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Larry Clark, 53 anos, é um conhecido fotógrafo americano que há muitos anos começou a reflectir, de máquina fotográfica ou câmara de filmar em punho, o mundo em que nasceu e viveu a primeira parte da sua vida, a rua pura e simples, esgoto de todo o lixo urbano: as drogas e o álcool, o sexo mecânico e gratuito, a marginalidade, a violência , a solidão.
Um dia, andava ele a fotografar este sub-mundo da modernidade urbana, e uma rapariga da rua, Harmony Klorine, meteu-se com ele: é ela que escreve agora o guião deste filme, uma ficção documental, se quisermos, filmado depois num estilo seco, realista e impressionante.
Gente que sabe do que fala, portanto, uma sabedoria de experiência feita.
O filme não tem história. Fez-me lembrar do princípio ao fim do outro há pouco passado no Porto, O Ódio, de Kassovitz, do qual escrevi aqui na altura que podia chamar-se «24 horas na vida de um bando de putos dos subúrbios de Paris». Este de agora podia ter um título semelhante: «a tarde e a noite de uns miúdos das ruas de Nova Iorque». É de facto uma quase-reportagem, a lembrar o cinema-verdade dos anos 50, espécie de ponto de passagem entre o neo-realismo italiano e a Nova Vaga francesa dos anos 60, e cujo fito era o de, como escreveu Zavattini, «seguir na rua um homem que não chega a sítio nenhum».
Mas a pergunta que, durante toda a projecção, me martelou mais a cabeça foi esta: e os pais desta malta, quem são e onde estão?
Enquanto a malta deslizava pela cidade como um skate no passeio e a Sida passava de infectado e infectando, onde andavam os pais desta malta, que faziam os pais desta malta, abandonando as casas e os filhos? Estes, motivados por nada, puros animais à solta, alienados comportamentais, literalmente entregues a si próprios, desenquadrados de qualquer valor familiar, social, tornados amorais repugnantes; as casas, transformadas em campos de batalha depois de uma noite de ressaca indescritível. E não se trata de meninos da rua, versão nova-iorquina dos do Rio do Janeiro: são filhos de gente com nome e com casa, classe média não muito alta.
O filme não tem história - dizia - a câmara apenas descreve a rua, os comportamentos dos miúdos das ruas de Nova Iorque, o sexo fisiológico e gratuito, a violência que espanca praticamente até à morte por um motivo banal e fortuito, a linguagem desbragada e torpe, e a Sida a vê-los passar.
Depois de se saber infectada pelo vírus, Jenny vagueia pela cidade, tarde e noite, à procura de Telly, para lhe contar que foi contaminada por ele. Este é o único fio narrativo que reúne as imagens documentais duma câmara atenta a tudo, que é nada. Paradoxalmente, no entanto, é só aqui que o filme fraqueja, em meu entender: a personagem não progride psicologicamente, resultando portanto débil, senão mesmo estática, mesmo com uma garrafa de cerveja na mão a afogar o drama que sobre ela se abateu. E é pena. O filme tem mérito, põe o dedo numa grande ferida, grita perguntas, não reflecte, constata.
«Tendes olhos e não vedes, ouvidos e
não ouvis»: quem é que já disse isto?
| Arlindo de Magalhães |
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TELEVISÃO - Tentando recuperar os níveis de audiência perdidos (a favor da SIC), a RTP 1 e 2 propõe oferecer aos telespectadores os melhores filmes, as melhores séries, os melhores documentários e demais programas recreativos e culturais. Para isso, muito recentemente esteve na grande feira europeia de televisão, em Cannes, no sul de França, o MIP-96, onde comprou muitos filmes de sucesso, de que se destacam «Papá para Sempre» (com Robin Williams), «Imperdoável» (o premiado western de Clint Eastwood), a saga (até agora!) completa de «Aliens» (três filmes de terror e ficção-científica com Sigourney Weaver), «Batman 2», «Crocodilo Dundee», «O Padrinho 3» e «Star Trek», entre outros. Ainda em negociações com Steven Spielberg, a RTP também poderá garantir as exibições de «Parque Jurássico» e «A Lista de Schindler», e algumas séries de sucesso, entre elas uma que se baseia nos «Ficheiros Secretos». A seu tempo darei mais detalhes. Para já, vejamos o que poderemos ver esta semana em matéria de cinema. Não há nenhum destaque especial, embora «Um Sedutor em Apuros», uma comédia assinada por Roger Donaldson em 1990, já anunciada anteriormente na RTP 1, volte a ser programada (sexta-feira, dia 17). Robin Williams é Joey O'Brien, um activo e ambicioso vendedor de automóveis, que não tem uma amante, mas sim três, e um belo dia verifica que mantêr essa situação lhe pode sair muito caro. É quando Larry (Tim Robbins), o ciumento marido de uma delas, por sinal colega de Joey, aparece no «stand», armado de metralhadora, disposto a descobrir com quem ela o engana. Para apurar toda a verdade, mantém empregados e clientes do «stand» como reféns. As persuasivas qualidades de vendas de Joey resolverão tudo a bem e proporcionarão momentos bem divertidos a todos quantos pensem ver este filme.
