Cultura:


Os insondáveis mistérios do quotidiano

1. O que pensam os partidos. Talvez os partidos não pensem. Os partidos lutam, combatem, esmifram-se, apoiam, contestam, protestam, sentam-se e levantam-se para votar, exercem, através deste primitivo gesto de sobrevivência, o seu indelével e sagrado poder legislativo e decidem entre dois gestos primitivos a sorte dos cidadãos pacatos e menos pacatos.

Será por não pensarem nem ser essa a sua missão que nunca dizem o que pensam. Passam a vida a redizer, analisar, a criticar a rebater aquilo que os outros afirmam e as posições que tomam. Não sei se repararam: a maioria, ou a quase totalidade das posições assumidas pelos dirigentes partidários mais "carismáticos" destinam-se a falar das posições dos outros parceiros partidários.

Desta forma acontece um fenómeno de tipo falaz e enganador: como os dirigentes partidários não definem as suas posições sobre os problemas, mas preferem criticar arduamente as dos outros, nem sabemos as suas, porque não as dizem; nem sabemos as dos outros, porque não são exactamente aquilo que os parceiros dizem que são.

Assim vão os próceres vegetando na vida política: entre o que não são e o que dizem que os outros são. O que constitui a melhor maneira de não assumir responsabilidades.

2. Desigualdade no trabalho. Disse um "estudo" (nos dias que correm é fácil transformar qualquer ponto de vista pessoal ou qualquer assunto que se quer tornar notório quando é insignificante em "estudo", para lhe dar a pretendida credibilidade que lhe falece no real) que cada vez se vão notando mais as desigualdades no trabalho: entre homens e mulheres, entre dirigentes e trabalhadores de base, entre países pobres e países ricos, entre sociedades desenvolvidas e sociedades primitivas, entre profissões favorecidas e profissões ocasionais.

Sempre foi assim: o mundo viveu e vive mergulhado na insolidariedade. Os países ricos são como os homens ricos: querem tornar-se mais ricos. Os países pobres procuram sobreviver, e geralmente servem de caldo de cultura a uma minoria de oportunistas ricos, que por definição são egoístas, para explorarem a incapacidade dos pobres para se promoverem. É nos países mais pobres que proliferam as catervas de oprotunistas que vivem à custa da miséria colectiva. O resultado de tudo isto são os movimentos de insurreição, tantas vezes justificados, mas que servem apenas para que novos oportunistas se tentem locupletar com a incapacidade dos projectos de libertação, a quem igualmente importa continuar a luta para terem razão de existir. Alcançado o poder, qualquer revolucionário se transforma em detentor do poder, e portanto da riqueza, e por definição, exige o aparecimento de novos revolucionários que destruam os seus empórios. É por isso que o princípio da revolução, ainda que supostamente justo, se destrói a si mesmo.

3. Guerra das audiências. Sempre me fez confusão que se definisse a importância de uma estação de televisão, de um jornal, de um programa de rádio, de um ministério, até duma escola ou universidade, pela quantidade de ouvintes que possa ter. Estamos de novo no domínio do puro economicismo consumista. Ninguém se preocupa com o valor humano dos programas, com o sentido construtivo das acções, com a criatividade e a imaginação criadora, com a valorização das atitudes, com o serviço ao bem comum e à dignidade humana, com o sentido ético e moral das situações, com a promoção dos valores humanos e sociais que os programas promovam. O essencial são as audiências. Surgem então essas figuras psicotrópicas das audiometrias, fundamentadas em escolhas tidas por "científicas" (como se abusa das palavras!) e que essencialmente acabam por ser ilusórias, porque se fundamentam na falsidade das selecções aleatórias que se transformam em dogmas assumidos. Porquê? Porque sim! Os que têm esses poderes sociais decidiram, está decidido.

Agora, porém, são os próprios súbditos a dizer que o rei vai nu. Dito de outra maneira: são as próprias televisões a contestar aquilo em que fundam a sua actividade, a sua selecção de programas: as audiências.

