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Mas o seu carácter amistoso facilmente se transforma em interesseiro. Vejam só. Entre os cartões que tive a subida honra de receber encontram-se os seguintes: de dois bancos; de duas companhias de seguros; de um emissor de cartões de crédito; de três mediadores imobiliários; de várias agências de viagem; dos lixeiros; do carteiro; do distribuidor das listas telefónicas; de umas quantas empresas que nos seleccionam como melhores clientes a quem oferecem automóveis para nos vender outras inutilidades a pronto ou a prazo, sem aumento de preço; dos empregados do restaurante; e até do Presidente da Câmara, com fotografia do próprio e assinatura com o Dr. riscado, e com duas outras, melhoradas e retocadas, do Porto património mundial. É evidente que os cartões dos amigos, pelas suas próprias condições, não têm que ser considerados nestas considerações. (Que me perdoe o António Gedeão esta oportuníssima citação).
Fiquei assim, confesso, verdeiramente embevecido com a quantidade de gente de todas as idades e de todas as condições sociais que se lembra de mim. Devo ser um fenómeno de popularidade. Só não vislumbro as razões. Eu não sou rico, não apareço no jé tessete, não tenho cargos políticos, não sou dirigente de nenhum clube de futebol nem autarca, não sou árbitro, não tenho influência nos ministérios nem nos conselhos de administração.
Só, de facto, por benevolência dos autores das missivas.
Aproveito para agradecer tantas provas de consideração e para retribuir, num gesto amplo de confraternização universal. E já agora peço licença para, em jeito de congratulação retributiva, enviar mais umas pequenas declarações festivas, para proveito e exemplo de quem houver por bem.
1. Entre as bondades e benesses que nos distribuem em maior profusão nesta quadra, encontram-se os planos de poupança: reforma e habitação. Está claro que são só benefícios para nós. A entidade bancária ou seguradora, coitada, nunca tem qualquer proveito. Ainda por cima ajuda-nos a ludibriar o Estado, coisa que, como é tido e sabido pela melhor opinião pública, constitui uma prova de rara inteligência e de invulgar capacidade financeira. Traz-nos poupanças insuspeitadas, "até" largas centenas de contos, sem nos exigirem nada em troca: basta que assumam a tremenda responsabilidade social de guardar o nosso dinheiro. Já viram tamanha generosidade? Não seria de se gerar uma vaga de fundo para atribuir um prémio de filantropia ou medalha com palma a estas instituições, tanto mais que gastam, as pobres, tanto dinheiro em publicidade para nos convencerem de tão numerosas, profícuas e incontáveis vantagens?
2. Há duas preposições cujo êxito publicitário não pára de aumentar: é a preposição até e a preposição desde. A respectiva utilização faz-se da seguinte forma. Alínea a): se a intenção for dar-nos pouco, utiliza-se a preposição até, que traduz o limite para o qual tende o pouco que nos dão em troca de a gente ficar a pensar que é muito. Exemplo: se nos dizem "poupe até quinhentos contos", se a gente poupar apenas duzentos escudos, já cumprimos cabalmente os limites definidos pela inefável preposição. Não se trata, portanto, de publicidade enganosa. Alínea b): se a intenção for pedir-nos muito, usa-se a preposição desde, que é o limite a partir do qual nos apanham o bastante, em troca de a gente ficar a pensar que é pouco. Exemplo: se nos anunciam prestações "desde" cinco contos por mês, se depois nos exigirem cinquenta, não temos que levar a mal, eles não nos enganaram, o valor está contido na generosa preposição. E se garantem que têm artigos "desde" trezentos, estes trezentos são sempre os artigos que já não temos, porque esgotaram, agora só temos de seiscentos. Está tudo dentro do conteúdo semântico da habilidosa e subtil preposição. Nós não temos culpa, até lamentamos.
Proponho, assim, a promoção das referidas proposições a uma categoria gramatical mais consentânea com as suas potencialidades, pelo menos à digníssima categoria de adjectivos, porque nesse caso alguns políticos da praça e alguns próceres da rádio já poderiam afirmar que "temos um adjectivo apropriado para caracterizar esse fenómeno".
3. Veradeiramente demolidora para as nossas mais profundas convicções em termos de sociologia das diversões e do recto e profícuo entendimento dos valores culturais das actividades lúdicas, foi a sondagem divulgada por um jornal diário sobre o mais importante fenómeno de massas do nosso século: o futebol. Eu quando vejo sondagens fico logo em pulgas e abandono tudo só para as analisar em profundidade indesmentível. Então não é que a sondagem tem a distinta lata de garantir que apenas 25% das portuguesas e portugueses viram um desafio de futebol durante o ano? Note-se: durante o ano, não é por semana, ou por mês! Quer dizer, como o ano tem 52 semanas, descontando o Natal e a Páscoa em que não se realizam futebóis, por causa de os artistas da bola terem o "merecido" descanso, e mais 5 domingos de férias, já segundo as novas regras dos 24 dias, dá: 52-7=45; 25%, que é quantos vão por ano, a dividir por 45, que são as semanas úteis para o exercício da função, é igual a 0,5555 por cento das protuguesas e portugueses que viram um desafio de futebol por semana. Isto é, escassamente mais de meio português é que viu um desafio! Se considerarmos a população activa, só cerca de um quarto de português é que viu um desafio de futebol por semana! Nem para o desporto de bancada servimos, ó gente insana! Onde estão as nossas ancestrais qualidades rácicas de afrontamento dos perigos?
