| Cultura: | ||
| Obstinação(do lat.obstinatione), s. f. Teima; pertinácia; tenacidade; persistência perseverança; firmeza. |
| (Dos Dicionários) |
1. Boletim astrológico. É conhecida a sedução que a astrologia, talvez a mais antiga das preocupações científicas do homem, exerceu sobre personalidades determinantes do saber e da cultura, entre elas a de Fernando Pessoa, que elaborou cuidadosamente o seu próprio horóscopo e o das personalidades literárias, heteronímicas e/ou heteropsicológicas que criou. Chegou, parece, a elaborar a previsão astrológica para o dia da sua morte, com o qual, aliás, não acertou, mas isso pouco importa: a astrologia não é uma ciência exacta.
Agora, o mítico Fernando Pessoa, ou qualquer outra pessoa não Fernando, desde que dotada de um mínimo de senso comum, não pode deixar de gargalhar estridulamente perante uma aberração televisiva que dá pelo nome de boletim astrológico. Inspirado, por certo, naqueles boletins meteorológicos repletos de lugares comuns e conceitos repetidos, carentes de linguagem adequada e de sensibilidade científica, surgem agora, com ares ridiculamente gradíloquos, do tipo dos antigos poemas herói-cómicos, umas previsões astrológicas verdadeiramente inauditas (embora se encontrem similares em todas as revistecas para o grande público). Elas são do tipo "esta semana você vai arrasar os corações", "os seus números da sorte são..." (os números da sorte são os mesmos para todos), ou "os que nasceram entre os dias tal e tal devem cuidar do fígado", e similares.
A linguagem estereotipada que é cuidadosamente seleccionada para este tipo de afirmações, suficientemente genérica para ser sempre verdadeira ou falsa, segundo as conveniências e as circunstâncias, como convém a quem faz disso uma forma de vida que explora as expectativas de qualquer comum humano inevitavelmente marcado pela incerteza quanto ao futuro, constitui a mais cabal amostragem do vazio de sentido, uma espécie de nomilalismo em estado puro, que pode aplicar-se a tudo mas nunca traduz nada. Os ostentados ares dos protagonistas, entre o pretensiosismo e um exibicionismo adolescente, repletos de inefáveis certezas diáfanas que rondam a completa vacuidade, podem parecer inócuos e até divertidos. É esse o grande mal: não só não são inócuos, como são essencialmente maléficos: tornam os espíritos permeáveis à credulidade, criam ilusões infundamentadas, dão ares de verdade ao que são meras conjecturas, generalizam as legítimas expectativas de pessoas ingénuas e de espíritos fracos, transformam ideias feitas em dados falsamente concretizados.
São, em suma, o disfarce da mentira transformado em objecto mediático, tanto mais pernicioso quanto é aceite sem crítica nem ponderação, porque não a merece, por parte da população menos instruída (ou com menor literacia, como agora dizem).
São, portanto, objectos de elevada perigosidade social, que no entanto não podem ser condenados como tais, pelo seu carácter genérico e incaracterístico.
Mas podem e devem ser denunciados.
O Fernando Pessoa, que acreditava na influência dos astros (que é plausível e até constitui umas das crenças mais primitivas do homem e uma das "ciências" mais praticadas quando não era possível a ciência, e constitui até um dos parâmetros que rege ainda hoje a vida das populações rurais - colheitas, nascimentos de pessoas e animais, tratamento dos vinhos, sementeiras, etc.) deve estar a rir-se a bandeiras despregadas do despropósito em que transformam a astrologia, acabando por lançá-la no descrédito. Mesmo com um forçado e loiro sorriso por trás.
2. As risadas televisivas. Primeiro importadas, agora imitadas das produções estrangeiras, proliferam nas televisões, nas chamadas séries cómicas (que alguns agora progressisticamente chamam "sit-coms") as risadas gravadas, colocadas estrategicamente nos momentos em que se supõe que o público devia rir. Como a comicidade anda por vezes distante de tais produções, e porque o verdadeiro sentido do cómico e o vigor da sátira, nem sempre, ou quase nunca, é redutível à risada sonora (apenasgargalhamos das anedotas que têm pouca piada ou que são escabrosas ou mal intencionadas), tais risadas constituem um insulto velado ao espectador. É como se nos dissessem: "Riam agora, seus estúpidos! Não vêm que aqui está a piada?". No teatro ao vivo, recorria-se ancestralmente a um estratagema conhecido (já largamente utilizado pelo próprio Gil Vicente): quando o público não ria, soltava-se um pequeno palavrão, e então era certo e sabido que o pessoal gargalhava, animando os actores com a sensação de que estava a gostar. Bastava dizer "essa merda" em vez de "essa coisa", ou, como fez o o velho Gil, dizer "a puta da badana", ou "caga na vela", para que a hilaridade da assistência recompensasse geberosamente o esforço dos actores.
