Cultura:


Números relativos e números imaginários

1. Foram revelados os resultados dos exames nacionais do 12º ano, que correspondem simultaneamente ao final do ensino secundário e ao ingresso no ensino superior. A sua divulgação tardia criou de imediato expectativas diversificadas, segundo a atenção e a intenção com que cada qual se posicionava relativamente ao evento: nos estudantes, receio, porque estava em causa a sua vida e a conclusão dos seus estudos chamados "secundários" (curiosa também é esta designação); os pais, porque geralmente vivem mais que os filhos os êxitos e os fracassos; as estruturas ministeriais, porque fizeram um investimento desmesurado nos processos e na importância de tais exames; a comunicação social, sempre à espera da divulgar as "notícias" da forma mais "atraente" (leia-se sensacional ou sensacionalista) possível; os partidos políticos, espreitando o êxito ou o fracasso para reafirmar as suas "posições muito claras" (as posições dos partidos são sempre "muito claras sobre essa matéria"), conforme o seu alinhamento em relação ao governo - ou para o apoiar ou para pedir e sua demissão.

Conjugados todos estes factores, o espectáculo montado a que se assistiu nos últimos dias situou-se algures entre o maquiavélico e o quixotesco: o príncipe defendeu os seus reinos com todos os argumentos legítimos e ilegítimos, porque todos os meios são legítimos para atingir os fins; e o fidalgo esgrimiu contra os moinhos de vento da sua imaginação transtornada, pensando estar em causa, em cada gesto largo e transbordante de brandir a espada fictícia, o destino da humanidade inteira. E havia muitos príncipes e muitos fidalgos escondidos com o rabo de fora no meio de todo o processo.M1

Entrou-se assim nos domínios da dramatização, que é sempre a melhor forma de distorcer o real. Divulgam-se notícias como estas: "seis mil zeros nas provas de matemática". Número falso, afirmam as entidades competentes. Quem o inventou? Pouco importa. O número veio a público, mas o mais surrealista foram os comentários intelectualizantes que se lhes seguiram. O jornalista armou-se em analista das ciências da educação e debitou as suas nóveis e ternas teorias sobre o sistema de ensino. Eis um primeiro número imaginário.

Entretanto o ministro decide acrescentar dois valores às notas de exame de todas as disciplinas, para efeitos de conclusão do ensino secundário. Segundo número imaginário, que vem garantir aquilo que já se sabia: que todas as notas são números relativos.

Soltam-se agora os impropérios contra o ministro, contra o júri, contra o sistema político, contra o estado da educação, contra a escola, contra os professores, contra os alunos: cada qual segundo a perspectiva (situada num ponto qualquer entre a sabedoria e a ignorância) e segundo os interesses de cada qual: alunos, pais, professores, ministério, partidos políticos, organizações sindicais, associações de moradores ou conversadores de café.

Mais uma vez vem ao de cima a memória curta das pessoas: poucos se recordam que o sistema das bonificações tem sido usado sistematicamente em diversos tipos de exame, e por diversas formas, desde tempos imemoriais. No tempo da outra senhora, os ajustamentos de notas faziam-se sem dizer nada a ninguém: quando os resultados saíam já vinham ajustados segundo as conveniências: novos números relativos. O mesmo aconteceu nas anteriores provas de acesso e nas anteriores provas específicas.

Tudo isto nos traz múltiplos ensinamentos: que toda a avaliação deve ser entendida como potencialmente falível; que neste domínio, como em muitos outros da vida, só nos situamos nos campos das aproximações (e se calhar por isso é que a vida tem mais variedade de situações, de atitudes e até de empregos); que, apesar disso ou por isso mesmo, é preciso aproximar e aferir critérios suficientemente analógicos para poderem ser verdadeiros; e, conclusão mais imediata, óbvia, e quotidiana: "errare humanum est".

2. Talvez seja de abundar um pouco, numa tentativa de aproximação, nas razões pelas quais os resultados das provas de exame, para além de todos os erros verificados (que também sempre existiram, rebusquem lá na memória curta).

A primeira pode traduzir-se da seguinte maneira: ao longo de mais de duas décadas as estruturas de ensino e as práticas estudantis têm vindo a caracterizar-se por uma progressiva falta de rigor, de qualidade e de disciplina da acção educativa. Digo "progressiva", porque ainda não se inverteu a tendência, embora cada vez mais gente tenha consciência dela. Tem-se vindo a simplificar tudo, excepto o menos importante, que é a quantidade de disciplinas (entenda-se de denominações de disciplinas, não de saberes) que têm sido introduzidas ao sabor de grupos de pressão, sejam eles profissionais, associativos, ou outros. Daí resulta um fenómeno único no universo: que as mesmas matérias sejam leccionadas em várias disciplinas diferentes, e em nenhuma delas com um mínimo de carácter científico.

