Cultura:

A espuma das semanas

1. O temor de Timor. Escrevera eu aqui, duas semanas atrás, algo que me deixara preocupado, na expectativa de que me viessem a desancar por ultraje inaudito ao dogma mediático timorense. No mesmo dia em que era divulgado, pela publicação no jornal, o escrito que produzi, foi publicado um outro artigo, certamente muito mais publicitado que o aqui escrito, assinado por um dos dogmatizadores mediáticos encartados da nossa praça, o senhor Miguel de Sousa Tavares, em que se produziam diatribes contra a Igreja que há em Portugal e contra a que haja em qualquer parte do universo, incluindo Timor, de um tal jaez e tal falta de sensibilidade aos problemas que a qualquer um de nós deixava escaqueirada a alma do equilíbrio entre as posições extremas. Nada, aliás, a que não estejamos habituados. Escrevia, em perfeita e inultrapassável imitação das mais conclusas verdades inquisitoriais, aquele prócere de uma nova e laica inquisição: "Ele (o Papa) continuará a negar Timor, como Pedro negou Cristo" ("Público", 18 de Outubro de 1996). Ó frase bendita! Ó verdadeira religião do homem mediático! Entre Timor e Cristo vai apenas a distância articular de um cronista da imprensa detentora da verdade suprema!

Escrevêramos, entretanto (VP 17 de Outubro de 1996): "(O problema de Timor) é uma questão de diálogo, não de afrontamento. O pior serviço que se pode prestar a uma causa é transformá-la em cruzada".

Mas não há atitudes dogmáticas que não mereçam a sua própria contradição. Ela veio, célere e clara, da boca do próprio Ramos Horta, ao declarar, à sua chegada a Lisboa (declarações que a generalidade dos jornais não transcreve integralmente), quando os jornalistas do costume o acusavam de ter "recuado" nas suas declarações à revista "Newswek", em que expressamente admite para Timor a única solução admissível: um desfecho pacífico. Dizia Ramos Horta, co-Prémio Nobel: Não há recuo nenhum. Os senhores (jornalistas) é que não compreenderam e interpretaram mal todo o

desenrolar do processo.

Pela boca morre o peixe. Pela pena se desautorizam os mais papistas que o papa.

2. Entrada, abertura e praxes. Já aqui chamámos a atenção para uma das demonstrações mais perigosas e perniciosamente denunciadoras da falta de qualidade humana que se vem instalando na nossa sociedade: as chamadas praxes académicas de início dos anos lectivos. A opinião pública está cada vez mais sensibilizada para tal facto, denunciador de uma falta de sentido ético, civilizacional e moral que caracteriza a mentalidade estudantil.

Os pais e os jovens sofrem no mês de Setembro a angústia do ingresso nas Faculdades, como se a obtenção de um lugar fosse a libertação definitiva do género humano. Umas semanas depois, pais e estudantes sofrem uma segunda angústia: a da sujeição dos jovens e donzelas que obtiveram a dita inaudita de se tornarem caloiros, a todo o género de práticas sado-masoquistas, de desumanizadas e desumanizadoras componentes, que passam alegremente, com a tácita conivência de autoridades, associações de pais e de estudantes (geralmente tão recriminadoras das deficiências do sistema) por bebedeiras e humilhações, por violências físicas e psicológicas, por agressões à consciência individual e social. As autoridades académicas calam-se, por um qualquer mecanismo de defesa ou de demissão. Os próprios jovens visados embarcam alegremente, entre o pejo e o medo, em práticas que deveriam ser os primeiros a rejeitar, e que em quaisquer outras circunstâncias seriam objecto de apresentação de queixa por procedimento criminal. As autoridades civis e policiais voltam os olhos para o lado para não se verificar a figura jurídica do flagrante delito, sempre boa defesa ou boa escusa.

Vai ser preciso que algum dia aconteça um desastre para que surjam, de todos os lados, as condenações, as denúncias, os protestos, as manifestações, as acusações às instituições responsáveis.

