Cultura:

NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO E CULTURA

Escola, professores e greves

Estranhas são as greves dos estudantes que, para defender interesses próprios têm que combater interesses de outros estudantes. Mais curioso é que as greves não são contra a escola, nem contra o ensino, nem contra nada do presente. São contra o que previsivelmente lhes vai acontecer no futuro. Por isso, como qualquer greve que se preza, são contra o ministro, que é a face visível de um universo invisível

Tudo tem raiz naquela "pequena" alteração prevista na Lei de Bases do Sistema Educativo que permitirá que os diplomados pelas Escolas Superiores de Educação possam leccionar todos os anos do actual "Ensino Básico", isto é, desde o primeiro até ao nono ano de escolaridade.

É um novo resultado de uma certa preversidade instaurada no sistema pela ainda actual Lei de Bases, ao estabelecer a identificação entre ensino básico e ensino obrigatório. A referida preversidade, da qual não se terão dado conta os legisladores da altura, de tal identificação tem vindo cada vez mais a ser contestada por muitos teóricos e técnicos, para não falar dos professores, que no entanto para tais coisas, contrariamente ao que seria normal, são pouco ouvidos.

Com efeito, no nominalismo das estruturas educativas, uma coisa é ensino básico, outra ensino obrigatório. Nos países da Europa é obrigatório não apenas o ensino dito básico, mas também todo o ensino chamado secundário. Básico significa apenas que pretende lançar as bases de toda a aprendizagem futura. Obrigatório significará que todo o estudante tem o direito e o dever de frequentar os anos de ensino que as sociedades e os poderes públicos considerem indispensável para a sua formação como cidadãos.

Esta pequena diferenciação teria evitado todos os problemas que agora se vivem, e que todos resultam desta não-distinção, sobretudo o problema da preparação, graduação e classificação dos professores segundo as aptidões para um ou outro tipo de docência, tida conta de que é diverso o espírito de organização e leccionação das matérias que preside a cada ciclo.

Na presente crise, que ameaça prolongar-se e dificilmente se resolverá, ninguém se pode orgulhar da razão: não a tem o ministro, porque propõe uma alteração criadora de conflitos, fundada num conceito discutível, e que não ataca o problema fulcral; não têm os estudantes das universidades, porque assumem a defesa dos seus interesses corporativos, sem se saberem ou não quererem situar num plano global de organização da escola e da formação de professores. E fazem-no por modos e linguagem que lhes tirariam toda a razão que pudessem ter. Os únicos que (até agora) têm razão são os estudantes das Escolas Superiores de Educação, sobretudo porque têm estado calados.

O problema tem que ser colocado de forma diversa. Vamos por partes.

A tarefa e a missão das Faculdades de Letras ou de Ciências, exactas, humanas ou sociais, não deve ser a de formar professores. Deve ser a de formar licenciados nas matérias em que são competentes: em Matemática, em História, em Filosofia, em Biologia, em Física, etc. Esses licenciados, depois de o serem (e não antes), se pretenderem aceder à profissão de professores, deverão ter uma formação pedagógica específica, ao menos em dois anos: um ano de formação psico-pedagógida e didáctica de carácter geral e específico das disciplinas que querem vir e leccionar; e um segundo ano de prática pedagógica assistida nas Escolas e nas disciplinas para as quais pretendem preparar-se. Nada impede que as Faculdades criem as suas próprias escolas de formação de professores, com pessoal competente e especializado na formação de professores para as respectivas áreas. Mas não devem esquecer-se que a formação só se faz na prática, e que o mal principal da actual formação de professores é o seu carácter quase exclusivamente teórico e desenquadrado das realidades educativas, adquirido enquanto o estudante ainda não domina completamente as matérias científicas do seu curso.

Quando se decidiu atribuir a tarefa da formação de professores "exclusivamente" (embora não o seja) ao ensino superior, desperdiçou-se ou subaproveitou-se um capital de experiência que vicejou e viveu nas Escolas Secundárias e Preparatórias ao longo de muitos anos e que permitiu uma formação sólida dos professores e uma dinamização viva das Escolas.

A perda dessa experiência não foi acompanhada de um acréscimo de competência científica ou técnica. Pelo contrário: ao querer misturar espuriamente as componentes científica e pedagógica, metidas no mesmo saco ao mesmo tempo, nem se formaram licenciados competentes (falo de uma forma global) nas diversas ciências, nem se formaram professores com formação capaz nas diversas práticas pedagógicas.

Onde está, pois, a solução?

