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De há tempos a esta parte, no entanto, tem surgido uma literatura diferente, porque não é produzida por visionários, mas por cientistas, que alertam para o risco sério que corre o futuro da humanidade, para os perigos que ameaçam seriamente a sobrevivência da espécie humana.
E não se trata só do medo às armas nucleares, medo plenamente justificável, já que aquelas armas continuam a ser produzidas e experimentadas. É todo um conjunto de circunstâncias, decorrentes do estilo de civilização que criámos e que faz com que o problema da viabilidade do planeta se ponha de maneira dramática, como escreve Michel Lacroix, o que faz alargar os riscos de destruição da vida muito para além da espécie humana.
São já conhecidos os perigos decorrentes da destruição da camada de ozono. A degradação dos solos em consequência de uma agricultura intensiva em regime de monocultura e do uso dos pesticidas foi objecto de um documentário significativamente intitulado - Urgente salvar o planeta - transmitido recentemente por uma das nossas cadeias de televisão. A degradação do mar pelos resíduos de toda a espécie para aí lançados e pelos derrames de produtos poluentes operados por muitos navios, sobretudo petroleiros. O problema da água potável, que já entre nós se põe, por vezes com certa gravidade. O problema dos resíduos industriais e dos lixos em geral, sempre na ordem do dia dos noticiários da nossa comunicação social. A deflorestação, devida a várias causas, entre as quais sobressaem as exigências industriais e os incêndios naturais ou provocados. O esgotamento dos recursos naturais, para o qual já há muito numerosos especialistas vêm chamando a atenção dos responsáveis. A superpopulação, já aqui referida em semana transacta. As diferenças económicas abissais existentes entre países e entre pessoas, que provocam já problemas de instabilidade e que não é difícil de adivinhar se tornem progressivamente mais graves. São alguns dos elementos que nos fazem pensar no futuro das gerações que virão depois de nós e para com as quais nos devemos sentir responsáveis.
O que está em causa, pois, não é só a loucura da corrida aos armamentos nucleares, embora vejamos com apreensão alargar-se o leque dos países capazes de fabricarem aquelas armas. Trata-se também do estilo de vida deste mundo chamado civilizado, que está a provocar a destruição do planeta e não só dos seus recursos, da degradação progressiva do ambiente, a caminho de tornar impossível a vida na terra. Pergunta Michel Lacroix: não é cada dia mais evidente que estamos a chegar ao ponto crítico em que a própria permanência da História se tornou problemática?
O problema agrava-se na medida em que a maior parte das pessoas vive desinteressada dele: para viver feliz basta ter mais poder de compra. Os ecologistas uniram-se em partidos por essa Europa, quando a verdade é que a ecologia não pode ser apenas preocupação de um partido pois tornou-se num verdadeiro imperativo moral para todos os homens.
Albert Jacquard deu a um dos seus livros, recentemente traduzido para a nossa língua, o título sugestivo de - Acuso a economia triunfante, no qual chama a atenção para a corrida vertiginosa que a humanidade está a fazer para o abismo. Que triunfo é esse afinal que nos coloca no caminho da nossa própria destruição?
As economias ocidentais preocupam-se apenas com o crescimento do PIB. Ora num mundo limitado não pode dar-se um crescimento ilimitado. Seria necessário orientar as nossas preocupações não tanto para o crescimento material, mas para o crescimento cultural e espiritual.
E esta é a condição para que a corrida para o abismo inverta o seu sentido. Isso é possível e está ao nosso alcance, assim o entendamos e queiramos fazer. Se somos nós os autores daquela iminente destruição, somos também quem pode fazê-la suster. Mas se continuarmos a viver, nos próximos trinta anos como temos vivido nos últimos trinta anos, assassinaremos os nossos netos, escreve ainda Michel Lacroix. Paul e Anne Ehrlich põem em relevo, por seu lado, que o aumento do número de seres humanos a reclamarem um nível de vida mais elevado superou já a carga útil da terra.