Outros filmes que ainda pode ver: «A
Grande Golpada», acção de David Green (1988),
com Phil Collins e Julie Walters (RTP1, sábado,
18); «Muriel», drama de Alain Resnais (1963),
com Delphine Seyrig e Jean-Pierre Kérin (TVI, sábado,
18); «The Doors-O Mito de uma Geração»,
docudrama de Oliver Stone (1991), com Val Kilmer e Meg Ryan: este
filme traça a ascensão e queda dramática
de Jim Morrison, líder e vocalista do célebre
grupo pop-rock americano (SIC, domingo, 19); «Raça»,
drama de Augusto Fraga (1961), com Teresa Mota, Paulo Renato,
Carmen Mendes e Rui de Carvalho: as vicissitudes duma família
burguesa e os conflitos surgidos entre dois irmãos que
ignoram o seu parentesco (TVI, domingo, 19); «Ramrod»,
western de Andre de Toth (1947), com Veronica Lake e Joel
McCrea (RTP2, terça, 21).
VÍDEO -
Se a selecção televisiva desta semana não
for do seu agrado, sempre pode optar por substitutos em vídeo.
Assim, sugiro a divertidíssima comédia de Chris
Columbus, «Nove Meses», com Hugh Grant a viver
momentos de autêntico pavor ante a notícia de que
vai ser pai. Ainda com Julianne Moore, Jeff Goldblum, Tom Arnold,
Joan Cusack e Robin Williams, esta é uma comédia
conservadora que defende os valores da família unida e,
sobretudo, bem reproduzida. Columbus, produtor, argumentista e
realizador de sucessos («Sozinho em Casa 1 e 2»
e «Papá para Sempre»), escreve um enredo
com uma mensagem para os tempos actuais: um casamento não
se consuma se não estiver acompanhado de uma boa porção
de filhos chorões, famintos e brincalhões. Disponível
nos vídeoclubes, esta produção da 20th
Century Fox é distribuída por Castello Lopes
Vídeo.
... E FORA DE CASA
Em 10 de Dezembro de 1994, duas semanas depois de ter vendido para o cinema os direitos do seu livro autobiográfico «Leaving Las Vegas», John O'Brien, um escritor americano de 34 anos, ex-alcoólico, suicidou-se com um tiro na cabeça. Antes, havia conseguido do produtor executivo Stuart Regen e do realizador inglês Mike Figgis a promessa de que não converteriam num filme de final feliz a história de Ben Sanderson, um fracassado argumentista de Hollywood, que, depois de perder a família, os amigos e até o trabalho, vai a Las Vegas (capital do jogo, onde os bares nunca encerram) para se matar, bebendo. Alí encontrará Sera, um prostituta também no limite da vida, de bom coração que tentará redimí-lo e que, o não conseguindo, respeitará o seu destino e ficará a seu lado até que, afogado em álcool, morrerá de um delírium trémens na tentativa de fazer amor com ela. Desde o primeiro momento, Figgis cumpriu a promessa e fez um filme sem concessões nem moralidades, duro e desasossegante, emocionante e até comovente em alguns momentos, sobre o processo de destruição de um homem que não é capaz de manter uma história de amor tão generosa como impossível. O constante deambular de Ben pelas ruas em busca de álcool, entre convulsões e alucinações, permite a Figgis (que muitas vezes usou o steadicam, câmara na mão, para conseguir um efeito documental) mostrar uma imagem inédita e inquietante de uma Las Vegas confusa e sórdida às vezes, vista através dos olhos entorpecidos do protagonista.
Rodado com reduzido orçamento
e poucas esperanças, «Morrer em Las Vegas»
converteu-se numa das grandes surpresas da temporada, colocando
o par protagonista, Nicolas Cage e Elisabeth Shue, como dois dos
mais firmes aspirantes a obter o Oscar. Nicolas Cage protagoniza
o papel mais completo e comprometido de toda a sua carreira, conseguindo
uma convincente interpretação de um bêbado
terminal, sem excessos nem sobreactuações. Há
uma cena antológica, quando Ben tenta passar um
cheque e não consegue assiná-lo porque lhe treme
muito o pulso. Por tudo isso mereceu sem reticências o Oscar
de Melhor Actor pelo seu desempenho inigualável. Elisabeth
Shue, também no seu melhor papel, compõe uma prostituta
agressiva e terna ao mesmo tempo e cheia de sensualidade. Além
de dirigir, Mike Figgis (de quem já vimos o thriller
«Ligações Sujas», «Stormy
Monday» e «A Versão Browning»),
assina a adaptação cinematográfica e a partitura
musical. Segundo o próprio realizador, «Leaving
Las Vegas» é a história de "duas
pessoas que aceitam as cartas que lhes tocaram para viver e através
do amor, aprendem também a aceitar-se um ao outro".
A fotografia é de Declan Quinn. Entre os demais actores
encontramos, além do próprio Figgis, Bob Rafelson,
outro realizador de sucessos, Valeria Golino, Laurie Metcalf e
Julian Sands, este último no curto papel de chulo da protagonista.
Distribuído por Atalanta Filmes, este é um
filme obrigatório, que podemos ver nos Cinemas Cidade
do Porto.
| VASCO MARTINS |
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