Última Página:

Pedofilia

Até aqui pouca gente sabia (ou "dava por isso", como pouca gente se apercebe de coisas tão simples como a que é referenciada pelo heterónimo pessoano Álvaro de Campos, ao proclamar que que "o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo", ou como aqueloutra suposição, segundo a qual, como disseram os futuristas, um automóvel de corridas é tão belo como a Vitória de Samotrácia).

De repente, como por encantamento, diabólico ou ocultista, todas as páginas dos jornais, dos mais populares aos mais elitistas, dos especializados no crime, no insólito ou na marginalidade, aos generalistas por opção e por critérios editoriais, se encheram com a palavra pedofilia, e bem assim de seus derivados, como rede pedófila, acções pedofílicas e similares.

O vocábulo foi introduzido rapidamente em força na língua jornalística portuguesa com a função específica de designar as acções e as motivações que conduzem a práticas de abuso sexual sobre crianças, em torno do caso daquele cidadão belga que tristemente se tornou famoso pelos referidos crimes cometidos contra crianças e adolescentes, e que se tornaram pasto apetecido de imprensas e televisões. Para a incontida ânsia do insólito que anima a informação, já nem era preciso recorrer aos filmes americanos ou a reportagens marginais pelas ruas de Lisboa, porque a realidade tinha ultrapassado a ficção. Importa, no entanto, salientar que as acções do belga não tiveram apenas como objecto as crianças, configurando um quadro de preversão sexual muito mais vasto do que o que se contém no conteúdo semântico do neologismo "pedofilia", como é o caso das suas jovens vítimas de 18 e 19 anos cujos cadáveres foram recentemente encontrados.

Com efeito, se quisermos descobrir e interpretar devidamente o sentido que informa tal vocábulo, teremos que interrogar-nos sobre a propriedade da sua utilização. Deriva da forma grega paido-, que evoluiu para pedo- e que traduz a ideia de criança, mais o elemento philós, que traduz amor, paixão, amizade. O sentido natural imediato seria então, como se encontra nos Dicionários de J.P. Machado e de Moraes (e que outros dicionários nem sequer registam), "amor, dedicação às crianças". O que não parece ser o sentido das atitudes do famigerado belga. Eis como um termo de conteúdo semântico claramente valorativo acaba por assumir um evidente sentido pejorativo.

Em relação e contraponto, poderíamos citar também o termo pedologia, traduzindo o estudo da educação infantil ou a ciência ou arte da acção de aprecisr e educar as crianças. A prática, portanto, da actual inquietação educativa oficial, a saber, a educação chamada "pré-primária".

O termo utilizado no jornalismo em língua francesa e em língua espanhola com relação ao mesmo caso é, bem mais adequadamente, segundo o sentido que tradicionalmente lhe é dado, pederastia, conceito corrente que traduz a prática da homossexualidade masculina em geral, mas que na origem do seu significado traduziria exactamente a atracção ou a prática sexual de um "amante" adulto (da origem grega erastê, de eros) sobre a criança ou adolescente, prática de tão ancestrais como deletérias tradições culturais.

Poucos dos utilizadores do termo se terão dado conta que a mesma raíz se encontra noutras palavras de uso corrente e dignificado, tais como pedagogia (e termos correlacionados), pediatria (e termos reacionados) , além de outros menos correntes, como pediógrafo (aquele que trata ou escreve sobre temas infantis), ou pediometria (medição do crescimento das crianças). Acrescem ainda termos como enciclopédia (e derivados) com a mesma origem mas com sentidos que evoluíram de forma diversa.

Importa igualmente lembrar que o componente vacabular pedo- pode ter mais duas origens relevantes: uma, também do grego, mas de uma forma diferente, pedon, que traduz a ideia de solo, da qual derivam termos como pedologia, ciência que estuda os solos nos seus vários aspectos (físico, químico, biológico); outra, derivada do latim pedem, que traduz a ideia de pé, em palavras como pedestre, pedicuro, pedículo (caule ou piolho), etc.

Nas práticas linguísticas, a semelhança vocabular traduz por vezes conceitos muito diversificados. Os princípios da economia ou do "menor esforço", da simplificação, da tendência para a uniformização são os reponsáveis por estas transmutações linguísticas. No caso presente, três origens diferentes e até contraditórias conduzem à mesma forma final na língua portuguesa.

Embora em linguagem o essencial seja que nos entendamos, para uma conveniente compreensão e adequada utilização e valorização dos sentidos, é necessário conhecer os mecanismos, ora simples, ora complexos, do seu funcionamento. Aqui fica um pequeno contributo para essa tarefa.
C.F.
Início


Mensagem ao povo de Deus

«O estilo de vida do padre: problemas e apelos»

Os padres e bispos reunidos em Simpósio de 2 a 6 no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, correspondendo a um apelo da Comissão Episcopal do Clero, vindos da totalidade das dioceses portuguesas, ao encerrar os seus trabalhos, dirigem-se a todos os fiéis:

Move-nos um grande desejo de encontrar os caminhos de bem-aventurança para darmos resposta, com realismo e determinação, às vossas necessidades e inquietações.

Sabeis da sobrecarga de tarefas e serviços que pesam sobre a maioria de nós. Conheceis o nosso pouco tempo para atender a cada um de vós na escuta dos caminhos de Deus para o quotidiano da vossa vida pessoal: na profissão, na família, na cultura, na política... Sentis a correria a que a vontade de dar resposta às solicitações múltiplas nos leva. Sofreis o cansaço dos nossos esforços.

Nós queremos ser fiéis ao estilo de Jesus, Bom Pastor da Humanidade, nos mil modos do jeito de cada um, na diversidade de situações em que somos chamados a uma doação de amor ao Pai e a todos os homens.

Só com a colaboração fundamental de cada um de nós, conseguiremos descobrir melhor os traços da figura do Único Sacerdote e Mestre no concreto da nossa vida de padres.

É na medida em que:

- procuramos juntos o que anda perdido;

- nos aproximarmos dos pobres;

- existir em nós o desejo ardente de uma Páscoa, de vida nova;

- nos sentarmos para aprender a mensagem de Jesus;

- dermos as mãos para ir ao encontro dos marginais;

- nos larçarmos na edificação da Igreja e nos unirmos em oração ao Pai comum;

que descobriremos o estilo de Deus para o nosso serviço eclesial e o estilo de homens novos, na fidelidade ao Redentor. Ele entregou-se, livremente, na totalidade do seu sangue, em obediência ao Pai, como pobre disponível ao Espírito.

Na proximidade do ano dois mil, queremos convocar-vos para um ardor novo, métodos novos, na construção de uma Igreja mais parecida com o sonho do Reino inaugurado por Jesus. Preparemo-nos para o advento do novo milénio com uma abertura à Nova Evangelização a que o papa João Paulo II nos convida.

Precisamos e contamos com a força da vossa lucidez e a vivência comunitária da vossa fé. Solidificados no amor de Deus poderemos viver felizes sendo padres entre vós.

Damos graças a Deus que aqui nos reuniu.

Deixamos Fátima com os olhos renovados pela beleza do rosto maternal de Deus, espelhado em Maria, em cujo regaço entregámos as vossas e as nossas preces..


Primeira Página Página Seguinte