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X Encontro Nacional de Pastoral da Saúde

Responsabiladade no Serviço à Vida

Na sequência do Congresso de Pastoral da Saúde, realizado o ano passado em Fátima, vai realizar-se, nos primeiros dias de Dezembro e no mesmo lugar, o X Encontro Nacional subordinado ao tema genérico de Responsabilidade no serviço à Vida.

O interesse pastoral da Igreja pelos doentes tem uma longa tradição, é mesmo uma constante na actividade da Igreja, na linha de continuidade da acção do seu fundador, Jesus Cristo, que era procurado continuamente por multidões de pessoas não só para o ouvirem, mas também para serem curadas das suas enfermidades. A própria teologia tem-se ocupado do problema inquietante do sofrimento, na tentativa de encontrar para ele uma explicação ou, pelo menos, de, à luz do sofrimento de Cristo, descobrir o seu sentido purificador e redentor.

A Igreja, se excluirmos alguma espiritualidade dolorista pregada aqui ou ali, nunca cultivou o sofrimento, mas sempre reconheceu nele um mal contra o qual importa lutar, para o erradicar, quanto possível, da vida do homem. Perante a sua inevitabilidade, que levou João Baptista Metze a chamar-lhe uma segunda natureza, procura chamar a atenção para o exemplo de Jesus Cristo que fez da sua cruz caminho de ressurreição e, por isso, de vida. Então a Igreja sente-se igualmente servidora da vida, tendo bem presente a palavra do seu Mestre: eu vim para que tenham a vida e a tenham em mais abundância. E esta vida, ao serviço da qual a Igreja se coloca, é condição para alcançar a vida intemporal, perfeita, plena de bens, a preencher totalmente os mais profundos anseios do homem, a vida que é ressurreição como foi a de Jesus Cristo. Mas não é só isso, é também um valor em si própria, pelo que deve ser defendida, cultivada, promovida, para que o homem a possa viver e estimar como um precioso dom de Deus.

Aquele serviço à vida, que a Igreja sente como um imperativo evangélico, tem que ver por isso com a vida no tempo. A ressurreição, na verdade, não é apenas uma promessa para o Além. É já algo que possui preciosos dinamismos para o tempo presente. Não é, de forma nenhuma, alienação, como por vezes se tem entendido, mas compromisso com o presente. Jesus Cristo nunca disse aos pobres, aos doentes e aos marginalizados que o procuravam: tende paciência e esperai por melhores dias. Acolheu-os, deu-lhes de comer quando tinham fome, curou as suas enfermidades, ressuscitou alguns mortos e colocou-se ao seu lado, na defesa contra os mais poderosos, o que lhe valeu ser condenado à crucifixão, e mandou aos discípulos que fizessem o mesmo.

A Igreja está do lado da vida. Uma pastoral da saúde bem entendida não se limita ao cuidado dos doentes, mas promove a educação para uma vida sã. E tanto mais sã quanto não se trata apenas de uma preocupação ao nível da fisiologia, mas também ao nível do espírito, segundo a conhecida fórmula - alma sã em corpo são. Aqui se inserem também os tais dinamismos da ressurreição. Quem acredita na vitória de Cristo (que o é também do cristão) sobre a morte e o mal em todas as suas formas e na sua raiz que é o pecado, sabe que já não há nada que possa destruir o homem. Ainda que a infelicidade, sob qualquer das suas formas e de maneira inelutável, bata à sua porta, ele sabe que essa situação é passageira, porque o espera a vida perfeita. A vitória da vida tem a garantia do compromisso do próprio Jesus Cristo.

A Igreja é assim servidora da vida, sob todas as suas formas e em todas as circunstâncias, mesmo correndo o risco da incompreensão de muitos homens deste tempo. Servidora da vida do homem em todas as suas expressões, ela tem a missão de comunicar a vida da graça, participação da própria vida de Deus, que faz de nós Seus filhos, em Jesus Cristo. Quando ele disse eu sou a ressurreição e a vida, fê-lo não apenas como Filho Unigénito de Deus, mas também como filho do homem, o que nos garantiu que também nós, pela nossa união com ele, pudéssemos participar dessa vida que é ressurreição e sobre a qual a morte já não tem mais poder.

