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Chamava-se Preciosa. Vivia na Venda Nova, um bairro típico de Águeda e que eu bem conhecia, na parte alta da vila. A Preciosa era peixeira. era uma mulher maneta devido à falta congénita da mão esquerda.
Águeda tinha nessa época - pelos fins da 2.ª Grande Guerra - um apreciável mercado de peixe que era diariamente fornecido por camionetas sempre recebidas com alvoroço na Praça do Peixe, um espaço cimentado sobranceiro ao cais da lenha e onde dois alpendres cobertos de folha zincada pintada de zarcão assinalavam os locais amplos e privativos do Snr. André Rendeiro e do Sr. Manuel Maçadas, os comerciantes de peixe forneciam depois as vendedeiras, como a Preciosa. A sardinha era o peixe que predominava e que, uma vez assado na brasa, se juntava à boroa e ao caldo de couves para ser o alimento comum dos pobres.
A Preciosa saía da Praça do peixe a meio da manhã, e corria de seguida toda a Vila, anunciando-se com um prégão cavo: Sardinha viiiva... Olha a rica sardinha do nosso maaari... Viviiinha... se não vendia tudo na manhã, o que era frequente, vinha prostrar-se no largo fronteiro á nossa casa, canastra no chão junto à estrada de Aveiro, quási na esquina, junto às bombas de gasolina, uma da Shell outra da Atlantic, e sentava-se num banco próximo, igual a outros de granito que se espalhavam por aquele espaço que tem tido sucessivos nomes e que à altura era o Largo 5 de Outubro. E ali estava fazendo o seu negócio, lenço claro na cabeça, enlaçado ao pescoço e encimado por rodilha colorida, blusa de manga curta que permitia a fácil visão do coto, saia curta e de pano modesto, e tamancos escuros nos pés. A Preciosa era uma mulher lépida, atrevida de gestos em certas ocasiões, de vernáculo ousado nos seus colóquios que eram frequentemente acalorados. A voz era rouca, o nariz adunco, o rosto estreito e «elgrecoriano». Olá menino... então como vai? ... e os estudos?... já vendeu muita gasolina hoje?... ... ... Olha o petinga freeesca!!!... Vivinha do nosso maaari... Impressionava-se a destreza com que punha à cabeça a canastra carregada da sardinha alinhada sobre o oleado amarelo que revestia o fundo, e servindo-se àgilmente do coto.
A Preciosa adoeceu. Deixou a canastra do peixe. Um cancro uterino minava-a. Naquele ano ainda se viu pelo centro da vila já sem a canastra nem os prégões. Aceitava as esmolas que passaram a substituir o seu negócio. Talvez tenha sido a primeiro vez que senti muita pena por alguém que percebi iria morrer em breve. Chegou a véspera de Natal. Peguei em mim, já sobre o fim da tarde desse 24 de Dezembro, e, com algum dinheiro diversa, subi à Venda Nova, à casa da Preciosa ali mesmo perto do largo. Era uma casa térrea, a janela iluminada de pálido clarão e a porta entreaberta. Bati e entrei. A Preciosa não estava só. Não me recordo quem a acompanhava. Estava sentada numa cadeira, a gemer, envolta em cobertores, frente à lareira onde crepitava brando fogo. Preciosa aqui tem o que o Deus-Menino lhe manda. E dei-lhe um beijo. Sorriu de alegria. Oh! menino!... E beijou-lhe as mãos. E o meu coração bateu de quente.
Eu fora a Belém, e beijara o Deus-Menino.
| Levi Guerra |
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Relativamente à Penitência, a generalidade das informações
recebidas começa por notar a permanência duma
crise. Os relatórios quinquenais, ao acenarem a isso,
acrescentam reflexões sobre as causas do fenómeno,
que se traduz numa sensível perda do sentido do pecado
e na quebra da prática da Confissão.
Por um lado, alastra uma mentalidade secularista e hedonista e afirma-se um individualismo no campo ético que faz perder a referência aos valores tradicionais, contribuindo substancialmente para tal desorientação os meios de comunicação social.
Por outro lado, porém, muitos relatórios atribuem aos próprios sacerdotes parte da responsabilidade na crise. Com efeito, não favorece a recuperação da Confissão a falta de um exemplo pessoal dos sacerdotes, a indisponibilidade de vários deles porque sobrecarregados com outras actividades, a falta de horários fixos para as confissões e, ainda menos, o fácil recurso às absolvições colectivas.