Agora dão-nos risadas já enlatadas, como salsichas ou comida para cães. Assim, disfarçadamente envolvido em imperceptível insulto, o respeitável público televisivo fica dispensado até de rir. Ora quando nos dispensam de rir estão a estupidificar-nos. Que é no fundo o que pretendem os programas televisivos mais "populares". Pretendem e fazem.
3. Chicotadas. Era inevitável: equipa que perde, treinador que se vai para casa. A isto chamaram os teóricos da bola "chicotada psicológica". A expressão ouve-se na rua, nos cafés, nos mais diversos locais de trabalho, nas escolas e provavelmente até no parlamento e no Conselho de Ministros.
Nunca foram, porém, explicadas devidamente as componentes da referida e conhecida chicotada. Para que haja chicotada são necessários ao menos cinco elementos: um chicote, um indivíduo ou máquina que o maneje; o violento e agressivo gesto de o levantar e fazer cair; o sofrimento que resulta dessa acção, o local da sua aplicação, bem como os seus efeitos físico-psíquicos; a identificação da vítima que sofreu e as consequências do impacto; a quantificação e a qualificação de tais consequências. Todo este vasto universo terá que ser compatível com o qualificativo de "psicológica".
Resulta, assim,sem dúvida complicado identificar cada um destes elementos na chamada chicotada psicológica. Será que alguém me pode dar uma ajuda?
Vamos por partes.
O que é o chicote? O despedimento, a renúncia, o ir para a rua, o bater com a porta?
Quem maneja o chicote? A direcção? Os sócios? O presidente? a Assembleia Geral?
Como se define o acto e o sofrimento da chicotada? Quem foi que a sofreu? O treinador? A equipa? Os jogadores? Os dirigentes? Todos à uma? Ninguém? Sobre que local do corpo ou do espírito recaiu a acção? Que efeitos produziu? Quem foi a vítima? Em que consistiu no fim de contas toda a situação criada? Foi um castigo? Foi uma promoção? Foi uma valorização? Foi apenas uma "mediatização"?
Permanecem ainda no ar outras inquietantes perguntas: se um bicho chicoteado dará maior rendimento; se ficará mais motivado para a acção; se o acto falhado de chicotear não resulta mais da raiva de quem o realiza do que da real necessidade de o realizar.
Dizem-nos que os bons cavaleiros não chicoteiam nem esporeiam os cavalos, mas que os sabem conduzir com suavidade e por oportunas motivações, que têm a ver mais com a capacidade de interacção do que com o exercício da violência. No mundo do futebol, tão rico como endividado, não se aplicam as regras de bem cavalgar, mas as de bem chicotear.
Verifica-se também que no início da época os clubes de esmifram todos a buscar treinadores e jogadores estrangeiros, produtos importados, quando os têm cá dentro, de idêntica qualidade. No princípio os de dentro não servem, mas depois até já servem para substituir os que se vão.
Grande vaidade também é esta, diria o sábio.
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De 6 a 12 de Dezembro
TELEVISÃO - Em
tempo festivo, a programação cinéfila também
se apresenta com o máximo de qualidade. Assim, «O
Crepúsculo dos Deuses» é o filme seleccionado
na rubrica "O Filme da Minha Vida" desta semana
na RTP 2, e também a minha eleição.
Realizado em 1950 por Billy Wilder, este drama ambientado no universo
do Cinema é brilhantemente protagonizado por William Holden,
Gloria Swanson e Erich von Stroheim.
Começa em Hollywood, hoje. Na piscina de uma mansão luxuosa no Sunset Boulevard flutua o corpo de um homem crivado de balas. O morto conta-nos a sua história.
Sunset Boulevard é uma célebre artéria de Los Angeles, onde residem as celebridades americanas. Billy Wilder situou nela um dos mais fascinantes - e mais cruéis - apólogos sobre a grandeza e a decadência da mitologia hollywoodiana. Várias actrizes foram convidadas a encarnar a personagem da estrela decadente. Todas recusaram, achando-se demasiadamente visadas. O papel foi confiado, por fim, a Gloria Swanson, e cabia-lhe perfeitamente: lançada por Mack Sennett, ela de facto conheceu a glória na época do cinema mudo e um dos seus últimos sucessos foi «My Queen», de Erich von Stroheim. Um excerpto desse filme figura em «O Crepúsculo dos Deuses», e é o próprio Stroheim (aqui sob o nome de Max von Mayerling) que o projecta! Dá para perceber até que ponto a realidade e a ficção estão ligados neste psicodrama. O humor (negro) surge de permeio, pois toda a história é narrada por um cadáver, criando um efeito de mórbido distanciamento no mínimo saboroso. Reconhecemos aí a mão de Billy Wilder, realizador de origem austríaca (nascido em 1906), discípulo de Ernst Lubitsch, mas também de Stroheim, que não rompeu totalmente com o expressionismo. O filme que vamos poder ver na noite de sábado (dia 7) resulta uma obra enfeitiçante, rica de sequências oníricas (como por exemplo, o enterro do chimpanzé), uma verdadeira homenagem à mitologia do cinema na forma de uma oração fúnebre.