Isto não desobriga o cristão perante os problemas da vida presente, antes o pressiona a comprometer-se com todos os homens na construção de um mundo mais humano, em todas as circunstâncias da vida do homem, mas sobretudo onde a vida é mais frágil, quando atingida pela enfermidade e pelo sofrimento. Nunca é demais lembrar a palavra do Concílio, que exorta os cristãos a procurarem desempenhar fielmente as suas tarefas terrestres, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que sabendo não termos aqui morada permanente, mas buscarmos a futura, julgam, por conseguinte, poderem negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceberem que estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação à qual cada um foi chamado.
Gonçalves Moreira
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MÚSICA LITÚRGICA

Que música?

Certo sábado, em missa dominical, ouvia um desses entusiasmados e generosos grupos de jovens a entoar uns cânticos, não muito diferentes de certas cançonetas em voga, acompanhados por guitarras, enquanto a assembleia permanecia muda. Comunicavam, é certo, uma certa alegria (não sei se sincera…), mas era uma alegria estranha, diferente daquela que se anunciava e se celebrava. Alguns adultos até comentavam que agora a missa era diferente, mais animada… pois que antes era uma missa a seco. Mais interessante foi quando perguntei ao grupo onde arranjou tais cânticos. Lá disseram que as letras eram feitas por eles, enquanto ouviam as homilias!… Pobres letras, confesso… alguns chavões, como justiça, paz, amor (muito..) e pouco mais. Ou as homilias também eram pobres ou muito pouco acessíveis. Quanto à música, um deles sentia-se inspirado e então reuniam-se para ensaiar… assim, uma improvisação de jacto, quase desconhecida da história da música! Mas estavam convencidos de que faziam uma grande coisa, que prestavam um grande serviço, isso é que era moderno, a verdadeira linguagem do homem de hoje. Formação musical, nula ou quase (dois deles tinham tido umas lições de guitarra - que, aliás, não dominavam muito bem). Formação catequética ou religiosa, a 1ª comunhão (outros dois tinham ainda chegado à comunhão solene). Passaram a vir à missa vespertina para desempenharem um tão nobre serviço de que não faziam bem ideia.

Este grupo - pensava eu comigo - merecia um outro acompanhamento que respondesse adequadamente ao seu entusiasmo pela música e à sua generosidade em servir a Igreja e a sua Liturgia. Mas, infelizmente, enveredamos por uma pastoral que se gasta e desgasta em tantas coisas aleatórias que absorvem aqueles que deveriam fazer o discernimento e ser os orientadores dos carismas emergentes. Pior é quando esses mesmos alinham neste tipo de animação, esquecendo que a sua missão é fazer chegar o mistério revelado à massa dos homens - esta é que é a verdadeira animação, que dá ao homem do nosso tempo sentido e alegria de viver. São, por vezes, eles, ao contrário, e alguns de muita responsabilidade, que incitam a que tais cânticos tomem posse da celebração. O mistério não se dá de barato, como fazem as seitas. Essa tal evangelização que propõem torna-se, pois, consciente ou inconscientemente, um embuste.

Esta pequena reflexão foi sugerida por uma magnífica entrevista de um dos organistas de Notre-Dame (Paris) de que reproduzimos esta convicção:

«Num tempo em que se fala de nova evangelização da Europa, acredito num próximo renascimento da arte na Igreja, uma arte adaptada à nova liturgia e às suas exigências, não como um adorno acessório, mas como um verdadeiro elemento de pastoral do cristianismo. Porque onde estão, ao menos em parte, os que deixaram as liturgias de domingo, talvez demasiado puramente intelectuais, às vezes, para pessoas que ainda não atingiram os cumes de uma fé que faça calar as imagens?… Nos museus, nos concertos, a admirar as obras-primas da arte cristã, pictural, arquitectural, musical, com, divertido paradoxo, um comentário religioso feito por guias. Tratar-se-á apenas de uma necessidade estética que nada terá a ver com a fé ou, ao contrário, a procura de uma elevação espiritual através da arte? A arte autêntica representa para o homem a expressão sensível e privilegiada do melhor que ele é capaz. Não tem ela o poder de, pelo atalho da beleza estética que provoca a emoção, tirar, momentaneamente, o homem dos seus tormentos, de lhe dar desejo de amar, de despertar nele, às vezes, o traçado ontológico da sua origem divina? Porque a arte sacra não contribui apenas para elevar o crente até Deus, mas, talvez, às vezes, para a passagem de Deus pelo não crente ».