A crise fez-se sentir menos nas terras de Missão. Deve realçar-se o testemunho quase unânime dos relatórios quinquenais da Índia no sentido de um prática ainda mais frequente da Confissão nas suas comunidades. Mas também se verifica uma certa retoma mesmo noutras áreas, por exemplo da América latina. As intervenções dos Bispos para sublinhar a importância do Sacramento, com o apelo a um maior compromisso por parte dos presbíteros e a uma maior observância das normas vigentes em matéria de absolvição colectiva, bem como o empenho de alguns movimentos eclesiais Caminho neo-catecumenal e Renovamento carismático que inculcam nos seus membros a prática da Confissão, fazem esperar num melhoramento da situação.
Quando a problemática da Penitência sacramental é suscitada nos encontros da visita, a Congregação não deixa de apoiar todos os esforços para a superar. Se bem que as soluções se devam encontrar sobretudo a nível pastoral, o aspecto jurídico-litúrgica tem, também, a sua importância. Comenta-se o impacto que o novo Rito da Penitência teve nas Igrejas locais, sublinham-se as normas vigentes sobre a absolvição colectiva e apoiam-se as iniciativas tendentes a revigorar o empenhamento prioritário dos presbíteros pelas actividades que são específicas do seu sacerdócio ministerial.
No que concretamente diz respeito ao novo Ritual, fica-se com a impressão de um generalizado apreço, com algumas precisões que merecem ser sublinhadas.
Antes de mais, a primeira forma de celebrar o Sacramento é a inteiramente individual e considera-se mais enriquecida em relação ao passado. Aprecia-se a introdução da Palavra de Deus e de outros elementos que aproximam esta celebração da dos outros sacramentos. Observa-se, contudo, que a modalidade não é realizável quando o número de penitentes é tal que não permite alongar de modo excessivo o colóquio pessoal, o que, aliás, se verifica na maioria dos casos.
Particular aplauso teve, pelo contrário, a segunda forma, a da celebração comunitária com confissão e absolvição individual. É considerada a forma que melhor traduz a dimensão comunitária do sacramento e a exigência do contacto individualizado com o Confessor. Suscitando crescente interesse e entusiasmo onde é introduzida, a segunda forma, para além de favorecer a catequese penitencial, serve também para exprimir a comunhão e colaboração do presbitério.
Acerca da terceira forma da celebração da Penitência sacramental, a da absolvição colectiva, constata-se uma maior moderação na sua utilização nos lugares onde ela se tornou frequente, se não mesmo a forma exclusiva de conferir o Sacramento. A Congregação está sensível às particulares condições pastorais das comunidades onde, por falta de sacerdotes, a absolvição colectiva aparece como o único recurso. Insiste, todavia, no respeito pelas normas vigentes, que limitam tal recurso aos casos de gravis necessitas, precisando claramente as condições e os procedimentos. Faz-se apelo aos Bispos para que, velando atentamente pela observância das normas, contribuam para a superação da crise com que, desde há tempo, se confronta o Sacramento da Penitência.
| S.D.L. |
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| "Quando o lençol mortuário que envolvia os povos começou a ser levantado e um sopro de vida despertou em cada um a consciência nacional, o judeu apareceu-lhes estranho, incapaz de se fundir inteiramente com eles e que, por isso, tinham de repudiar. Então surgiu o desejo violento de expulsão: em uns pelo ódio de crenças e por um cego furor contra os de outra fé, em outros por efeito da repulsa que ao instinto nacional inspirava tudo o que fosse estrangeiro." |
A citação é de Abraão Geiger,
um judeu ilustre que em 1870, em Berlim, assim se pronunciava
sobre as perseguições aos judeus. E tem-se pretendido
também justificar como expressão de movimento nacionalista
o édito de D. Manuel expulsando-os de Portugal em 1496/1497.
Tratar-se-ia de defender a comunidade portuguesa da intrusão
judaica, aliviando a Nação de parasitas engenhosos,
inteligentes e perigosos pela sua rapacidade(J.Ameal), constituindo,
por isso, corpos estranhos no organismo nacional. Verdade seja,
porém, que não seriam mais de 4% da população.
E já D. João II os recebera, expulsos de Espanha,
permitindo-lhes a permanência no território mediante
tributo. Um bom negócio para a Coroa, afinal.
D. Manuel, por seu turno, socorre-se do expediente de lhes permitir
a conversão para que pudessem continuar no País.