Infelizmente essa contestação, aliás fundamentada, não irá servir para que se mudem os critérios de programação, para se valorizar o humanismo e os valores culturais, mas apenas para se encontrarem outras formas de continuar a iludir o público de outra maneira. Quer dizer: para se encontrarem outras formas de contabilizar as audiências que substituam os produtos falhos de qualidade por outros igualmente falhos de qualidade, que sejam rapidamente transformados em mais populares, apenas porque se numeram por outras regras. Estamos positivamente no reino de ilusão provocada. Transformam-se em gigantes as liliputianas figuras pela simples via da transformação das paisagens de fundo. Puras ilusões de óptica, puros efeitos especiais.

A televisão é como os filmes: quanto mais efeitos especiais, mais enganos; quanto mais espectáculo, menos verdade; quanto mais exaltação própria, menor consciência do seu valor.

Importa introduzir nos media em geral um sentimento indispensável da humildade.

O facto simples de os protagonistas se tornarem profissionais conhecidos do público dá-lhes um estatuto de notoriedade que facilmente transforma a mediocridade em vedetismo. Basta ver o que acontece por essas estações de rádio e televisão: o pessoal vedetizado entrevista-se um ao outro, convidam-se para os programas uns dos outros, contam todas as efemérides da sua vida, desde o nascimento da criança ao divórcio litigioso. Parece que se situa nos estúdios o centro do universo. É assim: acontece no país inteiro o que acontece em Lisboa, e as inquietações da humanidade são as dos verdadeiros artistas.

Assim vai passando a glória do mundo.

4. O fim da etapa. A etapa acabava em Bordéus. Como anteriormente acabara em outras cidades de França, da Espanha, da Alemanha e da Bélgica. Se o leitor reparou na qualidade das imagens, quer das tiradas de helicóptero, quer das fixadas ao nível da corrida, pode ter-se apercebido da qualidade e pertinência dos planos, na beleza em movimento, na expressividade do conjunto. Nada de pormenores desnecessários e até traumatizantes, sem no entanto se olvidar o essencial.

Mas sobretudo pode ter verificado o impecável estado das estradas, a sinalização oportuna e clara, o cuidado na orientação do cidadão utente, o rigor das marcações do pavimento. Não era para a corrida, era para o quotidiano.

Eis por que razão em outros países se consegue uma menor incidência dos acidentes rodoviários, apesar de uma maior velocidade de circulação: a educação faz-se mais pela orientação do que pela repressão. Mais pela pedagogia, que pela normas que constringem mais que beneficiam. Eis um sector onde ainda não chegamos à Europa.
C.F.
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O CINEMA EM CASA

De 26 de Julho a 1 de Agosto

TELEVISÃO - A semana passada referi aqui o ciclo sobre François Truffaut, que a RTP 2 está a exibir, e assinalei a passagem de «A Noite Americana» (1973) na sexta-feira (dia 26). Esta deliciosa obra-mestra do cinema francês, além de abordar o universo do cinema e comentar sobre a vida dos que a esse mundo pertencem e nele trabalham, na óptica de um realizador que viveu apaixonado pela 7ª Arte, e nele também participou como actor interpretando o realizador da história, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com a realização dos 100ºs Jogos Olímpicos da Era Moderna, a decorrer em Atlanta, EUA, até finais de Agosto, é natural que haja muitas alterações na selecção cinéfila dos dois canais da RTP, mas a RTP 2 inicia na próxima segunda-feira um novo ciclo, desta vez dedicado ao erotismo nas suas facetas "soft" e "hard". Será exibido «Nove Semanas e Meia», drama do americano Adrian Lyne (1986), com Kim Basinger e Mickey Rourke, entre outros provenientes de diferentes países, como Alemanha e Hungria.

O meu destaque vai para um drama clássico com Marilyn Monroe, a exibir na SIC (domingo, 28), intitulado «Paragem de Autocarro», assinado por Joshua Logan em 1956, onde ela protagoniza uma deslumbrante cantora de cabaret, numa cidade do centro dos EUA onde se realiza um "rodeo", insistentemente assediada por um rude e algo imaturo vaqueiro (Don Murray), que a rapta e leva para o seu rancho, onde pretende força-la a casar com ele.