Entretanto, tudo vai acontecendo como nas histórias da declamada pedofilia: enquanto não há um criminoso que possa servir de bode expiatório, permanecem todas as formas de exploração, de vício, de exibição, de aceitação complacente, de justificação tácita ou explícita da exploração sexual. Depois voltarão a encher-se os jornais com as notícias dos desastres e das vítimas. Os responsáveis, porém, continuarão impunes.

3. O Portugal feixon. Eu não sei se se diz Portugal feixon, ou Portugal féxon, ou Pórtjugal feixon ou fexon. Antes havia o Portugal rural, o Portugal turístico, o Portugal radical, o Portugal dos pequeninos, o Portugal da saudade, do fado, das touradas, do cozido, do bacalhau, das festas populares... Bons tempos!

Agora foi inventado, por quem de direito, num gesto de ampla visão macro-económica, que é quem manda tudo neste mundo e no outro, o Portugal féxon, cuja receita se pode traduzir no seguinte:

Tomem-se alguns senhores dedicados a fazer vestidos e outras peças de vestuário. Deve dar-se-lhes o nome não de costureiros, nem de modistas (ou modistos), mas de designers (leia-se disáinars). Reúnam-se algumas empresas modernaças do ramo, com ampla visão comercial, interessadas em obter alguma notoriedade passageira. Vá-se ao estrangeiro e copie-se, como de costume, o que por lá se faz. Reúnam-se algumas moças esbeltas e bem aperaltadas, meça-lhes a altura, o busto, a cintura e as ancas, e derrame-se em cima de tais corpos alguns tecidos arrebicados. Alugue-se uma sala de espectáculos da cidade e junte-se jetessete que baste. (Nota: sem jetessete não vale a pena o trabalho).

Chame-se a imprensa, o cinema, a rádio, a televisão, os vídeo-amadores, os fotógrafos "à la minuta", os aparelhos multimédia, até a internet. Uma após outra, as referidas moças desfilam, em rebuscadas curvaturas segundo as obrigações das leis do movimento. Serve-se no fim dos telejornais, com boa dose de exibicionismo, de pruridos modernistas, com um pouco de postiço para desenfastiar. Depois da observação, o apresentador esboça um discreto sorriso cúmplice. (Nota: depois de tudo, aqueles vestidos não servem para uso do jetessete, como é evidente).

4. Um país de comerciantes. Esta não é tua nem é minha, é de uma publicação de alto coturno. Transcrevo: "Há quem diga que Portugal é um país de poetas... e de comerciantes. A verdade é que, se a primeira asserção parece basear-se, sobretudo, numa avaliação subjectiva das características dos portugueses, já a segunda tem a suportá-la muitos dados concretos: a esmagadora maioria das empresas portuguesas está classificada no ramo do comércio e afins". ("Público", suplemento As 500 maiores empresas, 28/10/96).

Razão tem o anónimo articulista. É disto que a gente gosta. Já viram que a inauguração de um centro comercial, num local onde já havia mais dois, fez parar o trânsito nas auto-estradas tanto nos dias de fim de semana como nos dias de trabalho? Já viram que nada disso aconteceria se se inaugurasse uma qualquer unidade industrial? Quem se interessaria por semelhante coisa? Agora um centro comercial, sacralizada catedral do consumismo, quem não vai lá emitir uma opinião fundamentada sobre a qualidade e adequação do espaço, enquanto compra meia dúzia de coisas inúteis que nunca tinha pensado comprar?

No entanto, quanto mais ganharia o país se o investimento no comércio se fizesse, mais seriamente e com mais larga visão de desenvolvimento, em actividades produtivas?

Será que os nossos empresários têm curteza de vistas ou se preocupam apenas com os lucros imediatos?
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

"Salvé, Cinanima! Parabéns!"

