A Fracção do Pão(3)

Algumas lições da história do Rito

A Fracção do Pão teve a sua origem no gesto do Senhor que partiu o pão na última Ceia. Mas tem a sua pré-história nos costumes judaicos de o pai, como chefe do agregado familiar, partir o pão, com especial solenidade em algumas ocasiões, como na inauguração do sábado ou na ceia pascal. O gesto de Jesus ganhou um enorme impacto entre os seus discípulos, de tal modo que a celebração da Eucaristia era tida e chamada «Fracção do Pão».

Ao longo dos séculos, particularmente no que se refere à liturgia romana, o rito sofreu algumas variações que diminuíram e quiçá desvirtuaram um pouco o seu simbolismo.

Até S. Gregório (séc. VI-VII), a Fracção seguia a doxologia da Anáfora, como acontece com a actual liturgia ambrosiana. À Oração eucarística seguia-se imediatamente a Fracção do Pão - imitando a sequência das acções realizadas por Jesus: deu graças, partiu-o - e, preparado já o pão partido para o banquete, recitava-se o Pai nosso, como preparação imediata para a comunhão. A oração dominical que aparecia antes como preparação para a Comunhão, passou a ficar unida à Oração Eucarística, separando a Acção de Graças da Fracção. Esta mudança deve-se a uma interpretação muito pessoal deste Papa ilustre: «Recitamos o Pai nosso imediatamente depois do Cânon porque os apóstolos consagravam a Eucaristia recitando unicamente o Pai nosso e as palavras da consagração».

Contudo, no séc. VII, o gesto da Fracção conservava, ainda, uma notável expressividade. Testemunha disso, é o texto do Ordo Romanus I, descrevendo a missa papal dos fins do século VII. A Fracção do Pão aí descrita é um rito algo complexo, movimentado, prolixo e naturalmente demorado. Todos comungam dos pães partidos; na fracção intervêm o Papa, os Bispos e Presbíteros presentes (não outros ministros): « todos estão dependentes do papa que indica o momento de começar a fracção o papa indica também o momento em que os cantores devem iniciar o canto do Agnus Dei»; a Fracção é um rito destacado e longo o qual, do mesmo modo que o rito de entrada ou de comunhão, exige um canto prolongado.

Os posteriores Ordines romani, sobretudo nas versões da Gália, mostram-nos que a amplitude da fracção e o seu simbolismo vão diminuindo progressivamente e ela vai convertendo-se numa insignificante cerimónia e rubrica. O rito da Fracção vai ainda conservando a sua praxe originária e o seu simbolismo até ao séc. XIII. A progressiva desafeição do povo da comunhão e o costume que se generalizou de comungar fora da missa, bem como o uso, consequente ou concomitante, de hóstias pequenas, terão influído na não compreensão do rito, na sua degradação e redução a uma expressão insignificante. No Missal da Cúria romana de 1474 - e consequentemente no Ordo Missae de Pio V que o reproduz literalmente - o processo de degradação ritual chega ao seu cume: o celebrante parte sozinho a hóstia que deixa de partilhar com outros comungantes e consome-a integralmente. Estamos pois perante a máxima desvalorização do rito: parte o pão (no fim do embolismo) enquanto reza uma oração que nada tem a ver com o que está a realizar; o pão partido é consumido integralmente por ele, eliminando, assim, qualquer vestígio de referência ao simbolismo da unidade eclesial; quando o rito está completo, e depois da saudação «Que a paz do Senhor esteja sempre convosco» - que, novamente, nada tem a ver a fracção - recita, finalmente, o Agnus Dei (canto que deveria ter acompanhado a fracção). O antiquíssimo e expressivo rito passou a ser um conjunto de meras cerimónias que vigoraram até à última reforma litúrgica. Apesar de tudo isto, é curioso que se tenha conservado uma advertência, desde a Idade Média até à reforma do Concílio (texto introduzido por Durando de Mende, no séc. XIII, no seu Pontifical, mas nitidamente muito anterior), que o bispo fazia aos neo-presbíteros, a qual realçava a importância do rito da Fracção: «antes de celebrar a eucaristia, deveis aprender diligentemente de outros sacerdotes experimentados o conjunto dos ritos da missa, o modo de consagrar e o modo de fazer a fracção do pão».

Uma reforma de todo este conjunto se impunha, de modo a devolver à Fracção do Pão, como rito importante da Eucaristia, o lugar que lhe pertence.
S.D.L.
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