Isto é uma situação verdeiramente insustentável! Isto exige rápidas soluções por parte do governo, tanto mais que quase 82% dos portugueses é de opinião que há corrupção no futebol e a maioria entende que a culpa é dos dirigentes e dos árbitros.
Resta-nos a inestimável consolação de sabermos que se os desportistas de campo são pouquíssimos e os de bancada são poucos, pelo menos temos grande êxito nos espectadores de poltrona ou de mesa de café, que rondam os 2 milhões por jogo importante. Nem tudo está perdido, ó intrépidos lusitanos!
E pensávamos nós que o futebol era o sustento da
alma nacional, o constitutivo específico da nossa identidade,
o pólo de atracção de todas as audiências
dos media, o sustentáculo de intermináveis horas
de discussão televisiva, radiofónica, jornalística,
tertúlica de café e de rua, que fazia parar a Assembleia
da República e os congressos dos partidos políticos,
que afastava os fiéis das missas e os melómanos
dos concertos, que tirava público ao teatro e ao cinema,
que deixava vazias as salas de aula e as salas das conferências?
Puro engano. Afinal o futebol é apenas aquilo que é:
o ídolo de pés de barro.
4.
| A Levi Guerra,
olhando os quadros da sua exposição
A mão macia ou rugosa
ou traça joviais janelas
Perpassam os passos
É sempre o homem que fabrica
Percorro perplexo e pobre |
| C.F. |
| Início |
De 1 a 9 de Janeiro
Com o nascer de um novo ano, desejo
a todos os leitores um 1997 vivido em paz e harmonia, cheio de
saúde e amor, muita alegria para bem disfrutar o dom da
vida e a realização positiva dos vossos mais ardentes
anseios.
TELEVISÃO - Nesta primeira semana do Ano Novo, a RTP 2 oferece-nos os melhores filmes dos impagáveis Irmãos Marx: «Os Marx no Far-West» (dia 30), «Casa de Doidos» (dia 31), «Uma Noite na Ópera» (dia 1), «Um Dia nas Corridas» (dia 2) e «Um Dia no Circo» (dia 3), para ver na rubrica "Cinco Noites, Cinco Filmes", onde se pode ver bom cinema, de muito boa qualidade, sem cortes, completos e sem intervalos, sendo actualmente o melhor canal (e o único!) de cinema para ver e gravar. Os Irmãos Marx são uma lenda do cinema cómico que cresce com os anos. Chico (1891-1961), Harpo (1892-1964), Groucho (1895-1977) e Zeppo (1901-1979) compunham o grupo de comediantes mais escandalosamente excêntricos de Hollywood, que fizeram da anarquia uma arte. Groucho era um mestre no jogo de palavras, Harpo era um mímico que tocava harpa (e sempre usava uma ruidosa buzina), Chico um pianista que falava com sotaque italiano e Zeppo era o mais ajuizado (mas que deixou o grupo a partir de 1933). Nascidos em Nova Iorque, filhos de um alfaiate judeu, a mãe, Minna Schoenberg, incentivou-os a explorarem os seus talentos musicais no teatro de variedades e depois na Broadway, onde criaram um fabuloso show de comédia. Absurdos, irreverentes, disparatados, e sobretudo muito "bem falantes", os Irmãos Marx provocam hilariedade no público à custa das suas histórias desconcertantes, situações sem ordem nem concerto e diálogos verborreicos que nos fazem esquecer o tempo decorrido.
