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1. Violência e criminalidade sexual. De repente todo o mundo ficou chocado. Não chegavam as palavras para traduzir o horror que inspriram tais actos, como afirmou o primeiro ministro belga a propósito das sucessivas descobertas dos crimes de abuso sexual e de assassinato de crianças e jovens perpetrados pelo cidadão belga Marc Dutroux. Governantes, parlamentares, jornalistas, forças policiais, organizações de cidadãos: uma unânime e universal denúncia, uma série incontada de violentas condenações. Salutar, dir-se-ia. A comoção e o choque alertavam para o problema, tanto mais que se realizava entretanto em Estocolmo a Conferência Internacional contra a exploração sexual das crianças (organizada pela UNICEF e pelo Conselho da Europa), em que participaram muitos especialistas internacionais, à qual também foi enviada uma mensagem da Santa Sé.
É importante que as organizações internacionais se inquietem e procurem tomar medidas perante atitudes de tão elevado grau de desumanização. Uma acção que se torna de repente tão mediática (ser mediático é agora a suprema aspiração de todas as humanas ambições) é sempre um pretexto: tanto para a inquietação honesta, para denúncia séria, para os projectos bem intencionados e para captar favores da opinião pública para publicações de interesse duvidoso.
Com efeito, muitas destas inquietações das autoridades responsáveis, muitos dos choques sentidos ou supostos, muitas das lágrimas derramadas pelas estruturas sociais soam inevitavelmente a hipocrisia, a desfaçatez, a descaramento. Basta ver como a comunicação social se tem vindo a tornar cada vez mais a exponenciadora impune das mais variadas e requintadas formas de violência. Sobretudo a televisão tem-se vindo a tornar a escola oficial de todas as formas de violência, incluindo a violência sobre crianças. Toda a violência televisiva é uma violência sobre crianças. No entanto, as televisões choram agora lágrimas de crocodilo sobre as vítimas do caso belga, apenas porque se tornaram mediáticas. E sobre as suas próprias vítimias?
A denúncia da exibição da violência feita recentemente por personalidades responsáveis, as propostas de um pacto entre as televisões para a não-violência, tudo caiu em saco roto. Alguns jornalistas, muito ouvidos mas pouco serenos e de uma racionalidade superficial, até têm vindo a defender que as televisões não têm culpa da violência que existe e "por isso" tem que ser divulgada.
É preciso salvaguardar a justa medida: uma coisa é divulgar, outra é propagandear. Não é raro que se defenda o direito de informar para o transformar em propaganda da violência ou da obscenidade. Mas importa salientar um ponto fundamental: a maioria da violência que nos dá a televisão não é a violência do real, mas a violência fabricada, que funciona como pedagogia da violência. É a violência dos filmes americanos, é a violência de programas policiais pré-fabricados, é a violência contra a sensibilidade e o bom-senso, a violência contra o equilíbrio emocional que nos fornecem encapotada no celofane dos "pontos de encontro" e similares, ou na serapilheira sórdida dos programas como o jogo do ganso, as escovas de dentes ou os concursos de habilidades e amestramentos masculinos ou femininos (ou neutros).
Há muitas formas de violência televisiva: a pior é a violência ao sentido ético e moral do povo, a exploração da sua sensibilidade, do seu sentido emocional e sentimental, tão característico do nosso temperamento. A violência fílmica importada da América ou rebuscada em obras pretensamente históricas, a violência de programas de tipo exibicionista, abertos a todas a iddades, a violência dos desenhos animados, cujos destinatários são (supostamente) as crianças. Que querem depois se não que apareça de vez em quando um cidadão belga mediático para nos continuarem a encher com a violência a pretexto da sua denúncia?
Todas as legítimas autoridades se sentem chocadas legitimamente com os crimes sexuais. Mas passam a vida a desconhecer, a autorizar, a fazer vista grossa, a sorrir complacentemente a toda a exploração da sexualidade que se instalou na nossa sociedade, a começar pela própria comunicação social, a pretexto da liberdade de expressão. Mais: riem-se de denúncias oportunas feitas pela hierarquia da Igreja quando se verificam evidentes desmandos. Quando se fazem apelos a conceitos e práticas valorizadoras da sexualidade.
Depois lamentam os desmandos, quando se tornam mediáticos, como forma de lavar a cara. Chama-se a isto a hipocrisia social e política, a hipocrisia mediática.
2. Incêndios florestais e outros. Lá veio a praga. Esperada, consabida, mas nunca evitada. Basta esperar por um pouco mais de calor: os incêndios são aos milhares. Este vosso servo presenciou na semana passada algumas dezenas, em curta viagem pelo interior do norte do país. Grandes, médios e pequenos. Aguardando a chuva. Junto das estradas e junto das povoações. Nascidos de tudo, antes de mais da incúria e da falta de vigilância, cada vez mas evidente, apesar dos milhões gastos na vigilância. Ou vigiamos mal, ou os vigilantes são maus, ou vigiamos fora dos sítios.
