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Talvez este reconhecimento como património cultural da humanidade possa trazer à cidade algo que lhe faltava: a consciência aguda e sempre presente, por parte dos responsáveis e dos habitantes, do seu histórico-cultural do burgo portuense: Essa consciência tem estado esquecida ou jaz adormecida no meio das preocupações da roda incansável dos dias. Saberemos olhar para os monumentos, testemunhos presentes de um passado, glorioso ou doloroso? Ler neles o fruto do trabalho, da fé e da inquietação dos nossos antepassados? Apreciar neles as raízes invisíveis daquilo que somos?
Tenho registado numerosos testemunhos de gente de outros países que algum dia nos visitou. O deslumbramento perante a grandiosidade e a beleza, mesmo que pobre, desse "velho casario, que se estende até ao mar" escapa-se sempre de um inesperado e vulgar comentário: lindo! A realidade supera sempre a expectativa. Só o que é pobre é verdadeiramente nobre e belo, porque o grandioso e rico deslumbra, mas o simples encanta e cativa. Convida a partilhar. Não são raras as expressões de inesperado assombro, que se transformam facilmente em apreciações hiperbólicas: uma das paisagens urbanas mais espantosas em todo o mundo. A nossa familiaridade com uma tal paisagem torna-a demasiado familiar, e por isso demasiado banal. Tendo vivido no seu interior durante anos, e percorrido os seus caminhos durante décadas, é difícil possuir o distanciamento crítico para uma apreciação em que não se manifeste a excessiva familiaridade e o lamento pelo seu abandono e pela incompreensão e falta de consciência de património das gentes que aí vivem. Certo, as culpa não é delas, é dos responsáveis que pedagogicamente deveriam ter insistido, oportuna e inoportunamente, em formas de vida e convivência compatíveis com a qualidade daquele espaço. Muitos o fizeram e vêm fazendo. Muitos outros se esqueceram e surgirão agora, procurando tirar dividendos de um reconhecimento que sabe a bênção dos céus.
Importaria escalonar uma série de dados, frequentemente obnubilados nas declarações públicas: o centro histórico do Porto possui umas largas dezenas de monumentos de grandíssima valor artístico, testemunho de ancestrais épocas: tem monumentos românicos, tem jóias de gótico, tem arcos renascentistas, e sobretudo tem uma profusão concentrada de barroco, em arquitectura e em decoração - a talha barroca - que não possui similar em nenhum outro local do país. A jóia desse barroco é uma quase invisível Igreja dos Grilos, tida melhor exemplar do barroco inicial em toda a Península, e actualmente em fase de restauro. Desafio o leitor e encontrar em qualquer parte da cidade uma qualquer indicação que a identifique. Mas a Sé Catedral, a complexo de São Bento da Vitória, a Igreja e Torre dos Clérigos, o complexo de São Francisco e S. João Novo, as Igrejas da Misericórdia e de Santa Clara (esta sim, identificada, embora de forma indefinida e tímida) - tudo são motivos que fazem deste espaço um escrínio de objectos de arte, tão valiosos quanto inapreciados.
Como dissemos, o espaço considerado agora como património da Humanidade engloba cerca de uma centena de imóveis classificados como de interesse como património colectivo, entre os quais os monumentos nacionais (porque não são apenas estes que valem como dados culturais).
Associando-nos à "Tabula gratulatoria" de quantos se associam no incontido entusiasmo deste reconhecimento mais que merecido, toma a liberdade de sugerir algumas medidas que, para além de toda a recuperação que tem vindo e ser feita, podem rapidamente ser implantadas no terreno:
a) Identificação de todos os monumentos e edifícios de interesse patrimonial, através de placas adequadas que informem ao menos sobre a designação do monumento ou edifício, datação e classificação. Não é nada de novo, já foi aqui sugerido, mas está por fazer, salvo alguns casos de iniciativas individuais. Esta acção vale por quantos cartazes e folhetos se têm por aí implantado e distribuído com critérios discutíveis.
b) Que se ponha no terreno uma campanha, bem planeada e estruturada, de limpeza dos monumentos, das ruas e das actividades marginais que por aí pululam. Algo tem sido feito messes domínios, mas o que se fez é insuficiente, sobretudo porque lhe falta uma qualidade que as nossas autoridades olvidam facilmente: a persistência. Não raro se lançam campanhas oportunas, mas, passados os primeiros prospectos animosos e as primeiras atitudes voluntariosas, cai-se na decrépita passividade.