Outros filmes para ver nos primeiros
dias do novo ano: «André», comédia
dramática, de George Miller (1994), com Tina Majorino e
Keith Carradine: baseado num facto verídico, o argumento
gira em torno de uma foca e da família que salvou a sua
vida, nos anos 60, na localidade costeira de Rockport, no estado
norte-americano do Maine. Um delicioso filme para todas as idades,
a não perder (SIC, dia 1); «Os Visitantes»,
comédia francesa, de Jean-Marie Poiré (1992), com
Christian Clavier e Jean Reno: o que pode acontecer a cavaleiros
medievais que viajam no tempo e aparecem nos nossos dias (RTP
1, 1); «Tombstone», western, de George
Pan Cosmatos (1993), com Kurt Russell e Val Kilmer: sobre a vida
do xerife Wyatt Earp e seu amigo Doc Holliday (TVI, 1);
«Os Reis da Noite», comédia, de Eddie
Murphy (1989), com Eddie Murphy, Richard Pryor e Danny Aiello
(SIC, 1); «Eles e Elas», policial/musical,
de Joseph Leo Mankiewicz (1955), com Marlon Brando, Jean Simmons
e Frank Sinatra (TVI, 1); «A Rosa Púrpura
do Cairo», comédia, de Woody Allen (1985), com
Mia Farrow e Jeff Daniels: nos anos da Depressão americana,
ir ao cinema era um luxo, mas servia para abater as pressões
(RTP 2, dia 7);
VÍDEO - Sendo até então uma distribuidora de vídeos exclusivamente para a Venda Directa, a Atalanta Vídeo estreia-se (e em boa hora!) na distribuição para o sistema rental, isto é, de aluguer. Já é possível encontrar nos videoclubes os melhores exemplos da excepcional qualidade representada por aquela empresa, propriedade do produtor Paulo Branco, responsável pela maior parte das melhores produções cinematográficas dos últimos quinze anos, nomeadamente co-produções com a França, onde se integram os filmes de Manoel de Oliveira. Além do vídeo, através da Medeia Filmes, a Atalanta também distribui os melhores filmes de cinema, que podem ser vistos, por exemplo, nas salas da Casa das Artes e Cinema Nun'Álvares, do Porto. Assim, estão já disponíveis no mercado rental «Morrer em Las Vegas», drama, de Mike Figgis, que garantiu o Oscar de Melhor Actor 1995 a Nicolas Cage pelo brilhante desempenho de um jovem desesperado que vai para Las Vegas morrer bebendo; «Cinco Dias, Cinco Noites», drama português, de José Fonseca e Costa, baseado na obra homónima de Manuel Tiago (pseudónimo literário de Álvaro Cunhal); «O Convento», drama, de Manoel de Oliveira, com Catherine Deneuve e John Malkovich, com argumento original do próprio realizador e diálogos da escritora portuense Agustina Bessa Luís. Outros títulos disponíveis: «A Flor do Meu Segredo», de Pedro Almodóvar, «Farinelli», «Comer Beber Homem Mulher», «A Loucura do Rei George», «Viagem a Lisboa», de Wim Wenders, «Underground», de Emir Kusturica, entre outros.
O ano findo foi um ano de muito bom cinema, predominando os dramas de tribunal e as comédias ousadas. Foi também o ano em que apareceram boas quantidades de salas de exibição, como as do CentralShopping (seis), por iniciativa da Filmes Castello Lopes, e as vinte do Arrábida Shopping, geridas pela AMC americana. Mas foi também o ano de estreia de um dos mais fortes candidatos aos Oscars 1996: «Sleepers», drama de Barry Levinson. Com um elenco de luxo onde se misturam os veteranos Robert De Niro e Dustin Hoffman (no seu primeiro trabalho conjunto para o cinema) com um punhado dos jovens mais cotados do actual panorama cinematográfico made in USA, como Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Brad Renfro e Billy Crudup, «Sleepers-Sentimento de Revolta» já se converteu num dos maiores sucessos do Outono dos Estados Unidos, com receitas de bilheteira superiores a 50 milhões de dólares. Entre os «Marginais» de Coppola e «Era Uma Vez na América» de Leone, esta é a história de quatro amigos adolescentes que vivem no mais perigoso bairro de Nova Iorque, conhecido como "Cozinha do Inferno", que se estende para Norte, entre as ruas 34 e 56, e para Oeste, desde a 8ª Avenida até ao Rio Hudson. Uma das suas brincadeiras (que ocasiona a morte de um indivíduo) custar-lhes-á uma condenação de nove meses de internamento num estabelecimento correccional. Alí, serão brutalmente sodomizados por um grupo de presos chefiados por Sean Nokes (Bacon). Anos mais tarde, dois deles conseguem sair do bairro, tornando-se um jornalista (Patric) e outro advogado (Pitt), enquanto os outros se tornam drogados e assassinos contratados. Uma noite deparam com Nokes e decidem que chegou a hora do ajuste de contas, matando-o a tiro. Este acto de vingança fará com que os outros dois voltem ao bairro e arrisquem tudo o que têm para conseguir livrar os amigos do castigo e conseguir que a vingança seja cumprida.
«Sleepers-Sentimento de Revolta», áparte a violência necessária, é um filme a não perder. Baseado no best-seller de Lorenzo Carcaterra, é uma tragédia americana, como tantos outros do género, onde se relata como um pequeno acontecimento de infância pode alterar o nosso destino para sempre. Não fugindo à regra, o filme também trata em profundidade o sistema judicial e o seu funcionamento, tão criticado e posto a nú nos filmes deste ano. Produzido pela Polygram Filmed Entertainment, é um Exclusivo Ecofilmes, distribuído por Vitória Filme.
| Vasco Martins |
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