Fala-se dos fogos postos. Muitos serão. Tenho para mim que a maioria resulta da incúria, do desleixo, da falta de solidariedade entre as populações, que antigamente era ponto de honra: em pouco tempo se apagavam, porque o povo era solidário. E sobretudo da falta de atenção e da falta de programas de limpeza das florestas, sempre anunciados durante a época dos incêndios e depois guardados nas gavetas dos gabinetes de Lisboa até aos incêndios do próximo ano. Salvaguardam-se assim os trabalhos já realizados. Acima de tudo, arquivar!
3. Xenofobia. O caso da comunidade cigana de Oleiros encheu noticiários, ocupou páginas, mobilizou autarcas, motivou notas pastorais e ministeriais, deu azo a conflituosas declarações de presidentes de Junta, originou possíveis processos judiciais. Depois aconteceu-lhe o que era óbvio: a coisa deixou de interessar à comunicação social e caiu no esquecimento. Alguém sabe da sorte da família cigana?
Os casos de xenofobia, verberados por entidades competentes e responsáveis, têm por certo fundamento. Mas é preciso conjugar a xenofobia endémica das populações em relação aos ciganos com outros fenómenos igualmente negativos: os interesses e os negócios subjacentes a questões de terrenos; o tráfico de drogas e de influências locais; a manipulação acrítica das populações quando isso interessa a grupos de pressão: o que tudo constitui o disfarce sob o manto da xenofobia de outros interesses criados ou a criar.
4. Vacas loucas. As formas de protesto utilizadas por algumas organizações de agricultores motivadas pela acentuada queda da venda de bovinos, em resultado da chamada crise das vacas loucas tornaram-se mais uma manifestação de crueldade publicamente exposta. Portanto, mais uma forma de violência. É certo que a base do sustento da maioria dos agricultores se encontra na criação e aproveitamento do gado bovino. A conversão dos campos da tradicional produção de milho para a produção de pastos com base naquele cereal permitiu aos agricultores retirar muito mais partido da produção de leite e da criação de animais para carne, o que constitui um magro pecúlio, amassado na dureza do trabalho, mas que garante uma sobrevivência digna.
Mas nada justifica o espectáculo degradante que certos agricultores, levados por motivações ocultas, encenaram no Mindelo para conseguirem um diálogo já existente com as entidades governamentais. Chama-se a isso utilizar os legítimos interesses como processos ilegítimos e bárbaros de protesto.
5. Acidentes de trânsito. Outra constante do verão. Pelos vistos este ano mais constante que em outros. Divulgação de estatísticas que toda a gente já sabia: Portugal é o país da Europa com maior taxa de sinistralidade nas estradas. Há outros dados a divulgar: Portugal é o país da Europa com pior rede de estradas; com mais deficiente sinalização; com maior número de "pontos negros" de sinistralidade, de arranjo sempre adiado; com parque automóvel mais envelhecido; com mais deficiente vigilância policial; com condutores menos bem formados. E até se pode conduzir sem carta.
Todalas cousas com rezão tem sazom, escreveu um dia Gil Vicente, que não percebia nada de estradas nem consta que tivesse automóvel.
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De 13 a 19 de Setembro
Sem o protagonismo feminino, a fábrica de sonhos Disney não seria a mesma; não teria chegado ao lugar que hoje ocupa no firmamento cinematográfico. Walter Elias Disney (1901-1966) soube, desde muito novo, que se queria conquistar o grande público devia fazê-lo com heroínas de luxo que personificariam o bem e com malvadas depravadas que representariam o mal. A sua série de tiras cómicas chamada «Alice Comedies» foi o começo de uma impecável carreira no mundo da animação. Desde então, os criativos dos estúdios souberam adaptar-se aos tempos, aos modelos de mulher em voga, fazendo as suas heroínas e vilãs personagens cada vez mais humanas, mais carnais, mais sensuais. Desde «Branca de Neve e os Sete Anões» (1937) até «Pocahontas» (1995), as heroínas e vilãs dos Estúdios Disney têm demonstrado uma personalidade em contínua evolução.
Enquanto não chega aos grandes ecrãs a última grande produção Disney, «O Corcunda da Notre-Dame», a partir do romance homónimo de Victor Hugo, aí está para deleite de todos os apreciadores dos produtos Disney, miúdos e graúdos, a edição videográfica de «Pocahontas», uma aventura romântico-ecológica sem um final feliz. A heroína da história é uma jovem índia de melena azeviche, lábios carnudos, agilidade felina e um coração indomável. É, além disso, uma lenda americana com a qual os estúdios de animação mais importantes do mundo assinam a sua 33ª produção. «Pocahontas» passa por ser o primeiro filme de animação inspirado num personagem real e cujo final está muito longe do habitual cor-de-rosa. Isso sim, no processo criativo desenvolvido pela Disney, a realidade deu lugar a uma ficção muito especial.
