidamente escritores medíocres para garantirem o esquecimento dos que mais trabalharam a linguagem. Substituiu-se o simples pelo complicado, buscaram-se sentidos ocultos a quem nunca foi capaz de construir sentidos comuns. E mandaram-se poetas e escritores para as prateleiras do esquecimento. Junqueiro foi um deles, Gomes Leal foi outro, Tolentino foi outro, e o mesmo Vieira teve bem que esbracejar do fundo do vigor da sua voz para o não reduzirem ao silêncio. Deixaram-no a dar um grito de vez em quando, para se fazer de conta que se lhe tinha prestado atenção. Metidos por estes ínvios caminhos, a lista dos disparates seria longa. Hoje mesmo, já refeitos de algumas dessas modas, ainda se impingem às crianças e aos jovens alguns escrevinhadores ocasionais de passageiras modas, em vez de lhes escancarar as portas dos mestres, certamente mais difíceis de abrir, mas que revelam paisagens de sonho cujo viço só mais tarde se descobre. Vivemos para o imediato e educamos para o plástico e para o postiço.

É curioso verificar agora que uma atitude referencial para a reabilitação intelectual e literária de Junqueiro, poeta maldito de apologetas (como o padre Sena Freitas) ou de críticos de cariz racionalista (como António Sérgio) nos apareça pelas mãos da Universidade Católica, e justamente pela sua Faculdade de Teologia. A causa próxima poderá ter sido a aquisição por aquela Universidade da colecção junqueiriana de Pedro Bandeira, num total de uns quatrocentos volumes, entre edições da obra do poeta e estudos sobre ela. É de louvar a valorização desta circunstância que permitiu trazer à oportuna discussão pública a obra de Junqueiro. Mas certamente a razão mais séria e mais funda dessa proposta reside alhures: no sentido e no sentimento de que a Teologia é essencialmente humanidade e procura dela.

Cerca de meia centena de comunicações, de estudiosos de diversas Universidades, preencheram dois dias de estudo. As perspectivas de análise foram divididas em aspectos diferenciados (sociedade, biografia, crítica literária, filosofia e pensamento) e permitiram abordagens situadas estrategicamente entre o revivalista e o inovador, de uma obra que acaba por revelar potencialidades talvez inesperadas para constituir o motivo de um colóquio em que as leituras filosóficas se puderam casar com estudos em que a literariedade dos textos foi o pólo da ancoragem.

A obra de Junqueiro mereceu referências muito díspares no seu tempo. Entre as encomiásticas, quiçá excessiva, avulta a de um dos grandes escritores espanhóis seus contemporâneaos, Miguel de Unamuno, que, apesar de nunca ter convivido muito com ele, mas conhecendo bem a sua obra, o considerava (e fê-lo por mais do que uma vez) "el más grande de los poetas (portugueses) vivos, y uno de los pocos, poquísimos, que en esta época tan poco poética quedan en Europa toda" (Por tierras de Portugal y España). Noutro lugar, repete: "el más grande lírico portugués entre los vivos y uno de los mayores hoy del mundo" (ibidem, noutra passagem).

Descontemos o exagero. Mas a obra de Junqueiro não pode ser abandonada às intempéries do esquecimento, porque possui potencialidades talvez inacabadas. Uma delas era um projecto que se intitularia Prometheu Libertado e que seria uma espécie de poema heróico, em cinco cantos, dos quais apenas escreveu alguns versos e um enredo.

A libertação de Prometeu, após sua fracassada tentativa de libertar a humanidade, após ser agrilhoado pelos deuses nas montanahs do Cáucaso, roído pelo abutre da desilusão e do desespero, pelo "abutre satânico" (como caracteriza o autor), só seria conseguida por Cristo, que assim o tornaria livre. Uma auto-projecção pessoal na figura mítica não é desprezável, ao menos como hipótese de trabalho.