Aquilo que até aqui se identificou com o instinto de sobrevivência da espécie, dada a capacidade de que o homem hoje dispõe de alterar o equilíbrio da natureza sem o qual não pode haver vida na terra, tornou-se hoje num imperativo moral: a humanidade tem a obrigação moral de sobreviver, escreve Schell. Só há uma terra e, se esta se torna inabitável, não temos para onde ir. Hoje, este dever de garantir a sobrevivência da espécie é tão premente que relega para segundo plano a qualidade de vida. Aliás este conceito é muito relativo. O que está a tornar-se impossível é estender-se a toda a humanidade o conceito de qualidade de vida adoptado por esta civilização ocidental. A verdadeira qualidade de vida humana, dada a natureza do homem, corpo e espírito, não está só em ter (bens materiais), mas em ser.
É uma situação irreversível esta em que nos encontramos? Não, dizem os entendidos. Há uma saída, na condição de mudarmos a nossa forma de entender a civilização, como o temos feito até aqui. Prosseguir na linha do crescimento económico conduz à destruição. Só limitando as nossas ambições de possuir sempre mais se pode evitar a catástrofe da destruição da espécie. Há quem afirme já que a única saída está na linha do Sermão da Montanha:
| Gonçalves Moreira |
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Do Relatório da Congregação
para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos
A religiosidade popular
Uma excelente oportunidade de evangelizar e formar os fiéis é proporcionada por uma sã religiosidade popular. São sobretudo as Igrejas da América latina que sublinham a sua importância e fazem dela tema de colóquio durante as visitas. Tem-se consciência do contributo determinante que, no passado e ainda hoje, a religiosidade popular deu à fé e à piedade, sobretudo onde, por falta de sacerdotes, vinha a faltar até uma regular vida sacramental e quando a Liturgia, celebrada em latim, não permitia uma plena participação dos fiéis.
Depois de um período de crise, devido a uma distorcida compreensão e aplicação da renovação litúrgica conciliar, assiste-se hoje a uma recuperação da religiosidade popular, cujas expressões são mais apreciadas e utilizadas.
Particular referência é feita ao culto dos Santos de modo especial de Nossa Senhora entre cujas modalidades emergem as festas dos padroeiros. Está-se consciente das potencialidades de dita religiosidade a qual, para além de configurar a piedade e de alimentar a própria fé, é utilizada como meio de catequese e vista como elemento de identidade eclesial e, não raramente, como antídoto contra a proliferação das seitas.
Apoiando iniciativas que visam promover uma sã religiosidade
popular, o Dicastério insiste, todavia, que se deve
cuidar de uma correcta relação entre Devoção
e Liturgia. Ainda que mantendo-se distintas e separadas, em
consideração da sua própria diversidade natural,
elas deveriam referir-se e completar-se mutuamente. Insiste-se
também na necessidade de inculturar as formas de religiosidade
popular, transformando aquelas que foram importadas de outras
culturas, de modo que os fiéis as possam sentir como suas.
O canto e a arte sacra
Um outro tema, frequentemente suscitado pelos Bispos durante a visita, é o canto sacro. Ele constitui, sobretudo na América latina e em África, um grande meio de participação litúrgica. Redescobrindo e utilizando as suas potencialidades, emergiram ao mesmo tempo dificuldades, que foram objecto de debate nos encontros.
Multiplicam-se os encontros periódicos de formação em relação ao canto e à música sacra, bem como iniciativas editoriais relativas à composição e recolhas de cantos litúrgicos, quer a nível diocesano, quer nacional. Apreende-se também a preocupação por um adequado equilíbrio nesta matéria. Procura-se, com efeito, estimular a produção própria, restringindo a importação de cânticos de outros ambientes, ainda que da mesma expressão linguística, e conciliar a actuação dos coros com a participação coral da assembleia.
Por parte do Dicastério insiste-se nas características da música e do canto sacro, as quais quer nos instrumentos, quer no estilo e no próprio conteúdo, deveriam estar ao serviço daquilo que se celebra, respeitando o sentido do sagrado e favorecendo a concentração, a meditação e a oração.
Relativamente ao canto gregoriano, ainda que se
assista a uma redescoberta por parte do laicado, são ainda
raras e modestas - pelo que resulta das visitas - as iniciativas
para lhe restituir, nas celebrações litúrgicas,
o relevo que merece.