De 5 a 10 de Novembro

Sempre que termina um festival de cinema, eu digo "contem comigo no próximo ano!". É o que se passa cada vez que finda um CINANIMA, em Espinho. E todos os anos apareço para cumprir uma devoção especial (quase religiosa!), de venerar uma das artes mais antigas do mundo: o Cinema de Animação. E é nessa cidade da Costa Verde que, desde há 20 anos, se realiza o CINANIMA-Festival Internacional de Cinema de Animação, único certame do género em toda a Península Ibérica, e também o único com periodicidade anual. Até parece que foi ontem a primeira vez que fui ao festival! Foi o amigo Agostinho Chaves (na ocasião, escrevíamos no «BC-Boletim Cinematográfico») que me convidou. Ele, e mais meia dúzia de carolas amantes do cinema de animação, foi um dos criadores desse evento. Pois, como dizia, tudo começou há vinte anos, mas eu só tomei contacto com o festival em 1980. Fui, vi e nunca mais desisti de aparecer. Nem posso faltar, sinto falta disso! Quando lá estou, sinto-me em casa de família! Aliás, todos somos uma enorme família, ligados por um interesse comum!

Tal como há 20 anos, o renovado Cinema S. Pedro voltará a receber algumas centenas de espectadores e devotados participantes, convidados e jornalistas, ciosos pelo visionamento das quase cem películas em competição, provenientes de mais de trinta países, com especial destaque (devido à maior quantidade) para a Inglaterra (com 18 filmes), Alemanha (9), França e Estados Unidos da América (ambos com 8), Bélgica e Canadá (com 5 cada). Portugal concorre com seis filmes, mais sete que disputam o Prémio "Jovem Cineasta Português", com destaque para «O Sr. Grilo», de José Luís Carvalho. Apenas duas longas-metragens serão exibidas: uma proveniente da Inglaterra e outra do Canadá. Sobre o filme inglês, «The Wind in the Willows» (literalmente traduzido por «O Vento nos Salgueiros»), de John Coates, convém dizer-se que já ganhou prémios noutros festivais e é completamente inédito em Portugal. No projecto, além do emprego do computador, simplesmente como base de apoio, cerca de 300 pessoas executaram, à mão, todo o trabalho artístico de animar mais de 40 mil peças de arte para uma hora de película; o National Film Board of Canada produziu «La Plante Humaine», do realizador Pierre Hebert, que é, tal como o anterior, uma obra a não perder. Todos os filmes a concurso disputarão o «Grande Prémio CINANIMA», que este ano, e pela primeira vez, é patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos. Mas também serão atribuídos outros prémios: «Prémio Cidade de Espinho-Prémio Especial do Júri», patrocinado pela Câmara Municipal de Espinho; «Prémio Instituto da Juventude», atribuído ao melhor filme dedicado à infância; «Prémio Jovem Cineasta Português», também patrocinado pelo Instituto da Juventude; «Prémio José Abel»; e, pela primeira vez neste festival, «Prémio Criatividade», que será atribuído pelo público ao melhor e mais criativo filme, que exprima uma sensibilidade e uma estética extrema capazes de tocar fundo nesse particular corpo de "jurados". Este galardão foi criado pelo arquitecto espinhense Nuno Lacerda Lopes, que há algum tempo colabora com o CINANIMA, onde já foi Júri de Selecção. Há, ainda, um prémio simbólico, atribuído pelos jornalistas e críticos acreditados no certame, a qualquer filme de qualquer categoria, e que tem o nome de uma personalidade ligada ao Cinema e muito querida de todos nós, desde sempre ligada ao festival, de que foi um dos mentores: «Prémio Alves Costa», como sempre viva homenagem a essa figura imortal, Henrique Alves Costa.

Para se avaliar a dimensão internacional de um certame como o CINANIMA, que todos os anos movimenta mais de 40 pessoas, muito bem lideradas por uma figura carismática, que é muito querida e respeitada, e que todos conhecem pela sua genica e jovialidade, chamando-o delicadamente de "Avô" Gaio, saiba-se que este ano o Júri de Selecção, composto pela dupla Artur Correia e Manuel Matos Barbosa (antiguinhos, mas joviais!), Manuel Carvalho Baptista, Fernando Saraiva e Luísa Teixeira, todos ligados ao cinema de animação, tiveram que analisar qualquer coisa como 322 películas enviadas por cerca de 35 países (só a Inglaterra mandou 60 filmes, a maior representação). Mas o julgamento definitivo caberá ao Júri Internacional, este ano presidido por Fernando Lopes (decano dos realizadores cinematográficos portugueses), que conta ainda com Abi Feijó (um dos mais jovens e promissores realizadores lusos, com um curriculum invejável e já premiado no CINANIMA), Cilia Van Dijk (produtora holandesa), Frédéric Back (realizador canadiano), Michel Ocelot (realizador francês) e Alexander Petrov (realizador russo, premiado no CINANIMA '92). E agora uma surpresa: o mágico português Luís de Matos abrilhantará a festa de encerramento e entrega de prémios deste festival, no sábado, dia 9.