Em que as faculdades formem licenciados, cada uma em sua especialidade; que estes licenciados seleccionem os seus campos de futura actuação pedagógica; que se criem escolas, ou secções das existentes, destinadas especificamente è formação de professores em cada disciplina ou área curricular; que esta formação assuma a forma de prática pedagógica, por via de protocolos de colaboração com as escolas do ensino básico e secundário; que o candidato só seja considerado possuidor de habilitação própria para a docência ao concluir esta formação pedagógica.

Desta forma se dignificam as faculdades de letras e de ciências; destas formas se dignifica a formação de professores; desta forma se extremam as águas, isto é, a qualidade e o prestígio científico das escolas superiores e a qualidade da formação de professores.

A solução proposta pelo ministro não passa de um remendo. As soluções supostas pelos estudantes não passam da defesa irracional de interesses criados.

Uma proposta inovadora nesta matéria terá de passar por um debate entre as Universidades e pelo assumir da atitude corajosa, por parte delas, de distinguir tarefas e funções para melhorar a qualidade dos seus próprios trabalhos e dignificar o seu próprio estatuto. Uma coisa é a formação de um licenciado em Matemática ou História, por exemplo; outra a formação de um professor de Matemática para o ensino básico ou para o secundário, ou de um professor de História e Língua Portuguesa para o básico ou de História para o Secundário. São apenas exemplos, que, mutatis mutandis, se aplicam a todas as outras matérias.

Ter a coragem de assumir isto será, sim, inovar e responsabilizar pela via do rigor e da qualidade.
M. Correia Fernandes
NOTA: a propósito desta situação têm-se produzido opiniões diversas, algumas defensáveis, outras divertidas. A mais divertida, por retrógrada, de todas é a apresentada pelo Partido Popular, que defende a abolição do 12º ano! Numa altura em que a Europa já vai tornando obrigatório o ensino até um 13º ano de escolaridade, tal proposta, aliás já repetida, parece enveredar já por vias delirantes. A não ser que de "popular" o partido em causa se queira tornar "popularucho"...
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«O CINEMA EM CASA»

De 29 de Novembro a 5 de Dezembro


TELEVISÃO - Com a aproximação da tão desejada quadra natalícia, a programação televisiva oferecida pelos quatro canais (isto para quem não tem ligação à TV Cabo ou a qualquer outro satélite de recepção!) conduz-nos ao despertar do espírito de Natal. Os filmes, as séries e demais programas apresentam entretenimento e boa disposição para quem decide passar estes dias frente ao pequeno ecrã, além de estarem recheados com motivos alegóricos da quadra. A exemplo, a TVI oferece já na tarde de sábado (dia 30) uma fábula ecológica, assinada por David Grossman (1991), com Scott Grimes, Paul Williams, Elliott Gould e Shelley Duvall: é a história do pequeno Arlo Anderson (Grimes), que um dia ajuda um sapo (Williams), a salvar outros animais, que vivem num lago envenenado por produtos químicos. A sugestão de uma tarde familiar bem passada. Mas durante este mês irei sugerir os melhores filmes na televisão, vídeos e estreias nos cinemas que, de algum modo, se identificam com o período que se aproxima, preocupando-me em promover horas e momentos despreocupados.


VÍDEO - Também por esta altura as editoras videográficas distribuem para um mercado sempre cioso de novidades, filmes calmos e divertidos, como é o caso da colecção "Clássicos Universais" (em desenho animado), que a Prisvídeo lançou este mês, a mesma que integrava "O Dia em Que o Sol Bailou: A Verdadeira História de Fátima", já aqui comentado. Do presente catálogo fazem parte: "S. Francisco de Assis: O Cavaleiro de Assis", a extraordinária e verdadeira história do fundador da Ordem dos Frades Mendicantes e o inspirador das três Ordens Franciscanas; «S. Patrício: O Bravo Pastor da Ilha Esmeralda», como se iniciou a vida venturosa do santo mais popular da Irlanda; «Bernadette: Nossa Senhora de Lourdes», a história verdadeira da aparição da Imaculada Conceição a Bernadette de Soubirous, em 11 de Fevereiro de 1958; «Cristovão Colombo: A Descoberta do Mundo Novo», depois de 37 dias a navegar por mares desconhecidos, a 12 de Outubro de 1492, o Almirante Cristovão Colombo descobre a América do Norte. Estes filmes de animação foram dobrados no nosso português, especialmente dirigidos ao público mais pequeno, mas que certamente será apreciado por públicos mais crescidos. Além disso, são autênticas obras de reconhecido valor, premiadas pela Film Advisory Board Inc., como explica a fundadora e presidente, Elayne Blythe: "Estas histórias, tão bem escritas e animadas, merecem o nosso prémio, sendo do melhor que temos visto". Estes vídeos estão disponíveis apenas em Venda Directa.