Apesar da sua carreira quase se confinar aos anos 50, Marilyn Monroe é uma estrela para a eternidade. O eterno feminino, a personificação do Mito de Hollywood, é um dos maiores ícones do cinema do século XX. Nascida em 1926, Norma Jean Mortenson era filha de mãe solteira e instável, e foi criada em orfanatos. Casou-se, trabalhou numa fábrica de munições, posou como pin-up, fez testes no cinema, foi contratada para alguns pequenos papéis e dispensada pela Twentieth Century-Fox antes de completar os 20 anos. Lutou em diversos estúdios por apagadas e curtas aparições antes de deixar uma marca em «The Asphalt Jungle» (1950), e sua sexualidade voluptuosa e instintos de comediante fizeram-na subir de forma meteórica, atingindo sua apoteose como a loira fatal em «Os Homens Preferem as Loiras« (1953), onde contracena ao lado da morena Jane Russell, interpretando a canção "Diamonds Are the Girls Best Friends". Muitos dos seus filmes posteriores foram banais, mas o seu impacto era espectacular. Acho-a adorável como a pequena ingénua de «O Pecado Mora ao Lado» (1955), a cantora impetuosamente cortejada em «Bus Stop/Paragem de Autocarro», a cantora Sugar em «Quanto Mais Quente Melhor» (1959) e a triste divorciada de «Os Inadaptados» (1961) - curiosamente o último filme de Marilyn, Clark Gable e Montgomery Clift. A sua morte por overdose de barbitúricos, em 1962, pareceu ser a consequência inevitável para uma vida infeliz e assegurou que perdurásse como uma lenda por muito mais tempo do que qualquer outra estrela de Hollywood.

VÍDEO - Recebi os catálogos de Julho da Prisvídeo, a maior editora e distribuidora videográfica nortenha, que inclui as etiquetas Prisvídeo e Ecovídeo. O principal destaque incide numa recente edição de filmes de animação, compondo a colecção «Clássicos Universais», integralmente falada em português e destinada à Venda Directa, onde se contam as mais bonitas histórias de sempre, como «Cristovão Colombo», «S. Francisco de Assis», «Bernadette», «S. Nicolau», «O Anjo da Guarda», «Ulisses», «Ben-Hur», «S. Francisco Xavier» e «S. Patrício». Esta colecção é inaugurada com o lançamento do filme «O Dia em Que o Sol Bailou (A Verdadeira História de Fátima)», onde se relata a inspiradora história de Lúcia, Francisco e Jacinta, cuja grande Fé e coragem ajudou a levar as mensagens de Nossa Senhora de Fátima a todo o Mundo. Outros títulos a ter em conta: «Grotesco», drama e suspense, de John-Paul Davidson (1995), com Alan Bates, Theresa Russell e Sting: uma sátira negra à sociedade inglesa, uma brilhante e inverosímil história de crime, sedução e loucura; «Vermelho Escaldante», drama, de Paul Haggis (1993), com Donald Sutherland e Balthazar Getty: a dificuldade em se formar uma banda de rock'n'roll na Rússia dos anos 50.

... E FORA DE CASA

Enquanto não chega a última jóia dos Estúdios Disney, «O Corcunda da Notre Dame», cuja estreia só se prevê para a próxima quadra natalícia, a Lusomundo Audiovisuais abre-nos o apetite com um road movie animado, realizado por Kevin Lima, em que o principal protagonista é o célebre Pateta. Em «Pateta - O Filme», o veterano Goofy (nome inglês do herói canino da banda-desenhada) e seu filho adolescente, Max, metem-se à estrada numa louca e acidentada viagem através dos EUA. Durante o trajecto vivem as mais alucinates aventuras, incluíndo o incontrolável amor de Max pela adorável Roxanne. Esta é a primeira vez, em 63 anos de vida, que o simpático e trapalhão Pateta/Goofy protagoniza uma longa-metragem, e seguramente não será a última.