A organização de todo este festival é um esforço conjunto da NASCENTE-Cooperativa de Acção Cultural e da Câmara Municipal de Espinho, que conta com os apoios financeiros do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual (IPACA), Comunidade Europeia, Instituto Português da Juventude, Salvador ("Toyota") Caetano e Governo Civil de Aveiro, além da já citada Caixa Geral de Depósitos, que este ano inicia o seu apoio ao certame. Como sempre, o cartaz deste ano é também uma criação do sempre disponível (desde o princípio) João Machado, reputado escultor portuense.

DOIS ANIVERSÁRIOS NUM SÓ!

Embora festeje o seu 20º aniversário, o CINANIMA é que oferece as prendas aos convidados e espectadores, proporcionando uma série de iniciativas paralelas de enorme importância e oportunidade. Duas décadas de história estarão patentes na exposição "20 Anos de Festival", onde poderão ser apreciados (ou lembrados...) momentos da vida deste evento, através de fotografias, recortes de imprensa e até os cartazes concebidos por João Machado. António Gaio (filho) coordenou todos os elementos que ilustrarão um livro, que se caracteriza como um historial de 20 Anos de CINANIMA.

No ano em que também se comemoram os Cem Anos de Cinema em Portugal, o festival, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, irá apresentar uma retrospectiva de filmes dos primórdios da animação no nosso país, onde se destaca «O Boneco Rebelde», do pioneiro Sérgio Luís, e «Viva o Cinema», realizado por Luís da Matta Almeida. Também a CARTOON-Associação Europeia de Cinema de Animação irá apresentar todos os filmes que até à data foram galardoados com o «Prémio Cartoon D'Or» (troféu máximo para o melhor filme de animação europeu), entre os quais se destacam «Os Salteadores», de Abi Feijó, e «The Wrong Trousers», do britânico Nick Park (já premiado no CINANIMA e que ganhou um Oscar de Hollywood). O realizador canadiano e membro do Júri Internacional, Frédéric Back, promoverá uma retrospectiva dos seus filmes, alguns dos quais também vencedores de Oscars.

Para finalizar, resta lembrar que a edição deste ano do CINANIMA decorre entre 5 e 10 de Novembro, sendo o ecrã do Cinema São Pedro o único lugar onde se pode ver um pouco de tudo o que se faz no campo do cinema de animação, onde se pode tomar contacto com trabalhos inéditos (que nunca mais poderão ser vistos), com as novas técnicas e as velhas tradições de fazer, simplesmente, "desenhos animados".
Vasco Martins
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PUBLICAÇÕES

«Um Cristão no Mundo» - Porfírio Henrique Campos Borges acaba de publicar, em livro, «50 anos de memórias da vida de um militante da Acção Católica Operária (Autobiografia)». «Um Cristão no Mundo» é o título e tem Pórtico de D. Manuel Martins, bispo de Setúbal, que assinala a aventura que é a vida e manifesta o seu apreço por quem ousa dá-la a conhecer, e tanto mais quanto o Autor ousou vencer todas as dificuldades, e conseguiu. Trata-se de um testemunho pessoal, de uma história localizada que o Autor oferece para dizer que vale a pena nunca desistir. Será um livro com muito interesse para quem, em vez de uma análise fria de factos, prefira conhecer estes últimos 50 anos através do calor da vivência de uma pessoa concreta. São 270 páginas, a edição é do Autor e está nas livrarias ao peço de 1 000$00.
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