...E FORA DE CASA

O mesmo acontece com as estreias nas salas de cinema. Esta é a época certa para as distribuidoras apresentarem os seus melhores filmes, aqueles de sucesso garantido, ora pela história em si ora pelos actores ou realizadores.

Multiplicar-se por todos os membros de uma mesma família é a última proeza do super-versátil Eddie Murphy, para voltar a colocar-se no pedestal dos maiores sucessos de bilheteira. No ano passado, por esta altura, Eddie Murphy era um vampiro perdido em Nova Iorque, este ano ele apresenta-se como «O Professor Chanfrado», uma nova comédia baseada (de muito longe!) numa outra deliciosa comédia protagonizada em 1963 por Jerry Lewis, «The Nutty Professor».

No seu novo filme, Eddie Murphy interpreta o papel de Sherman Klump, um pacífico cientista que após ingerir uma estranha beberagem se converte no galante Buddy Love. Aliás, Murphy interpreta também toda a família Klump: o pai, a mãe, a avó, o irmão Ernie e até um excêntrico anglosaxão de raça branca, o professor de aeróbica Lance Perkins, graças à magia da maquilhagem criada por Rick Baker, o mesmo que desenhou a maquilhagem de Eddie Murphy em «Um Príncipe em Nova Iorque». A combinação de Murphy multiplicado por sete é um desafio para o protagonista desta nova versão de «O Professor Chanfrado» e também a principal atracção do filme.

Admirador de Jerry Lewis, Murphy escolheu esta história na linha do "Médico e o Monstro" para pôr à prova o cómico talento que o levou a ser um dos actores mais bem pagos da década de oitenta. Se no filme original de Lewis o protagonista era um professor de química, despistado, com pernas tortas para fora e joelhos para dentro, nesta nova versão o personagem central é Sherman Klump, um sábio doce, simpático e bondoso, mas com uma disfunção hormonal que o faz pesar... 180 quilos! Farto de ser gozado, ele trabalha numa fórmula que altere os seus genes. O resultado é Buddy Love, um esbelto e atractivo sedutor com um carácter insuportável, que é tudo o que Sherman sempre sonhou ser. E assim vai tentar conquistar o coração de Carla Purty, uma jovem professora recém-admitida no seu departamento e à qual nunca tentara aproximar-se antes. As situações geradas são do mais hilariante que se possa imaginar, para o que contribuem os efeitos secundários da tal poção.

Para Eddie Murphy este foi, talvez, o mais cansativo filme de sua bem sucedida carreira. Durante a rodagem teve que submeter-se diáriamente a sessões de maquilhagem de quatro horas de duração, nas quais se transformava alternadamente num dos sete personagens que encarna. Sherman Klump foi o mais difícil de recriar. Rick Baker esculpiu para ele vários postiços de látex, desenhou diversas perucas e modelou um traje especial para vestir os seus 180 quilos de peso. Para alternar a transformação de Sherman Plumk em Buddy Love, elaboraram-se fundamentalmente três tipos de postiços para todo o corpo: os do personagem no seu estado normal, em processo de transformação e definitivamente adelgaçado. Além disso foram feitas algumas maquetes das fases de transformação do personagem só para imprimir a idéia. Do mesmo modo, para elaborar os rostos de cada personagem fazia-se primeiro um molde, a partir do qual se fazia uma escultura, da qual se tirava por sua vez o busto definitivo.

A rodagem deste filme alcançou a sua maior complexidade com as cenas passadas em casa da família Klump, com Murphy encarnando cada um dos seus membros. A demorada e custosa maquilhagem só permitia filmar um personagem por dia, o que obrigava a manter o cenário tal como estava, herméticamente fechado, para que nenhum objecto mudásse de lugar até ao momento da filmagem de outro personagem no dia seguinte.

O filme foi dirigido por Tom Shadyac, e conta ainda com os desempenhos de Jada Pinkett (Carla), Dave Chapelle, John Ales e Larry Miller. Produzido por Brian Grazer e pela Imagine Entertainmente/Universal Pictures, encontra-se já nos cinemas de todo o país numa distribuição Lusomundo Audiovisuais.
Vasco Martins
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