(Sobre este tema de Prometeu, aliás tão recorrente em todas as literaturas, mito do homem senhor de si mesmo e da humanidade auto-suficiente, ver o que aqui se escreveu sobre a maneira como o tema é tratado por Almada Negreiros na VP, 19/12/96. No seu texto, Almada não referencia Junqueiro, mas a temática é tão próxima, nomeadamente na contraposição Prometeu-Cristo, que não poderá ser ignorada a influência de um texto sobre o outro).

João Mendes salienta, ao analisar a poética de Junqueiro, a propósito da sua conhecida poesia "A Lágrima", lágrima que recusa brilhar nas coroas reais mas "cai silenciosa" para fazer florir o cardo: "Não há página das suas obras em que não entrem algumas destas imagens da luz, ou aurora, ou mar, ou inocência - tudo conjugado arquetipicamente com os olhos e a criança" (Literatura Portuguesa III). Acrescentaríamos a sua paixão quase extática pelos simples: a sua obra tida por mais agreste e obscena, a Velhice, começa precisamente por um poema que constitui o reviver da infância e um hino à simplicidade.

Estará talvez aí, no gosto do mistério das coisas simples, na luz e no pão, na mãe e na infância, traduzidas através da musicalidade impressiva dos seus alexandrinos, que assentou, mais que na agressividade conjuntural dos seus impropérios contra a Igreja, o clero ou a realeza, aquele misto de admiração e de assombro com que a sua obra foi vista por literatos e gente do povo, como poucas outras houve na nossa história cultural.

Ou, como se diz no seu mais emblemático poema, a Oração à luz, editado nesta circunstância em edição especial pela livraria Lello, será essa eterna aspiração do homem cósmico, irmanado num universo infinito e desconhecido, que retoma o "Faça-se a luz" das primeiras palavras bíblicas:

Farei da cega luz que me alumia
A luz espiritual do grande dia
A luz de Deus, a luz do Amor, a luz do Bem,
A luz da glória eterna, a luz da luz, amém.

C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 10 a 16 de Janeiro


TELEVISÃO - Quando em Fevereiro passado, uma Comissão do Vaticano, assinalando os Cem Anos do Cinema, seleccionou, entre 45 títulos, o filme de Jean Renoir, «A Grande Ilusão» (1937), como uma Obra de Arte, sabia o que estava a fazer, pois, sem dúvida, está-se perante um monumento cinematográfico sem igual. E vamos poder confirmar isso mesmo, no próximo sábado, na selecção "O Filme da Minha Vida" (RTP 2, dia 11). Ao contrário ou em complemento de «A Regra do Jogo» (outra obra de arte de Renoir, de 1939), esta é uma obra-prima de uma simplicidade e de uma verdade de tal modo universais, que todos podemos identificar-nos com ela. A história, rica de conteúdo social e patriótico, passa-se em 1916, no front alemão. Dois oficiais franceses, o capitão de estado-maior De Boïeldieu (Pierre Fresnay), de origem aristocrática, e o tenente da aviação Maréchal (Jean Gabin), um homem do povo, estão presos num campo alemão. Seus companheiros de cativeiro são um professor, um engenheiro, um actor e o judeu Rosenthal (Dalio). As diferenças de classe são esquecidas e a vida organiza-se de maneira até mesmo agradável, graças à tolerância dos carcereiros. O comandante da fortaleza é von Rauffenstein (Erich von Stroheim), austero aristocrata de velha cepa.

Oriundo de uma família de artistas ( seu pai era o pintor expressionista Auguste Renoir) e tendo abordado o cinema desde 1924, Jean Renoir (1894-1979) afirmara-se rápidamente como um mestre, manifestando o mesmo desembaraço na adaptação de obras literárias, nas pesquisas de vanguarda, na sátira bufa e no melodrama social. Uma forte filosofia pessoal, o génio da improvisação e uma alegria superior que chega às raias do escárnio transcendem, neste filme, as intrigas e os géneros, dos mais vulgares aos mais refinados. Jean Renoir é o poeta mais visionário do cinema, um realizador perceptivo considerado por muitos como o maior de todos os tempos.