No que diz respeito à arte sacra , deve reconhecer-se que o tema suscitou pouco interesse no contexto das visitas. A maior parte dos relatórios quinquenais não acena à questão e, na temática dos encontros com o Dicastério, o único aspecto suscitado foi o da correcta colocação do Sacrário para a Reserva Eucarística e, por vezes, o arranjo de uma capela separada para a mesma.
| S.D.L. |
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A Igreja Católica, desde sempre, emprestou grande atenção ao matrimónio, e nestes últimos 50 anos, mais do que antes, houve um grande desenvolvimento no conhecimento das riquezas espirituais aí contidas. A exploração e aprofundamento, levados a cabo revelaram-se já no Concílio Vaticano II.
O casamento é um acto sagrado e transcendente. Sem perderem a sua personalidade, marido e mulher criam pelo matrimónio uma nova entidade trinitária, à semelhança da Trindade Santa de Deus, a comunidade conjugal, ele ela e o amor mútuo. E o que a Igreja sela na Terra, é selado no Céu.
As Equipas de Nossa Senhora criadas por essa figura ímpar que foi o Abbé Henri Caffarel, abriram na Igreja caminhos novos para o aprofundamento da vida conjugal, quer no plano psicológico e sociológico quer também no teológico. Abbé Caffarel impulsionou a vida de oração dos cônjuges e abordou a questão da projecção eterna do amor conjugal. Fê-lo com lucidez e prudência, mas estimulou o aprofundamento do sentido tradicional da Igreja em favor da viuvez como um estado de perfeição, quando vivido na certeza da presença sobrenatural do cônjuge falecido com o qual há comunicação real pela Fé.
E a viuvez, verdadeira privação sensível do outro, é estado de perfeição na medida em que tiver sido santo e alegre o amor de ambos na terra. Isto é, quando os cônjuges se amam, com doce constância, com crescente estima ao longo dos anos, numa doação sem fracturas, enriquecendo-se pelo culto de nobres sentimentos, firmes nesse amor perante as forças desagregadoras do «mundo» de hoje, gerou-se uma tal grandeza espiritual que é, por um lado, revelador da acção da graça de Deus operada pelo sacramento consumado e por outro lado é manifestação do próprio Deus que é Amor. Ora esta realidade não pode acabar com a morte. Tem projecção Eterna. Claro que o «contrato» eclesial doo casamento como realidade social, acaba com a morte de um dos cônjuges. Mas, desde sempre, a Igreja privilegiou a viuvez em lugar da repetição de novo «contrato» matrimonial. Dá a clara impressão que algo se perde dessa deslumbrante realidade que é a vida «consagrada» de um ao outro, e para sempre... quer dizer, até à Eternidade.
Deve atender-se que com a morte, o corpo fica na terra, qual acidente que as potencialidades da alma estruturou a partir dos elementos terráqueos. A alma liberta - e onde existe a identidade de cada pessoa - deterá as capacidades de gerar um «novo» corpo, um «corpo glorioso» que é imagem real de cada um, tal como o possui na terra embora não sujeito às mesmas leis e contingências. A Alma é a «forma substancial» do ser humano, quer dizer, o princípio que o determina tal como a planta dum arquitecto é o princípio que ordena a «criação» duma obra.
É que, tão santo e tão grandioso pode ser o amor conjugal que custaria muito a crer que uma tal realidade espiritual que é a fusão sem limites, depois seres livres, lúcidos e personalizados, tendo caminhado nas sendas do Amor de Deus, e do próximo, disse, custaria muito a crer que não continuasse para além desta vida.
Aqui, como no resto que toca no mistério da salvação, a Vida que se terá no «seio» de Deus, prepara-se na Terra. Quanto mais perfeita ela for, segundo o Evangelho mais se deve acreditar na sua projecção Eterna. Assim também no Amor Conjugal.
A celebração do Dia de Todos os Santos deu-me «certezas» de fé cristã de que assim será. É por isso que já a poligamia é um sinal de primitivismo humano e social. E a infidelidade conjugal, um pecado contra o Amor que é Deus ????????
| Levi Guerra
Professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto e Director de Serviço do Hospital de S. João |
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