Conta a lenda que «em princípios do século XVII, a filha do grande Wahunsonacock, chefe dos Powhatans, era conhecida pela sua beleza, inteligência e bondade. Aos onze anos, Matoaka ("pequena travessura", em língua vernácula) era uma mulherzinha entendida nos segredos da mãe natureza. E com o cognome de "Pocahontas, a jovial" chegou até nós, afrontando a luz tal como a gazela que passa da penumbra dos bosques para a claridade irradiante da história. Quando conheceu o Capitão John Smith contava ela onze anos. Ao chegar à Virgínia - a ferros - o jovem capitão tinha vinte e sete. O seu navio, "Susan Constant", era um dos três que penetraram na baía de Chesapeake, numa noite de Abril de 1607, afim de estabelecer a colónia de Jamestown. Estavam tão carrregados de malandros e aventureiros que, ao denunciar a velhacaria, John Smith foi posto a ferros. Mas, na noite anterior ao desembarque, bastante propensos a enforcar John Smith num mastro sob acusação de fomentar um "motim", os capitães dos navios romperam os selos dos despachos emitidos pela Companhia da Virgínia, de Londres, e descobriram que Smith fora nomeado um dos sete conselheiros da colónia. Tiveram, portanto, de tirar-lhe as algemas» (dado histórico). No filme, a tripulação, dirigida por um ambicioso governador e controlada por um mercenário, John Smith, pisou terra americana com a ignóbil intenção de apoderar-se do ouro e de outras riquezas das tribos índias da zona. A batalha entre ingleses e nativos prometia ser terrível e sangrenta. Mas, o inevitável encontro entre Pocahontas e John Smith fez mudar o rumo da história. Ela foi sequestrada e usada como moeda de troca na libertação de alguns soldados prisioneiros. Apesar de evitar a guerra, não se impediu que, séculos mais tarde, o povo índio fosse aniquilado pela hordas de conquistadores e colonos. Na versão Disney, nem Pocahontas é uma miúda nem John Smith um sanguinário. Em contrapartida, o seu encontro é muito mais romântico e não faltam as belas melodias, as frondosas paisagens e as pinceladas mágicas inspiradas no folclore índio. Vamos por partes.
O ENCONTRO. Segundo os criadores do filme, foi o momento mais difícil. Pocahontas não podia falar inglês logo à primeira, John Smith devia superar os seus receios do desconhecido... Glen Keane, coordenador do guião, encontrou a chave na sua própria experiência: "Recordei como conheci a minha mulher, na fila de um cinema. Olhámo-nos, e foi como uma revelação. Senti uma descarga eléctrica. Soube que não precisava dizer-lhe nada para exprimir o quanto a desejava". Essa idéia está reflectida na sequência brilhante em que Pocahontas "escuta o vento e o seu coração", como diz a canção, e John Smith lhe estende a mão. Tudo fica claro. Basta o olhar aceso dos apaixonados...
A MÚSICA. Coleccionador de Oscars desde «A Pequena Sereia», Alan Menken afirma que as canções predilectas são «Listen to your heart» e «Colors of the wind»: "contêm os elementos mais românticos e cativantes, ainda que toda a banda sonora se alimenta das mesmas referências folclóricas. Como musical é muito mais adulto, mais sério, ao estilo Rodgers & Hammerstein («Música no Coração»). A inspiração baseia-se na realidade, na tradição índia, na presença britânica, numa paisagem esmagadora numa época selvagem. E toda essa música devia destilar um ritmo pop para prender o público".
AS MASCOTES. Embora os heróis sejam humanos, Disney não podia deixar de lado os animaizinhos. Neles se concentra todo o humor, matizando o dramatismo do relato e cativando os mais pequenos. Eric Goldberg, o veterano co-realizador, assegura que "o mais difícil era dar personalidade a criaturas que não falavam e que deviam ser animais de verdade. As suas brincadeiras, os seus olhares, os seus gestos, tudo está calculado para divertir. Além disso, a presença da magia índia está patente na figura da árvore que fala com a heroína. E na mistura de todos estes elementos é que está o encanto".
AS CORES. O azul e o verde são as dominantes. Para o director artístico, Michael Giaimo, "ambas as cores respondem ao nosso desejo de reflectir a natureza em todo o seu esplendor. Do mesmo modo, aplicamos tons terracota aos personagens, resolvendo o contraste entre a heroína e os secundários com o recurso de sua melena. Pocahontas, para lá dos gestos de seu corpo e rosto, desenvolve uma sensualidade especial graças ao seu cabelo. Dá-lhe força e carácter".
A SENSUALIDADE. O jovem realizador Mike Gabriel sente-se encantado com a melena de Pocahontas e da sua sensualidade: "Apesar dos avanços, é impossível alcançar a perfeição na definição dos traços. Por vezes, o nariz ou as maçãs do rosto não saiem como queremos, mas o espectador fica tão encantado com o seu cabelo que esquece o resto. É um recurso maravilhoso que dá muito enfeite às coreografias".
O FINAL. O filme tem um final mais realista, muito longínquo dos finais "foram felizes para sempre" da fábrica Disney. Conta a lenda que Pocahontas se casou, viajou para Londres e causou sensação. Mas isso é outra história. Resta acrescentar que a dobragem está feita no nosso português (e muito bem) e o vídeo encontra-se disponível num lançamento Walt Disney Home Video/Lusomundo Audiovisuais, que também distribui a banda sonora em compact disc.
| Vasco Martins |
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