Outra estreia da Lusomundo para os mais novos (e mais velhos, pois então!), é protagonizado pelo australiano Paul Hogan, o conhecido Crocodilo Dundee, que abandona os répteis e os arranha-céus de Nova Iorque para embarcar numa aventura com golfinhos e miúdos, interpretando agora o capitão de um barco que recebe a visita (forçada) de um sobrinho (Elijah Wood). Rodado na solarenta cidade de Orlando, na Florida, «Flipper» conta uma história de amizade que nasce entre um rapazinho (Wood) e "Flipper", um simpático e brincalhão golfinho bebé. Um refrescante título para as nossas férias muito dentro do estilo da primeira e segunda parte de «Libertem Willy». Duas propostas de Verão a não perder!
Vasco Martins
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«Para além das nuvens»

de ANTONIONI

Desde A Identificação de uma Mulher, de 1982, nunca mais Antonioni, um dos maiores nomes do cinema da década de 60, realizou qualquer filme. O derrame cerebral que sofreu provocou-lhe afasia (perda da função de falar) e paraplegia (paralisia dos membros inferiores). Inesperadamente, no entanto, ele que foi sempre um realizador surpreendente e que nunca se deixou esgotar no já feito, surge agora com este Para além das nuvens, assinado de parceria com Wim Wenders.

Como não podia deixar de ser, trata-se de um filme sobre as suas temáticas de sempre, a Mulher e a incomunicabilidade do ser humano. Por esta última, não deixa de ser curioso que, diminuído Antonioni pela sua afagia, ele se tenha tornado agora uma espécie de sacramento daquela incomunicabilidade de que sempre - e quase só - falou. E no entanto este é um dos seus filmes mais discursivos ou narrativos, a apresentar em episódios (sketches) tão ao gosto dos idos do cinema algumas reflexões muito antonianas, quase que apenas sugeridas. Que quase se poderiam dizer um testamento.

Este tema da incomunicabilidade não é exclusivo de Antonioni. Recordo-me de muitos nomes do cinema e do romance moderno, para não falar doutras artes ou ciências como a sociologia ou a própria moral. Mas saíram da mão de Antonioni as mais amargas reflexões estéticas sobre os caminhos da solidão do mundo moderno. Aborda-os de preferência na relação masculino/feminino, não escondendo nunca o fascínio que sobre ele exerce a Mulher, mítica, distante, inabordável e sempre muito bela.

A solidão das suas personagens é sempre sublinhada, ou causada?, pela desumanidade do mundo físico que as rodeia ou envolve, e exprime-se nas ruas e cidades onde não há pessoas, no sexo mecânico, na violência que está inevitavelmente por detrás de um assassínio, ou no desastre que provoca uma ruptura.

Mas como, se a comunicação - racional, afectiva, pessoal, social, cultural, etc - é uma das características ou necessidades mais espirituais do Homem? Quando chego aqui, lembro-me inevitavelmente do Génesis: não se trata de perceber o que se passou, mas de constatar um estado de coisas. Talvez por isso mesmo os filmes de Antonioni são cáusticos, duros como pedras, trágicos quase sempre.

E no entanto lúcidos, feitos de realidade e conhecimento dos homens. E das mulheres, paradoxalmente. Ou não é verdade que a relação do homem e da mulher, e dos homens em geral, está inscrito na humanidade do Homem que só existe no masculino e/ou no feminino, e um para o outro?

Porque é que o amor não vinga, ou desaparece, quando parece estar ali mesmo, à mão?

Em todos os seus filmes, Antonioni dá a impressão de que procura desesperadamente qualquer coisa que todos sabemos o que é, algo que muitas vezes se está mesmo a agarrar, mas depois os problemas são maiores que as possibilidades, e apenas restam humanos solitários, ressabiados com o Outro, desiludidos com todos. Será que aquilo que todos buscam está mesmo Para além das nuvens?
Arlindo de Magalhães.
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