c) Um centro histórico sem pessoas não é um centro histórico vivo. A defesa e promoção da qualidade de vida das populações é um dos valores essenciais deste projecto. Por isso, importa realizar uma acção pedagógica de sensibilização das populações para a dignidade e responsabilidade que sobre elas impendem neste momento e no futuro. O esforço pela higiene e limpeza, o valor da preservação dos edifícios, ainda que modestos, o gosto pela apresentação educada e recepção acolhedora aos visitantes (turistas ou residentes), uma disponibilidade nem servil nem exploradora em relação aos clientes, a promoção de actividades tradicionais e características da região, que substitua a venda de bugigangas, objectos de plástico e rádios de pilhas, sempre os mesmos em todo o lado, a sugestão de uma gastronomia tradicional nas casas da especialidade em vez da comida de plástico - enfim, um sem-número de pequenas coisas que darão certamente muito trabalho a ensinar, mas que serão a expressão cultural actual da força tradicional que o espaço possui.
| C.F. |
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Definitivamente, não há rival possível no campo da animação que se possa confrontar com a Disney. «O Corcunda de Notre Dame», sua 34ª longa-metragem de desenhos animados, dá outra prova do domínio de seus artistas num terreno em que, tal como fica explícito no filme, ainda ficam muitas coisas por dizer.
Depois de «Pocahontas» e antes de «Hércules», filme da Disney já em produção, Walt Disney Pictures volta aos nossos ecrãs com um novo musical em desenho animado. Desta vez para nos contar a história de «O Corcunda de Notre Dame», produção que reune quatro dos principais artífices que participaram em «A Bela e o Monstro», responsáveis de que este super-êxito fosse o primeiro filme dos Estúdios Disney nomeado para o "Oscar" de Melhor Filme no ano de 1991. O novo trabalho, inspirado na novela épica de Victor Hugo (escritor francês, 1802-1885), publicada pela primeira vez em 1831, continua sendo fiel à mais pura tradição Disney, ou melhor dizendo, à combinação de grandes doses de comédia e fantasia, aliada à aplicação das últimas tecnologias em imagens geradas por computador.
Sobre um fundo negro ouve-se o coro
(da Royal Opera de Londres). De repente, a câmara começa
a separar as nuvens que cobrem Paris. Do meio delas surgem, em
todo o seu esplendor, as torres da catedral de Notre Dame. A obscuridade
e a luz, o bem e o mal, termos confrontados com os que os autores
de «O Corcunda de Notre Dame» desenvolvem ao
longo dos quase noventa minutos que dura o filme. Uma hora e meia
única, magistral, que acumula todos os prós
(que são muitos) e nenhum dos contras (que são
escassos, apesar do que digam alguns) que converteram os Estúdios
Disney na maior fonte de produções animadas da história.
Chegar à conclusão de que «O Corcunda de
Notre Dame» é uma nova obra prima da animação,
à altura de «Branca de Neve e os Sete Anões»,
«Pinóquio», «A Bela e o Monstro»
ou «O Rei Leão», é relativamente
fácil. O que torna admirável é a decisão
de todos os implicados no filme por pisarem novos terrenos, por
arriscar-se a adaptar um romance como o escrito por Victor Hugo
e por expôr todo ele nas imagens mais arrebatadoras que
os ecrãs de cinema terão visto este ano.
NOVO HERÓI.
A história é sobejamente conhecida. O seu protagonista
é Quasimodo, um sineiro que vive exilado na mais
alta torre da catedral de Nossa Senhora de Paris e que anseia
tomar parte do fascinante mundo exterior que rodeia a sua torre.
A história desenvolve-se com o pano de fundo de Paris do
século XV. O protagonista deve o seu isolamento ao seu
tutor, Claude Frollo, um malvado juiz obcecado em destruir
a Cidade dos Ciganos e que foi o responsável pela morte
da mãe de Quasimodo. Passam vinte anos e a criança
é já um homem forte, ágil e ansioso por sair
e misturar-se com as pessoas que vislumbra a seus pés.
