| Cultura: |
| A mitologia é o mundo do espírito
com a prevalência do humano; como o religioso é o mundo do espírito com a prevalência do divino. |
Almada-Negreiros, Prometeu (1935) |
1. O texto donde retiro estas palavras, sob o título Prometeu, subtitulava-se "Ensaio espiritual da Europa", e regressou ao meu espírito incompletamente desperto - todos os espíritos são incompletamente despertos, uns mais (ou menos) do que outros, até que alguém ou algo os desperte - a propósito da realização no Porto de um Colóquio internacional sobre o poeta, pintor e pensador José de Almada-Negreiros, que se auto-intitulou "poeta de Orpheu, futurista e tudo", na expressão provocatória com a qual apresentava o iconoclasta "Manifesto anti-Dantas", ultimamente tão divulgado, justamente por contestatário e iconoclasta, em prejuízo de outros textos mais profundos, mais sérios (até na crítica que exercem) e incomensuravelmente mais reflectidos e mais assumidos do próprio autor. Raramente os autores nos são impostos (não digo "se nos impõem", porque isso depende da sensibilidade e da capacidade de cada um) pela reflexão ou pela profundidade. São-nos geralmente impostos pelos seus aspectos marginais ou episodicamente contestatários, que são aqueles que os espíritos menos despertos e mais interesseiros dos comunicadores sociais buscam ou rebuscam nos escritos ou nos ditos, para deslumbrarem a opinião pública, criando-lhe sem o saberem (e portanto sem terem culpa formada) ideias falsificadas, incompletas e redutoras sobre os seus autores. É isso que acontece com Almada, como aconteceu com Bocage (de que se divulgam as anedotas), com Gil Vicente (de quem se divulgam algumas passagens mais "populares"), e com tantos outros vultos inestimáveis e inestimados da nossa cultura.
É, de facto, assim com Almada. Mesmo agora, o Colóquio não mereceu os favores da comunicação social, apesar de reunir alguns dos mais notáveis estudiosos sobre o autor. Dá a impressão que para o público jornalístico, fabricado pelos próprios grandes media à sua imagem e medida limitada e curta, pouco importa uma das figuras determinantes, talvez ainda incompletamente descoberta, apesar de ter chegado às eras da televisão (onde se pode recordar uma das mais transcendentes entrevistas algum dia transmitidas pelos ecrãs), da moderna cultura portuguesa. Talvez falte ainda a Almada a fortuna de Pessoa. Um crítico espanhol chamava-lhe "esse grande desconocido fuera de Portugal". Poderíamos reduzir o lamento à nossa própria dimensão: esse grande desconhecido mesmo em Portugal.
2. O que atrás escrevi é apenas marginal. O essencial gostava de o transmitir a seguir, embora certamente não consiga fazê-lo. Assenta nos seguintes três axiomas: Almada era crente. Almada não era cristão assumido. Almada manifesta uma visão do mundo decalcada sobre a da teologia cristã.
Quanto se foi dizendo, a várias vozes, numa interessante visão polifónica, ao longo das elucubrações dos especialistas presentes inscrevia-se, para além dos aspectos artísticos e poéticos, quase sempre em perspectivas filosóficas e teológicas afirmadas, explícita ou implicitamente, por pensadores e teólogos da tradição cristã.
Tento dar alguns exemplos. O primeiro é o do referido ensaio sobre Prometeu. Esta figura mítica é, evidentemente, o homólogo grego da interpretação bíblica do pecado original: o homem que se quer contrapor aos deuses. Prometeu quer roubar aos deuses o conhecimento. A "árvore" do paraíso era a árvore da ciência do bem e do mal. O pecado consistiu em que o homem quis ser como Deus: "sereis como deuses", diz o tentador. Será assim o homem que se quer bastar a si próprio, tornar-se o deus de si mesmo e o deus de todas as coisas. Este continua a ser o pecado original de hoje, porque o homem Adão é o homem de ontem e o homem de hoje, a não ser que se torne Homem-novo. Quantos homens de hoje se tornaram verdadeiramente "homens-novos", como dizia S. Paulo, instaurados na justiça e santidade verdadeiras?