Procurava, assim, sem perturbações sociais nem abalos
económicos satisfazer a exigência do seu contrato
de casamento e, por essa via, habilitar-se também à
coroa de Leão e Castela. Mas a rainha não viveu
o suficiente e lá se esfumou o projecto de união
ibérica. Não valeu a pena o ominoso édito.
Mas não é concorde o juízo dos historiadores
sobre os antecedentes da expulsão; levanta-se uma
série de quesitos - de ordem moral, religiosa, social,
económica, cultural. Afirma-se, de facto, que nos países
maioritariamente muçulmanos, sempre, no passado, estes
coexistiram pacificamente com os judeus... (Até esta segunda
metade do século XX em que se digladiam pela posse da terra,
vingando olho por olho, dente por dente). Nos países maioritariamente
cristãos, sempre a coexistência teria sido muito
menos pacífica, aqui e além mesmo com perseguições
institucionais. Mas também com leis protectoras dos judeus,
leis punitivas das afrontas que se lhes fizessem, nos períodos
em que a convivialidade era a regra.
Razões políticas, interesses económicos,
paz social, motivos religiosos, puro nacionalismo tem sido, pois,
o complexo causal com que se pretende explicar o ódio
secular aos judeus. Sigismundo Freud, ele próprio judeu
de raça, aduz, entretanto, outras causas, mais fundas:
A acusação de serem estrangeiros é, sem
dúvida, a mais precária; em muitos lugares eles
constituem o estrato mais antigo da população. Há
outras razões: eles vivem em minoria entre os outros povos,
diz Freud; e essa fraqueza numérica incita à opressão.
E outras peculiaridades lhes aponta: são diferentes, indefinivelmente
diferentes, o costume da circuncisão, de que se ufanam
como sinal de superioridade, é visto de fora como mutilação
bárbara e repugnante. Mais profundo motivo, ainda, é
a inveja dos outros povos em relação àquele
que se faz passar por Povo Eleito; é como se, querendo
negar-lhe esta primazia, afinal se acreditasse nela. Mas na origem
de tudo está a acusação suprema: Vós
matastes o nosso Deus. E aqui Freud não se coíbe
de insinuar quão hipócrita e equívoca é
a atitude dos cristãos. Os perseguidores dos judeus são
os mal baptizados que se mantiveram como os seus ancestrais
que praticavam um politeísmo bárbaro. (...) O seu
ódio aos judeus é, no fundo, um ódio contra
os cristãos. E acrescenta : não é, pois,
de estranhar que o nacional-socialismo alemão se tenha
mostrado hostil a ambas as religiões monoteistas.
Espantosamente, porém, resistem a todas as opressões, nenhuma perseguição os extermina. Antes e depois das perseguições que a história regista, ressurgem como a fénix, para dar contributos importantes nas várias profissões e realizações culturais. Perante o ódio que emerge do inconsciente dos povos , como explicar esta vitalidade? É o mesmo Freud que adianta a resposta
a partir de traços de personalidade específicos
que lhes atribui: têm uma auto-estima particularmente
elevada; anima-os uma particular confiança na vida;
uma espécie de optimismo nasce da posse secreta dum bem
precioso - a confiança em Deus.
| Ernesto Campos |
Assim chegamos à questão central: o Natal revela ou esconde a figura de Jesus? As luzes iluminam ou ofuscam a Luz? A sociedade contemporânea instrumenta ou celebra o nascimento de Jesus? Que diferença há, para além do tema, entre o Jesus do Natal e o rei momo do carnaval? Não estarão os rituais sociais cada vez mais próximos, tendo em comum o mercado sazonal, secundarisando o objecto, ou seja, aquilo ou aquele que se celebra?
Não partilho duma visão fundamentalista do Estado ou da Religião. Não é obrigatório que a Religião se converta em motor de toda a vida social e o controlador de todos os movimentos naturais e sobrenaturais do indivíduo. Sempre que a Igreja quis desempenhar esse papal caíu no desvirtuamento da sua missão. Mas, que São Nicolau ou o Pai Natal se tornem em meros instrumentos de ternura comercial, parece-me extremamente perigoso.
Tudo isto me ocorreu quando, na recepção, se montou cuidadosamente uma árvore em plástico, e uma jovem, com as luzinhas intermitentes a reflectirem-se-lhe nos olhos, perguntou: e o Menino?
O Menino Jesus, pergunto eu, por onde anda?
| António Rego |
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