Mas Frollo proibiu-o de alguma vez abandonar a sua torre
(pois podia assustar as pessoas com a sua deformação
física - a enorme corcunda - e a cara de monstro), e assim
acaba por transformar três gárgulas do edifício
- Victor, Hugo e Laverne - nos únicos
companheiros e conselheiros.
No dia do grande espectáculo teatral que antecede o "Festival dos Bobos", Quasi (como o tratam carinhosamente os amigos de pedra) decide juntar-se à celebração e perde-se no frenético ambiente de um mundo enlouquecido. Ali conhece Esmeralda, uma maravilhosa bailarina cigana, e Febo, o novo e heróico Capitão da Guarda.
"Bem no fundo do complexo relato
de Victor Hugo", afirma o produtor Don Hahn («A
Bela e o Monstro» e «O Rei Leão»),
"há uma história sensível e comovedora.
É a vida de um pobre pária, um rosto aterrador que
esconde uma alma maravilhosa".
O PROJECTO.
A idéia de converter o romance de Victor Hugo, escrito
aos 28 anos de idade, num filme de animação, surgiu
no ano de 1993 por iniciativa de David Stainton, vice-presidente
dos assuntos criativos dos Estúdios Disney. A idéia
foi bem acolhida pelo argumentista Tab Murphy, nomeado para o
"Oscar" pelo seu trabalho em «Gorilas
na Bruma», que foi o encarregado de simplificar e condensar
a complexa novela.
Imediatamente se puseram mãos à obra. Sucederam-se viagens a Paris durante o Outono de 1993, com a finalidade de se conhecer bem Notre Dame ou o Palácio da Justiça, para embeber-se da atmosfera da cidade e assim transmití-la no filme.
O realizador Gary Trousdale acrescentou
ao projecto o seu sentido de humor, o seu talento artístico
e sensibilidade. Veterano da Disney, há mais de doze anos
que trabalha em áreas que vão da animação
de efeitos até à direcção de películas,
tais como «A Bela e o Monstro», «A Pequena
Sereia» e «Aladdin». Na realização
também participa Kirk Wise; os seus inícios como
actor levaram-no a trabalhar estreitamente com os actores que
emprestaram os seus talentos vocais. Como em todos os filmes Disney,
aparte a força das suas imagens e das canções,
a importância do filme apoia-se nos actores que dotaram
de voz os personagens. Na versão original, as vozes dos
protagonistas devem-se a Tom Hulce (Quasimodo), Demi Moore
(Esmeralda), Kevin Kline (Capitão Febo) e
Tony Jay (o despótico Frollo).
A MÚSICA.
Desde o início, este novo desenho animado projectou-se
como um ambicioso e sofisticado musical. O estúdio confiou,
uma vez mais, na equipa ganhadora de vários "Oscars",
formada por Alan Menken e Stephen Schwartz. Ainda estavam trabalhando
em «Pocahontas», quando empreenderam a difícil
tarefa de pôr em música o romance de Victor Hugo.
Esta é, sem lugar para dúvidas, a melhor partitura
jamais composta para uma produção Disney. Dizer
isto depois do seu compositor coleccionar "Oscars"
como quem colecciona selos (tem oito) equivale a render-se à
evidência de que o seu génio musical não parece
ter nenhum tipo de limites. Compondo-se de algumas canções
de impressionante perfeição, como a inicial "Bells
of Notre Dame", aproximações ao Broadway
mais festivo em "A Guy Like You", o divertido
carrocel francês de "Topsy Turvy", e outras
baladas clássicas dentro do seu reportório como
serão "Someday" e, sobretudo, a extasiante
"God Help the Outcasts", esta banda sonora contém
um score fantasmagórico e tenebroso repleto de orquestração
e coros demoníacos que podem fazer com que algumas crianças
tenham "pesadelos (depois do Natal)".
"Out There" é uma das "canções-chave" da banda sonora e já foi classificada como "uma peça comovedora que reflecte o grande desejo que tem Quasimodo de ser como os demais e de que o aceitem". Opinião que, de algum modo, reflecte a mensagem da última grande obra dos Estúdios Disney, agora disponível nos cinemas da cidade em versão original e dobrada no nosso Português, numa distribuição Lusomundo Audiovisuais (também responsável pela distribuição da Banda Sonora nas duas versões).
| Vasco Martins |
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