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Esta denúncia põe o dedo numa das feridas mais purulentas da interminável série de abusos e atentados à inteligência com que a televisão nos assedia todos os dias. Que seja um governante a fazer publicamente essa denúncia é oportuno, mas também possui uma face trágica: é que o próprio Estado não possui meios adequados para impedir que tais atentados aconteçam e se repitam de forma insolente e provocatória.
A apresentação de filmes constitui, assim, frequentemente uma trangressão legal e sobretudo uma agressão psicológica. E então as frases grandíloquas, em vozes musculadas e altissonates, com que tais imagens são acompanhadas raiam os foros do ridículo. E inscrevem-se na pauta da agressão à inteligência, porque estão fora dos seus contextos, carecem de explicação e justificação dramática de enquadramento narrativo. Assim, o que poderia ser uma atitude, mesmo que eventualmente reprovável, compreensível e justificada dentro do seu contexto, surge transformada em mero golpe publicitário, como exibição de carne em açougue.
Este tipo de prática instalou-se por igual em todos os canais. Até certa altura parecia que a Televisão de inspiração cristã ("independente") se coibia um pouco em enveredar por tais ínvios caminhos. Pensávamos nós, os bem intencionados, que a dignidade e o respeito pelo espectador fossem ao menos o mínimo denominador da inspiração cristã. Qual o quê? Com mudanças e reformas da estação, que agora ninguém sabe o que é nem de que inspiração é, ou se tem qualquer inspiração, instalou-se por lá a imitação infantil das maleitas dos vizinhos, em atitude adolescente de quem começa a fumar porque vê os mais velhos a fazê-lo.
E não há lei, nem norma, nem regra, nem senso comum, nem dignidade humana que consigam impedir o oportunismo ridículo de tais formas de proceder. Assim se educa o povo: no desrespeito pelas leis e por si próprio, na procura desenfreada da agressão e da quezília, na fabricação ou empolamento de guerras e ódios, de escândalos e de indignidades, para poderem ser noticiados, porque disso o povo gosta.
2. Mas a coisa não acaba aqui. Aqui apenas começa. Vamos a mais alguns exemplos do desrespeito e da agressão reinante. Um dos mais irritantes é o corte dos filmes em exibição, pela introdução, sem qualquer separador, de imagens doutros filmes (geralmente das tais que pretendem chocar pelo violência ou sexo), seccionando em qualquer momento, sem critério nem senso, o desenrolar de uma obra. É sabido que há realizadores que proibem a introdução de intervalos nos seus filmes, a não ser naqueles momentos da narrativa que os jusfiquem ou admitam. Quem produziu uma obra fílmica, e talvez mais quem a vê, sobretudo se é obra de qualidade, tem o direito de que ela não lhe seja distorcida por qualquer energúmeno que queira introduzir-lhe propaganda no meio, ou por interesse ou por ignorância. Ou pelas duas coisas, que é o que habitualmente acontece. Importa criar, com urgência, legislação nesse sentido.
Mais haverá que dizer. Por exemplo, a televisão pública introduziu, finalmente, uma informação meteorológica digna desse nome, apesar daquelas setas que se escondem envergonhadamente por trás dos mapas. Mas acrescentou-lhe um dado divertido: as imagens de satélite, bem esclarecedoras e educativas para ao cidadão comum, cuja presença é portanto bem-vinda, são sistematicamente tapadas pelo apresentador, que se coloca impante em frente da câmara, enquanto vai debitando aquelas banalidades do costume (tempo cinzento, muito sol, levar os chapéus de chuva, e similares), impedindo o espectador de ver o que se passa nas imagens. Quando finalmente se resolve a sair da frente da imagem, onde nunca devia ter estado, tapa a península e aponta para a Europa central ou para a Sibéria, como se vivêssemos todos lá e a Ibéria não fosse mais que um mero acidente geográfico. O que não entendo não é tanto que os apesentadores façam isso: pode ser nervosismo, podem não se dar conta, podem estar cheios das boas intenções de se mostrarem, podem até entender que são mais bonitos que as imagens de satélite. O que me espanta é que não haja por lá quem lhes diga que aquela forma de apresentar a informação é um disparate, quem lhes explique que a imagem vale mais que mil palavras, e que mais vale ver uma frente nublosa do que os gestos trasbordantes que apontam para a Europa Central.