Os fiéis têm direito à arte, à arte musical, na liturgia. Esta afirmação não significa o inacessível, o complicado, o elitista - o canto gregoriano prova-o de sobra. Como falar do mistério, como deixar-se atrair por ele, como comunicá-lo e tornar os homens participantes dele, sem o auxílio da arte? A música litúrgica pode ser simples, mas tem de ser música, isto é, arte verdadeira. Sem isso nunca será litúrgica.
S.D.L.
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VI Jornadas de Universitários Católicos

«Queremos construir uma Cidade mais fraterna»

Na Casa Diocesana de Vilar, Porto, decorreram de 15 a 17 de Novembro as VI Jornadas de Universitários Católicos sob o tema «Humanismos e práticas políticas». No final dos trabalhos foi proclamado o seguinte texto de conclusões:

«Afirmar, ao contrário das ideias mais correntes, que a política se concretiza na prática de um olhar atento, crítico, apaixonado e transformador da história, acessível a todos, foi o ponto de partida das VI Jornadas de Universitários Católicos.

Porque nos consideramos participantes dos espaços onde se decide o presente e o futuro, e porque consideramos que esses espaços são múltiplos e diversos, assumimo-nos políticos. E porque somos herdeiros de uma tradição humanista e racionalista, decidimo-nos a questionar os modelos e as possibilidades da nossa intervenção política. Entendemos que um debate sobre as práticas políticas não pode nem deve estar desligado do Homem que temos e queremos construir. Não só porque a prática política é essência das relações humanas, mas sobretudo porque a prática política deve ter como fim a Humanidade.

Identificamos na História dos Homens dois eixos fundamentais e estruturadores das nossas práticas políticas: a liberdade individual, por um lado, e a igualdade, por outro. Assim, afirmando-nos todos diferentes, todos iguais, não quisemos desistir de encontrar a forma de livremente contribuirmos para a construção dessa realidade. Por outras palavras, afirmamos que a nossa liberdade também se concretiza na prática da inclusão e da aceitação das diferenças. A fraternidade seria assim a ponte que permite unir a liberdade e a igualdade.

Constatamos, evidentemente, a complexidade de que se reveste hoje em dia sentirmo-nos construtores activos da nossa história:

- por causa da diversidade e multiplicidade das realidades que nos exigem um permanente confronto e uma abertura dialogante e pluralista, que provocam conflitos e que tornam necessária uma hábil gestão das tensões;

- pelo facto de vivermos hoje em sociedades democráticas assentes no princípio da representação, que tendemos a absolutizar, outorgando às suas instâncias a quase exclusividade do exercício do poder;

- porque o poder dos media nos confronta hoje com a inevitabilidade da selecção dos actos que ganham relevância pública: se por um lado a informação é volumosa, por outro torna-se evidente que a realidade nem sempre nos é apresentada com todos os cambiantes de que se reveste, não se cumprindo assim o direito à informação rigorosa de que deveriam gozar todos os cidadãos;

- porque não existe no nosso país uma efectiva educação cívica, que promova a participação livre e responsável e o aprofundamento da cultura democrática.

Perante esta complexidade, à qual acresce a constatação de que a prática política não é imune a determinadas perversões que se efectivam e se tornam evidentes aos nossos olhos, a atitude mais fácil é, sem dúvida, a de nos afastarmos da política.

Sabemos, no entanto, que este é o caminho que sempre foi iluminado por aqueles que, pouco preocupados com o destino da Humanidade no seu todo, são os arautos da imposição da ordem e da necessidade da limitação das liberdades e dos direitos políticos dos cidadãos, que, inevitavelmente, resultam numa diminuição da igualdade e no esquecimento do progresso social.

Quanto mais ousamos, na pluralidade das leituras, fazer uma aproximação humilde do homem Jesus, mais o sentimos como interpelador na transfiguração das nossas práticas políticas. É Ele que põe em questão as verdades estruturantes da sociedade de Israel, consideradas definitivas porque geradas num contexto de sacralização das práticas humanas. No jeito livre de Jesus assumir o seu viver, inaugura-se uma cultura universalista, uma sociedade mundial, onde todos os excluídos - os diferentes - são reconhecidos como lugar fundamental de germinação do Reino Novo.

Por isso, porque queremos ser, à imagem de Jesus Cristo, homens realizados no compromisso com os nossos semelhantes e com o nosso destino comum, afirmamos a vontade de, através da nossa intervenção constante e reinventada em conjunto com os outros, nos mais diferentes espaços de que se compõe a nossa realidade, construir uma Cidade mais justa, mais sólida e mais fraterna.

Ser político é isso mesmo».
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