A esta ânsia de simplificação, a que o senhor ministro chamava há dias, numa palavra simplista, invenção de um seu célebre antecessor (que como devem estar lembrados, foi destituído por causa da má elaboração e dos maus resultados das famigeradas "provas globais", nada de novo debaixo do sol), o "facilitismo", que começa na avaliação do ensino básico, acresce o fenómeno da massificação, desejável, é certo, mas que introduz no sistema um evidente abaixamento da qualidade. O sistema deveria ter resposta para transformar essa massificação em aproveitamento e crescimento pessoal e científico. Ainda não foi possível fazer isso, porque o sistema foi invadido pelas teorias e pelos teóricos, com progressivo afastamento dos trabalhadores de campo: os professores.

A atitude mental global do estudante de hoje não é de exigência, mas de abordagem superficial. Contenta-se como umas ideias gerais, esquecendo-se que o conhecimento de matérias essenciais não se compadece com o esquecimento das etapas intermédias.

A grande reforma que está por fazer no sistema de ensino em Portugal é a do rigor, do estudo cuidadoso e aturado, da disciplina pessoal, da criação de valores científicos e sobretudo sociais: o respeito mútuo, o sentido ético, os valores morais, o entendimento da liberdade como aperfeiçoamento da personalidade, a concepção do crescimento físico e psicológico como etapas indispensáveis da formação dos jovens. Os nossos jovens pensam que se tornam adultos demasiado depressa, e os pais fomentam, consciente ou inconscientemente, essa ideia errónea. Só quando confrontados com responsabilidades reais é que deparam, de repente, com o realidade plausível: afinal ainda lhes faltavam etapas a percorrer.

Talvez os maus resultados dos exames do ensino secundário possam ensinar isso a todos: aos alunos, a tomar consciência da sua fragilidade científica e humana; aos pais, a descobrir novas formas de educação, que saibam ensinar a trabalhar o bem essencial e tão maltratado da liberdade individual; às escolas e aos professores, a criarem novos climas de exigência, de estudo sério, de uma disciplina que se ensina a assumir por parte de cada um as suas responsabilidades. Porque se tem insistido numa ideia negativa de disciplina, desvirtuada como exercício da autoridade discricionária. A verdadeira disciplina assumida torna o jovem mais feliz, porque lhe permite a descoberta da liberdade.

Muitas outras razões se poderiam enumerar para os maus resultados, todas elas menores: a extensão dos programas, os erros de algumas provas (tivemos o cuidado de denunciar aqui um caso flagrante), os critérios inevitavelmente desiguais na avaliação das provas, o número excessivo de disciplinas, e portanto de exames, a que os estudantes são sujeitos.

Tudo porém é secundário em relação aos motivos essenciais que atrás apontamos: o sistema de ensino tem de encontrar processos de tornar a escola mais exigente, de criar hábitos de trabalho nos jovens, de os sensibilizar para os valores da liberdade, da disciplina e do sentido criativo do trabalho. Tudo isto é compatível com a escolaridade obrigatória e tudo isto é condição para que os profissionais do futuro sejam mais competentes, para que a sociedade seja mais justa, para que a convivência seja mais equilibrada e respeitadora dos valores essenciais. Porque aquilo que mais nos falta são mesmo os valores.
C.F.
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O CINEMA EM CASA

De 19 a 25 de Julho

TELEVISÃO - A RTP 2 continua a dedicar o seu espaço cinéfilo semanal «Cinco Noites - Cinco Filmes» à divulgação de diversas cinematografias mundiais. Depois da filmografia do espanhol Pedro Almodovar, chega a vez do francês François Truffaut, de quem veremos «Os 400 Golpes», drama de 1959, com Jean-Pierre Léaud e Claire Maurier: vivendo uma crise de crescimento, o jovem Doinel envereda pela delinquência juvenil (segunda, dia 22); «Beijos Roubados», drama de 1968, com Jean-Pierre Léaud e Delphine Seyrig: ultrapassada a barreira dos 20 anos, Doinel inicia-se na "vida adulta" e descobre o amor (terça, 23); «Domicílio Conjugal», drama de 1971, com Jean-Pierre Léaud e Claude Jade: já casado, Doinel revela uma certa imaturidade quando tem de assumir a peternidade (quarta, 24); «O Amor em Fuga», drama de 1978, com Jean-Pierre Léaud e Marie France Pisier: com o divórcio chega ao fim a saga de Antoine Doinel (quinta, 25); e, «A Noite Americana», drama de 1973, com o próprio Truffaut desempenhando o seu próprio papel, um realizador de cinema, ao lado de Jacqueline Bisset, Jean Pierre Aumont, Valentina Cortese, Jean-Pierre Léaud, Alexandra Stewart, Nathalie Baye e Dani: Truffaut presta homenagem à sua maior paixão, o cinema.