Finalizo com umas lamentosas palavras para lembrar aos responsáveis de todas as televisões para promoverem cursos de formação para ensinar os locutores e os apresentadores a ler correctamente. Eu por mim ofereço-me generosamente para dar algum desses cursos gratuitamente!
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Desde 1980 acompanho religiosamente as edições do CINANIMA, tendo visionado mais de 2.500 filmes de animação desde então (ou talvez mais!). Foi um antigo colega, e ainda bom amigo, que me convidou para lá ir, o Agostinho Chaves, que era jornalista da Rádio Renascença, e foi um dos fundadores do evento. Fui, gostei e acabei por voltar no ano seguinte e seguintes, até hoje. Embora não o tivesse visto nascer, soube da sua gênese pelo saudoso Henrique Alves Costa, também ele um bom amigo e um bom mestre nestas andanças cinéfilas, com quem muito aprendi (na altura, ambos colaborávamos no Jornal de Notícias). Foi, portanto, há 20 anos que a semente foi lançada naquela terra nortenha, importante zona turística e de veraneio, distante apenas 19 kms a sul da cidade do Porto. Corria o ano de 1976, quando um grupo de amigos dava início às actividades de um novo cineclube, em Espinho, imediatamente baptizado de "Nascente". Uma das primeiras iniciativas, e uma vez que os gostos eram similares entre os decididos membros, foi uma mostra de filmes de desenhos animados, em jeito de ciclo temático, na qual seleccionaram algumas obras de cineastas lusos, entre os quais do (agora veterano) Artur Correia, contando ainda com películas estrangeiras, como o clássico britânico «O Submarino Amarelo/Yellow Submarine», de George Dunning, com música dos Beatles, entre outros. Foi tal o sucesso desse empenhamento, galardoado com uma ovação reconhecida pelo numeroso público que procurou a sala de exibição, que logo ali se lançaram bases e foi criada uma comissão organizadora para, no ano seguinte, respondendo às exigências de um público sequioso por manifestações idênticas, levar a efeito a primeira edição de um festival de cinema de animação, imprimindo-lhe um cariz de competição e ocasião única de ver obras novas e inéditas. Foi assim que, no ano de 1977, graças à boa-vontade e ao espírito empreendedor de oito jovens "carolas", se assistia ao nascimento de uma instituição em grande escala - o CINANIMA - que, ano após ano, se converteria numa das mais importantes e gratificantes manifestações cinematográficas do norte de Portugal. Adriano Cardoso, Agostinho Chaves, Álvaro Cordeiro, Ana Maria Del Rio, António Rodrigues, Eduardo Oliveira, Fernando Meneses e José Seabra, o grupo fundador, contou com a incondicional ajuda, desde a primeira hora, do crítico e historiador Henrique Alves Costa, que os ajudou, dada a larga experiência no assunto, a alinhavar as linhas mestres com que se cose um certame desta envergadura. Formaram, pois, a primeira comissão organizadora do festival, que se realizou na antiga sala do Cine-Teatro São Pedro, entre 23 e 27 de Novembro de 1977. Vinte países enviaram filmes para competição, que foram presentes ao juízo de um Júri Internacional constituído por Alves Costa (que presidiu), Héléne Blanc (presidente da Federação de Cineclubes de França), o grande entusiasta de banda-desenhada e de cinema de animação Vasco Granja, o realizador francês René Laloux e o realizador jugoslavo Nikola Majdak. O "Golfinho", prémio do festival, foi arrebatado pelo filme «A Rua/The Street», da cineasta canadiana Caroline Leaf, que chegou a ganhar, também com esse trabalho, o Oscar de Melhor Filme de Animação nesse ano. «O Franco Assassino», do português António Pilar, também foi premiado.