Billy Wilder evoluiu em seguida para o cómico áspero, divertindo-se no equívoco e no jogo duplo com uma saúde deleitável. Dele ainda podemos ver o melancólico «O Segredo de Fedora» (1977), que retoma em surdina alguns efeitos de «O Crepúsculo dos Deuses». Este drama sobre a vida de uma famosa actriz, interpretado pelo mesmo Holden e coadjuvado por Marthe Keller, passa também na RTP 2, na sexta-feira (dia 6).
Outros filmes para ver: «Os
Intocáveis», acção, de Brian De
Palma (1987), com Kevin Costner e Sean Connery (RTP 1,
dia 6); «Dois Estranhos, Um Destino», drama,
de Sir Richard Attenborough (1993), com Anthony Hopkins
e Debra Winger (TVI, dia 11).
VÍDEO - Com
a maquinaria da Dreamworks de SKG em marcha, especialmente
no departamento de cinema de animação, «Balto»
apresenta-se como uma antecipação do que serão
capazes de oferecer os novos mega-estúdios de Steven Spielberg.
Ainda que não reste a menor dúvida de que algum
ratinho russo (Fievel) se tenha metido nos barcos que se
dirigiam para a América do Norte, poderia-se afirmar que
«Balto» é a primeira longa-metragem de
animação auspiciada por Spielberg baseada num facto
verídico. Prova disso é a estátua que procuram
em Central Park uma velha dama - a maravilhosa Miriam Margolyes
de «A Idade da Inocência» - e a sua neta.
Enquanto passeiam desenrrola-se o relato animado de Balto,
um raçado de "husky" e lobo que é
repudiado pelos seus irmãos e congéneres. Mas acaba
por se tornar um herói para os habitantes da povoação
de Nome, na costa do mar de Bering. Percorrendo mais de 1.800
Kms, a distância que vai de Anchorage, no sul do Alaska,
à costa do mar de Bering, Balto chega a Nome em
2 de Fevereiro de 1925, levando os medicamentos necessários
para salvar uma população impedida de socorros por
violentos nevões. O filme foi dirigido por Simon Wells
e conta com os talentos vocais de figuras bem conhecidas: Kevin
Bacon (que empresta a sua voz a Balto), Bridget Fonda,
Bob Hoskins e Phil Collins. O vídeo está disponível
no mercado em sistema de venda directa por iniciativa da Edivídeo.
Convencido de que deve explorar o seu êxito em «Speed - Perigo a Alta Velocidade», Keanu Reeves regressa ao cinema de acção trepidante com uma fábula sobre o poder desencadeado da ciência para produzir pavorosos desastres nas grandes metrópoles. Mistura de ficção científica, suspense de acção e cinema catastrófico, «Chain Reaction - Perseguição Diabólica» é uma aposta para o cinema concebido como espectáculo de impacto. Andrew Davis (o mesmo realizador de «O Fugitivo») faz as honras na direcção.
A gasolina é substituída por uma nova fonte de energia. A Terra é um lugar sem fontes energéticas e contaminado. Conseguir um novo produto limpo, eficaz e abundante parece algo impossível, mas uma equipa de investigadores, cientistas e técnicos da Universidade de Chicago conseguem-no: produzem energia a partir da água.
Integrado nessa equipa, um jovem cientista (Keanu Reeves) conseguiu desenvolver um mecanismo para explorar as capacidades telúricas do nosso planeta, mas um belo dia descobre as verdadeiras consequências da sua experiência quando aquele cai nas mãos erradas e se torna numa terrífica arma capaz de desencadear uma catástrofe de proporções gigantescas. Acusado do sinistro, o jovem torna-se um fugitivo da justiça enquanto tenta recuperar o mecanismo. Para isso é ajudado pelo seu velho mestre (Morgan Freeman) e uma colega (Rachel Weisz).
Fortemente influênciado no anterior sucesso de Andrew Davis, «O Fugitivo», bem como em «Speed», esta «Perseguição Diabólica» tem uma história eficaz, embora previsível, contando com um esmagador desdobramento de acção e efeitos especiais: uma nuvem de fogo que persegue a moto de Keanu, uma perseguição pelas ruas e pontes de Chicago, corridas de moto pelas águas geladas de um rio, lutas num museu, etc.. O resultado é que conta: cativar o espectador com ruídos poderosos e imagens impactantes. Com efeito, Reeves recordará para sempre este trabalho como um dos mais arriscados da sua carreira, especialmente por um salto em moto sobre uma explosão que esteve a ponto de custar-lhe um desgosto mais sério para lá do exigido pela ficção do filme.
Produzido pela Twentieth Century-Fox e distribuido pela Filmes Castello Lopes, «Perseguição Diabólica» tem todos os ingredientes capazes de prender a atenção do espectador do primeiro ao último fotograma.
| Vasco Martins |
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