Nascido em 1932, a infância de Truffaut foi marcada pelo abandono e na juventude viu-se afastado do exército de forma desonrosa, por ter desertado. Mas era apaixonado pelo cinema e, graças ao grande André Bazin, começou a trabalhar como crítico na revista «Cahiers du Cinéma», conhecendo Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer. Idolatrando o mestre Hitchcock, publicou um livro de entrevistas com ele, numa altura em que estava indeciso entre casar-se com a filha de Hitchcock e a sobrinha de Rohmer. Finalmente casou-se com uma herdeira, usando o seu dotoe para financiar a maioria das suas produções. Foi ele quem forneceu a história para o «Acossado» (1960), de Godard, e passou a co-produzir o trabalho de amigos e colegas. A sua primeira longa-metragem, «Os 400 Golpes/Les Quatrecents Coups» (1959), falava de uma criança tão problemática e delinquente como ele próprio havia sido, cuja paixão, comprometimento e espontaneidade, transformaram-na num marco da Nouvelle Vague francesa. Além das obras escolhidas pela RTP 2, o seu talento ainda pode ser apreciado em «Jules e Jim» (1961), «Fahrenheit 451» (1966), «Um Só Pecado» (1964), «O Menino Selvagem/L'Enfant Sauvage» (1970), «Les Deux Anglaises et le Continent» (1971), «O Quarto Verde/La Chambre Verte» (1978), «O Último Metro/Le Dernier Métro» (1980) e «A Mulher do Lado/La Femme d'à Côté» (1981). Antes de morrer, em 1984, Steven Spielberg convidou-o para um importante papel em «Encontros Imediatos do Terceiro Grau».

Esta semana ainda pode ver, na rubrica de Lauro António na TVI, o épico de José Leitão de Barros, «Camões» (1946), com António Vilar, José Amaro, Igrejas Caieiro Paiva Raposo e Leonor Maia: a vida académica do Trinca-Fortes, as intrigas palacianas contra o trovador do amor, que o levam ao exílio e a guerra em África, até aos «Lusíadas» e a campanha inglória de D. Sebastião (domingo, 21).


VÍDEO - A nomeação para o Oscar de Melhor Filme e de Melhor Actor para o napolitano Massimo Troisi, que morreu logo após o término das filmagens, não é mero lobby hollywoodiano. «O Carteiro de Pablo Neruda» do britânico Michael Radford é uma obra-prima de sensibilidade (e bom senso). Conta o relacionamento entre o poeta chileno Pablo Neruda (Philippe Noiret), exilado numa ilha italiana, e o carteiro Mario Ruoppolo (Troisi), responsável pela entrega da sua volumosa correspondência. A amizade dos dois cresce ao longo dos dias e na mesma proporção do interesse do carteiro em também se tornar um poeta. Ao escrever versos apaixonados, ele pretende alcançar o amor da belíssima Beatrice (Maria Grazia Cicinotta), sobrinha da dona da taberna local. A fragilidade e a comovente simplicidade de Mario acabam por conquistá-la, mas um fim trágico está-lhe reservado.

"As Beatrices suscitam amores sem limites", diz Pablo Neruda a Mario Ruoppolo numa cena de «O Carteiro de Pablo Neruda/Il Postino», o filme que Radford rodou o ano passado na pequena ilha de Prócida. Beatriz era a musa de Dante, e Beatrice é a taberneira deste paraíso do Mar Tirreno, escondido no Golfo de Nápoles, compondo uma santíssima trindade insular, juntamente com Ischia e Capri. Neruda, concretamente, viveu ali durante 1952, desterrado pelo governo do Chile por pertencer ao partido comunista. Na realidade, o seu exílio foi vivido em Capri, ilha sempre bem tratada pela literatura e pelo cinema, mas Michael Radford preferiu filmar em Prócida, mais desconhecida que Capri e que a mesma Ischia. As três compõem as jóias da coroa do Golfo de Nápoles. O que primeiro salta à vista ao chegar à ilha de Prócida é a cor de suas casas, de tons rosa ou amarelo, e por vezes, fachadas da cor do vinho. Não é em vão que estas três ilhas vulcânicas produzem uns vinhos tintos e brancos que fazem crescer... "vinho" na boca. Uma das primeiras sequências de «Il Postino» tem como fundo a taberna, com o letreiro "Vinho e Cozinha". Este filme é um canto a um povo sensível e tradicional, cujas festas religiosas (como a sua lendária Sexta-Feira Santa) atraiem os 15.000 habitantes da comarca.

Belas paisagens mediterrâneas, óptimas interpretações, uma impecável banda sonora (composta por Luis Enrique Bacalov), tornam este tocante vídeo da Touchstone Home Video/Lusomundo Audiovisuais, um dos mais importantes lançamentos do ano e de visionamento obrigatório, quando ainda se encontra em exibição num cinema de Lisboa (em 39ª semana).
Vasco Martins
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