Decorridos vinte anos, e ainda promovido pela "Nascente-Cooperativa de Acção Cultural", o CINANIMA continua sempre vivo e cada vez mais jovem, tal como os que agora garantem a sua realização, ultrapassando todas as dificuldades e obstáculos que se vão erguendo cada ano. Da equipa inicial, apenas o António Rodrigues ainda colabora; os restantes ainda existem e continuam a acompanhar todas as edições do certame muito de perto. O CINANIMA enriquece cada ano que passa. A actual comissão, capitaneada desde 1980 por António Gaio (sem dúvida, e apesar da força dos anos se começar a notar, o mais jovem de todos), são incanssáveis de modo a assegurar o melhor programa. Ao entrar no 21º ano de vida, o CINANIMA continua a ser acarinhado por milhares de espectadores, convidados, jornalistas e simpatizantes de todo o mundo, e todos, incluíndo os patrocinadores, continuam a ser unânimes em o considerar como "O Melhor Festival".
No ano em que se comemoram os 100 Anos do Cinema em Portugal, o facto também foi destacado no festival deste ano. Foram exibidos, entre antigos e mais contemporâneos, alguns dos melhores filmes de animação portugueses. Foram ainda mostrados em retrospectiva alguns dos filmes premiados em anteriores edições, bem como os últimos vencedores do "Cartoon D'Or", podendo ser (re)vistos os portugueses "Fado Lusitano" (de Abi Feijó) e "Estória do Gato e da Lua" (de Pedro Serrazina). Mas também foram alvo de homenagem todos quantos possibilitaram vinte anos de História do CINANIMA: fundadores, organizadores, colaboradores, júris, amigos e filmes.
Na noite de todos os Prémios, ficaram conhecidos os grandes vencedores nas diferentes categorias. Foram atribuídos 16 Prémios e 3 Menções Honrosas. O Júri Internacional da 20ª Edição do Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho - CINANIMA 96, decidiu atribuir o "Grande Prémio" ao filme «O Ano do Veado/The Year of the Deer», de Georges Schwizgebel (da Suíça), pelos "bons gráficos, pela mensagem, animação, cor e história", destacando "o poder simbólico de uma idéia forte e simples": é a história de um jovem veado que se deixa iludir pelas aparências. O "Prémio Cidade de Espinho-Prémio Especial do Júri" foi para o trabalho do húngaro Ferenc Cakó, «Song of the Sand», que "apesar da pouca animação consegue encontrar a simplicidade mágica da animação". A imprensa acreditada no festival atribuiu o "Prémio Alves Costa" ao inteligente trabalho com areia «A Busca/Quest», do alemão Tyron Montgomery (vencedor do "Cartoon D'Or '96"). Interesse paralelo tiveram o Júri da RTP e o do Público ao distinguirem com os respectivos prémios o divertido trabalho de Iouri Tcherenkov, «La Grande Migration» (França): a história invulgar de um pássaro que se perde no nevoeiro. Este filme será adquirido pela RTP, para ser exibido oportunamente. «O Cravo da Liberdade», realizado por crianças da Escola EB2 e 3, das Caldas das Taipas, orientadas por Abi Feijó, foi o vencedor do "Prémio Jovem Cineasta". «Poluição», um trabalho de crianças da Anilupa-Associação de Ludotecas do Porto, recebeu uma Menção Honrosa na mesma categoria.
Concluído um festival, outro começa logo a germinar. O CINANIMA 97 já está a fazer correr tinta, regressando no próximo ano, e espera-se que cada vez melhor. Mas, ainda será cedo falar dele. Apenas resta desejar à sua Comissão Organizadora um óptimo trabalho e deixar aqui um agradecimento especial à Manela Lima, do Gabinete de Imprensa (bem como todo o staff de apoio) por toda a especial atenção no envio da documentação e a simpatia que lhe é inerente. P'ró ano eu volto!
| Vasco Martins |
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