Escreve Almada: "É esta a palavra que encerra toda a tragédia de Prometeu: o conhecimento". Por isso, conclui ele, Prometeu é "a personagem máxima do humano, é ao mesmo tempo o herói e a vítima do conhecimento". Quer dizer: Prometeu é a dimensão humana do Homem, é o homem que se basta (mas não consegue bastar-se), é o homem não-salvo, e que por isso necessita de Salvação. Estamos no âmago do sentido cristão da necessidade da Redenção.
Na visão de Almada, ele é o enigma da Europa. A Europa vive da contradição dos seus opostos: um é a ânsia e a procura do conhecimento; outro é a fé, entendida como a constante procura do Universal. Só há duas maneiras de atingir o universal: o conhecimento e a fé. Uma humanidade de génios e uma humanidade de santos, Prometeu e Cristo. E sintetiza: "Prometeu é o universal pelo conhecimento; Jesus Cristo é o universal pela fé".
Mas o mais inesperado (será?) e o mais estonteante para quem quer reduzir o pensamento a ideias fixas e feitas é que Almada encontra o fulcro, o centro, a equidistância (que sempre procurou no seu desenho e pintura) de toda a questão que ele próprio levantara, e que é a questão não apenas do sentido de toda a cultura da Europa, mas de toda a humanidade: Jesus Cristo não contraria a descoberta de Prometeu (o valor do humano), apenas completa juntando-lhe o divino, reunidos no mesmo edifício, formando a mesma unidade como nas catedrais medievais.
Atente-se cuidadosamente nesta frase de Almada (nascida apenas da preocupação de analisar o enigma da Europa, portanto sem nenhuma preocupação teológica: "Cristo reconcilia o Humano com o Divino e a seguir a humanidade acertará o material com o espiritual e acabará por concertar tudo em todos". Interessante mescla entre a visão paulina (Cristo será tudo em todos) e uma visão humanista e universalista, no entanto incluível na visão da teologia cristã mais humanística, segundo a qual é pelo próprio homem, e portanto pela humanidade inteira, que Cristo realiza a sua acção salvadora. Será outra versão da ideia igualmente paulina mas universalizada do Corpo Místico de Cristo: é na humanidade que Cristo se realiza; ela é a continuidade da sua presença no mundo. É portanto pela acção do homem que se realiza a obra de Deus.
3. Outro aspecto interessante das ideias de Almada é a sua constante personalista: coloca a centralidade da pessoa humana como fundamento de todo o sentido vital do homem. E, curiosamente, também bebe no texto evangélico o fundamento das suas convicções. Diz, por exemplo, comentando o preceito "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti": Cristo conhece perfeitamente a dignidade humana, sabe perfeitamente que o único que serve de verdade a personalidade humana é a própria liberdade da acção pessoal. Mais adiante, esta inquietação quase obsessiva pela pessoa humana exprime-se da seguinte forma: A Pessoa humana é um negócio particular de cada pessoa humana. É um complexo de material e de espiritual exactamente como a própria vida. E, numa preocupação de definir o relacionamento do indivíduo e da colectividade: Cada pessoa humana, capacitada da sua inteira unidade própria e da inteira unidade própria da colectividade não pode deixar de tender a pôr-se, a si e à colectividade, nos seus respectivos e determinados campos de acção.
De tudo isto, que importa concluir? Que o homem pensador que foi Almada, não assumidamente cristão, percorre os humnanos caminhos da reflexão, da meditação e da filosofia paralelamente próxima, quase convergente, com os caminhos de uma interpretação teológico-cristã da existência humana. E certamente com a mesma sinceridade de coração, na busca, como ele diz, do Universal, do Absoluto.
A fé não é alheia de nada que seja humano.
Tudo o que é humano não é alheio à fé.
| C.F. |
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