Em «A Grande Ilusão», Renoir e o seu argumentista, Charles Spaak, lembram-se de que a sua geração - a "classe de 14" - foi duramente marcada pela guerra, o cativeiro, a mistura das castas e das mentalidades. Eles procuram exprimir a sua "crença profunda na igualdade e na fraternidade" além das demarcações sociais e das lutas fratricidas, e mostrar que "mesmo em tempo de guerra os combatentes podem continuar a ser homens". As fronteiras são uma abstração absurda, o nacionalismo uma ilusão. Mas a esperança numa paz duradoura também é. Quanto ao amor, não é mais que uma breve trégua na tempestade. Esta é a "regra do jogo" social e individual.

A riqueza ideológica desta história, arrasadoramente humana sobre a amizade, está na sua ambiguidade. Nem a esquerda "progressista", nem a direita "reaccionária" poderiam reinvidicá-lo, como têm tentado fazer. O que é certo é que "todos os democratas do mundo devem ver este filme", como disse o presidente Roosevelt.

Outros filmes para ver: «O Piano», drama, de Jane Campion (1994), com Holly Hunter, Sam Neill e Anna Paquin (TVI, 11); «Na Lista Negra», drama, de Irwin Winkler (1991), com Robert De Niro e Annette Bening (SIC, 12); «Aliens-O Recontro Final», terror e ficção-científica, de James Cameron (1986), com Sigourney Weaver (RTP 1, 13).

VÍDEO - Sempre que vejo um filme de Lawrence Kasdan é como se o descobrisse pela primeira vez. Regozijo-me de ter já tido a oportunidade de ver toda a obra deste notável fazedor-de-sonhos, deste magnífico realizador que já dirigiu filmes de todos os géneros. Garanto-vos que não se consegue resistir ao seu encantamento mágico. Desta vez, destaco uma comédia, que é devedora dos melhores filmes do género: «French Kiss-O Beijo». Uma americana viaja para França com a intenção de recuperar o seu noivo, que a abandonara por uma francesa. Nessa viagem conhece um malandro sedutor, com quem, a princípio, luta, depois, se alia, e por fim, se apaixona. Embora apresente uma França cheia de lugares-comuns, o filme é uma verdadeira delícia, sobretudo pelo trabalho dos seus protagonistas: uma desengonçada Meg Ryan e um Kevin Kline em estado de graça. Distribuído por Legal Vídeo/Lusomundo Audiovisuais.


...E FORA DE CASA

Recebo sempre com grande satisfação a estreia de um filme nacional, seja de curta ou longa-metragem, de imagem real ou animação, tento nunca perder de visionar o produto luso, e é rara a obra que não mereça o meu sentido aplauso. Como aconteceu quando tive o grato prazer de assistir, numa das salas da Castello Lopes Cinemas, no Central Shopping, a uma sessão do filme de Luís Filipe Rocha, «Adeus, Pai», com jovens revelações, com actuações bem desenvoltas, ao lado de veteranos. Por princípio, nunca falo de filmes dos quais não me tenha sido enviada a respectiva documentação, mas perante a singeleza do produto, a qualidade do tratamento do argumento e o brilhantismo interpretativo, não podia deixar passar a oportunidade de aqui evidenciar e recomendar o visionamento desta deliciosa comédia dramática que nada tem de ingénua, como as perguntas infantis e curiosas que o jovem protagonista dirige ao seu pai, numa fantasia-pretexto para uma redacção escolar.

Aos 13 anos, Filipe (José Afonso Pimentel), é uma criança que vive sob a dominação da mãe (Natália Luísa) e da Avó Matilde (Lurdes Norberto), que sofre por não ter um pai que o acompanhe no dia-a-dia da sua vida; então, imagina como seria passar umas férias de verão com o seu pai (João Lagarto), na ilha Terceira, nos Açores, naquela que seria a derradeira oportunidade do pai passar algum tempo com o filho, para ambos se descobrirem um ao outro.

Produzido pela MGN de Tino Navarro e distribuído por Filmes Castello Lopes, eis uma produção 100% portuguesa diferente dos habituais filmes semi-parados que se fazem no nosso país.
Vasco Martins
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